Carnet de voyage

De wikITA

Postado por Haroldo Takashi Hattori (ELE-88) na ita-net em janeiro de 2011:

Bon, je raconte ici ma visite au Bresil.

Bem, poderia continuar em francês chinfrim, mas decidi seguir o relato em português. Saí de Canberra de manhã pegando carona com um casal de brasileiros (diria que dia 24 de dezembro não é o melhor dia para encontrar um taxi). Depois de 50 minutos no avião, estava em Sydney. Viajei em um avião da Embraer da Virgin Blue. A Virgin Blue é uma companhia que economiza até na comida e não te servem nem um amendoim durante a viagem, mas não há muito o que fazer em 50 minutos de voo. De Sydney tive que esperar a tarde pelo avião das Aerolineas Argentinas para Buenos Aires.

Eu não recomendo as Aerolineas Argentinas, pois além de terem perdido as minhas malas, o serviço é ruim (empresa estatal) e o avião (um Airbus) não é confortável. Saí de Sydney e parei na Nova Zelândia (3 horas de voo). Metade do avião era composto de australianos e neo-zelandeses e a outra metade de latino-americanos. A metade dos australianos/neo-zelandeses terminou a viagem em Auckland, mas o avião continuou lotado porque entraram mais brasileiros em Auckland. Perguntei a uma gaúcha se havia muito brasileiro em Auckland e ela respondeu que se "chacoalhasse uma árvore, cairiam meia duzia".

Esperei 1 hora e meia em Auckland para pegar o mesmo avião. Depois de 16 horas em um avião desconfortável, chegamos em Buenos Aires. Los Hermanos não são muito simpáticos e não te ajudam muito, mesmo se você falar em espanhol. A Argentina não está lá grande coisa depois de diversas crises econômicas, mas a comida continua boa. Não sei se é coisa de brasileiro, mas experimentei os Alfajores Havana que pareciam ser apetitosos, mas não são tão bons. E acabei vendo um souvenir dizendo que Che Guevara, Evita Peron e Carlos Gardel eram argentinos - estranha combinação de caracteres.

De Buenos Aires, peguei um avião da Gol até São Paulo. Só dava brasileiro no avião e a maioria dos oceânicos tinha ficado na Argentina. Tinham medo da violência no Brasil, divulgado pelos filmes 'Cidade de Deus', 'Tropa de Elite', etc... Cheguei em São Paulo e perdemos as duas malas. Uma apareceu quatro dias depois e a outra uma semana depois. Quase mandei uma carta reclamando das malas perdidas para a Folha de São Paulo, como alguns sugeriram na ita-net, mas acabei tendo a paciência de esperar.

Encontrei com meu irmão e minha irmã. O meu cunhado alemão-americano disse que dirigir no Brasil (São José dos Campos, São Paulo e Campinas) era coisa de louco e seu GPS não era muito útil no Brasil. Além disso, disse que viu tanta barbeiragem nas ruas que não acreditava que o pessoal tivesse tirado carta de motorista. As ruas de São José dos Campos estavam bastante diferentes e a cidade cresceu muito, foi difícil reconhecer a cidade depois de 5 anos fora do Brasil. E eu tive que re-lembrar como dirigir na mão direita.

Depois do natal, fui a São Paulo de ônibus. Peguei um ônibus da Pássaro Marrom, depois metrô e finalmente um ônibus até a zona leste. Andar de metrô foi tranquilo (a não ser pela lotação dos vagões), mas fiquei uma hora no ônibus para um percurso de 20 minutos de carro (o ônibus dava voltas e voltas).

Noutro dia, fomos visitar amigos no Itaim Paulista. O Itaim Paulista parecia o fim do mundo: casebres e casas parecendo barracos, você torcendo para não ser assaltado. Esse bairro reflete a distância entre ricos e pobres no Brasil. Um sujeito apareceu para visitar esse amigo e começou a sacanear todo mundo.

Depois do Itaim Paulista, voltei à zona leste aonde tinha uns sujeitos soltando rojão depois do natal. Qual o motivo? Dificil de dormir com tanto barulho e pernilongos me picando durante a noite. Bem que me recomendaram tomar vacina contra a febre amarela antes de voltar ao Brasil. Lembrei-me da frase do Watson no filme do Jô Soares, 'se fosse um inseto, adoraria morar no Brasil'. Em todo caso, parecia um zumbi com a diferença de fuso horario de 11 horas, dava um sono danado lá pelas 17h.

Comecei então a conversar com familiares da minha esposa. Depois de ouvir diversos casos de pessoas com cancer, água no pulmao, diabetes, etc. resolvi arejar e ir passear no Shopping Paulista. Para piorar, alguém da ita-net mandou uma mensagem sobre políticos com cancer, um deles sendo o Quercia, se não me engano. Vi o Faustão na TV e não acreditei como ele emagreceu.

