Discurso de despedida da Ativa

De wikITA

DISCURSO DE DESPEDIDA DO SERVIÇO ATIVO

BRIG ENG MAURÍCIO PAZINI BRANDÃO

CAMPO MONTENEGRO, PRAÇA SANTOS-DUMONT, 20/04/2011


Que Deus ilumine as minhas palavras.

Gostaria de saudar o Exmo Sr Ten Brig Ar Ailton dos Santos Pohlmann, maior autoridade militar presente, em cuja figura eu faço a consolidação de todas as autoridades militares da Ativa e da Reserva aqui presentes. Gostaria de saudar o Prof Dr Marco Antonio Raupp, Presidente da Agência Espacial Brasileira, como maior autoridade civil presente, em cuja figura saúdo todas as demais autoridades já devidamente nominadas. Gostaria de saudar o Ten Brig Ar Reginaldo dos Santos, Magnífico Reitor do ITA, maior autoridade iteana aqui presente, e em sua figura rendo as homenagens a todas as turmas de Engenheiros do ITA de 1950 até 1977, meus nobres veteranos, saúdo a melhor turma do ITA, aquela que se graduou em 16 de dezembro de 1978, e saúdo os jovens iteanos das turmas de 1979 em diante, a quem carinhosamente chamamos de bichos.

Há coisa de duas semanas, o meu amigo Brig Eng Pantoja, Diretor do IAE, abordou-me e perguntou, curioso, como seria este meu discurso de despedidas. Confesso que até aquele momento eu não havia pensado nisso, mas comecei a pensar no assunto e perdi umas duas noites de sono. Percebi que seria um discurso de natureza dupla, de despedida como Chefe do Subdepartamento de Administração do DCTA e de despedida da Ativa da Aeronáutica. Depois de um pouco pensar, cheguei à conclusão de que eu não queria cair no lugar comum de falar das realizações, da importância da missão e, resolvi, então, falar um pouco de histórias vividas, lições vividas e aprendidas ao longo dos meus 40 anos de vida militar. E além mais, resolvi falar com o meu coração, de semi-improviso. Só preparei aqui um roteiro para que a emoção não me faça perder a trilha das ideias.

Há cerca de três semanas, sob iniciativa do Ten-Cel Anderson, fui convidado para ser homenageado pelos alunos do CPOR, que são também alunos do primeiro ano do ITA e lá eu lhes disse que o meu sentimento era de que eu via chegar a metade da minha vida. Os sentimentos que me tolhem o coração são um misto de alegria e de gratidão. Gratidão ao povo brasileiro, ao Exército e à Aeronáutica que me educaram, graciosamente, do jardim de infância ao doutorado. E a esse sentimento de gratidão só poderia haver uma resposta, que seria a vontade imensa de servir ao povo – e retribuir o muito que esse povo fez por mim – e às instituições que me apoiaram.

Algumas coisas interessantes aconteceram na minha vida nos anos de 1969, 1970 e 1971, que moldaram toda a espinha estratégica da minha vida e eu gostaria de lhes contar um pouco dessa história.

Em 1969 eu tinha apenas 13 anos de idade. Meu pai, já partido desta esfera física, levou-me por duas ou três vezes a Uberaba, em Minas Gerais, onde eu tive a oportunidade de conversar com Chico Xavier. E eu me lembro claramente que uma noite, já madrugada adentro, em que o centro espírita já estava razoavelmente vazio, e eu me vi na condição de poder ter um diálogo com o Chico. E eu tinha me preparado porque eu sempre procuro me preparar. Eu tinha perguntado ao meu pai: “se eu conseguir falar com o Chico, o que é que eu pergunto para ele?” Aí meu pai sugeriu: “pergunte para ele o que é que você vai ser quando crescer”. E foi o que eu fiz. Inicialmente o Chico respondeu à minha pergunta com outra pergunta: “Do que é que você gosta?” Eu respondi que eu gostava de ler tudo o que via sobre aeronáutica e espaço e que estava cogitando ser piloto militar. Chico pensou por alguns segundos, talvez orientado por seus amigos espirituais, e respondeu-me: “Sim, você irá trabalhar com aeronáutica e espaço, porém você não será piloto. Sua missão será ficar em terra educando e coordenando aqueles que irão voar.” Isto foi um vaticínio. E se eu não pude ser um piloto militar, ou um astronauta, como sonhei, pelo menos eu posso dizer que eu fui professor duas vezes do nosso astronauta, já que o Coronel Marcos Pontes foi meu aluno no Curso de Engenharia Aeronáutica do ITA e foi meu aluno no Curso de Piloto de Provas do então IAE.

