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09.05.2012

Artigo na Folha de São Paulo critica vestibular do ITA

Leia artigo publicado em 28 de abril e comentários dos iteanos

Foto: Vestibular do ITA em debate

 

A mágica de Tábata

por Álvaro Pereira Júnior

A estudante de origem humilde não passou no ITA, mas entrou em seis universidades nos EUA

Uma vendedora de flores, a estudante paulista Tábata Amaral de Pontes, 18, recebeu uma notícia triste no fim de 2011: foi reprovada no vestibular do ITA, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, um dos mais difíceis, senão o mais difícil do país.

A decepção só não foi completa porque, semanas depois, chegaram notícias excelentes: Tábata foi aceita em seis universidades americanas de ponta, a elite da elite do ensino e da pesquisa: Harvard, Yale, Princeton, Columbia, Universidade da Pensilvânia e até o sacrossanto Caltech, recém-eleito a melhor instituição de ensino superior do mundo.

Para uma família americana, ver um filho em qualquer dessas universidades é motivo de um orgulho que ultrapassará gerações. Só o pequeno Caltech teve, em sua história, 32 prêmios Nobel, conquistados por 31 de seus cientistas (um deles, Linus Pauling, o maior químico do século 20, ganhou duas vezes: Química e Paz).

Imagine, então, o que essas aprovações representam para Tábata e sua família (o pai, infelizmente, morreu três dias depois de saber que ela passara em Harvard). De origem humilde, a jovem fez ensino médio com bolsa, em São Paulo, e se arriscou nos EUA porque o colégio incentiva seus alunos estelares a tentar faculdade no exterior.

Mas vamos lembrar o primeiro parágrafo: o ITA não quis saber dela. A fera em exatas levou bomba na respeitada instituição de São José dos Campos. De nada adiantaram seus prêmios em olimpíadas de física, matemática, química, robótica, informática, astronomia e linguística. Só contaram as notas das provas. Não deu.

Não há como fugir da conclusão: há algo muito errado com os vestibulares -no Brasil, em geral, e no ITA, em particular.

Por mais que alguns vestibulares se modernizem, busquem a interdisciplinaridade, a contextualização social, por mais que algumas instituições (USP e Unicamp são os exemplos mais evidentes) elaborem provas elegantes, fugindo da simples decoreba de fórmulas e do acúmulo bitolado de conhecimento, não há como escapar do caráter "lotérico" do vestibular. Mesmo os candidatos mais preparados e frios precisam de sorte também.

Uma indisposição, um branco na memória, e adeus. Nova chance, pelo menos nas melhores universidades brasileiras, só dali a um ano.

No caso do ITA, a situação é ainda mais aguda. Um vestibular brutal, que tem muito pouco a ver com o que de fato se aprende no ensino médio -mesmo nos colégios mais fortes. De tanta exigência, resulta uma distorção. Só passa no Instituto Tecnológico de Aeronáutica quem se prepara especificamente para ele. E a estatística mostra uma curiosidade: a cidade com mais aprovados é Fortaleza.

Historicamente, Fortaleza tem colégios e cursinhos voltados ao vestibular do ITA. Neste ano, dos 120 convocados, nada menos que 40 eram da capital cearense. São José dos Campos, sede do instituto, vem logo atrás, com 38. Mesma razão: cursinho focado no ITA.

O ITA, não me entenda mal, é uma escola de engenharia de enorme prestígio na graduação (na pós, menos). Uma busca no Google por "formado no ITA" encontra profissionais de muito destaque, ocupantes de altos cargos no governo, na iniciativa privada e na academia.

A Embraer, terceira maior fabricante de aviões do mundo, deve muito de seu sucesso à formação sólida dos engenheiros que saem do instituto para a empresa. A qualidade do ensino, incontestável, não está em questão.

O que discuto é que, para ser escolhida pelas universidades mais importantes do planeta, Tábata foi avaliada como um todo. Fez uma prova, o SAT, inspiração do nosso Enem (mas que, ao contrário deste, não é usado como critério único de admissão).