No shopping paulista, percebi que as coisas no Brasil estão caras, com exceção de alimentos e mão-de-obra. Acabei comendo muito pastel, coxinha e empadinha e almoçando no Viena. Não deu vontade de comprar nada. Resolvi então visitar a igreja do Frei Galvão perto da estação Tiradentes. Local interessante para quem tem fé. Recebi umas pílulas de papel do santo.

Voltei a São José dos Campos depois de passar alguns dias em São Paulo. São José dos Campos parecia mais ordenado que São Paulo, mas com as mesmas discrepâncias sociais do Brasil. Olhando para o povão, vi que a tese de 'mulatizacao' do Dimas é mais real do que a tese do 'cada grupo separado' do inominável. O povo brasileiro está parecendo (físicamente) com o povo indiano, pero bem mais gordinho. O inominável ainda reclama de quem tem empregada doméstica, mas elas estão sendo pagas pelo seu trabalho (e, para pessoas idosas como a minha mãe são uma ajuda indispensável).

Acabei encontrando um colega de turma do ITA, o Osni Lisboa. Jantamos juntos e relembramos os velhos tempos. Acabei notando que o tempo passa e os cabelos brancos aparecem. Quem diria que tínhamos formado há 22 anos atrás, o tempo não perdoa. Vi tambem a placa da turma 88 no Hall do ITA. Nem todas as turmas tinham placas e as placas não estavam na ordem aritmética, parecia um sistema de "placas on demand". Olhando a placa da turma 88, lembrei-me do trabalho que deu para formar naquela escola e de como pessoas trilharam rumos completamente diferentes.

Convidaram-me para almoços, jantares, cafezinhos, etc... o que me manteve ocupado. Acabei vendo o Tropa de Elite 1 (oficial) e Tropa de Elite 2 (não no cinema, mas com um DVD de qualidade suspeita). Gostei dos filmes mas achei os enredos não muito bons. Os filmes mostram a corrupção da polícia na Terra Brasilis e como o cidadão está abandonado a mercê da própria sorte. O herói tentava lutar contra o sistema, mas um herói real provávelmente seria morto pelo mesmo sistema corrupto.

Fui ao Banco do Brasil para descobrir que haviam bloqueado a minha conta corrente. Queriam comprovante de renda e expliquei que trabalhava no exterior, mas o argumento não funcionou. Tive então que mostrar que tinha renda de aluguel. O gerente do banco aceitou o argumento, mas me mandou ir em outra agência no centro de SJK. Burocracia tupiniquim que dá raiva e te faz perder um tempo danado. Por pouco, nao desisti de re-ativar minha conta corrente.

Em outro dia, fui para Aparecida. É uma outra experiencia interessante para quem está em SJK. Infelizmente não deu tempo para ir a Campos do Jordão. Muita chuva em todo lugar, alagamentos em São Paulo. Se ainda estivesse na zona leste, não conseguiria sair de lá porque a Anhaia Melo tinha alagado, assim como diversos pontos da capital.

Reclamam do Lula à exaustão na ita-net, mas a economia brasileira está melhor do que antes e o pobre brasileiro mais contente. Acabei vendo a posse da presidenta(e) Dilma na TV, ela engasgou durante o discurso. Acabar com a pobreza, como ela prometeu, vai ser uma tarefa hercúlea e não acredito que ela vai fazer muito. O mais engraçado foi ver a Hillary Clinton cumprimentando a Dilma seguida pelo Hugo Chavez. Os dois quase se encontraram.

Na sexta-feira fui almoçar no restaurante Vila Velha e, por acidente, re-encontro o meu colega iteano Osni. Mais uma chance para se despedir dele. À noite, peguei um avião da Gol para Buenos Aires. Infelizmente, não tive condições de levar o PA para a Argentina e deixá-lo com los hermanos portenhos. Metade dos passageiros no voo da Aerolineas eram de brasileiros. Durante o voo entre Buenos Aires e Auckland, os brasileiros formavam rodinhas e ficavam batendo papo no avião. E eu tentando dormir. Alguns tentavam treinar inglês com os estrangeiros.

Chegando em Auckland, metade dos brasileiros ficaram na Nova Zelandia, mas foram "repostos" por outros indo fazer intercâmbio na Australia. Em Sydney, passei rapidamente pela imigração ("Welcome back, sir") mas fiquei meia hora esperando pelas malas do voo da estatal Aerolineas Argentinas. O voo também atrasou uma hora e quase perdi a minha conexão para Canberra.

Cheguei em casa com o problema da diferença de fuso horário, mas consegui ficar acordado até as 8h da noite. Depois despenquei na cama, acordando às 5h da manhã. Voltar a trabalhar depois de 30 horas de voo está um pouco dificil, mas com boa vontade todo santo ajuda. Rever a familia é importante, mesmo se eles estão a 30 horas de distância. Mas da próxima vez devo viajar pela Lan Chile.

Saudações iteanas,

HTH (L 88)

PS: O Che Guevara fez uma viagem mais longa que essa, mas permaneceu no continente americano.


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