Laízio Rodrigues de Oliveira

De wikITA

Transcrição de e-mail de Abel Nepomuceno para o grupo da Turma Saci em 26 de novembro de 2008:

O Laízio é irmão do Raimundo da t64, um dos que dirigiam nossa comissão de trote, desligado em 64, hoje jornalista, que trabalhou na elaboração de um "Histórias para Contar..." recente, inclusive entrevistando o Brig. Paulo Victor da Silva.

Como o Raimundo era parecido com um ator comediante chamado Danny Kaye ou algum nome semelhante, seu apelido era Dana Key, depois abreviado para DK. Assim, o Laízio recebeu o apelido de KD. Sempre que faziam chamada naquelas reuniões noturnas do bicharal, pronunciando o apelido de cada um de nós que tínhamos que responder para indicar presença, quando chamavam "KD", este respondia "tá aquí".

O Laízio era bom no futebol. Sua saída foi uma perda para nosso time nas O.I.

Texto enviado pelo Laízio em 07/Jan/2013

RECORDANDO

Graças à pertinácia da minha mãe, a Dona Linda, e à ajuda da minha irmã, Leonora, que já vivia em São Paulo, eu e o meu irmão menor, o Leônidas, conseguimos um lugar no Colégio de Aplicação, que era uma espécie de Colégio Experimental da Universidade de São Paulo.

No mesmo Colégio estudavam três outros jovens da minha rua, o Zé Emílio, o Claudio Tozzi e o Bubú. O Bubú é o único, que até hoje eu não consigo lembrar o nome. Na realidade, Bubú já era uma tergiversação do primeiro apelido que lhe demos. Quando às vezes, nós combinávamos para nos encontrar, tarde da noite, na esquina mais próxima de todos, a primeira figura que estava presente no local, era o Bubú, empoleirado na cerca de um vizinho, como se fosse um urubú. Daí, foi somente um passo para Bubú.

Apesar de que, eu não tenha tido nenhuma dificuldade em terminar o Colégio, o salto para a Faculdade já exigia conhecimentos, que infelizmente, o nosso ensino educacional não oferecia. Tanto o Zé quanto o Bubú tinham feito cursinho, eu e o Cláudio, não. Resultado, irrefutável, o Zé e o Bubú entraram na Póli (Escola Politécnica de Engenharia da USP) e, eu e o Cláudio, ficamos a ver navios. O Cláudio tinha tentado na Arquitetura da USP e, eu, no ITA e na Póli. Era o ano de 1963.

Um ano depois do nosso fracasso, o Cláudio entrou na Arquitetura da USP e, eu entrei, não somente no ITA, como também na Póli. Só tenho que ressaltar, que meu irmão Raimundo conhecia um professor de cursinho, que conseguiu uma bolsa de estudos, me possibilitando assim, conseguir os conhecimentos que necessitava. Caso contrário, eu não teria tido a menor chance, como sói acontecer com milhares de outros estudantes, nessa situação.

No final desse ano em que estive me preparando para o vestibular, fui convocado para prestar o serviço militar, porque já tinha mais de dezoito anos e não tinha, ainda, entrado em nenhuma Faculdade. Tendo em vista que eu já tinha terminado o Colégio, eu podia fazer o curso preparatório de oficial da reseva do exécito brasileiro (o CPOR), que havia em São Paulo. Ele começava no final do ano, em dezembro e, se eu entrasse numa Faculdade, faria meu serviço nos finais de semana e tempo de férias. A única salvação que havia, seria se eu entrasse no ITA, porquê, automaticamente, eu estaria admitido no curso preparatório de oficial da aeronáutica, o que me dispensaria do exército.

No final de 1963, eu me apresentei no CPOR de São Paulo e, depois dos exames rotineiros que haviam, fui admitido. O meu problema financeiro com o uniforme, que exigia uma Jacket verde-oliva ou uma espécie de casaco, para entrar e sair do Centro de Preparação, foi resolvido por um capitão, que estava presente, quando eu disse, na secretaria do Centro, que minha família não tinha dinheiro e, que eu não podia comprar tal parte do uniforme. Além disso, eu disse também, que ia prestar os exames para o ITA e, depois que entrasse, estaria dispensado do exército. A maioria dos que estavam presentes sorriram, somente o capitão Jaques não, me perguntando se eu aceitaria, uma Jacket que ele tinha do seu tempo de estudante. Não sei porquê, ele tinha acreditado em mim. Se considerarmos, que eram 5000 estudantes de todo o Brasil que concorriam para 100 vagas no ITA, a crença dele na afirmativa de um desconhecido, como eu o era, tinha ultrapassado todo limite possível.

