Discurso de Formatura 2012

De wikITA

Discurso proferido na cerimônia de Colação de Grau da Turma de 2012

por Guilherme Nakakogue Barufaldi e Maurício Flávio Dompsin de Moraes


"Bom dia Senhoras e Senhores, pais, mães, parentes e amigos. Autoridades presentes. Povo de Missão Velha.

Há 5 anos, tínhamos nomes comuns: Marcus Henrique, Pedro Paulo, Fábio José. Um sonho, muita luta, uma realização: havíamos passado no famigerado vestibular do ITA. Empolgados, achávamos que passaríamos os próximos anos estudando rumo a um futuro garantido. Atribuíamos o prestígio deste instituto ao seu método de ensino e a sua estrutura. Mal sabíamos que o que mudaria de fato os nossos conceitos, nossa visão do mundo e as nossas vidas, não seriam coisas escritas sobre um quadro negro.

Ao entrarmos aqui, nos deparamos com um alojamento: três blocos, três longos corredores, diversos apartamentos. Em nossa visão, era apenas mais uma república de estudantes. Aqui dormiríamos, comeríamos e estudaríamos. Nada muito especial.

Mas os veteranos escolheram os nossos apartamentos. Moraríamos com outros cinco estranhos, vindos de algum lugar distante do Brasil. Alguns nem o português falavam, apenas um dialeto próximo: 'égua macho, os caba alí' 'Bah, mas eu não tenho sotaque'. 'Aqui, fui onerado cara!' 'E aí Yamaa'.

E vieram os trotes! Participaríamos de eventos surreais: nossos limites seriam testados e nossa dignidade, questionada. Não haveria mais noite tranquila. O sono tornou-se um luxo, conforto nem pensar. Alguns não estavam nem usando desodorante. No princípio, aqueles trotes pareciam desconexos, apenas mais uma armação de veteranos vingativos. Entretanto começamos a perceber com os passar dos dias, que estávamos sendo submetidos a um grande ritual de passagem.

Em alguns momentos, aprendíamos sobre determinadas tradições. Em outros, a turma começava a se unir; outros ainda nos preparavam para enfrentar as duras madrugadas de estudo que viriam a seguir. Ao final do primeiro mês, já estávamos habituados a uma cultura muito diferente. Não demorou muito para adotarmos em nosso dia-a-dia hábitos impensáveis no mundo fora do ITA.

Não, aquele alojamento não era nem de perto a república que parecia ser. Para nós, não era um alojamento. Nossa casa chamava-se agora H8. Pensávamos que aqui viveríamos com outros jovens estudiosos, dedicados e tradicionais. Besteira! Foi o maior grupo de lunáticos, malucos e pirados que já havíamos visto em um só lugar. Estávamos agora inseridos em uma comunidade alternativa que poderia ser motivo de alguns tratados de psiquiatria e antropologia.

E fomos re-batizados! Ganhamos uma nova identidade, um nome iteano, e com ele, uma nova família. Daqueles nomes comuns, passamos a Popoto, Idiota, Baywatch, Pederasta, Bezerrão, Monstro e assim vai. Além destes nomes, adotamos tradições e costumes muito incomuns como dar a senha e o cartão de crédito para um bixo desconhecido, manter as portas dos apartamentos abertas 24 horas por dia, acordar o colega de madrugada para dar aula para a turma na véspera de uma prova, fazer provas dentro dos apartamentos sozinho e com tempo limitado, não colar.

Era difícil parar de fazer uma prova antes de acabá-la, mesmo sabendo que tinha ido mal, e ter que dormir olhando para ela e não poder tocá-la. Mas sabíamos a regra do jogo, e entendíamos o motivo dessas tradições. Por isto essa cultura, mesmo explicada, parece estranha, duvidosa. Só vivendo para saber.

Os hábitos do H8 nos ensinaram a valorizar pequenas coisas: um rolo de papel higiênico novo, um galão d’água cheio, um chuveiro funcionando, uma hora de sono. Também nos ensinaram a deixar passar outras, que se tornaram menos importantes. 5 anos no H8 nos fizeram mais tolerantes e menos exigentes. Dormir com a luz acesa e o colega ao lado estudando tornou-se rotina. Estudar com os colegas ao lado fazendo barulho, também. Em alguns casos, a higiene foi deixada de lado, assim como outros hábitos saudáveis.

Parafraseando JK, dizem que no H8, são 50 anos em 5. Para alguns, é em relação à saúde mesmo: saem daqui bem acabadinhos, como diria um sábio professor, com menos cabelo, mais barriga e mais olheiras. Fomos onerados, avariados e solavancados. Mas estes 50 anos também representam o conhecimento adquirido, o convívio intenso, as amizades formadas, a troca de informações, o contato com outras culturas, a maior noção sobre o que é o Brasil.

Este intenso aprendizado é complementado com as várias inciativas extracurriculares, as quais, diga-se de passagem, impressionam muito. Se pensarmos que em algumas universidades um único curso possui mais alunos do que uma turma inteira do ITA, vemos que a quantidade de projetos feitos é bem grande.

