José Hamilton Suarez Claro

De wikITA

Ver também uma apresentação sobre o Claro, preparada pelo colega Bandel, contendo mais material.

A pinacoteca de Claro, o artista

Capa do livro do Claro
Prefácio de Teresa Sales do livro José Hamilton organizado e apresentado por Teresa Sales. Recife: Ed. do Organizador, 2012.

(Contém biografia dele, depoimentos e muitas de suas pinturas.)


(Ver Capa, contra-capa e algumas ilustrações do livro: prancha 1; prancha 2; prancha 3; prancha 4; prancha 5.)


Sabia, desde o início, que precisava publicar esse livro. José Expedito Prata, amigo-irmão do Hamilton, me cobrava e se dispunha a participar da empreitada. Como participou. O tempo, contudo, tem caprichos e nada acontece antes da hora. A vida seguiu seu curso – com as acomodações da família, a saída dos filhos de casa, a mudança de São Paulo para o Recife. Dez anos passados da morte de José Hamilton, chegou a hora do livro. Uma homenagem. Um jeito de preservar sua memória.

Escrevo esse prefácio na qualidade de organizadora do livro. Também para anotar reminiscências que tenham algo a ver com o que o leitor vai conhecer nas páginas que se seguem. Do que compartilhei com Hamilton nos trinta e três anos de nossa convivência. Antes de mim, começo pelas reminiscências primeiras. É de Maria del Rosário Suarez Alban, irmã única e referência fundamental na vida de Hamilton, o texto que se segue. Foi escrito especialmente para o livro, a meu pedido. Recebi-o por correio em 13 de dezembro de 2002.


Os automóveis desfilam pelas ruas de Salvador e a mão do desenhista mirim os fixam no papel

Pepe, apelido familiar de José Hamilton, começou a desenhar carros aos seis anos, quando, morando na rua Carlos Gomes, uma via central de Salvador, sentava-se à janela fixando-se em todos os detalhes das várias marcas de automóveis, então exclusivamente de fabricação norte-americana: Dodge, Ford, Chevrolet...Naquela época passaria pela rua Carlos Gomes um carro a cada três minutos, o que permitia ao jovem desenhista produzir desde a sua janela um flash que, acrescentado a outros anteriores e posteriores, ia documentando a produção automobilística dos anos quarenta. Não foi dessa época a atração pelo desenho de figuras humanas. Isso veio muito depois. Quanto ao desenho paisagístico, este raramente chegou a atrair o seu lápis, quando criança, lápis que foi sempre utilizado pela sua destra, enquanto a esquerda entretinha-se com pequenos tufos do cabelo que o deixavam numa profunda absorção táctil.

O papel podia ser o de um caderno de desenho, mas não rejeitava nenhum retalho de papel de embrulho que lhe caísse às mãos para reproduzir a lápis os veículos que então trafegavam pelas ruas de Salvador.


Uma lembrança muito gostosa

Rosário

O desenho era um elemento vital na vida de Hamilton. Saía pelos poros. Expressão do cotidiano em guardanapos de restaurantes, cadernos pautados ou quadriculados, blocos da empresa, talões de cheques.

Das minhas lembranças, reporto algumas. Estamos viajando de férias para a Espanha. Avião lotado. Uma senhora gorda está sentada na poltrona da fileira do meio. Nós dois junto à janela. Quando acordo de um cochilo, a mulher virara desenho, rabiscado no cardápio da Varig. No metrô de Boston, Zé Hamilton me pede para sentar no lado oposto, junto a uma moça que mastiga alguma fruta. Faz de conta que conversa comigo, como disfarce para desenhar a moça. Na praia do Guarujá, onde passávamos as férias com os filhos pequenos, o Hamilton se diverte, enquanto tomamos banho de sol, fazendo uma exaustiva classificação dos corpos femininos que desfilam gratuitamente a seus olhos.