Me recordo, que nos primeiros dias de 64 eu estava prestando serviço a noite, dentro do complexo do CPOR. Em dois dias, eu teria uma prova de Física do ITA. Como não poderia deixar de ser, eu levei um bom livro para passar a noite. Nós eramos três recrutas do primeiro ano, e um do segundo, que era nosso oficial de guarda. Eu nunca consegui levar muito a sério o subordinamento e disciplina do exército, por isso, quando chegou minha hora de guarda eu levei meu livro junto e, colocando meu fusil de lado, apoiei-me numa mesa que havia na entrada da nossa Companhia e, dediquei-me às últimas leituras que necessitava para minha prova.

Minha grande sorte foi que, o tenente que fazia a ronda pelas casernas, naquela noite, deve ter compreendido minha situação e, não levou em consideração meu posto de sentinela, totalmente desguarnecido. Foi meu amigo do segundo ano, meu oficial de guarda, que me encontrando na mesma situação, deu-me uma tremenda bronca enquanto me perguntava o que o tenente da ronda havia me dito. Eu não soube o que responder, porque, simplesmente, não tinha visto passar ninguém por lá.

Em fevereiro haveria no CPOR, uma tradicional competição esportiva, para verificar qual das três Armas era a melhor. O CPOR é composto, pela Infantaria, Cavalaria e Artilharia. Eu tinha escolhido a Infantaria, O porquê, eu não sei, mas tinha escolhido.

A minha sorte a princípio, foi que, eu era um bom esportista. Eu jogava futebol, basquete, saltava em altura, distância, arremessava pesos, dardo e corria dentro de um limite aceitável. Ou seja, o soldado ideal para a competição esportiva. Além disso, o Coronel Zoel, comandante da Infantaria, esteve no centro de treinamento e, ficou entusiasmado pela minha forma ortodoxa de saltar em altura. Daí resultou um apelido, originado por uma expressão que ele usou, que no final, era como eu terminei sendo conhecido por todos. A partir daí, ele se tornou um fan das minhas proezas esportivas.

No dia 6 de fevereiro de 1964, à tardezinha, minha mãe acabava de sair para o seu trabalho, quando o telefone tocou em casa. Era meu irmão, o Raimundo, que estava telefonando de São José dos Campos, onde ele se encontrava e, que me comunicava que eu tinha passado nos exames do ITA. Eu saí correndo, o mais que pude, atrás de minha mãe, para dar-lhe, naquele começo de noite, a boa notícia. Segundo ela me contou posteriormente, todos os professores e funcionários do Colégio onde ela trabalhava, à noite, a acumularam de congratulações e elogios. Era como se ela tivesse ganho na loteria. E isso era verdade, meus estudos e minha manutenção financeira, estavam garantidos pelos próximos cinco anos, sendo que após minha formação, eu poderia finalmente retribuir um pouco, pelo tanto que já tinham feito por mim. Era como se as portas do paraiso houvessem sido abertas perante mim.

No outro dia de manhã, chegando ao CPOR, me comunicaram que o Comandante Zoel queria falar comigo. Ao entrar no seu gabinete, ele já começou me repreendendo, pelo fato de eu não estar estudando para dar os exames que estavam havendo dentro do CPOR. O que era demonstrado, por algumas provas que ele tinha em suas mãos. Eu lhe respondi, que tinha estado me preparando para os exames do ITA e, por isso, não tinha tido tempo de me preocupar com os exames internos do CPOR. Claro, que ele me fez uma preleção mais longa ainda, me explicando, quase de pai para filho, que o ITA era somente um sonho para a maioria dos pretendentes, devido à imensa concorrência que havia. Por isso, eu deveria me preocupar com aquilo que era real, senão eu iria acabar sendo mandado para cumprir minhas obrigações com o exército, nas fronteiras do Brasil. O que realmente acontecia, quando alguém não passava nas provas que haviam de vez em quando. No entanto, eu não conhecia nenhum caso semelhante. Eu lhe dei uma pausa e, segundos depois, quando lhe comuniquei a minha grande sorte, ele saltou detrás da sua mesa e, me dando um grande abraço de congratulação, saiu me arrastando por todos os rincões da Companhia, vangloriando-se de que mais um membro da sua Infantaria, tinha passado nos exames do ITA. Como, automaticamente, eu estava desmembrado do exército e, passava a pertencer à escola da Aeronáutica, ele me pediu encarecidamente, que lhe fizesse o grande favor de participar dos jogos esportivos, que ainda estavam para ser realizados. O que eu fiz com o maior prazer, garantindo a vitória para nossa Companhia, em futebol e basquete, além de algumas medalhas em atletismo. Mesmo tendo sido meteórica minha passagem pela Infantaria, deixei inúmeros amigos por lá, incluindo o Comandante Zoel e, principalmente, o Capitão Jacques, cuja crença foi plenamente justificada.

