Eli Nunes

De wikITA

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ajuda do bispo de Santos, conseguiu a anulação do casamento pelo papa. Desiludido e
ajuda do bispo de Santos, conseguiu a anulação do casamento pelo papa. Desiludido e
revoltado, virou boêmio, frequentador de cabarés, onde aprendeu a dançar e cantar. Era
revoltado, virou boêmio, frequentador de cabarés, onde aprendeu a dançar e cantar. Era
exímio bailarino e cantava imitando alguns cantores. Nessa época já era professor de escolas.
exímio bailarino e cantava imitando alguns cantores. Nessa época já era professor de escolas.
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sala de aula, no prédio da Igreja Universal, da av. Ana Costa.
sala de aula, no prédio da Igreja Universal, da av. Ana Costa.

Edição de 19h28min de 28 de novembro de 2019

Na equipe campeã de futsal, 1960
1963

Tabela de conteúdo

Crônicas

CONSCIÊNCIA NEGRA

20/11/19

Acordei pensando sobre como me comportei com negros ao longo de minha vida.

Nasci e cresci em Santos, dominada por imigrantes portugueses e espanhóis, preconceituosos, que verbalizavam o desprezo pelos negros.

Estudei em colégio católico, pago, inacessível a negros. Com incendio em parte da escola, fui completar o 3° cientifico num colégio publico, o Colégio Canadá. Na época, apenas o primário (atual Fundamental I) era acessível a todos; eram os "grupos escolares". Para o ginasial (atual Fundamental II) havia um exame "de admissão" para entrar em uma escola publica. OS NEGROS eram ASSIM ELIMINADOS, PELA TAL MERITOCRACIA.

E foi ali no Colégio Canadá que conheci o primeiro negro, o Luís. Segregado, vivia isolado nas horas de recreio. Por coincidência, um dia na saída, andamos lado a lado. Curioso, pergunte-lhe aonde ia.

- "Para o centro", respondeu-me. Eu ia para lá, como todos os dias.

- "Então vamos no mesmo bonde", disse-lhe.

- "Vou a pé", respondeu-me.

Condoído, dei-lhe um passe escolar. Não aceitou pois, como me disse, não tinha como devolver o passe. E assim passei a conversar quase todos os dias com o Luís.

Formei-me e tornei a encontrar o Luis anos depois. Abraçamo-nos. Tornara-se funcionário da prefeitura, na área de saúde. Contei-lhe onde andava e ele convidou-me a tomar um café. Fomos até o CARIOCA, histórico bar de Santos.

Nunca mais o vi.


O TEIMOSINHO

20/11/19

Era uma vez um garoto, muito lindo, que era teimoso como uma mula. O menino era o terror das professoras. No prédio aonde morava era odiado e amado pelas meninas. Sua mãe o repreendia, ele dava de ombros e respondia: QUE SE DANE...

Aprontava com as meninas, e mães batiam na porta reclamando do bonitinho. O pai do menino respondia às mães que isso era coisa de crianças.

Um dia, vendo televisão, o pai viu um anúncio de linguiça sendo fritada. Imaginativo, inventor de estórias, criou uma por titulo O MENINO QUE VIROU LINGUIÇA. Começava assim:

"Existiu um garoto, muito lindo, que era teimoso como uma mula. O menino era o terror das professoras. No prédio onde morava era odiado e amado pelas meninas."

E acabava assim:

“Mas o castigo não tardou. Papai do céu transformou-o numa linguiça. Lançada no óleo quente da frigideira, a linguiça dava de ombros e gritava: QUE SE DANE.”

O pai narrou o conto ao menino. O bonitinho deu de ombros e respondeu: "Conte essa para o Papai Noel" — e fugiu correndo...

O menino é o meu filho mais novo. Continua teimoso...


GAIOLA DAS LOUCAS

25/11/19


Situado na Av. Ana Costa, um velho sobrado é a sede do Sindicato dos Professores de Santos e Região. Agrega professores de escolas privadas.

Até uns 7 anos atrás não tinha segurança alguma, portas abertas, ali entrava quem quisesse. Parecia protegido por um anjo da guarda.

Diariamente professores de todas as raças, posições políticas e religiões ali iam para resolver problemas. Era comum haver discussões de todos os temas, que chegavam a gritos e palavrões. Nunca soube de agressões físicas; por isso passei a chamar o sobrado de GAIOLA DAS LOUCAS.

E foi nos tempos de GAIOLA que conheci o incrível José Lopes, professor de português. Quando o conheci já estava aposentado, após anos de professorado bem sucedido em colégios de prestígio. Por isso era festejado por ex-alunos que sempre o procuravam. Sem escola para lecionar, Lopes pediu ao presidente do sindicato um espaço no sobrado para dar aulas a quem se interessasse. Foi-lhe cedido o salão de eventos e festas no fundo do prédio. E ali ele recebia alunos preparando-se para concursos, vestibulares e outras necessidades. Não cobrava pelas aulas. Pedia trabalho voluntário, em especial digitação de apostilas de aulas.

Tinha sido seminarista, conhecedor do latim, para o qual traduzia textos com rapidez. Ao abandonar o seminário, com 17 anos, passou rapidamente a dar aulas de oratória e português em escola de sua família. Seus alunos eram advogados, estudantes de direito e, pasmem, juízes.

Aos 21 anos casou, e abandonou a noiva no dia seguinte. Motivo : ela não era virgem. Com a ajuda do bispo de Santos, conseguiu a anulação do casamento pelo papa. Desiludido e revoltado, virou boêmio, frequentador de cabarés, onde aprendeu a dançar e cantar. Era exímio bailarino e cantava imitando alguns cantores. Nessa época já era professor de escolas. Dormia em dois turnos , das 18 ás 22h00 e das 5 às 9h00. Suas paixões eram a boemia e as aulas.

Contou-me que teve casos, segundo ele, com mães de alunos. Não sei se foi verdade. Na verdade, era o tipo do cara exibicionista e falador.

Quando o conheci, já desenvolvera seu método de ensino, que tentava vender para políticos da cidade. Conseguiu adeptos entre ex-alunos. Eu achava o método confuso e sem cobrir as ciências exatas, área que ele não dominava.

Quando a oposição venceu as eleições no sindicato, Lopes perdeu o espaço. A Gaiola da Loucas passou a ter segurança na porta e no interior. A liberdade acabou, e a GAIOLA virou MASMORRA.

Lopes não desistiu de exercer o magistério. Bateu de porta em porta, e encontrou sua ultima sala de aula, no prédio da Igreja Universal, da av. Ana Costa.

Apesar de boêmio, era politicamente conservador e anticomunista.

Um dia morreu. Foi uma pessoa apaixonada pela vida e pela sua vocação. Nunca negou ajuda a quem o procurasse para conhecer a nossa língua.


Turma de 1963

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