Ao longo deste caminho, cheio de tentativas e erros, pudemos perceber que o conhecimento aprofundado não é o único fator determinante nas grandes realizações. Não basta o domínio técnico, nem recursos em abundância. A vontade que vemos em algumas pessoas aqui é o que realmente faz o ITA brilhar. A vontade, essa sim é a propulsão das grandes realizações. Com ela, ações simples e bem direcionadas produzem feitos maravilhosos. O conhecimento das técnicas e teorias mais avançadas é necessário ao profissional, mas a vontade e o bom senso são de fato as ferramentas mais poderosas de um engenheiro. As relações de compromisso, a aplicação do bom senso, são capazes de direcionar a criatividade em direção às grandes obras.

Aqui encontramos de tudo: de românticos a mercenários. O H8 é cheio de especialistas em coisas aleatórias (ou diversas). Tem um cara que acha que é um carro. Outro, faz contas enormes de cabeça e adora comer no rancho. Tem um outro que dança funk carioca como ninguém. Outros têm complexo de Napoleão e afirmam serem líderes mundiais.

Não importa o que seja, no H8 encontraremos. São tantas, tantas histórias que um livro não seria suficiente para contá-las. E mesmo se as contássemos, poucos acreditariam. Mas em alguns casos vimos o espírito do comodismo tomar conta de alguns colegas, abafando os seus talentos. Muitos, não conseguiram superar a distânci a da família ou a mudança de hábitos e sucumbiram. Não conseguiram fugir da mediocridade da rotina, e a inércia, implacável, os capturou.

Entretanto, muitos superaram os desafios. Alguns, surpreenderam, como alguns amigos que início pareciam ser nerds desajeitados e aos poucos mostraram-se grandes realizadores. Outros, precisaram ter o ego ajustado pelo convívio. Ou bullying educativo, em termos contemporâneos.

O que importa, para se superar as dificuldades impostas pela vida e se abrir novos horizontes, é ousar. Fugir da acomodação. E para isto é preciso enfrentar riscos. Lembremos dos gigantes que nos carregaram nos ombros e das imensas dificuldades que enfrentaram para que nós, privilegiados, pudéssemos chegar até aqui.

Sim, privilegiados. Estudar em uma escola pública de excelência é um privilégio para poucos, em um país onde exitem mais de 30 milhões de analfabetos funcionais, e onde a educação não é instituída como sendo a pedra fundamental da evolução.

Por isto, precisamos ter humildade e retribuir este privilégio. Com este pensamento e com esta vontade, não faltará talento, nem nerds desajeitados para darem uma mão. A partir de agora somos engenheiros do ITA, e o mínimo que a sociedade espera de nós é o nosso melhor. Então não vamos mandar mal né galera!

Lembremos, meus amigos engenheiros, de quando éramos felizes com pouco. Lembremos da nossa felicidade correndo pelo Raiz de 2, quando o professor nos liberava mais cedo, pois tinha estrogonofe no rancho. Lembremos de quando a eletricidade acabava e saíamos pelos corredores do H8, gritando feito malucos e reencontrando amigos que há muito estavam escondidos. Lembremos dos aniversários em que éramos gentilmente arremessados ao Feijão. Lembremos da felicidade do Bay quando comia sua carne no rancho! Das pacíficas partidas de futebol nas madrugadas depois das provas. Da nossa viagem de baixo custo à Europa, certamente a mais inesquecível viagem de nossas vidas.

O cérebro tratará de desfocar as dificuldades que tivemos, e vários outros momentos alimentarão a nossa nostalgia, que só aumentará com o tempo. Momentos como as carteações do Bezerro, as reportagens do Losnak (*), as maldades do Mucura, o pão-durismo do Suíço, as fantasias do Francis ou o vocabulário do Paquito.

E por isto estamos tristes por estar deixando o ITA, este lugar bucólico que é o CTA e o pitoresco H8? Não mesmo! Estávamos loucos para terminar este curso. Alguns, revoltados, juraram nunca mais abrir um livro. Estamos, sim, muito felizes por termos conseguido nos formar e ter vivido esta história, esta experiência única.

Sentimos por deixar esta casa. Por nos despedirmos dos amigos que fizemos. Não haverá mais convocações de última para um jogo de futebol na quadra do C, no meio da noite. Não haverá mais amigos para acordar quando não soubermos a resposta para algum problema. Não haverá mais amigos para nos acordar quando estivermos atrasados. Agora, estamos por conta própria.

Agora, meus amigos, completamos a caminhada para o início da vida adulta. Pensávamos que o ITA era uma montanha a ser escalada, mas agora, em seu topo, vemos uma cordilheira. Temos muito a fazer. Aproveitemos as últimas horas em que esta turma está toda reunida, e lancemos juntos os nossos últimos passos dentro desta escola. Avante, amigos engenheiros!"

(*) N.R. também conhecido como Zeca Urubú.


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