Também levou cartas de recomendação, escreveu redações, foi entrevistada, apresentou seu histórico escolar e, principalmente, teve analisadas suas atividades extracurriculares (Tábata fundou, há três anos, o grupo Vontade Olímpica de Aprender, que treina alunos de escolas públicas para olimpíadas educacionais).

No sistema brasileiro, nada disso teria contado. Nem nos vestibulares que tentam ser mais modernos, nem nas provas mega tradicionais do ITA.

Para passar nas escolas dos EUA, bastou Tábata ser ela mesma. Nos últimos dias, tem cruzado os Estados Unidos para decidir onde estudar. Também entrou em física, na USP, mas seu destino está fora do Brasil. O ITA a reprovou, ela foi voar no hemisfério Norte.

Comentários da comunidade iteana

Carta enviada pelo Maurício Pazini Brandão (T78) à Folha de S. Paulo

Caros Senhores

A propósito do artigo *"A Mágica de Tábata"* (E12 ilustrada, desta FSP de hoje, 28/04/12), gostaria de comentar o que segue.

O missivista Álvaro Pereira Júnior apresenta muitas verdades e algumas meias-verdades. A meu ver, nenhuma inverdade.

A verdade resumida é que, todos os anos, centenas de jovens são aprovados nos exames vestibulares ao ITA, entendendo-se por aprovação obter médias iguais ou superiores a 4 em cada prova e 5 na média-geral. Neste ano de 2012, por exemplo, foram mais de 6 centenas os aprovados. Provavelmente, a jovem Tábata Amaral de Pontes estava dentre eles. Infelizmente, as condições historicamente legadas pelos nossos antecessores, mantendo um modelo de educação de qualidade sustentável, só permitem a acolhida, hoje, de pouco mais de uma centena de candidatos aprovados, os que obtiveram as maiores médias. O ITA está trabalhando junto a todos os setores de governo envolvidos no sentido de aumentar, duplicar esta quantidade, mantendo a qualidade da educação provida, selo internacional de reconhecimento do Instituto.

Meus parabéns à Tábata por ter sido admitida em Harvard, Yale, Princeton, Columbia, Pensilvânia e Caltech. Sem dúvida, a jovem deve ser muito inteligente e revela um enorme potencial. Mas daí a concluir que, por ela não ter sido aproveitada no ITA, que *"há algo muito errado com os vestibulares - no Brasil, em geral, e no ITA, em particular"*, vai uma longa distância.

Agradeço, como Professor do Instituto, pelo missivista ter levantado este ponto. Quem sabe, com artigos como esse, chamamos a atenção das autoridades pela enorme necessidade de formarmos mais e melhores engenheiros no Brasil, retendo aqui, com bons projetos, boas oportunidades de pesquisas e empregos de qualidade, os bons talentos que nossa sociedade é capaz de produzir.

Atenciosamente

Maurício Pazini Brandão

Professor Titular de Engenharia Aeroespacial do ITA

 

 

Mário Santos

Pazzini,

muito boa a sua nota. Se me permite, gostaria de adicionar que o jornalista foca no ITA, quando o problema real é o sistema vestibular brasileiro. O país, guiado pelo MEC, usa essa competição pontual como método de acesso. Os USA estão muito mais preocupados com o potencial do aluno, que se mede por ações na vida pregressa do candidato, e não por uma batalha. Além disso, o tal SAT tão enfatizado, só mede o conhecimento da língua inglesa, pois é importante que o aluno entenda a língua em que vai ter aulas, e esse índice é eliminatório: um gênio que não fale inglês não entra em nenhum 'college' nos USA. Como disse, há algumas meias-verdades que tumultuam.

Cláudio Paulino

A verdade é que o ITA (graduação, claro) é MUITO melhor do que TODAS estas escolas americanas citadas e TODAS as outras escolas americanas.

