Andre Johannes Meyer

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O Prof. Andre Johannes Meyer (Amsterdam, Holanda, 06 de Fevereiro de 1895 - Houston, Texas, 30 de Novembro de 1978)[1] foi o terceiro Reitor do ITA.



Andre J. Meyer: um pesquisador em busca de um laboratório

(Artigo de Maurício de Almeida Campos, (AEROV-55) para o jornal O Iteano de julho de 1954)


"Quando o encontrei pela primeira vez êle estava a observar a estrutura do Laboratório de Motores do ITA que penosa e lentamente brotava no alto da colina. Quando o procurei pela primeira vez em sua residência, achei a mesa coberta de papéis e cálculos: idéias e projetos de novos aperfeiçoamentos no campo de motores. Não sei se alguma vez virei a encontrá-lo fazendo outra coisa. Sua vida se cristaliza nêsses dispositivos e engenhos capazes de retirar de matérias naturais ou sintéticas a energia que impele o homem mais depressa e mais longe em suas realizações.

Não será justo iniciar um esquema biográfico seu com a data de nascimento. Para tais espíritos a vida começa com o início dos estudos. Porisso mesmo, a lembrança mais remota que dêle consegui obter foi de quando se preparava para cumprir o serviço militar, logo após o término do curso secundário, em sua cidade natal de Amsterdam, Holanda. Nessa época a Europa foi sacudida pela intempestiva deflagração da 1ª Grande Guerra, e os estudantes que estavam tentando obter o posto de oficial da Reserva foram incluídos no exército vigilante que mantinha intocadas as fronteiras holandezas. Em 1916, porém, o maior perigo havia passado. Não se notava a tendência de anexações que a Alemanha demonstrara a princípio. Como tenente de artilharia, o jovem Andre J. Meyer recebeu permissão para tornar às lides escolares. Mas a guerra poderia prolongar-se ainda por vários anos e talvez se estendesse mesmo ao território flamengo. Pressionado pela incerteza da situação e pela necessidade de trabalhar afim de custear suas despesas, o estudioso tenente resolveu encurtar um pouco a duração do Curso Fundamental: em seis mêses esgotou a matéria normalmente lecionada em dois anos. Em seguida passou a frequentar o curso vago da única universidade técnica da Holanda, situada em Delft. Ainda neste caso a ânsia de economizar tempo levou-o a duplicar esforços para vencer os dificílimos exames da grande instituição, e os quatro anos do curso de Engenharia Mecânica reduziram-se a apenas dois.

Sua primeira e fundamental aspiração estava satisfeita. Deixando os círculos universitários, envolveu-se na importação de automóveis ao mesmo tempo que construía uma oficina para reparos e produção de peças sobressalentes. Mas, pouco mais tarde, a depressão econômica que varreu a Europa forçou-o a abandonar a emprêsa. Foi quando chegou à Holanda, de regresso da Alemanha onde trabalhara durante a guerra, o famoso engenheiro Fokker que assim transferia sua indústria aeronáutica para uma região menos agitada por desordens internas. Durante sua permanência na Companhia Fokker, recorda-se de haver participado no preparo de uma série de mais de trezentas aeronaves para o Govêrno russo, justamente na época em que a fome fazia milhares de vítimas nos devastados campos soviéticos.

Com o ano de 1920 resolveu partir para os Estados Unidos. Contratado como engenheiro-projetista pela Fábrica Continental de Motores, que produzia unidades destinadas a automóveis, tratores e outros veículos terrestres, em três anos foi nomeado Encarregado Geral de todos os projetos. Mais três anos e ei-lo chefe da nova Divisão de Pesquisas, onde permaneceu por oito anos. Contando agora com rescursos e autoridade bastante, iniciou estudos e pesquisas sobre motores de aviação. Projetou e experimentou os mais diversos tipos em todos os tamanhos, formas e condições disponíveis. É o responsável pelos estudos, projetos e experiências realizadas em mais de duzentos modelos, durante os 14 anos que colaborou com a Continental. Dentre seus projetos dessa época destaca-se o motor de 4 cilindros para avião, que foi produzido em larga escala. Mas não se limitou a motores de avião. Unidades para outra aplicações foram também executadas, compreendendo o uso de gasolina ou óleo Diesel. Nesse período o mais potente de seus projetos foi um motor radial de 1000 hp. É com o sorriso de satisfação que declara poder encontrar facilmente em qualquer parte do mundo um avião equipado com motores por cujo projeto foi responsável. Pois dezenas, dentre as duas centenas de motores testados, foram construídos em escala industrial.

