Hildebrando Pralon Ferreira Leite

De wikITA

O Presidente da República resolve CONSIDERAR PROMOVIDO ao pôsto de Coronel Aviador, de acordo com o artigo 19 da Lei n° 5.195 de 24 de dezembro de 1966, o Tenente Coronel Hildebrando Pralon Ferreira Leite, que faleceu em consequência de acidente de aviação, ocorrido em serviço, com a aeronave T-6 n° 1564, no dia 19 de abril de 1971, na cidade de Natal, Estado do Rio Grande do Norte.

Brasília, 28 de abril de 1971;

150° da Independência e 83° da República.

EMÍLIO G. MÉDICI

Márcio de Souza e Mello

(*) Neste acidente faleceu também o Capitão Dietrich Ott (MEC-69)


Vôo da Coca-Cola (Capitão Pralon, Asp. Av. 1949 - Comandante da Esquadrilha Verde do 1o/1o Gp. Av. Ca. em Santa Cruz, 1958)

Texto escrito por Ajax Augusto Mendes Corrêa, piloto de caça da turma de 1956 e publicado no site da ABRA-PC

imagem:HildebrandoPralon.jpg

Esta história poderia ser chamada "Lei de Murphy" ou, o que tem possibilidade de acontecer, acontece.

O dia era festivo na BASC, talvez dia da criança, não lembro bem. Local, sala de "briefing" do 1o/1o Gp.Av.Ca., 07:00 horas da matina... Após a leitura da Ordem Fragmentária, nos familiarizamos com a missão a ser executada: ataque a alvos no mar (barcaças flutuantes) em frente à orla marítima das praias de Santos (SP), HSO 09:000 hora local.

Seria uma missão operacional típica, real, com oito aviões. Uma Esquadrilha com 4 F-8 Gloster Meteor para o Bombardeio Picado (BP), bombas de 500 libras e a outra com mais 4 F-8 para o Tiro Terrestre (TT), quatro canhões 20mm, um passe apenas, acabando com o que porventura sobrasse do BP. Lamentavelmente, após o "briefing" e acerto de relógios, o oficial de informações avisa que nosso controlador aéreo avançado em Santos, Tenente Aviador Enéas Camargo Neves, avisara que chovia torrencialmente no local, visibilidade muito baixa e sem possibilidade de efetuar a missão, devendo a mesma ser considerada abortiva no solo, causa MET (meteorologia) e seus pilotos dispensados.

Como disse era um feriado, um sábado possivelmente. Quase que de imediato começou a ser esboçada uma escala de vôo para levar alguns residentes no RJ ao Santos-Dumont, em aeronaves T-6D da Esquadrilha de Adestramento da Base.

Fomos escalados o Cap. Av. Pralon e eu para sermos os pilotos nessa missão, conhecida pelo nome de Vôo da Coca-Cola. Pralon, capitão antigo, era gente finíssima, filósofo e sempre terminava seus comentários pós-vôo com frases de efeito tipo: "é melhor ser mendigo em Paris que milionário no Rio.", "boa é a Léa Massari", E por aí vai.

Nos encaminhamos para as aeronaves, os oficiais a serem transportados já esperando, um "briefing" rápido e uma decolagem mais rápida ainda. Logo após sair do chão, a curva fechada passando em cima do Cassino da Base antevia o que viria pela frente. Na ala do capitão percorremos rasante toda a orla marítima da Barra da Tijuca, Ipanema e Copacabana, subindo um pouco para um ou outro "tuneau" barril ou "looping", puxado com maestria por aquele ex-instrutor do Estágio Avançado da Escola de Aeronáutica.

Entre um giro e outro passamos o Pão de Açúcar, entrando pela boca da barra, subindo um pouco e nos posicionando na inicial para "pell-off" na pista 02, proa norte, no Aeroporto Santos Dumont. Já escalonado para a esquerda, 500 pés, sai o líder para o pouso. Saiu quente e apertando, trem em baixo, flapes e pouso com rápida parada em frente à torre, onde foi feita a notificação de vôo de volta por um dos passageiros transportados.

