Centediário da T58

De wikITA

Na noite de 11 de Setembro de 1958, milhares de pessoas concentraram-se num descampado atrás da Igreja Matriz de São José dos Campos para assistir a um acontecimento sensacional: os engenheirandos do ITA iam lançar, num foguete de dois estágios, um satélite artificial. A instalação da rampa começou de manhã, num clima de nervosismo. Pouco antes da meia-noite ouviu-se o sinal: "AGORA!"

Os engenheiros anunciaram com antecedência o lançamento do satélite. A princípio, muitos descreram. Mas todos mudaram de opinião quando viram, exposto numa vitrine, o enorme foguete de dois estágios, em cujo nariz subiria o "Sputnik". Parecia em tudo igual aos aperfeiçoados foguetes das fotografias de Cabo Cañaveral.

Foto de Ângelo Rosa para a edição #337 da revista Manchete, de 4 de Outubro de 1958

Desde as 10 horas da manhã, o local escolhido para o lançamento começou a mudar de feição. Os estudantes do Centro Técnico de Aeronáutica iniciaram a instalação de complicados aparelhos, antenas parabólicas e hiperbólicas, caixas metálicas com ponteiros e mostradores de precisão, que emitiam sinais misteriosos. O nervosismo tomava conta da população, que acompanhava com profundo interesse os preparativos. À noite, ainda cedo, começou a concentração popular nas imediações. O povo foi mantido a certa distância pelos cordões de isolamento.

Logo, os alto-falantes começaram a reproduzir comunicações de Cabo Cañaveral, Moscou e Berlim, para onde os lançadores do "Sputnik" brasileiro estavam enviando mensagens pelo rádio. O clima de tensão aumentava, minuto a minuto. E foi nesse clima que a multidão viu chegar o RX-1, conduzido em caminhão especialmente adaptado e precedido de um carro do Corpo de Bombeiros. Novas mensagens para Cabo Cañaveral, Moscou e Berlim que respondiam: "Estamos alerta".

Esperamos. No descampado, os astrônomos e estudiosos de astronomia da cidade, mantinham-se na expectativa. Haviam conduzido, pela Avenida São José, seus telescópios e lunetas, para acompanhar a trajetória do foguete.

Aproxima-se a hora. Sinais estranhos são ouvidos, partindo dos complicados aparelhos. Luzes vermelhas piscam. Cabo Cañaveral, Berlim e Moscou avisam: "Estamos prontos". Silêncio completo, apenas cortado pela sereia do carro do Corpo de Bombeiros, que anuncia o minuto decisivo. Começa a contagem dos segundos: oito... sete... seis... cinco... quatro... tres... dois... um... ZERO!


A multidão eletrizada, os astrônomos de olho colado aos telescópios. Uma nuvem de fumaça envolve o foguete. Estouram três pequenos adrianinos. E então começam a soar os pandeiros. Os cientistas despem as roupas de asbestos, rompem-se os cordões e tem início o Carnaval. A multidão esquece o logro em segundos e também começa a cantar. Era a festa do Centediário, comemorando os cem dias antes da formatura, que os estudantes do ITA fazem todos os anos e que sempre começa com uma "grande idéia", da qual só eles têm verdadeiro conhecimento até o momento da realização. Muita gente, porém, ficou zangada com o fato de ter sido assim enganada e de São José dos Campos não ter entrado para a crônica do Ano Geofísico Internacional.

(Texto de Joacyr Beça para a edição #337 da revista Manchete, de 4 do outubro de 1958)

Ver também: Trote do Foguete


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