Feira de Santana-Atibaia no PU-CED

De wikITA

15 de Abril de 2012. Só hoje tenho o tempo e calma para escrever sobre esta viagem que terminou há exata uma semana.

Ney Vita e o Cmte Canabrava no início da viagem

O objetivo declarado foi o translado do Águia Vixen PU-CED, com um super motor VW 2.300 de Feira de Santana - BA para Atibaia - SP, pista mais adequada ao meu novo endereço desde Jul/2010. Moro hoje em São Paulo, Capital.

O objetivo não declarado: fazer uma puta viagem no Águia !!!

Desde o fim do ano passado estou planejando a viagem propriamente dita. Até então, a maior viagem que eu havia feito com êle foi de Feira de Santana até Barreiras, na Bahia. Desta vez seria uma viagem passando por 3 ou 4 estados.

Inicialmente eu e meu co-piloto, Ney Vita, de Santo Antônio de Jesus - BA, pensamos em vir pelo interior, pois assim não teríamos muitos problemas com áreas controladas, pois não tínhamos muita experiência com isto. Eu já havia ido a Salvador algumas vezes e voado para cidades litorâneas do NE, como Aracaju, Ilhéus e Porto Seguro.

Felizmente conversamos com pilotos como o Cmte. Sebastião Jr., o Cmte. Soares, Cmte. Durval e outros, que nos mostraram que estávamos enxergando "fantasmas". Seria muito melhor irmos pelo litoral. Ok, nossa rota assim aumentava de aproximadamente 900 nm para mais de 1100 nm. Tínhamos tempo, pois a data planejada de partida era dia 05/04/2012, quinta-feira santa. Assim, dispunhamos de 4 dias para uma viagem que poderia ser feita em 2.

Preparei o avião. Motor sem problemas, avião limpo e abastecido, cartas na mão. O traçado da rota e carga nos dois super GPS's Garmin Pilot III ficou a cargo do Ney.

Transamérica Comandatuba e o aeroporto no continente

Quinta-feira dia 05, plano de vôo transmitido para a AIS de Salvador, decolamos às 08:20 h local. Proa de Valença, não conseguimos subir para o FL045 como no plano. O teto só permitiu 2500 pés. Assim fomos até pegar o litoral. Seguimos nesta mesma altitude passando pelo Morro de São Paulo, Baía de Camamu, Península de Maraú, Itacaré, cruzamos o aeroporto de Ilhéus, Comandatuba, Canavieiras, Belmonte e finalmente pousamos no Sítio de Voo Fly Club, do nosso amigo Tinho! Foram 3,5 horas de vôo, chegamos quase ao meio-dia.

O Tinho como sempre, nos recebeu com toda atenção. Abastecemos com Pódium, no próprio Fly Club e fizemos um lanche rápido em Coroa. Vimos as obras de ampliação da pista em mais 200 m. Fizemos plano de voo para Guarapari as 13:00 h. Resultado: ficamos esperando dar 13:45 h para decolar (16:45 UTC).

Decolados do Fly Club, fomos sempre pelo litoral. Vimos a pista de Porto Seguro, a de Trancoso (pista bonita) e fomos descendo: Caraíva, Cumuruxatiba, Prado, Alcobaça, Caravelas e entramos no Espírito Santo. Alguma hora por aí, saímos do controle Recife (muito bom) e entramos na FIR Brasília, com a qual não conseguimos, nem por uma só vez, comunicação. Só deu 123,45 MHz.

Chegando próximo a Vitória, ES, chamamos o Controle e entramos nos corredores visuais, por orientação do controle, a 1000 pés. Ruim o rádio de Vitória, ruins os corredores. Mas fomos. Graças ao BD do Nallin, os GPS's estavam com os corredores de Vitória, Rio, Vale do Paraíba e São Paulo. Nosso ponto crítico era se conseguiríamos chegar em Guarapari antes do Pôr do Sol. Conseguimos, com uma margem de mais de 30 minutos.

Cmte Canabrava na pousada em Guarapari

Em Guarapari, nos aguardava o Cmte. Alexandre Canteruccio. Nos recebeu com toda a simpatia e o apoio para que nos sentíssemos em casa. Jantamos uma moqueca capixaba de badejo ao molho de camarão. Como nós vínhamos bebendo água somente o necessário para não morrer de sede, pois como o Águia não tem toalete masculino eu e o meu co-piloto não tínhamos como verter, eu tomei logo duas águas tônicas com gelo e limão! Mas que o peixe estava bom, ah isto estava.