Como se diz, o destino tinha lançado suas redes e, eu tinha sido pêgo no seu emaranhado. O problema dalí em diante, seria sair delas, são e ileso.

As portas que deveriam me conduzir à realização de meus sonhos, estavam realmente abertas, a única coisa que eu não podia imaginar, era que, a fronteira entre sonhos e pesadelos fosse um véu tão tênue.

O ITA se encontra na cidade de São José dos Campos, a duas horas de ônibus de São Paulo. Ele pertencia ao conjunto do Centro Tecnológico da Aeronáutica, que abrangia o maior tunel de vento da América do Sul, um campo de aviação onde os estudantes podiam tirar seu brevet de piloto, ou aprender a pular de paraquedas. Além disso, ainda havia naqueles tempos um pequeno observatório astronômico . Depois dos dois primeiros anos básicos, podiamos nos aperfeiçoar em engenharia mecânica, eletrônica ou de aeronáutica.

O CTA possuía um centro habitacional, que consistia na residência estudantil, na residência dos militares que ali serviam, dos que ali tinham vindo para estudar, eram dez cada ano e que vinham de diferentes lugares do Brasil, e das residências para os professores civís, casados e solteiros, contando ainda com um hotel que dispunha para ocasiões e casos especiais.

Para o lazer, ele não devia nada a nenhum clube, três campos de futebol: um para os empregados do Centro, outro para os militares e outro para os estudantes, que ficava próximo à parte mais social. Lá havia uma piscina oficial para diversão e competições, alguns campos de basquete, vôlei e tênis. Um pequeno bar para lanches e refrigerantes, servia como ponto de encontro e, completava o conjunto esportivo do Centro.

Para aqueles, estudiosos, mas caipiras, assim como eu, havia até uma certa timidez na utilização de todas essas benfeitorias. Menos mal que o futebol de campo, de salão e, mesmo o atletismo, nos permitiam uma certa integração nesses meios. Foi inclusive o que me salvou durante o tempo em que lá viví.

Já em meados de fevereiro tive que ir ao ITA para regularizar minha matrícula. Encontrei o meu irmão, Raimundo, junto com alguns colegas numa mesa do refeitório. Como ainda eram férias, eles estavam passando o tempo com algum bate-papo furado. Assim que fui apresentado, fui também considerado, automaticamente, como um dos novos „bichos“. Essa era a denominação que todos os calouros recebiam, durante a quarentena, dos primeiros quarenta dias de vivência no Instituto.

Todo bicho, recebia um nome de bicho, que era colocado por algum dos veteranos e, o qual era escrito numa placa de cartolina junto com o nome verdadeiro, a qual era então pendurada no pescoço do dito cujo; uma argola de papelão que ele tinha que usar sempre que saia das dependências do seu dormitório e, um par de sininhos fixos no pé das calças, que era para que os veteranos pudessem sempre saber onde havia um bicho pelos arredores, caso tivessem vontade, naquele momento, de nos aplicar algum trote. E claro, havia a obediência total aos desejos dos veteranos, que podia resultar numa punição caso não fossen satisfeitos.

Como eu tinha acabado de fazer minha matrícula, fui imediatamente considerado como bicho e, a primeira coisa que recebi, foi meu nome de bicho. Um dos amigos do meu irmão disse quase que num repente: KD, ou seja, esse seria meu apelido. Porquê? O apelido de bicho que meu irmão teve e pelo qual era conhecido era DK, uma abreviatura de Danny Key, um antigo ator norte-americano, com o qual diziam, ele se parecia. Como ele escrevia para o jornal estudantil, sob esse pseudônimo, assim era conhecido de todos. Eu de minha parte, fiquei feliz com meu nome de bicho. Era ao mesmo tempo, um sinal da minha aceitação naquele mundo encantado, privilegiado, de uma pequena elite do estudantado brasileiro.

