Hélio Fragoso

De wikITA

A difícil arte de ensinar

Texto do Prof. Hélio Fragoso para o jornal O Iteano de junho de 1955.


Há algum tempo estava eu conversando com o Prof Collins sobre problemas do ensino e o modo como os americanos do norte procuram resolvê-lo e passamos a discutir sobre a capacidade, imprescindível no professor, de despertar o interêsse dos alunos.

Em inúmeras universidades americanas, disse-me o Prof Collins, uma pessoa designada especialmente para êsse fim, entra na sala de aulas após a saída do professor e pergunta aos alunos quantos deles julgaram ter tirado algum proveito da aula e o resultado do inquérito é comunicado ao professor. Geralmente às más aulas seguem-se lições excelentes, simplesmente porque o professor quer salvaguardar o amor-próprio ferido.

Bem, repliquei, alguns assuntos se prestam melhor do que outros a despertar o interêsse da clase. Certas matérias, embora de importância primordial, são por natureza tão enfadonhas que difícilmente poderão ser recebidas com agrado pelos alunos.

A resposta do Prof Collins foi um dos melhores ensinamentos que já recebi:

Justamente nesses casos é que o verdadeiro professor se revela, pois somente aquêle que desperta o agrado para os assuntos áridos e cuja utilidade só mais tarde poderá ser avaliada, somente quem em qualquer caso sabe criar o interêsse, pode se chamar Professor. Se o boi que puxa o arado soubesse que sua ração no inverno depende da força que faz neste momento, o lavrador poderia dispensar o uso do chicote!

Compreendi, então, quanto é difícil a arte de ensinar e quanto podemos ser auxiliados na busca dessa arte pelos nossos próprios alunos.

Cada professor deve partir do princípio de que seus métodos de ensino podem ser sempre melhorados. A divina perfeição escapa ao alcance da humana capacidade!

Infelizmente são poucos os que pensam ser a arte de ensinar alguma coisa que deve ser aprendida. A grande maioria, uma vez de posse do título de professor, pensa ter atingido a suprema perfeição na arte de transmitir conhecimentos. E os resultados dêsse estranho ponto de vista, tão generalizado, nós todos os conhecemos, assás bem.

Quero crer que essa mentalidade obtusa de certos professores que se julgam em tudo superiores aos seus alunos, é o resultado de métodos de ensino obsoletos e ultrapassados já, e o ocaso da era do "magister dixit". Felizmente, pedagogos entusiastas de todo o mundo estão lançando uma rajada de ar puro no mofado ambiente do ensino escolástico. E o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, que tanto tem feito para o desenvolvimento do ensino no Brasil, deve liderar essa campanha oportuna, orientando os jovens professores que para aqui acorrem, no sentido de transformá-los, em pouco tempo, em Mestres, com M maiúsculo.

De modo que o desejo de aprender a ensinar é essencial para o progresso de um professor. Mas, uma vez imbuído dêsse desejo, como pode o professor iniciar o seu aprendizado?

Muito simples: deixe que os alunos o julguem! Porque, afinal de contas, as aulas foram feitas para os alunos e ninguém melhor do que êles pode decidir se as lições estão ou não lhes sendo de algum proveito. E posso afirmar que a confiança do professor nos alunos, deixando-se julgar por êles, é não apenas retribuída, mas até excedida, o que vem constituir uma ótima base para o contacto amistoso e frutífero entre mestre e discípulos.

O julgamento do professor pelos alunos pode ser feito de vários modos. Um, que me parece muito bom, é o de promover reuniões periódicas do professor com alguns alunos de cada classe e debater os problemas relativos ao curso. O professor poderá saber, assim, as principais dificuldades encontradas pelos discípulos e sondar o interêsse que o cusro está despertando.

Êste método, contudo, apresenta o inconveniente de tirar a liberdade de os alunos se manifestarem a respeito do professor, já que êste está presente.

Outro método, que elimina esta desvantagem, é o de distribuir aos alunos, a intervalos regulares, questionários com perguntas relativas ao professor e ao curso. Êstes questionários, após terem sido preenchidos pelos alunos, são devolvidos, sem identificação, ao professor.

Tive oportunidade de pedir aos meus alunos que preenchessem um dêsses questionários, por mim traduzido e adaptado do livro "Effective Teaching" por Fred C. Norris. Os resultados foram ótimos, pois evidenciaram várias falhas no meu modo de ensinar que eu jamais notara.

As vantagens dêsses julgamentos são tantas e tão importantes que transcrevo abaixo o questionário acima citado. Faço votos que todos os professores se animem a usá-lo.


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