Discurso proferido pelo Prof Cecchini

De wikITA

Discurso proferido pelo Prof Cecchini por ocasião da passagem do 64. aniversário do ITA, em 23 de maio de 2014:


A convite do Reitor, Prof. Carlos Américo Pacheco, meu aluno de 1975, a quem saúdo e agradeço, tomo a palavra para dirigi-la ao Sr. Tenente Brigadeiro Alvani Adão da Silva, Diretor deste Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial; a outras autoridades; aos Professores, aos alunos; e às senhoras e aos senhores presentes,

Meu objetivo é explicar porque considero o ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica , um marco na educação universitária brasileira.

Hoje estamos aqui reunidos para comemorar 64 anos do início das aulas do ITA, neste local. O Instituto, porém, é mais antigo. De acordo com o que se lê no livro comemorativo do cinquentenário, escrito pelo falecido professor, advogado e educador, Octanny Silveira da Mota, a criação ocorreu com a assinatura do Decreto 27.695, de 16 de janeiro de 1950, em que, pela primeira vez, lhe foi dada uma estrutura de ensino e lhe foi atribuída uma sede em São José dos Campos. Estrutura e sede que são as atuais. Mas houve, e ainda há, engenheiros com o diploma do ITA que cursaram engenharia aeronáutica na Escola Técnica do Exército (hoje Instituto Militar de Engenharia), sob orientação do Ministério da Aeronáutica, criado, em 1941. Qual é, portanto, a data de criação do ITA?

Não seria absurdo dizer que o ITA, como ideia, tem a idade do Ministério da Aeronáutica, hoje Comando da Aeronáutica, e que essa ideia somente adquiriu a personalidade que tem hoje, graças ao empenho, competência e determinação do então Coronel Casimiro Montenegro Filho com o valioso auxilio do Professor Richard Harbert Smith, “Dean” do Massachussets Institute of Technology, dos então majores aviadores Oswaldo do Nascimento Leal e Benjamim Manuel Amarante , do engenheiro Artur Soares Amorim e, entre outros, dos professores e grandes educadores Paulo Ernesto Tolle, advogado e Paulus Aulus Pompéia, físico brasileiro de renome.

A estrutura do ITA foi montada na segunda metade da década de 1940. Nessa época havia no Brasil 15 escolas de engenharia. A grande maioria dos engenheiros formados (da ordem de 90%) era de engenheiros civis, não qualificados para operar na indústria pesada que começava a se instalar no Brasil. A demanda por engenheiros especializados, assim entendidos os não civis, era grande . A Companhia Siderúrgica Nacional instalara-se em Volta Redonda em 1946, a Petrobrás iniciava seu projeto em Mataripe, na Bahia em 1950 e, não menos importante, a II Guerra Mundial, grande consumidora de bens e serviços, havia terminado há poucos anos, e a demanda diversificada por produtos industriais tinha crescido brutalmente.

O ITA se propôs a continuar formando engenheiros aeronáuticos e inovou com a oferta do primeiro curso brasileiro de engenharia eletrônica. Eram especialidades para as quais, então, não havia demanda. Nas reuniões dos primeiros anos da década de 1950, com educadores convidados, das quais participava o agora Brigadeiro Montenegro, surgiam perguntas do tipo:

Porque o ITA decidiu formar engenheiros aeronáuticos e eletrônicos sabendo que no País não há atividade produtiva nesses campos profissionais? Porque não continuar formando no exterior os poucos engenheiros aeronáuticos e eletrônicos necessários, a um custo bem menor?

O que farão os engenheiros aeronáuticos e eletrônicos enquanto a demanda não for criada? A resposta que se ouvia do Brigadeiro Montenegro era sempre a mesma: o ITA não tem por objetivo atender à demanda, mas sim de criá-la e chegar à industrialização. O que, é bem sabido, de fato, ocorreu , ainda no século passado, com a criação da Embraer e o desenvolvimento das comunicações no Brasil. Outra certeza do Brigadeiro Montenegro: enquanto não surgir a demanda, a qualidade dos engenheiros formados garantirá emprego em todas as áreas da engenharia.

Mas a importância do ITA não se media apenas pelas especializações dos engenheiros formados. Sua estrutura era e continua sendo diferente. Trata-se de um entidade civil, com total autonomia universitária, superior até mesmo ao das outras instituições universitárias brasileiras, inserida em um ministério militar mantenedor. Costumo dizer que o ITA tem uma estrutura muito parecida com a de uma fundação. O CTA de então ou o DCTA de hoje são os órgãos mantenedores. Essa estrutura serviu como escudo para que outras diferenças estruturais vingassem e servissem até de exemplo para aperfeiçoar a estrutura universitária brasileira.

Na década de 1950 , a estruturação departamental era a grande diferença do ITA com as outras escolas universitárias brasileiras. Nessa estruturação as matérias estão vinculadas aos departamentos e não aos professores, ditos, por essa razão, de professores catedráticos. O currículo dos cursos ficam mais dinâmicos e podem ser alterados, sem a necessidade de contratar ou demitir professores. Ou então, que era a via preferida, não mexer no corpo docente e manter o currículo inalterado e desatualizado. Desde 1950 os currículos dos cursos oferecidos pelo ITA são atualizados anualmente. A estruturação departamental, hoje comum a todas as instituições universitárias, era uma velha reivindicação de educadores brasileiros, sobretudo dos que haviam realizado pós-graduação no exterior. Foi o interesse em conhecer essa estruturação, à qual eu estava subordinado na USP, que me levou a conhecer o ITA em 1952 , quando, então , conheci outras diferenças que me levaram a trocar a USP pelo ITA em 1953.