Dia seguinte em Guarapari, abastecemos com a ajuda do Alexandre e decolamos com destino Maricá. Detalhe: plano AFIL em Campos. Nossa rota de Guarapari para Maricá mudou. Não fomos mais pelo litoral, pois a volta seria muito grande. Neste trecho, o solo é bem baixo e plano, com muitas plantações. Deixamos sempre a serra a direita e passamos por Campos, Macaé, até chegarmos as 11:30 aproximadamente em Maricá. Foram novamente 3,5 horas de voo, sempre a 2500 pés de altitude.

Maricá é um barato! Ao nos aproximarmos do circuito de tráfego, senti logo a barra! Dois aviões, um na perna base e outro no fim da perna do vento, com mais um decolando e curvando à esquerda, em ascensão, isto é, na nossa direção. Garanti um afastamento deste último, sempre na 123.45, e informei que seria o terceiro a pousar. Assim, fiquei na terceira posição. O segundo não me deixou pousar, pois passou da pista de taxi e ocupou a principal por um tempo maior. Arremetida, novo circuito de tráfego e aí sim, pouso. Pista muito boa, virada para a lagoa de Maricá, não tem obstáculos na decolagem. Lá estavam nos esperando o Cmte. Brâncoli e a Tatiana.

Cmte Canabrava, Brâncoli e Ney Vita em Maricá

Como o tempo estava degradando vimos que não seria bom decolarmos naquela tarde. As previsões para o Rio e São Paulo eram de trovoadas esparsas pela tarde. Fomos eu e o Brâncoli para a fazenda de um amigo dele, o Roberto, que tem uma pista de 600 m de grama e hangar com espaço para o Águia. Assim eu podia ficar despreocupado com chuva, que o Águia estaria bem abrigado. Decolamos de Maricá e uns 15 min depois estavamos pousando na fazenda, nos arredores de Itaboraí. Águia abrigado, fomos resgatados pela Tatiana. Seguimos todos para a casa do Brâncoli. Ali almoçamos e passamos a tarde e noite. Excelente a hospedagem oferecida pelo casal Brâncoli/Tati.

No dia seguinte, eu com a pulga atás da orelha, resolvi trocar a bateria do avião, pois além de já ter mais de 3 anos, estava demonstrando sinais de senilidade! Compramos uma nova em Itaboraí e com as ferramentas do Brâncoli, estavamos de bateria ZERO no avião.

Decolei da fazenda sozinho, pois a pista tinha obstáculos na cabeceira (árvores). Eu nem percebi, mas ao parar a aeronave na área de taxi, o Poubel me disse: você sujou o avião todo! Pois tinha bosta de vaca na lateral da fuselagem e até no intradorso da asa esquerda! Uma das pessoas do Poubel fez o favor de jogar uma água retirando a má impressão. Na pista de Maricá, o Poubel já me aguardava com gasolina Pódium. Avião abastecido, plano transmitido pelo Ney, fizemos um lanche e decolamos de Maricá, aprox. as 11:00 h.

Em Copacabana, cruzando a Baía de Guanabara

Logo chamamos o controle Rio, que nos recomendou 3 vezes que ao cruzar a boca da Baía de Guanabara, deveríamos fazê-lo a 500 pés de altitude. O tempo estava muito ruim. Nosso plano era ir pelo litoral até chegar ao corredor CHARLIE, onde entraríamos para o continente com a proa de Vassouras e daí pegaríamos o corredor Dutra, sobre o Vale do Paraíba, até Jacareí, onde ingressaríamos no corredor GOLF para Atibaia. Ao chegarmos na entrada do corredor CHARLIE no Rio, vimos que o tempo não nos deixaria fazer o trajeto. Havia formações pesadas muito baixas.

Solicitamos do controle alteração de rota e seguir pelo Litoral, não pelo corredor DELTA, que pega Alto Mar!!! Permissão liberada na hora!

Seguimos então pelo litoral interno da Baía de Sepetiba, com a Restinga de Marambaia a nossa esquerda. Seguimos descendo pelo litoral, com a Ilha Grande a nossa esquerda (como é grande a ilha!!!). Nos confundimos com uma enseada, pensando que era a de Angra. Sòmente com a confirmação do visual da Usina Nuclear tivemos a certeza de estarmos na Baía de Angra dos Reis. Continuamos sempre no litoral até Parati. Parati fica no fundo de uma enseada e não seria um ponto de parada, mas como o tempo estava meio ruim, resolvemos pousar lá para fazermos uma avaliação.

