Flávio Celso Bartmann

De wikITA

Texto escrito por Flávio Celso Bartmann por ocasião da morte de José Norberto Walter Dachs:

Norberto Dachs tinha uma enorme capacidade de trabalho. Desde 1973, quando ele voltou para o ITA, depois de concluir o seu doutorado em Berkeley, ele trabalhou em várias áreas, em algumas instituições e em um número muito grande de projetos.

Começou ministrando cursos em Análise Exploratória de Dados, Simulação, Estruturas Discretas e com um seminário em Métodos Robustos (o Massao Sakai e eu éramos os alunos). Dirigiu, ainda, o Laboratório de Processamento de Dados (de fato o Departamento de Computação).

Apesar de ter ficado somente dois anos no ITA, fez com que vários dos seus alunos (incluindo o Sebastião de Amorim, Kaizô Iwakami Beltrão, Luiz Koodi Hotta e eu) fossem fazer o mestrado no IMPA, doutorado no exterior e seguissem carreiras acadêmicas.

Ficou um ano no IBGE, antes de mudar para a UNICAMP em 1976, onde iria ficar treze anos envolvidos no ensino, graduação e pós-graduação (na verdade foi o Norberto que criou o programa de Mestrado do IMECC). Atuou, também, na criação do Laboratório de Estatística, em pesquisa, na administração, e em vários projetos de desenvolvimento de software. Orientou mais de dez teses de mestrado na UNICAMP. Colaborou com dezenas de pesquisadores nas áreas de medicina, saúde pública, educação, engenharia e agronomia.

Foi para Washington, em 1989, para trabalhar na Organização Panamericana de Saúde. Trabalhou lá por quatorze anos em projetos de saúde publica e epidemiologia. Voltou para a UNICAMP em 2003.

Ao longo de 36 anos Norberto foi meu professor, orientador e colega. Conheci o Norberto, por recomendação do “velho guerreiro” Djalma Galvão Carneiro Pessoa, ainda em 1973, logo depois da sua volta da Califórnia. Meu primeiro trabalho com ele foi no seminário que ele deu sobre métodos robustos, mencionado acima. Depois, em 1974, ele foi o orientador do meu trabalho final de graduação no ITA.

Aprendi muito com Norberto nesses dois anos, coisas que ficariam comigo a vida inteira. Dele herdei duas perspectivas fundamentais em relação à prática da estatística como ciência aplicada: o ceticismo em relação aos modelos paramétricos e a importância dos métodos de análise exploratória de dados. O Norberto sempre enfatizou as limitações dos modelos paramétricos, a importância dos resíduos e dos métodos robustos. Era uma perspectiva particularmente interessante, dado que ele era um ex-aluno do Departamento de Estatística de Berkeley. A segunda influência fundamental estava relacionada com a necessidade de se entender os aspectos mais importantes do problema antes de se fazer um experimento ou uma análise estatística mais complicada. Ele era um grande admirador dos métodos (“quick and dirty”) desenvolvidos por John Tukey.

Uma das primeiras coisas que recebi do Norberto foi uma cópia do manuscrito do que viria a ser o livro laranja (EDA). Mas talvez a mais importante influência que o Norberto teve em mim (e, certamente, em muitos outros) foi a atitude frente ao trabalho do pesquisador e professor universitário. Por um lado, ele foi muito consciente de que não existe uma fórmula mágica, ideal, para o trabalho intelectual. Sempre teve muita suspeita dos esforços de se copiar literalmente as estruturas acadêmicas da Europa e dos Estados Unidos. Mas era igualmente crítico daqueles que usavam a “realidade brasileira” como justificativa para trabalho de qualidade insatisfatória. Norberto sempre trabalhou em problemas que eram importantes no contexto social do Brasil e da América Latina. Nunca deu muita bola para política partidária. Mas era um intelectual engajado. Tinha uma disciplina muito grande e conseguia produzir muito, mesmo quando as condições de trabalho eram precárias, os recursos quase inexistentes. Nunca reclamou. Muitas vezes me disse: “Bartmann, a gente faz o que pode e não aquilo que gostaria”.

Acima de tudo, o Norberto foi um grande amigo. Aquele que a gente liga a qualquer hora para discutir as frustrações do dia-a-dia, o progresso no trabalho, as dificuldades nos projetos e na vida em geral, com o papo indo até tarde da noite, o amigo que faz uma falta enorme depois da partida. Foram centenas de cervejas, a primeira, gelada, na casa dele e da Linda, no H-montão do CTA, quando a Daniela ainda era um bebê, muitas outras no Restaurante Lamas do Largo do Machado e no Caneco 70 no Leblon, no Giovanetti e no Cleso em Campinas.

Foram centenas de conversas, sobre a renúncia do Nixon, a queda inevitável da ditadura, a lentidão do processo de desenvolvimento, as dificuldades do casamento e da educação da filha, as relações complicadas, o Maverick inconsertável, Margarita, a menina de Buenos Aires que seria sua companheira, amiga e mulher por 30 anos, o acidente na Dutra e mais recentemente, por telefone e sem cerveja, sobre o câncer implacável, Oliver Sacks, Edward O. Wilson e o trabalho interdisciplinar, Rush Limbaugh.


Turma de 1974

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