Eli Nunes

De wikITA

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<center><h3><b>CONSCIÊNCIA NEGRA</b></h3>20/11/19</center>
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Edição atual tal como 21h17min de 28 de novembro de 2019

Na equipe campeã de futsal, 1960
1963

Tabela de conteúdo

CRÔNICAS

CONSCIÊNCIA NEGRA

20/11/19

Acordei pensando sobre como me comportei com negros ao longo de minha vida.

Nasci e cresci em Santos, dominada por imigrantes portugueses e espanhóis, preconceituosos, que verbalizavam o desprezo pelos negros.

Estudei em colégio católico, pago, inacessível a negros. Com incendio em parte da escola, fui completar o 3° cientifico num colégio publico, o Colégio Canadá. Na época, apenas o primário (atual Fundamental I) era acessível a todos; eram os "grupos escolares". Para o ginasial (atual Fundamental II) havia um exame "de admissão" para entrar em uma escola publica. OS NEGROS eram ASSIM ELIMINADOS, PELA TAL MERITOCRACIA.

E foi ali no Colégio Canadá que conheci o primeiro negro, o Luís. Segregado, vivia isolado nas horas de recreio. Por coincidência, um dia na saída, andamos lado a lado. Curioso, pergunte-lhe aonde ia.

- "Para o centro", respondeu-me. Eu ia para lá, como todos os dias.

- "Então vamos no mesmo bonde", disse-lhe.

- "Vou a pé", respondeu-me.

Condoído, dei-lhe um passe escolar. Não aceitou pois, como me disse, não tinha como devolver o passe. E assim passei a conversar quase todos os dias com o Luís.

Formei-me e tornei a encontrar o Luis anos depois. Abraçamo-nos. Tornara-se funcionário da prefeitura, na área de saúde. Contei-lhe onde andava e ele convidou-me a tomar um café. Fomos até o CARIOCA, histórico bar de Santos.

Nunca mais o vi.


O TEIMOSINHO

20/11/19

Era uma vez um garoto, muito lindo, que era teimoso como uma mula. O menino era o terror das professoras. No prédio aonde morava era odiado e amado pelas meninas. Sua mãe o repreendia, ele dava de ombros e respondia: QUE SE DANE...

Aprontava com as meninas, e mães batiam na porta reclamando do bonitinho. O pai do menino respondia às mães que isso era coisa de crianças.

Um dia, vendo televisão, o pai viu um anúncio de linguiça sendo fritada. Imaginativo, inventor de estórias, criou uma por titulo O MENINO QUE VIROU LINGUIÇA. Começava assim:

"Existiu um garoto, muito lindo, que era teimoso como uma mula. O menino era o terror das professoras. No prédio onde morava era odiado e amado pelas meninas."

E acabava assim:

“Mas o castigo não tardou. Papai do céu transformou-o numa linguiça. Lançada no óleo quente da frigideira, a linguiça dava de ombros e gritava: QUE SE DANE.”

O pai narrou o conto ao menino. O bonitinho deu de ombros e respondeu: "Conte essa para o Papai Noel" — e fugiu correndo...

O menino é o meu filho mais novo. Continua teimoso...


GAIOLA DAS LOUCAS

25/11/19


Situado na Av. Ana Costa, um velho sobrado é a sede do Sindicato dos Professores de Santos e Região. Agrega professores de escolas privadas.

Até uns 7 anos atrás não tinha segurança alguma, portas abertas, ali entrava quem quisesse. Parecia protegido por um anjo da guarda.

Diariamente professores de todas as raças, posições políticas e religiões ali iam para resolver problemas. Era comum haver discussões de todos os temas, que chegavam a gritos e palavrões. Nunca soube de agressões físicas; por isso passei a chamar o sobrado de GAIOLA DAS LOUCAS.

E foi nos tempos de GAIOLA que conheci o incrível José Lopes, professor de português. Quando o conheci já estava aposentado, após anos de professorado bem sucedido em colégios de prestígio. Por isso era festejado por ex-alunos que sempre o procuravam. Sem escola para lecionar, Lopes pediu ao presidente do sindicato um espaço no sobrado para dar aulas a quem se interessasse. Foi-lhe cedido o salão de eventos e festas no fundo do prédio. E ali ele recebia alunos preparando-se para concursos, vestibulares e outras necessidades. Não cobrava pelas aulas. Pedia trabalho voluntário, em especial digitação de apostilas de aulas.

Tinha sido seminarista, conhecedor do latim, para o qual traduzia textos com rapidez. Ao abandonar o seminário, com 17 anos, passou rapidamente a dar aulas de oratória e português em escola de sua família. Seus alunos eram advogados, estudantes de direito e, pasmem, juízes.

Aos 21 anos casou, e abandonou a noiva no dia seguinte. Motivo : ela não era virgem. Com a ajuda do bispo de Santos, conseguiu a anulação do casamento pelo papa. Desiludido e revoltado, virou boêmio, frequentador de cabarés, onde aprendeu a dançar e cantar. Era exímio bailarino e cantava imitando alguns cantores. Nessa época já era professor de escolas. Dormia em dois turnos , das 18 ás 22h00 e das 5 às 9h00. Suas paixões eram a boemia e as aulas.

Contou-me que teve casos, segundo ele, com mães de alunos. Não sei se foi verdade. Na verdade, era o tipo do cara exibicionista e falador.

Quando o conheci, já desenvolvera seu método de ensino, que tentava vender para políticos da cidade. Conseguiu adeptos entre ex-alunos. Eu achava o método confuso e sem cobrir as ciências exatas, área que ele não dominava.

Quando a oposição venceu as eleições no sindicato, Lopes perdeu o espaço. A Gaiola da Loucas passou a ter segurança na porta e no interior. A liberdade acabou, e a GAIOLA virou MASMORRA.

Lopes não desistiu de exercer o magistério. Bateu de porta em porta, e encontrou sua ultima sala de aula, no prédio da Igreja Universal, da av. Ana Costa.

Apesar de boêmio, era politicamente conservador e anticomunista.

Um dia morreu. Foi uma pessoa apaixonada pela vida e pela sua vocação. Nunca negou ajuda a quem o procurasse para conhecer a nossa língua.


Turma de 1963

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