Arnoldo Castanho de Almeida

De wikITA

JUSTIÇA (LOTERIA?)

Não é poema, não é prosa poética, não é nada, além de uma modesta homenagem a um grande ser humano, "desencantado" com o sistema, como o autor.

por Emanuel Medeiros Vieira, segunda-feira, 16 de julho de 2018

Em memória de Arnoldo Castanho de Almeida, cunhado, compadre e queridíssimo amigo - e que sempre buscou a Justiça (encantou-se no dia 12 de julho de 2018, viajando para as plagas que não conhecemos)

Justiça?
Rituais latinos/lusitanos
Justiça?
Retóricas, preciosismos, embargos, embargos dos embargos, chicanas, recursos que vão à eternidade, postergações.
Ganha quem tiver mais sorte.
Depende da “turma”: Primeira ou Segunda?
(Quero dizer: dinheiro, bancas fortes, advogados famosos, magistrados “camaradas”.)

Alegam “presunção de inocência”, mas o que querem mesmo são bandidos, mafiosos, muito ricos, eternamente fora das grades.
Os outros, os miseráveis de todo o gênero, vão mofar em nossos calabouços, para alegria dos que proclamam: “bandido bom é bandido morto”.

Os outros – principalmente para ministros do STF (supreminho – no diminutivo), os ricos e poderosos, receberão habeas corpus em sequência, aos montes.

Bandido rico é para ficar solto.

Justiça?

(“Menina Branca de Neve”: estrela da minha vida – teu pai cursou Direito na UFRGS (1965-1969), mas não segui a carreira. Mesmo sabendo que, em algum canto, possa existir um Sobral Pinto (ou “juízes em Berlim"), não deu. Menos rentável, a literatura foi o que eu sempre amei fazer.)

Hoje a Justiça é desalento, desencanto, tristeza.

“Esse senhor generaliza” – pode ser, mas não visto toga quando escrevo e nem pronuncio a palavra “excelência”, mesmo que diante de mim esteja um ministro infame.

Arnoldo: agnóstico, eras muito mais “cristão” do que muitos que se classificam como tal.
Tivemos conversas secretas, só dizíamos a verdade, e não queríamos que a nossa família, com a sua fé, ficasse triste. Mas tu sabias o que eu era – eu sabia o que tu eras.

No meio de uns uísques (quando bebíamos), fizemos um pacto: se um dos de nós, diante de dolorida e incurável doença, a gente desligaria os fios que entubavam o outro.

Defendíamos a eutanásia no Brasil.

Respeito os jesuítas pela sua cultura (estudei com eles, como Fidel, Stalin, Chardin e outros), mas – mesmo com os mais capciosos argumentos - – nunca aceitei suas perorações a respeito do “mistério do sofrimento”.
Nada justifica que uma criança sofra a vida inteira numa cadeira-de-rodas ou nasça deficiente –, nada explica o sacrifício de um inocente.

Misericórdia? Pensem bem antes de contraditar.

Com todas as vênias, iria escrever mais sobre a justiça: os rascunhos estão na minha frente.
Não vale a pena. As palavras e quem as escreve perderam todo o valor.
Hegemônicas são as imagens, as engenhocas eletrônicas de Miami ou “made in China”.
Quem só recebe porcarias, só vai amar porcarias, como programas de auditório e lixos afins.

“Ele está cansado e enojado, deveria ter mais ponderação”, diz um racionalista. Perdi-a (a ponderação).
“Sua família vai ficar muito triste ou aborrecida”, adverte outro (promotor ou magistrado em busca de vaga no Supreminho).

Te conheci há 50 anos: eras alegre, jovial, com fantástico senso de humor.
Foste amigo do Raimundo Pereira quando cursaste o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), que conheci quando ele era editor do jornal “Movimento” e eu fui do seu Conselho Editorial – canetas vermelhas dos censores da ditadura, tudo quase tudo proibido, riscado.

Parodiando mestre Drummond, eu diria: lutar contra a ditadura não foi a minha luta mais vã...

Admirava o sentido social e o marxismo de Raimundo – expulso, claro, pela ditadura infame – do ITA.
É claro: são sempre os melhores que pagam o pato neste país de pactos oligárquicos, de tenebrosas transações.

“Não sei, não fui eu, não vi, não conheço”.

Kafka e Camus já sabiam: no processo, não importa a inocência ou a culpa, mas a eficácia.
Vai, Arnoldo: que – quem sabe – encontres a paz que a Justiça e o Afeto nos dão.
Do nosso modelo, deste Brasil – já dissemos tudo em nossos longas conversas.
Valerá a pena lutar por um povo que não teve a chance da educação, da informação, da cultura?
Claro: sempre valerá.

Perdoa o clichê: não imaginas a falta que já estas fazendo, meu “irmão” de ideais.

Emanuel Medeiros Vieira

Brasília, julho de 2018


Links externos

Publicação original da crônica no Canga blog


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