Em março começaram as aulas. Eu, assim como muitos outros, tinhamos ainda que fazer o serviço militar, só que agora, no Curso Preparatório de Oficiais da Reserva da Aeronáutica, que também fazia parte do CTA. Toda quarta-feira, à tarde, tinhamos classe e treinamento militar. Não sei porque, mas nunca consegui levar a sério essa parte das minhas vivências.

No programa dos bichos, estava programado para a segunda semana um torneio de atletismo, afim de serem identificados os novos talentos. Como eu de tudo fazia um pouco, não foi dificil conseguir garantir meu lugar entre os primeiros. Cumprindo fazer menção, do primeiro lugar que conquistei em arremesso de dardo, que tinha aprendido quando fiz o CPOR do exécito e, que já tinha me dado, também, uma medalha de primeiro lugar no torneio interno, que tinha participado. A única razão dessa menção, foi que eu quebrei o récorde antigo dos bichos, que era de 27 metros e pouco, arremessando o dardo a 45,10 m de distância. Creio que essa marca ainda se mantém até hoje. Infelizmente, o recorde oficial dos alunos que era de 49,50 m continuou intacto. Aliás, eu ganhei inúmeras medalhas em outras competições, mas nunca mais consegui alcançar essa marca inicial. Creio que naquele dia o Deus Vento estava a meu favor.

No futebol, meu lugar na seleção do ITA ficou indiscutível desde o primeiro treino. O manejo com a bola era uma herança de meus tempos de Pacaembu. Numa pequena cidade com um campo de futebol, a garotada não tinha muita alternativa para as horas de folia de fins de tarde, a não ser os rachas tradicionais que organizávamos quase todos os dias. Com um pouco de molecagem e outro de malandragem acabei me entendendo bem com a pelota, descobrindo finalmente que ela era redonda.

Meu irmão, eu só via ocasionalmente, ele cuidava de sua vida e eu da minha. Os idos de março já haviam passado e, não havia nos ares nenhum sinal de tormentas ou cataclismas. Uma espécie de calmaria dominava todo o ambiente, tudo se desenvolvia dentro de suas rotinas costumeiras. Os bichos fazendo sua bicharias e os veteranos suas veteranadas. Eu estava vivendo no melhor dos mundos possíveis.

Era uma quarta-feira, tem que ter sido uma quarta-feira, umas cinco horas da tarde, eu tinha acabado de voltar do CPOR quando um dos bons amigos do meu irmão me procurou, dizendo que precisava falar comigo a sós. Eu dividia o quarto em que morava com um outro colega, que estava lá naquele momento, o Téquinfim, esse era seu nome de bicho, porque ele tinha tentado entrar no ITA inúmeras vezes, até finalmente conseguir ser aprovado. Depois que o Téquinfim, sem ter entendido a razão, saiu, esse amigo me disse que o meu irmão havia sido preso, aliás não somente ele, como outros mais e, inclusive dois professores. Eu estava calmo, mas só que não estava entendendo nada, ou talvez, meu cérebro se recusasse a entender alguma coisa. Ele estava me contando que tinha havido um golpe militar no país e, que meu irmão e os demais estavam a tempo numa lista negra dos militares que dominavam o ITA. Para onde eles foram levados ninguém sabia, mas não estavam mais no CTA. Ele e outros amigos não podiam tomar nenhuma iniciativa em favor deles, porque corriam o risco de sofrerem as mesmas consequências. E, se eu por acaso, soubesse algo em particular sobre a vida política do meu irmão, deveria esquecer e manter a boca fechada.

A calmaria tinha dado lugar a tempestades. Não, furacões que devastaram o meu íntimo, deixando um imenso vazio que ocupou todo meu ser. Apático eu mirava meu amigo que continuava falando, sem que no entanto nenhum tom chegasse até mim. Percebendo meu estado ele procurou trazer-me de volta à realidade, da qual eu tinha procurado escapar, por não poder entendê-la mais.