Decolagem na ala, mais ou menos o mesmo trajeto e os mesmos eventos no regresso. Pouso direto em SC (Santa Cruz), estacionamento na plataforma norte, sem cortar, aguardando a subida a bordo dos outros dois a serem transportados, tenentes João Mutti de Almeida e Anaclino Valério Alves, ambos de minha turma, aspirantes de 1956.

Lembro do Mutti, querendo ser engraçado, subindo na minha asa e dizendo: "Vou com o Pralon, é capitão e mais seguro". Embarcou no avião do líder, iria se arrepender! Eu trouxe o Valério. Esta perna seria a terceira e última a ser efetuada.

Mesmo padrão da etapa anterior, entrada pela boca da barra, dia lindo, pois a frente fria ainda não chegara ao Rio. Altitude de 500 pés, inicial para o "pell-off", pista em uso a mesma, 02 proa norte.

Como antes, o líder saiu quente e apertando, mas agora com uma diferença: nos primeiros 90 graus reverteu, nivelando e aproando à Escola Naval (EN). Eu não entendi o que estava acontecendo e posicionei-me como se fosse "ataque dois", um pouco mais alto e chegando perto, seguindo o líder, fiquei à esquerda dele mantendo aquela posição, pois ele estava perdendo altura.

Pude ver trem em cima, capota aberta (assim permanecia o tempo todo dos vôos) e flapes em baixo. Pensei ainda, sem entender o que se passava: "vai pousar no mar?".

Ao mesmo tempo em que curvando na faca passava por cima dele, vi o nariz do T-6 entrando na água e, para espanto, a capota da frente fechada, a do Mutti aberta. Continuando na curva percebi o rápido afundamento do T-6, só restando o último terço da fuselagem e a deriva vertical onde, agarrado ao estabilizador, estava nosso colega Mutti.

Não os vi mais, tendo a aeronave submergido em meio à espuma e a uma porção de pequenos barcos que rumaram para o local. Pedi à torre que avisasse a SC, pousei e fui aguardar alguma possível orientação vinda do Grupo de Caça.

No saguão do aeroporto encontro o Mutti, sem seus sapatos de couro alemão e, é claro, ensopado! Informou que o velho Praley estava bem e iria chegar em breve, haviam sido resgatados por uma embarcação da Escola Naval.

É claro que passaram um sufoco danado. Nada mais tendo a acrescentar, com sua malinha de objetos pessoais ainda vazando água, pegou um táxi e foi embora, descalço. Ainda falei para o Mutti, o "Menininho Sândalo": "se tivesse vindo comigo não estaria molhado!".

Quando me encaminhava para a sala de tráfego avisto o Cap. Pralon, de chinelos e com um uniforme da Escola Naval, uma espécie do atual "jogging". Abraçamos-nos e aí contou que estava bem, que o motor parou por pane seca na subida do "pell-off", que na inicial havia trocado de tanque, do reserva (tomada mais alta) para o esquerdo (tomada mais baixa), ambos na asa esquerda, que foi uma bobeada dele, alimentando a aeronave com o tanque mais vazio, no caso sêco...

Que no impacto com a água a capota correu e fechou, mas que mesmo com o avião afundando conseguiu abri-la e soltar-se do pára-quedas, que os cintos e suspensórios estavam travados, o que possivelmente impediu o choque da cabeça com o painel. Estava sem colete salva vidas, o conhecido papo-amarelo, à época chamado de "Mae West".

Foi um "sustão", mas consegui sair para a água, tirou os sapatos aguardando socorro, pois havia muitos barcos por perto, sendo em seguida resgatado por um bote da Escola Naval.

Perguntou-me então: "Vamos embora? Posso ir pilotando?".

Assim termina esta história, com o Cap. Pralon pilotando um T-6 vestido de EN, descalço, regressando à Santa Cruz.

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