João Paulo Moreira Burnier

De wikITA

Trecho da entrevista com o Brigadeiro Burnier, realizada por Celso Castro e Maria Celina d'Araújo em dezembro de 1993, no contexto do projeto 1964 e o regime militar, desenvolvido pelo CPDOC com apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep):

"Nessa época eu tinha ficado doente, tinha ido para São José dos Campos, a pedido, para fazer o curso no ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica – (Universidade de Engenharia da Aeronáutica) já que estava suspenso de vôo. Fomos eu e mais 22 oficiais. Eu era o mais antigo, era major. Eu já tinha curso de estado-maior, quer dizer, não precisava mais fazer curso nenhum, mas mesmo assim eu fui fazer curso de Engenharia para poder continuar a carreira militar. Eu tinha tido uma pericardite e com isso estava proibido de vôo. E o tratamento poderia ser feito e iria ficar bom, como eu fiquei.

Bom, fui autorizado a voar. Voei de novo. Fiz os exames todos, me recuperei completamente. Não era infarto, foi pericardite, a parte externa do coração que tinha sido afetada, um vírus qualquer, e continuei o curso de Engenharia. Mas nesse tempo nada impedia que lá, em São José dos Campos, no ITA, apesar dos estudos, eu continuasse a ver a situação do país cada vez mais grave, mais séria. Estava se discutindo a parte da campanha eleitoral que estava em pleno desenvolvimento. Quando estava nessa época, cerca de julho, eu tomei conhecimento nas reuniões que havia de oficiais, no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, então, havia reuniões quase que semanalmente, e o Lott sempre perseguindo, sempre procurando, e transferindo os oficiais para vários lugares. Os anti-lottistas eram castigados, botados no ostracismo.

Oficiais brilhantes eram colocados sem função, completamente sem comando nenhum, mandados para lugares afastados, em Santo Ângelo, na Bahia, no Acre, em Mato Grosso, enfim, ele ia distribuindo os oficiais. Os aspirantes do Exército, os mais bem situados na Escola Militar, primeiros de turma e tudo, eram colocados em áreas bem longínquas, até no Acre, em guarnições distantes. Um primeiro-tenente, um aspirante do Exército, primeiro de turma, um comandante do pelotão ficava lá, completamente desolado, porque era um homem que não combinava ou não estava de acordo com a política que o Lott vinha fazendo dentro do Exército. Bom, quando chegou em julho de 1955, mais ou menos, eu tomei conhecimento por várias informações, de que o Lott, ou melhor, o general Odilo Denys, que era o seu chefe do estado-maior, estava preparando um plano preventivo contra a tentativa dos tais golpistas, como éramos considerados, de impedir a posse de Juscelino.

Porque achávamos que ele estava sendo ajudado pelos comunistas, que estavam numa campanha tremenda. Embora estivessem na clandestinidade, eles continuaram atuando, e bastante atuantes, principalmente dentro das forças armadas. Em função disso, eu pedi transferência do ITA, fechei minha matrícula lá no segundo ano da Escola de Engenharia, e para não haver dúvida a respeito do futuro, eu pedi até as minhas notas que eram publicadas no boletim, para não haver dúvida que eu tinha saído por vontade própria e não por exigência escolar, ou por falta de capacidade de fazer o curso. Vários companheiros continuaram fazendo o curso. Houve vários incidentes, porque nós éramos oficiais já e ficavam fazendo uma turma separada porque a turma do ITA era uma turma de civis. Nós estudávamos juntos e houve vários incidentes lá com o vice-diretor, com o diretor, porque nós estávamos estudando intensivamente, fazendo curso em quatro meses, um curso de um ano do ITA, que era uma brutalidade. Isso depois de 16, 14 anos sem estudar, tendo saído da Escola Militar já nessa época. Eu era major. Saí e vim transferido para base aérea do Galeão no final de setembro.

Eu tinha sido transferido de São José dos Campos, do ITA, para a base aérea do Galeão. Aí fui nomeado chefe pessoal."

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