Lélio

Outra verdade é que o aluno brasileiro é MUITO melhor que os alunos americanos, e eles, como bons capitalistas, não se avexam em conceder bolsas integrais, na certeza que o retorno será altamente compensatório, isso desde os tempos pós primeira grande guerra quando

passaram a "importar" cientistas alemães em larga escala.

Zabotto

Na minha opinião, mais importante que entrar no ITA, é sair dele em exatos 5 anos com diploma na mão. E mantendo a rigidez do ensino de engenharia que a instituição oferece...

Neste caso, cota de nordestino, cota de militares (lembrem que o próprio COMAER fez cotas para quem fizesse opção à carreira militar em 1989 e para os militares formados na AFA), cota de ENEM, 120 ou 300 vagas ou outros artifícios de segregação podem influenciar na entrada. Mas na saída, o gagá (ou o bizu) fará as devidas correções dos vestibulares.

Costa Filho

O que há de errado é que mesmo burros que não passam no vestibular do ITA passam na seleção de algumas escolas nos USA. Só isto. E serve para mostrar que a seleção do ITA é mais rigorosa e mais exigente.
 

Nehemias

Prezado Costa Filho,

Não entrar no ITA não significa que o candidato é burro.
Entrar em uma instituição de primeira linha nos EUA não é uma tarefa para burros. Obter grandes notas em matemática, física e química não garante que o candidato ao terminar o ITA estará atendendo as necessidades do setor produtivo em engenharia. A diferença é apenas de critérios. A Tábata atendeu aos critérios das escolas americanas e não atendeu aos critérios do ITA. Teve uma época (não sei se ainda é assim) que dizia-se que Santos-Dumont não entraria no ITA pelo critério de altura. Critérios são para serem respeitados e discutidos e se necessário alterados. E exceções às regras existirão sempre. Espero que o ITA não baixe a crista para alterar o vestibular com cotas, ENEM, etc. Não duvido que isso já passe na cabeça dos políticos (Dilma e cia ilimitada) que estão falando em favor do aumento de vagas no ITA. Espero que com o aumento de vagas, aumente também a divulgação para que se tenha o critério rígido de escolha mantido. Foi muito bom ter sido formado no ITA em 78 e no Caltech em 87 ... com este conhecimento estou atualmente contribuindo para o setor produtivo para ajudar a fazer frente aos produtos estrangeiros no Brasil. O que o brasileiro tem que fazer é criar vergonha na cara e parar de lamber o traseiro dos estrangeiros, colocando-se em situação de subserviência, como parece que está no ADN (e não DNA) deste povo deitado em berço esplêndido.
 

Mário Márcio Ramos Teixeira

Caros Iteanos

Quase tudo o que vou falar, é o meu entendimento, por estar próximo do Reitor nas últimas semanas:

Em função da decisão presidencial em dobrar o número de vagas no ITA, o mais cedo possível (ceteris paribus, como diria o Cabral): é condição necessária que não ocorra a baixa da qualidade do processo seletivo = vestibular do ITA;

nós, diferentemente do IME, temos um estoque de quase 300 candidatos aprovados e não selecionados, em virtude das 120 notas maiores, ou seja, não existe risco de prejuízo na qualidade dos vestibulandos;

há uma preocupação em se restabelecer um sistema de quotas, mas sempre com o selo de qualidade do ITA, ou seja, o candidato tem, intrinsecamente, o padrão iteano de qualidade, e vai entrar por um portão paralelo, muito bem regulamentado. Evidentemente este sistema de quotas visa proteger a qualidade da formação do engenheiro do ITA (cidadãos conscientes e técnicos competentes, lembram-se?);

o ITA deverá, novamente, inovar no ensino de engenharia no país, continuando a formar engenheiros com qualidade, e "puxar" as outras universidades para que se aprimorem e  possam prover a quantidade de engenheiros necessários; parece que o déficit anual é de 15.000 engenheiros, os iteanos são apenas uma lágrima nesta poça.

Lamento que o comentário ressentido e sem dúvida dirigido, não tenha sido devidamente tratado com a prescrição de uma velva para o otário.

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