Finalmente, ele me aconselhou a viajar para São Paulo, afim de que eu transmitisse aos meus pais o que havia ocorrido. Depois de mostrar-me algumas variantes de como eu poderia dar a péssima notícia, evitando que o choque fosse muito forte, ele deu-me um dinheiro para pagar a passagem, que segundo ele alguns amigos haviam coletado para mim.

Como eu já disse, eu nunca tinha me preocupado com a política e, que meu irmão tivesse uma vida política, nunca me passou pela cabeça. Além do mais, ele nunca tinha me dito e nem comentado algo comigo nesse sentido. Talvez porque não me julgasse maduro para tanto, mesmo com meus 20 anos, ou porque então, talvez achasse perigoso o que fazia e não queria ser responsável pelo que pudesse passar comigo também. De todo jeito, até hoje, eu nunca discuti essa questão com ele.

O golpe militar foi bem sucedido. O dia da mentira tinha se tornado numa verdade dura, nua e crua, que dilaçaria a sociedade brasileira durante muitos anos. Não somente meu irmão, como milhares de outros que tinham pensamentos, que pudessem ser considerados nocivos à ditadura militar que estava se formando, foram todos, primeiramente encarcerados, para somente depois serem julgados se eram culpados ou não daquilo que lhes impigiam.

O Raimundo e seus companheiros de desdita, foram levados para um campo de concentração da Aeronática que ficava numa ilha perto de Santos. Quase toda semana descia alguém da minha família para visitá-lo, eu mesmo estive duas vezes por lá. Eles eram acusados de pertencerem ao famoso grupo dos onze do Brizola e, que tinham por objetivo destruir uma grande ponte na região. Da inveracidade de tal acusação não é necessário comentário, basta a verdade histórica. Junho de 64 eles foram todos soltos por falta de prova. No entanto, mesmo assim, nenhum deles pode voltar a ocupar o lugar a que tinham de direito, tendo em vista a falsidade das acusações que lhes foram imputadas. Como eu soube depois, a direção militar do ITA já tinha tentado por duas vezes, através de falsificações de notas expulsar o meu irmão da Escola. Somente graças à intervenção de colegas, essas falsificações foram descobertas a tempo e ele pode continuar seus estudos.

Anos depois ele me contou, que no dia em que saiu a lista dos aprovados para o ITA, ao ver meu nome ele comentou em voz alta, que seu irmão havia entrado. Logo em seguida, um outro aluno presente replicou: E, como foi que deixaram? Ou seja, se naquela época a direção militar do ITA houvesse sabido, que nós éramos irmãos, eu teria sido expulso de lá, sem nunca ter tido entrado. Ironia do destino que me quiz submeter a essa prova.

Eu permaneci mais dois anos no ITA, até ser expulso, oficialmente, no começo de 1966, por ter notas insuficientes. O telegrama de expulsão, recebi nas férias de janeiro quando estava em casa e, nem me passou pela cabeça tentar discutir a razão do mesmo.

Durante esse tempo no ITA, eu procurei nos livros da biblioteca, encontrar um sentido e uma explicação para o que era a política. Nenhum dos amigos do meu irmão, que por lá ficaram, se atreviam a discutir ou sequer me orientar com relação a essa temática. Aqueles que eram considerados de direita, às vezes tentavam me envolver numa discussão política, por algum motivo especial, mas logo desistiam, porque eu realmente era um analfabeto completo nessa questão. Isso talvez tenha contribuido, para que eu ainda permanecesse tanto tempo na Escola.

Quando eu voltei no começo do segundo ano, encontrei-me com o professor destacado para ser meu conselheiro naquele ano. Cada grupo de alunos tinha um professor como conselheiro, que os ajudava a resolver problemas quando haviam. No nosso primeiro encontro a sua pergunta clara e direta foi: Como é que eu tendo visto o que havia se passado com meu irmão e sabendo que eles (os militares que, naquele momento mais do que nunca, dirigiam o ITA) pensavam a mesma coisa com relação à minha pessoa, ainda tinha tido a coragem de voltar para continuar estudando lá? Eu tentei contestar que acreditava nos direitos que tinha e, por isso eles jamais fariam algo fora da lei. Ele apenas abanou a cabeça e não me disse mais nada. Agora eu sei que ele tinha toda razão. Mas, eu sabia, também, que apesar de tudo isso, aquele era o único lugar onde as despesas para meus pais eram as mínimas possíveis. Eu não podia dar-me ao luxo de abandonar o ITA, de livre e espontânea vontade.