Por volta de 1937, o Prof. Meyer foi chamado a uma tarefa que lhe falava muito de perto ao coração: trabalhar como engenheiro-consultor na obra de reorganização da faculdade de engenharia da Universidade de Kentucky. No período de quatro anos que êsse trabalho lhe tomou, foi ainda consultor de companhias como a Wright, Continental e Pratt-Whitney. Terminada a obra de recuperação da Faculdade, assumiu o cargo que lhe foi oferecido de professor de Engenharia Mecânica e em especial, Motores.

Mas a vontade irresistível de procurar mais, de descobrir ainda, não lhe permitiu continuar a ser apenas professor. Decidido a construir para a Universidade um laboratório onde pudesse prosseguir em suas pesquisas e testar novas idéias, obteve do multi-milionário Werner Gran a doação de 150.000 dólares. Com essa importância edificou e aparelhou o reduto que lhe permitia viver o sonho de sua inteligência. Com o início da 2ª Grande Guerra, voltou-se para as necessidades da Fôrça Aérea Americana. Como resultado de um de seus trabalhos, o govêrno dos Estados Unidos conseguiu uma economia de 10% na quantidade total de gasolina consumida durante toda a prolongada conflagração. Ainda nesse período, desenvolveu para a fábrica Continental um projeto que veio a resultar num motor de 2100 cv com o pêso específico de 0.7 lb/cv, o que o classifica como o motor mais leve jamais construído. Sessenta unidades foram fabricadas e um avião especial precisou ser projetado para en...lá-las. Nada menos de DEZ MILHÕES de dólares foram investidos, porém sua produção em larga escala teve de ser sustada para não interferir com as necessidades bélicas momentâneas do país. Ao fim da guerra dedicou-se aos aviões a jato desenvolvendo planos e pesquisas para a Fôrça Aérea Americana. Uma das incumbências que recebeu era conseguir um filtro para proteção dos motores a jato. Durante uma batalha aérea, em consequência do combate, era frequente ocorrer que alguns dêsses elementos fossem sugados com o ar que alimentava os motores, indo romper as pás do compressor. Uma das maiores dificuldades encontradas para a obtenção dêsse filtro era que, apesar de reter os cartuchos, êle não deveria interferir com o escoamento da corrente de ar. Mas o projeto foi concluído e já se encontra sendo executado em escala industrial nos Estados Unidos.

O Prof. Meyer é um dos grandes valores que o Prof. Richard Smith, primeiro Reitor do ITA, nos trouxe da América do Norte[2]. Quando foi convidado para vir ao Brasil, duas razões contribuíram decisivamente para que aceitasse a proposta sem vacilar. A primeira é a ambição sempre insatisfeita de realizar coisas novas, de construir, de difundir cada vez mais a ciência pura e aplicada. E, embora quase desprovido de recursos, com os diminutos orçamentos que lhe são destinados, continua a lutar intensamente para construir em nossa Escola o laboratório que fará o Brasil andar mais rápido e com maior economia. Além disso, com o término da guerra, as pesquisas para a Fôrça Aérea haviam sido reduzadas enormemente. E, como administrador de seu laboratório na Universidade de Kentucky viu-se a braços com o sério problema de cobrir as despesas de manutenção que orçavam em 150.000 dólares anuais, sem dispor de verbas especiais concedidas pela Universidade. Para ensaios com motores árticos, o Prof. Meyer havia equipado uma sala especial onde conseguira obter dados sôbre o comportamento de motores em temperaturas muito baixas, e desenvolveu então o projeto de um destinado a operar a 90 graus Fahrenheit abaixo de zero.

Suas patentes registradas nos Estados Unidos sobem a mais de duas centenas, versando sôbre motores, freios e embreagens. Destaque especial merece uma delas, que veio permitir a construção de engrenagens redutoras para motores de até 5000 hp. É fácil agora compreender porque 70% de seu tempo na Universidade de Kentucky foi empregado em pesquisas.

Todos os alunos que já tiveram cursos lecionados por êle, ou que já estudaram suas apostilas sabem perfeitamente que, para muitos assuntos, as duas únicas referências existentes são as apostilas ou o próprio Prof. Meyer. O "porquê" dessa situação é êle mesmo quem o dá:

"Os livros atualmente em circulação estão com um atraso de 10 anos. Mas não quero que meus alunos saiam da escola atrasados também. Por isso, incluo nas apostilas muitos pontos importantes que aprendi durante minhas pesquisas. Quando tiver tempo escreverei meus próprios livros."