Copacabana posto 6 voando em direção a Parati

Parati não tem hangar. Muitas aeronaves de graus mais altos que a nossa (helicóptero Agusta, bimotores como o Sêneca, King Air turbo-hélice e etc...). Como Parati fica muito mais longe de São Paulo que Ubatuba, para quem vai de ônibus, eu gostaria de chegar a Ubatuba. Pousou um Sêneca e perguntamos ao piloto como estava o tempo em Ubatuba. "Aberto" disse o piloto. Detalhe: ele veio do Norte (Rio), Ubatuba estava para o Sul.

Decolamos imediato. De Parati para Ubatuba, a rota direta é atravessando as montanhas, coisa que não íamos fazer de jeito nenhum. Por sobre o mar a 1500 pés lá fomos nós. Passamos por uma ou outra ponta, sobre a terra. O resto foi sobre água com poucas praias e muitas pedreiras indo direto dentro da água. E o tempo... ah, piorando! Foi mais de meia hora de vôo. Não me recordo realmente se foi 30, 40 ou 45 min de voo. Vejam nas cartas ou no Google Maps a volta que se dá, pelo mar, para ir de Parati para Ubatuba.

A chegada em Ubatuba já foi debaixo de chuva fina. Estava sacramentado: mais uma cidade e mais uma noite em trânsito! Ubatuba está muito bonita. Eu agradeci por termos ficado lá. Depois de um passeio a pé por toda a praia de Itaguá (se não me engano este é o nome), tomamos um banho e fomos jantar uma pizza das melhores. Como saímos a pé do avião, ficamos em pousada bem próxima da pista. Por sorte o bairro Itaguá é a região turística de Ubatuba. Resultado, fizemos tudo a pé.

Chegada em Ubatuba

No dia seguinte, Domingo de Páscoa, o Ney me acorda as 07:30 h: Cana, é agora, está Céu de Brigadeiro! Tomamos um café rápido e fomos para o aeródromo. Abasteci com 20 litros de Avgas, para dar uma tranquilidade e decolamos. Alí há um elevador de aeronaves. O vento era terral, isto é decolamos da cabeceira do mar, em direção a terra. O avião subia a 700 fpm, durante vários minutos. Precisávamos atingir o FL 045 para ultrapassar a serra na região de Caraguatatuba, o que logo conseguimos. Daí procuramos a estrada que vai de Caraguá para São José dos Campos, passando por Paraibuna. Não a estavamos encontrando, até que o Ney a avistou bem à nossa direita. A Represa de Paraibuna é um expetáculo a parte. Muito bonita mesmo.

Estávamos com proa de SBSJ (São José) quando chamamos na frequencia. SJ nos solicitou mudar a proa para Jacareí. Bloqueamos Jacareí e tomamos o corredor GOLF, de São Paulo. No FL 045, como disse, tínhamos o topo das nuvens (FEW) a 4300 pés aproximadamente. Daí foi ficando SCT e BKN. Descemos antes de ficar OVC. Em baixo da camada, o tempo era bem fechado. Localizei logo a rodovia D.Pedro I, que vai de Jacareí a Atibaia e está literalmente em baixo do corredor GOLF.

Com poucos minutos nesta rota o tempo foi melhorando, o que nos permitiu subir novamente para 4500 pés. O corredor GOLF é limitado em 5000. Íamos na 126,65 freq dos corredores em SP. Chegando próximo a Atibaia, mudamos para 126,25, frequencia de Atibaia. Domingo de tempo bom em Atibaia, pousamos na 02 as 09:30 h local, pouso final. O VW veio como um reloginho!

O Águia Vixen PU-CED em Ubatuba


Dados da viagem, tirados do GPS:

Distância Percorrida - 1083 nm

Vel. Média - 74,2 kt

Vel. Máx. - 111,7 kt

Tempo Total - 14:35:44 h

Do horímetro do avião o tempo de motor ligado foi de 15,4 h.

O Ney fez a filmagem da viagem em sua GoPro. Ele deve postar no Youtube um "compacto". Pena que houve um problema de compatibilidade com um cartão de memória que não gravou o trecho entre Maricá e Ubatuba.

Foi uma experiência muito boa e um grande aprendizado para mim e tenho certeza que para o Cmte. Ney também. Ganhamos com esta "aventura" alguns graus em nossa atividade aérea.


  • Considero pontos positivos:
    • planejamento e preparação da navegação, feitos quase totalmente pelo Ney, somente com opiniões de minha parte;
    • preparação do avião - atendeu completamente a viagem, dando tranquilidade e segurança;
    • comunicação com o controle e com outras aeronaves - ótima experiência adquirida;
    • julgamento do tempo - leitura de METAR, TAF, cartas SIGWX, imagens de satélite - também foi desenvolvido durante a viagem.

Assim, o que mais sinto hoje é: vontade de fazer outra!

Abraços a todos

Cana (ELE-73)


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