Mas, a roda do destino continuava girando e, eu era apenas um joguete no seu vai e vem. Começo de dezembro de 1965, às cinco horas da tarde, mais ou menos, uma equipe de futebol que eu havia formado estava realizando um jogo de despedida contra o pessoal do último ano, que praticamente, já havia concluido o ITA. Os últimos exames eram, simplesmente, mera formalidade.

De repente chegou até a borda do campo, um jipe da aeronáutica com um sargento e dois soldados. O sargento mandou parar o jogo e chamou dois dos nossos colegas do quinto ano, um deles era um dos grandes amigos que tinha naquela turma, o Mário. Quando perguntamos ao sargento, que conhecíamos do CPOR, qual a razão daquilo, ele respondeu, que tinha recebido ordens de acompanhar os dois até o alojamento deles, para que recolhessem seus pertences e depois levá-los para fora do CTA, pois eles tinham sido expulsos do ITA. Aliás, no total foram quatro os expulsos naquele dia fatídico.

O jogo perdeu o seu sentido de ser e, resolvemos avisar a todos que podiamos, para irmos protestar na frente do Instituto, contra mais essa arbitrariedade das autoridades militares que eram as verdadeiras responsáveis pelas expulsões. Em menos de meia-hora, éramos um grande grupo de estudantes na frente da reitoria, que exigiamos a presença do reitor, para que ele justificasse o injustificável.

Ele não apareceu, mas uma hora depois o brigadeiro-chefe do Centro Tecnológico da Aeronáutica, ao qual o ITA pertencia, surgiu acompanhado de uma curriola de oficiais. E, a primeira coisa que disse foi, que o assunto era algo interno do Centro e, que nós não tínhamos o que fazer alí. Tudo o que dizia era em voz alta e bom tom, como se estivesse se dirigindo a suas tropas. Aliás, ele estava ordenando e, não pedindo que abandonássemos o local..

Meia hora depois, como a maioria ainda continuava presente espalhada pelo local, ele gritou novamente, afirmando que era melhor nos recolhermos, pois já havia uma tropa em marcha dirigindo-se para lá e, então, a coisa seria bem pior para nós. Enquanto aguardavamos tal tropa eu e um amigo, o Zago, hoje diretor de um departamento da UNICAMP, nos sentamos na beira da calçada, a poucos metros donde se encontrava o brigadeiro e seu grupo. Os demais colegas se encontravam na nossa frente e pela vizinhança.

O brigadeiro notando que ninguém fazia menção de abandonar o local, começou a gritar novamente e isso, praticamente, nas minhas costas e do Zago. Diante da costumeira falta de reação, ele resolveu usar a tática de dirigir-se diretamente a um dos participantes e, os mais próximos eram eu e o Zago. E o Zago foi sorteado para ser o primeiro. Falando às suas costas lhe exigiu, ordenou, para que se levantase e fosse embora. Como o Zago não se mexeu do lugar, ele que estava por detrás deu duas cutucadas com o sapato na traseira do Zago para mostrar concretamente que era com ele que ele estava falando. A reação do Zago foi instantânea, ele saltou furioso para a frente e quando girou para responder ao brigadeiro, os colegas nossos que estavam ao lado o seguraram e, o retiraram revoltado dali. A primeira ação do brigadeiro tinha surtido seu efeito.

Eu tinha presenciado toda a cena, sentado a um metro de onde o Zago tinha saído. Naquela época, eu usava de vez em quando um chapéu de palha, que tinha ganho de um amigo cujo pai era fazendeiro. E ocorreu, que eu estava com ele posto naquele fim de dia, que parecia ser fim de muitas outras coisas também.