Também em 1969 aconteceu outra coisa muito interessante: o homem pousou na Lua. Eu me lembro claramente que em Votuporanga a televisão era em preto e branco e à meia-noite o funcionário da Prefeitura desligava a antena. Porém, devido à grandiosidade daquela ocasião transmitida ao vivo, nós prosseguimos madrugada adentro e ficamos vendo aquela epopeia, até o momento em que Neil Armstrong e Edwin Aldrin, de maneira segura, se recolheram no Módulo Lunar Eagle.

Eu continuei apaixonado pelas coisas de aeronáutica e espaço. No ano seguinte, 1970, a minha cidade, Votuporanga, foi competir contra Pindamonhangaba num programa chamado Cidade contra Cidade. E observando as minhas respostas às perguntas sobre aeronáutica e espaço, Sílvio Santos teve a ideia de criar um programa de perguntas e respostas chamado Poço dos Milhões, que foi praticado na antiga TV Tupi e na TV Globo. E eu fiz ali vinte apresentações. Isso tudo só serviu para me estimular ainda mais para estudar as questões de aeronáutica e espaço.

Em 1971, seguindo os passos de meu irmão Marcelino Brandão Filho, eu prestei vestibular e fui aprovado para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, onde eu sentei praça em 1º de março de 1971. E aí acontecu outra coisa interessante. Eu estava estimulado pela vida de von Braun, que era um cientista do Exército americano e eu falei: por que não seguir o caminho dele; talvez, indo para o Exército eu possa um dia projetar foguetes e ir ao espaço. Mas, neste ano, um belo dia, eis que o meu Capitão Comandante de Companhia me tira de aula e eu, com o coração aos pulos – porque para um aluno de Preparatória com 15 anos de idade qualquer Oficial era um semi-Deus e o meu Capitão Comandante de Companhia era um semi-Deus de maior grandeza. Depois de me apresentar, ele pergunta: “Já que você tem feito palestras pelo Brasil afora falando do programa espacial norte-americano e do programa espacial soviético, tem aqui um convite para você ir para o CTA conhecer o programa espacial brasileiro. Você quer?” Eu respondi um entusiasmado sim. Então ele falou: “Faça a sua mala porque tem um avião te esperando no aeroporto de Viracopos”.

Eu fico imaginando se isso seria possível hoje: retirar de uma Escola Preparatória por uma semana inteira, durante o ano letivo, um aluno, para trazê-lo para uma outra unidade militar, de uma outra Força, claramente num processo de atração. Eu passei uma semana aqui e fiquei apaixonado pelo CTA. Conheci o que se fazia no ITA, o que se fazia no IPD, o que se fazia no então nascente IAE – Instituto de Atividades Espaciais na época. Vi a placa “Aqui será fabricado o Bandeirante”, porque o Bandeirante, apesar de ter voado em 1968, só foi produzido em série a partir de 1972. Aquela placa já tinha o “s” apagado, o “r” apagado, o “a” apagado e um acento na letra “e”, dizendo: “Aqui é fabricado o Bandeirante”. Conheci o engenheiro Verdi que estava erigindo as instalações da Avibrás – Unidade Um – atrás da Embraer.

Foi uma semana fantástica, mas a coroação desta semana foi a entrevista que eu tive com o Brigadeiro Paulo Victor da Silva, Diretor-Geral do CTA, num escritório humilde, que hoje abriga o Banco Itaú, e era resultado das instalações de construção original do CTA. Eu fico pensando o que levou o Brigadeiro Paulo Victor a mandar aquela aeronave Beechcraft, popularmente conhecida como “Mata-Sete”, me buscar em Campinas. E após essa entrevista, eu resolvi trocar a minha carreira de Oficial de Artilharia do Exército por uma carreira de Oficial Engenheiro da Aeronáutica.

O DCTA para mim representa essencialmente duas coisas: um lugar singular, único, onde se pratica a maturidade tecnológica e onde se pratica o sincretismo civil e militar. Aqui nós temos de tudo: a escola, o ITA, os Institutos de pesquisa, o IAE e o IEAv, a ligação com a indústria, feita através do IFI, e todas as indústrias que nasceram no nosso entorno, de forma que tudo o que é necessário para ir da Ciência ao produto final, aqui pode ser feito. E aqui é o local onde as culturas civil e militar se unem para o cumprimento do objetivo maior nosso que é garantir a soberania do espaço aéreo, através do desenvolvimento de novos produtos.

