Fernando Venâncio Filho

De wikITA

Foto do acervo de Sérgio Gomes de Oliveira


Depoimentos de seus alunos

Irajá (T63)

Já formado, trabalhando no CTA-PAR, lá nos idos de 1966/67, fazendo cálculos estruturais para dimensionamento das asas do Bandeirante e das suas fixações na fuselagem, junto com o del Monte (T64), usava os métodos convencionais que aprendemos no ITA com o prof. Dunne e o próprio prof. Venâncio. O livro referência era o Analysis and Design of Aircraft Structures por E.F.Bruhn, da Purdue Univ. e A.F.Schmitt, da Convair-Astronautics. As ferramentas de cálculo eram nossa Aristo Hyperbolog e a calculadora elétrica Friden (que na hora da divisão ficava batucando muitos segundos num ritmo de sambinha que a gente aproveitava para acompanhar na caixinha de fósforos). Nesse período o prof. Venâncio estava nos USA fazendo seu mestrado em Calculo Estrutural com Elementos Finitos (grande novidade na época). Logo que retornou ao ITA, ele ofereceu um curso de pós nessa nova tecnologia. Eu e o del Monte nos matriculamos e fizemos por alguns meses a familiarização com o método. No final do curso pedimos ao prof. Venâncio para nos orientar em passar a estrutura das asas do Bandeirante no cálculo por elementos finitos usando então os desenhos da asa já pronta. Foram muitas semanas de trabalho desde a idealização dos elementos, a preparação das equações, dos dados geométricos e cargas até termos os cartões perfurados para o cálculo no recém instalado mainframe IBM 1620 do ITA. Naquele filminho sobre o Bandeirante, de 1968, pelo Jean Manzon, aparecemos eu e o del Monte nessa hercúlea tarefa ao lado do IBM, e o prof. Venâncio, entusiasmado, acompanhando todo o trabalho. Finalmente conseguimos as tensões todas da estrutura básica e pudemos comparar com aquelas calculadas manualmente pelo livro do Bruhn. Claro que nada coincidiu entre os dois métodos, mas deu para sentir a importância da nova metodologia para o ganho de peso nas estruturas aeronáuticas, já que o método convencional de cálculo abusava bastante de fatores de segurança mais elevados. A asa estava parruda, graças ao Bruhn, e não apresentou nenhum problema nos ensaios estruturais estáticos e de fadiga e muito menos nos ensaios de determinação de velocidade crítica para flutter. Felizmente, e graças também aos ensinamentos do prof. Venâncio, pois o Bandeirante foi o primeiro responsável pelo sucesso da Embraer.


Magalhães (T63)

Depois do testemunho do Irajá, além de claro e bastante parcimonioso ao julgar o prof. Venâncio o meu, a seguir, é so uma breve impressão.

Na minha obstinação, durante os finais de nosso curso no ITA queria ao me formar ter como objeto do meu trabalho profissional um produto feito e palpável, do qual poderia sentir ser parte de sua criação, mesmo se fosse com muitos outros colegas. Assim, fui vagando da aerodinâmica (prof. Jaceck) ao cálculo estrutural (profs. Dunne, Venâncio e outros) para acabar no final em motores.

O Venâncio era meu orientador, mas de orientador não tinha nada, pois era do tipo fechado e circunspecto e eu muito mais. Mas com o convívio aprendi coisas muito importantes para minha vida futura. O que ali aprendia era como as fundações de um prédio, mas a vida profissional em nada seria daquilo que ali estava sendo vivido.

Essa experiência foi muito importante para mim ao iniciar carreira na França, frente ao técnico ou engenheiro maison (assim denominado pela experiência e não pelo diploma). O lidar diário não era baseado em títulos ou diplomas e sim somente pelo demonstrado com conhecimento e comprovação prática.

Um fato pitoresco da figura humana do Venâncio, que tinha baixa estatura e uma postura sempre ereta, empregando frases curtas e muitas interrogações durante um diálogo técnico. Em uma conversa técnica ia empolgando-se com o que falava e, quando sentia que o interlocutor correspondia, pelo menos no entendimento, ia aproximando-se quase num corpo a corpo e quase empurrando o interlocutor – como eu gostava de comentar, “com o seu umbigo”.

Tive grande respeito e admiração por ele, pela sua maneira às vezes até franca demais, mas sempre muito cuidadosa nos fatos técnicos. Foi um dos poucos professores que eu classificava como sendo positivo para meu saber. Estava constantemente desafiando o interlocutor para ir buscar mais conhecimento por si e não só por meio dele.

Sérgio (T63)

O Venâncio foi meu conselheiro durante os 5 anos do ITA. Era um professor muito exigente, com excelente preparo de aulas. No primeiro dia de aula entregava-nos o programa da disciplina dia a dia. Mencionava, para cada aula, as páginas dos livros citados na bibliografia​. As provas também estavam marcadas previamente, normalmente em número de 6. Avisava que uma falta em prova não precisava nem ser justificada e a média seria por 5, mas a segunda falta teria nota zero. Os exercícios para casa tinham peso significativo na nota final e sempre nos passou uma segurança nos seus conhecimentos da matéria.

Acompanhou a nossa turma na viagem aos Estados Unidos e foi um bom companheiro em algumas visitas que fizemos juntos. Na University of Columbia, onde o acompanhei no Departamento de Estruturas, o professor que nos recebeu nos tratou protocolarmente até que o Venâncio mencionou alguns artigos dele publicados no Journal da matéria. Houve uma mudança brutal do americano, que havia lido todos os artigos por ele publicados.

Fui aluno de sua mãe no curso colegial. Sei que ficou viúvo antes de falecer.

Com parte da T63 na viagem aos USA em 1963

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