Tanto quanto desenhava, Zé Hamilton lia muito – literatura, história, policiais, revistas de interesses variados, imprensa diária. Desde quando fomos morar em São Paulo (1972), as livrarias e bancas de revista passaram a fazer parte quase obrigatória de seus finais de semana. Livros, revistas, jornais e também discos. Música popular brasileira e, mais que tudo, jazz, sua grande paixão. Pedro foi seu grande companheiro nos périplos de fim de semana. Um hábito que se solidificou ao tempo em que eu morei um ano em Boston (1990/91) para fazer um pós-doutorado, na companhia de Miguel, e ele permaneceu no Brasil com o pai.

A partir de um certo momento, Hamilton começou a guardar fotografias de jornais e revistas, com o intuito de utilizá-las como material para seus desenhos e pinturas. Já então, seu interesse privilegiava a pintura figurativista. O leitor terá no livro um panorama das pinturas e dos desenhos que retratam períodos na vida do artista. Sem que um tema seja exclusivo de um período, há uma certa evolução deles.

Os carros da infância permanecem vida afora, com aviões e outros meios de transporte. Inclusive tanques de guerra. Em um dos tantos almoços para amigos em finais de semana, em que o pintor mudava de artes e usava sua criatividade na cozinha, uma amiga lhe pergunta se ele saberia desenhar para ela um Buick. Era pouco. Ele queria saber de qual ano ela queria o desenho do carro.

1963

O período do ITA (1959-1963) foi o tempo privilegiado, como é para quase todo jovem universitário, às grandes descobertas da vida e ao início de amizades que vão permanecer vida afora. No caso dessa turma de 63, eles viveram a juventude universitária num momento especial, de muita efervecência na vida política e cultural brasileira. O Centro Acadêmico Santos Dumont tinha atuação destacada entre os estudantes, trazendo para dentro da faculdade peças de teatro, filmes, palestras. pH (nome de guerra de José Hamilton Suarez Claro, ou simplesmente Claro, no ITA), se aproxima do Centro Acadêmico. Seu traço fácil, seguro, expressivo, é logo aproveitado para as charges da imprensa estudantil e o jornal mural.

Ulrich Hoffmann e José Hamilton Claro
Ulrich Hoffmann, da turma de 1962, diretor do Departamento Cultural do Centro Acadêmico por duas gestões, recorda a palestra de um representante do IBAD, à qual PH reproduziu depois em um desenho pregado no jornal mural e que eu não encontrei no seu extenso arquivo de desenhos dessa época. (Quantos outros devem ter se perdido!). Na charge descrita por Hoffmann, um homem de costas falando e jogando notas de dólares para uma platéia repleta de estudantes e professores. Sai da boca de dois estudantes (possivelmente o próprio PH e o Fogo – apelido de Hoffmann no ITA), qual história em quadrinhos, as frases: “tantos dólares obscurecerão a luz”; “melhor, combateremos à sombra”. pH precisou explicar depois aos colegas o sentido da ironia, fruto, já naquela época, de seu gosto pela história (1). Na sua biblioteca pessoal, que foi se avolumando ate o final da vida, a estante de História ocupava espaço privilegiado.
Jayme Pires e José Hamilton Claro

No primeiro ano de escola, com um grupo de colegas de turma, aproveitam um feriado longo e empreendem uma viagem de cerca de uma semana que, naquela época e com o pouco dinheiro de estudantes, resultou em uma aventura. Pela fotografia, seu colega de turma Jayme Pires localizou um dos participantes da viagem, Wilson Ferreira, que se lembrou de fragmentos dessa aventura. Vão de São José dos Campos a Brasília. Em Ribeirão Preto se hospedam na casa de um colega. No dia seguinte seguem de ônibus, passando por Itumbiara, Anápolis, Goiania. Em Brasília, o pai de outro colega, Coronel Leal, acomoda todos em um alojamento improvisado da Aeronáutica. Nessa época, a maior parte dos edifícios estava em construção.

Brasília em construção impressionou sobremaneira aquele jovem de 18 anos. São dessa época grande parte de seus desenhos de perspectivas, croquis com proposta modernista de prédios. Há desenhos de cada prédio em construção. Há a proposta de uma série de prédios de uma Universidade em Brasília. Esse interesse não teve continuidade em seus desenhos. Viria a renascer no projeto da casa do Morumbi.