Como o brigadeiro tinha notado um certo sucesso no método empregado, creio que ele resolveu continuar com o mesmo tratamento. E eu era o mais próximo. Enquanto isso, mil pensamentos giravam na minha cabeça. E se ele me chutar também, que faço? Lhe puxo pelo pé, derrubo ele, me engalfinho com ele, enfim, que faço com esse cara? Logo estava ele atrás de mim, destilando a mesma ladainha que havia empregado para tentar convencer o Zago. Uma sensação de frio tinha tomado conta do meu estômago, enquanto meu corpo se tensionava totalmente. Ele compreendeu, que eu também não iria levar em consideração as suas ordens, mas, por sorte minha, creio que a reação do Zago lhe impressionou um pouco e, além disso eu era bem maior do que o Zago, por isso em lugar de me cutucar com o sapato ele tirou o chapéu da minha cabeça, tornando a repetir que eu me levantasse e fosse embora. Eu me levantei e, tremendo de raiva, dirigi-me a ele, dizendo-lhe que devolvesse o meu chapéu. Ao seu lado se agruparam os oficiais, enquanto alguns colegas se aproximaram de onde eu estava. Enquanto nos encarávamos, ele respondeu finalmente, que me dava o chapéu mas eu tinha que ir embora. Quando meus colegas notaram, que eu já estava estendendo a mão para pegar meu chapéu de volta, sem querer fazer nenhum compromisso, me seguraram e puxaram para trás enquanto um deles recebia meu chapéu das mãos do brigadeiro. Alguns colegas me perguntaram depois se eu tinha enlouquecido, pois se eu tocasse no brigadeiro teria sido morto com toda certeza.

Eu, realmente, não tinha avaliado bem a situação. Mais do que pela razão eu tinha me deixado levar pelos instintos. Era aquela raiva pura, advinda da impotência de não podermos fazer algo contra aquele abuso do poder e, contra a prepotência daqueles que se julgavam acima de todo e qualquer direito, até então vingente. Essa foi minha primeira confrontação direta contra a ditadura militar brasileira, contra aqueles que se diziam os donos do poder. Eu ainda não tinha uma consciência política do que estava se passando no nosso país. Eu nem conhecia a palavra imperialismo e muito menos comunismo. A luta de classes não me dizia nada, porque nunca imaginei que as classes lutassem entre si. Enfim eu era aquilo considerado, um alienado político. Porém, apesar de tudo isso, algo estava se tornando bem claro e visível em minha mente, eu podia não ter idéia do porquê das coisas, mas eu era em princípio contra aquela tal de ditadura militar que espezinhava e aviltava direitos fundamentais do ser humano, como eu já tinha constatado quando meu irmão foi preso e, agora com aquela expulsão arbitrária dos meus colegas do último ano.

Mesmo a contragosto, os poucos alunos que tinham ficado, foram abandonando o local. Eu entre eles. Os alojamentos estudantís eram três blocos, A, B e C, e ficavam a uns 500 metros do Instituto em si, onde estava a reitoria. Eu e mais uns quinze colegas morávamos no bloco B e, já estávamos a uns dez metros dele, quando percebemos que um pelotão de 20 soldados, em duas filas de dez, sob o comando de um sargento, nosso conhecido, se movimentava em nossa direção. Todos paramos para saber o que se passava. O sargento assim que chegou, parou a tropa a uns cinco metros de onde estávamos e, começou a bradar que tinha recebido ordens de não permitir mais ninguém pelas ruas do CTA. Tinha sido declarado o toque de guerra. Como nós conheciamos o sargento, tentamos nos aproximar dele para sabermos mais detalhes do que estava se passando. Não sei o que lhe passou pela cabeça, mas ele deu imediatamente ordens ao pelotão, que já estava virado na nossa direção, para preparar armas. Como alguns colegas estavam se aproximando dele, ele ordenou que os fusís fossem calados e apontados para onde estávamos. Felizmente um dos nossos que estava mais próximo dele, lhe convenceu de que o que nós justamente estávamos fazendo, antes dele chegar, era ir para o alojamento, portanto, ele não precisava se preocupar que suas ordens seriam cumpridas. Durante segundos que pareceram horas, nós ficamos olhando para as pontas daquelas baionetas, até que um foi puxando o outro esvaziando completamente o local.

O interessante é que aquele sargento, era um dos mais queridos e estimados entre os estudantes que fizeram e faziam o CPOR. Mas naquela noite, o amigo havia desaparecido, diante de nós havia estado uma peça da engrenagem militar. A única coisa que sempre me perguntei foi, se ele teria mandado disparar se não houvessemos saido do local. Não sei o que lhe passou pela cabeça, no entanto custa-me acreditar de que ele estivesse blefando.