Essas duas diferenças, ligação com o Ministério da Aeronáutica e estrutura departamental, foram motivos de elogio ao ITA por parte de dois Ministros da Educação na década de 1950, conforme se lê no trabalho que o Prof. Tolle apresentou no Simpósio sobre o ITA, em 1963 e repetiu em seu discurso de paraninfo da turma de 1974.

O ITA não visava apenas ensinar bem mas também educar, função essa que, normalmente, não era assumida pelos cursos universitários brasileiros. Em primeiro lugar os compromissos assumidos deviam ser cumpridos. Nesse contexto podem ser classificados os seguintes atributos do ensino iteano: os programas e o calendário de ensino aprovados deviam ser integralmente cumpridos; as aulas não dadas, por qualquer motivo, deviam ser repostas; a frequência era obrigatória. Outros componentes do caráter educacional do ensino: o professor era diversificado não apenas na formação profissional mas também na nacionalidade (muitos professores estrangeiros); currículo composto de matérias não-técnicas (humanidades), professor e aluno trabalhando em regime de dedicação integral e exclusiva; professor e aluno morando próximos, no mesmo “campus”, tendo várias oportunidades de encontros, dentro e fora das salas de aula.

O atributo educacional que mais o diferenciava das demais instituições universitárias brasileiras era o da assim chamada “disciplina consciente”. Esta disciplina implicava na realização honesta de todos os trabalhos escolares. A assim chamada “cola”, comprovada, era punida com a penalidade máxima: o desligamento do aluno do curso. O aspecto original dessa disciplina consciente é o de que a vigilância era exercida pelo próprio vigiado, o aluno. O Reitor do ITA do começo de 1950, Prof. Joseph Morgan Stokes delegou ao CASD, Centro Acadêmico dos alunos, a competência que lhe cabia de controlar a disciplina, julgar a transgressão, identificar o transgressor e propor a penalidade. A ele, Reitor, caberia a execução. O Centro Acadêmico aceitou o desafio e organizou um departamento, o Departamento de Ordem e Orientação, que operava sigilosamente com o apoio, mas de forma independente até mesmo do próprio Centro Acadêmico.

Uma experiência importante, de grande interesse atual, foi vivida pelo ITA de 1950 a 1955. Para aproveitar as vagas ociosas resultantes do vestibular funcionou o Ano Prévio oferecido aos alunos não aprovados, que haviam obtido as melhores notas de matemática no vestibular. Os alunos provinham das regiões menos favorecidas do Brasil em termos de ensino, e recebiam no ITA os mesmos direitos e tratamento que os alunos regulares. O corpo docente era o mesmo. As matérias ensinadas eram as exigidas no exame vestibular. Os alunos aprovados no Ano Prévio eram automaticamente admitidos como bolsistas no primeiro ano do curso regular. Mais de uma centena de engenheiros do ITA, alguns deles ainda na ativa, se beneficiaram com essa oportunidade oferecida pelo ITA. O Ano Prévio terminou em 1955 porque a partir do ano seguinte o crescimento do número de candidatos ao vestibular superou a dez por vaga e deixaram de existir vagas ociosas. O Ano Prévio é mais um exemplo a ser seguido. Graças à sua existência o ITA nunca teve vagas ociosas.

Nos 10 primeiros anos de funcionamento do ITA, em sua sede atual, o Instituto formava apenas engenheiros, embora oferecesse matérias em nível de pós-graduação, muitas das quais frequentadas pelos alunos de graduação. Em 1961, com o auxílio financeiro da “Agency for International Development” (mais conhecido por Ponto IV) e convênio com a Universidade de Michigan, o ITA passou a oferecer o mestrado e o doutorado nas ciências que compunham o Curso Fundamental e nas áreas técnicas que compunham o Curso Profissional do Instituto.

Foi adotado o modelo de pós-graduação vigente nos Estado Unidos, com poucas alterações, que teve enorme repercussão no ensino pós-graduado brasileiro. Em 1962, a COPPE do Rio de Janeiro seguiu o ITA e ambas as instituições influenciaram o Conselho Nacional de Educação em sua resolução de 1965 que alterou toda a pós-graduação brasileira, mesmo a mais antiga, oferecida, por exemplo, pela USP, desde a década de 1930. Ao apresentar alguns atributos do modelo educacional do ITA, eu utilizei neste meu relato o verbo no passado. Isto não significa necessariamente que o atributo tenha deixado de existir no presente. Significa apenas que o modelo descrito é o que eu conheci e vivi durante os 41 anos em que fui professor ativo do ITA.

Para terminar, gostaria de voltar novamente ao já falecido, e hoje Marechal Montenegro. Ele recebeu várias demonstrações de apreço e reconhecimento por parte do ITA, pelos engenheiros formados pelo ITA, pelo CTA e pelo Ministério da Aeronáutica. Fato pouco conhecido: ela dá o nome ao Polo Astronômico situado em Foz do Iguaçu e que recentemente, no passado mês de março, se tornou famoso no mundo pelo fato de seus pesquisadores terem divulgado uma descoberta inédita: anéis em torno de um asteroide à semelhança de Saturno e outros planetas gigantes do sistema solar. A atuação inovadora e criativa do “nosso” Brigadeiro, porém, extrapola a Aeronáutica e atinge todo o Pais.

A cidade de São José dos Campos, escolhida por ele para sediar o Centro Técnico de Aeronáutica, deve a ele a sua pujança e a qualidade de vida que oferece. Acho que é chegada a hora do reconhecimento. É preciso que a juventude o tenha como exemplo. Ele merece um monumento, mais visível, mais acessível. Existe, para isso, um lugar apropriado nesta cidade, o Parque Santos Dumont, que além de central tem nítida conotação aeronáutica.

Agradeço a atenção que me foi concedida.


Marco Antônio Guglielmo Cecchini

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