É dessa época também seu interesse pelo tema social, manifesto em pinturas e desenhos. A injustiça social e a pobreza são temas que, para além de sua obra de arte, sensibilizam o cidadão forjado nos embates estudantis para um comprometimento em ajudar na construção de um novo Brasil. Bandeiras de luta que agitavam a juventude brasileira naqueles anos que antecederam ao golpe militar de 1964. Não foi outra a motivação que o levou a aceitar o convite de Hoffman para ir trabalhar na Sudene. A Sudene de Celso Furtado, que naqueles idos de fins de 1963 e começos de 1964, arrebanhava jovens recém formados do Brasil inteiro para o desafio de salvação do Nordeste.

O período do Recife (1964 a 1972), foi marcado pelas conseqüências repressivas do golpe militar de 1964, que expulsou da Sudene a ele e a muitas de suas referências de amizade e trabalho. Cenas de militares aparecem nos desenhos desse período e continuam a ser motivos para seus desenhos, enquanto perduraram os governos militares. Morando no Recife, Olinda era sua paixão – lembranças da arquitetura da infância e adolescência? Na hora de decidir onde comprar sua morada, ele ficou em dúvida entre um casarão bucólico daquela cidade e um moderno e confortável apartamento em Boa Viagem. Seu espírito prático e objetivo levou-o à segunda opção. Algumas paisagens dessa época serão de Olinda. Outras de Salvador, distante de sua vida recifense, pois já não dispunha das férias escolares do tempo do ITA. Lembrada mais nas músicas que povoavam sua vitrola de Dorivais, João Gilbertos, Caetanos, Gils e Gals; nas receitas culinárias à base de dendê. Interiores, cenas de rua e naturezas mortas aparecem também nesse período do Recife, além de seu tema permanente desde o tempo do ITA: figuras humanas.

O período de 1968 a 1973 é parco em produtos. Anos de chumbo na vida política brasileira. Momentos difíceis na vida pessoal – prisões políticas no Recife e início da vida em São Paulo (para onde nos mudamos em 1972). A vida no novo apartamento na Vila Madalena (1974 a 1984) é mais amena e os desenhos e pinturas voltam a povoar a vida do artista. Os meninos pequenos, começo a ver casas para morar. A decisão de construir e não comprar casa velha é do Hamilton. Envolve-o desde o projeto, para o qual preferiu escolher um arquiteto em começo de carreira para que ele pudesse fazer o seu projeto, até a construção propriamente. Ele fazia minha vontade. Com o passar dos anos, foi ele próprio quem mais usufruiu da casa. Com o amplo escritório. Com um espaço na sala que passou a ser seu ateliê de pintura.

Há um crescendo de produção a partir desse período. Três outros fatos foram impulsionadores de sua atividade artística: a decisão de aposentadoria do trabalho para se dedicar inteiramente às atividades artísticas (1998); a compra de um pequeno apartamento próximo de casa para servir como seu ateliê (2000); e o curso de pintura na FAAP (2001).

A escolha das obras que compõem esse livro foi feita por mim e pelos nossos filhos Miguel e Pedro.

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(1) No Vale das Termópilas, Leônidas, com um exército mais fraco, resistia à invasão que o persa Xerxes fazia à Grécia. Xerxes ameaçou a insignificante defesa grega, dizendo: “Minhas flechas serão tão numerosas que obscurecerão a luz do sol”. Ao que Leônidas respondeu: “Tanto melhor, combateremos à sombra”.



Depoimentos de colegas de sua turma no ITA

Do Marangoni em 14/10/16:

O PH foi um saudoso colega de apartamento que desenhava incansavelmente nas horas de "folga" de nossa pesada carga horaria de estudos.

Ver mais depoimentos.



Turma de 1963

Academia Iteana de Letras

Links externos

Referências a José Hamilton Claro em O drama barroco dos exilados do nordeste

Veja também seu relacionamento com Sérgio Motta, lendo da página 42 à 44 neste outro livro:

Sérgio Motta: o trator em ação

Resumo do TG

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