O Prof. Meyer naturalizou-se cidadão americano em 1930. De acôrdo com a legislação dos Estados Unidos, não poderá permanecer fora do território dessa nação por mais de cinco anos. Porisso, em 1956 deverá regressar à sua segunda pátria. Embora pretenda lutar para conseguir autorização especial que lhe permita retornar ao Brasil, não tem muita certeza quanto a consegui-la. Sente-se que isso o preocupa. Também êle crê no ITA e em seu futuro brilhante.

Mas não é só para o ensino e para a pesquisa que sua atenção está voltada em nosso país. A indústria brasileira mereceu-lhe um profundo estudo e suas observações estão consubstanciadas num relatório completo sôbre a situação nacional, que será enviado aos órgãos governamentais, sugerindo providências. A primeira delas é a concessão das verbas indispensáveis.

Referindo-se ao caso da Fábrica Nacional de Motores, fez várias considerações: a primeira imprevidência do governo brasileiro foi ter iniciado a produção sem estudar o mercado; também, o tipo de motor que se pretendia fabricar não vinha atender às necessidades da aviação comercial. Era um modêlo pequeno que nos Estados Unidos fôra contruído apenas para aviões de treinamento. Outro fator importante foi a invasão do mercado, depois da guerra, por verdadeira avalanche de excedentes de guerra a preços irrisórios. Mas nem tudo está perdido. Um planejamento cuidadoso, que se baseie na produção de motores adequados aos tipos de rotas aéreas mais frequentes encontradas no Brasil, poderá transformar a FNM numa pujante organização.

O Prof. Meyer e sua senhora levam aqui, como nos Estados Unidos, uma vida de reclusão. Não lhe sobra tempo para reuniões sociais. Quando, por exigência do cargo de Reitor, passa o dia mergulhado no labirinto das providências burocráticas, aproveita as noites estudando novos projetos, preparando suas aulas ou emitindo pareceres sôbre pedidos de patentes (uma vez que é consultor do govêrno brasileiro para a concessão de patentes). Durante tôda sua vida tem trabalhado nunca menos de doze horas por dia e, apesar de americano (naturalizado), não gosta de cachorros. Nem de gatos. Seus dois filhos que vivem nos Estados Unidos, são também engenheiros mecânicos especializados em Motores. Aliás seu primogênito é já uma personalidade científica de grande expressão e dirige uma equipe de engenheiros do NACA que estudam motores de aviação, a jato e atômicos.[3] O Prof. Meyer confia em que, dentro de poucos anos, a energia atômica estará sendo usada para a propulsão de aeronaves. Atualmente, motores deste tipo estão sendo ensaiados pelos técnicos do govêrno americano.

Sra. Meyer, compreensiva e inteligente, tem sido seu incentivo constante. Dentro de dois anos estarão ambos de regresso aos Estados Unidos para rever os filhos, e os lugares que em vinte e nove anos conheceram. Esperamos que não seja uma ausência prolongada e faremos votos para que Deus e o Govêrno Brasileiro lhes concedam vida e recursos bastante para a execução de um plano de ensino e pesquisa que resulte no desenvolvimento de nossa incipiente indústria de motores."

Links externos

Pesquisa sobre Andre J. Meyer, veja:

  1. Andre Johannes Meyer, Sr. 1895-1978. Portal rootsweb.ancestry.com
  2. DECRETO LEGISLATIVO Nº 61, DE 17 DE AGOSTO DE 1953. Aprova Contrato Celebrado em 11/10/51 Entre o Ministerio da Aeronautica e Andre J. Meyer para Desempenhar Função de Professor de Motores No Instituto Tecnologico da Aeronautica. DOU. Diario Oficial da União, 22 Agosto 1953 (núm. 61). Portal da Câmara dos Deputados.
  3. Dennis Sparks. "Kentucky Aviation History: Andre Meyer, Jr., William Meyer and Project Mercury. Two brothers, Andre and William Meyer, both graduates of the University of Kentucky, played significant roles in the earliest days of the American manned space program". Tactical Notes - The Newsletter of the Military Modelers Club of Louisville, May 2011. Disponível em: http://www.mmcl.org/tactical-notes.html (acessado em 20/04/2016) (Downloaded from: http://nebula.wsimg.com/dbb1f4d0ac58c9a7a27b22b20d1dc60e?AccessKeyId=01DA577996A1CE5F1371&disposition=0 ).
  4. Galeria de Reitores do ITA. Portal do ITA.
  5. Reitores e Vice-reitores do ITA. Portal do ITA.



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