A uns 20 metros do bloco B estava o bloco C e, lá havia uma pequena lanchonete onde um e outro podia ainda comprar um lanche ou refrigerante até certa hora da noite. Depois de pular a janela do meu quarto, para evitar qualquer encontro indesejável com o pelotão do sargento, eu cheguei à lanchonete onde estava reunido um grupo de conhecidos do quinto ano, comentando os acontecimentos do fim de dia. Menos de meia hora depois ouvimos o rolar de tanques pelas ruas do CTA. Uma tropa blindada de Guaratinguetá, uma cidade próxima, tinha sido enviada a pedido do brigadeiro, para acalmarem os nossos ânimos e evitar qualquer tipo de insubordinação possível.

Em pouco tempo surgiu onde estávamos, um major do exército todo empavonado em seu traje de guerra, também acompanhado por alguns oficiais. Ele mais se destacava pelo traje do que pela estatura, que não o realçaria em lugar nenhum. Era a arrogância em pessoa. Assim que chegou, foi logo comunicando que estava ali para evitar confusões e arruaças. Pois quem fazia confusões e arruaças eram os comunistas e, ele odiava comunistas. Além do mais ele sabia muito bem que ali, entre nós que haviamos nos reunido diante dele e seu grupo, não havia nenhum comunista, pois se houvesse ele mataria naquele mesmo momento. Em seguida, sacando uma automática que tinha no seu coldre, girou-a diante de nossos narizes, enquanto continuava dizendo: Tem comunista aquí, tem comunista ... Em poucos segundos havia um vazio ao seu redor, somente sobrando o grupo que lhe acompanhava. Era a segunda arma apontada na minha direção naquela noite e, apesar do fusil ser uma arma respeitável ele não estava tão perto do meu nariz como aquela automática. Eu não sei porquê, mas ela me pareceu um canhão e, embora eu não seja nenhum medroso eu me afastei, porque tinha cem por cento de certeza, que aquele nanico de m...., realmente faria o que estava afirmando. Os seus olhos e suas atitudes refletiam um certo fanatismo, que não auguravam nada de bom.

Praticamente aquela noite foi minha despedida do ITA. No outro dia, eu e o Zago fomos convocados a comparecer perante o brigadeito, que nos deu uma repressão verbal, enquanto exaltava a necessidade da disciplina, da ordem e do progresso, para a grandeza da pátria.

Deixei não somente centenas de amigos no ITA, mas também meus sonhos de adolescente, uma nova etapa se anunciava e, o véu que tinha obliterado minha visão da realidade em que estávamos vivendo, começava a desnuviar-se. Era impossível não perceber, mais, que algo estava podre no reino da Dinamarca.

Dizem que a história se repete, mas, de forma espiralada e em níveis superiores. Assim, arrastado pelas forças invisíveis que norteiam nossos destinos, aí ia eu, à deriva das ondas e ao sabor dos ventos, em busca de um porto seguro.

O fato de eu ter estudado no ITA, foi razão suficiente para ser admitido no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, onde foram, automaticamente reconhecidas, todas matérias que eram similares. Depois de considerados e ponderados, todos os “sim e não“, fui aceito no segundo ano da Física.

Nova cidade, nova escola e, por sorte, novos amigos. Anos mais tarde, eu ouviria uma frase muito comentada, que dizia: “A luta é longa e árdua“. Eu de minha parte completaria: “e incerta“. Muitos ficam frustados por não verem a realização de seus sonhos, no entanto, isso faz parte dos sonhos. Para mim, o fato de sonharmos é o que nos eleva acima da categoria dos mortais comuns, que só se preocupam com o “nascer, viver e morrer“, como etoa numa velha canção.

O Ênio, um senhor de uma certa idade, uma espécie de guia espiritista, que conheci muitos e muitos anos mais tarde, através de minha irmã Leonora, que era dada a essas coisas do outro mundo, me disse que, ao contrário da matéria, onde os “polos iguais se repelem“, entre os espíritos funciona essa lei, justamente ao revés, “os polos iguais se atraem“. Por isso, as pessoas que possuem os mesmos interesses, que se dedicam a projetos sociais, humanitários ou filantrópicos, que se preocupam pelo bem estar dos seus semelhantes e que dão à vida o devido valor que ela merece, essas pessoas possuem a mesma afinidade e, consequentemente são irmãs espiritualmente.

Quando nós lutamos pelos mesmos sonhos, nós temos algo em comum e isso nos irmaniza durante a luta. Somos todos peregrinos do mesmo caminho, caminho esse que se estabelece e solidifica com nosso próprio caminhar.


Abraços a todos,

Laizio.

e-mails: laizio@t-online.de ; aschupke@aol.com


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