Disse o Marechal Manuel Luís Osório, Marquês do Herval, Patrono da Arma de Cavalaria do Exército Brasileiro: Soldados! É fácil a missão de comandar homens livres; basta mostrar-lhes o caminho do dever. Com isso, Osório e muitas outras personalidades da nossa história produziram uma sociedade livre e democrática, diferente de muitas outras que existem em outros países. Eu falo isso porque a nossa missão no DCTA é um pouquinho mais difícil. Aqui nós temos que liderar pessoas não apenas livres, mas também pessoas inteligentes, e liderar pessoas livres e inteligentes é mais difícil do que simplesmente liderar pessoas livres. Eu descobri ao longo da minha carreira que, para ter sucesso nessa liderança, é necessário deixar bem claro quais são os objetivos a atingir, estabelecer o diálogo e buscar o consenso.

Metade da vida. Foi esta a mensagem que eu dei aos alunos do primeiro ano do ITA. Realmente, eu me sinto como tendo chegado apenas à metade. E digo que a segunda metade será melhor do que a primeira. Porque a primeira metade foi cheia de indecisões, ansiedades, preparo e neste momento eu tenho uma vida estabilizada, sem grandes decisões a tomar, e estou preparado. E quero muito ainda devolver ao povo brasileiro. Espero que mais 40 anos, pelo menos, eu tenha à minha frente e que eu possa, com a graça de Deus, ser um ser produtivo, pelo menos até os 95. E aí, eu irei realmente me aposentar e escrever as minhas memórias.

Como já foi divulgado, eu fiz o meu pedido de reserva extemporaneamente, por livre opção, e disse ao Comandante Saito que, se permanecesse na Ativa, teria mais um, talvez cinco anos de serviço, mas que eu estava livremente optando pela possibilidade de poder servir à Aeronáutica no mínimo mais 15, talvez 20 anos.

Num momento como esse, é comum o militar dizer e ouvir que a missão foi cumprida. Diferentemente do comum, eu vou dizer: a missão foi cumprida pela metade. Ainda há muito o que se fazer. Eu também fui indagado nesta semana que é que eu iria fazer nos próximos 40 anos. E eu encontrei em duas palavras a resposta do que eu pretendo fazer. Essas palavras são fortaleza e generosidade. Eu irei dar o melhor de mim para tornar o povo brasileiro mais forte, em todos os sentidos. E que dessa fortaleza surja a possibilidade de nós jamais sermos atacados, e que dessa fortaleza surja a generosidade para que a gente possa ajudar outros povos a também crescerem em suas forças.

Se eu fosse nominar aqui todas aquelas pessoas a quem eu tivesse que agradecer, o tempo seria muito curto. Por isso, eu vou, nesta despedida, agradecer a apenas duas pessoas. E espero que todas as demais se sintam agradecidas. Vou agradecer ao meu primeiro e ao meu último chefe. Ao Capitão de Artilharia Gouveia, que era o Comandante da Terceira Companhia de Alunos, a Pantera, da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, e ao Exmo Sr Ten Brig Ailton dos Santos Pohlmann, meu último chefe na Ativa. Os senhores, com as suas orientações, com os seus conselhos de pessoas mais experientes, permitiram me fazer crescer e eu não tenho mais palavras para agradecer-lhes por tudo isso.

Para quem acredita, nessa praça, estão reunidos hoje diversas pessoas fisicamente encarnadas e algumas pessoas desencarnadas. Infelizmente, eu não as vejo, mas elas devem estar por aqui.

Ao Brig Kasemodel, eu desejo muitas felicidades.

Eu gostaria de encerrar com uma oração. Essa oração tem uma história. A gente endeusa muito o voo da Apollo 11, os homens que pousaram na Lua, mas aos meus alunos eu digo: tão ou mais importante foi o voo da Apollo 8. Pela primeira vez na história três seres humanos saíram da gravidade terrestre, ficaram em órbita da Lua por 20 horas e tiveram duas visões magníficas. Pela primeira vez três homens viram com seus olhos nus o lado oculto da Lua e pela primeira vez esses homens viram um planetinha azul encrustado num fundo negro nascer no horizonte lunar. A melhor oração que eu poderia trazer aqui é aquela que, no Natal de 1968, o comandante da Apollo 8, astronauta Frank Borman, que também era pastor, fez, ao vivo, e que hoje é conhecida como a oração do astronauta

Dai-nos, ó Deus, a visão com a qual possamos ver o Seu amor no mundo, apesar das falhas humanas. Dai-nos a fé para confiar na bondade, apesar da nossa ignorância e fraqueza. Dai-nos o conhecimento para que possamos continuar a orar com o coração pleno de compreensão e mostra-nos o que cada um de nós pode fazer para acelerar a vinda do dia da paz universal. Amém.

Que Deus abençoe a todos vocês. E que tenham uma boa Páscoa.


Maurício Pazini Brandão

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