Paulo Gonçalves Serra

De wikITA

O CAMINHO DO CRISTO E O DAS RELIGIÕES NO MUNDO".


Há quase dois mil anos veio a este mundo o Cristo, o Filho de Deus, lídimo e único representante da Divindade na Terra, o Salvador da humanidade.

Correu pelo povo, na época, a notícia de que havia nascido o novo Rei dos judeus, o que assustou e preocupou o rei Herodes e certamente todos quantos, junto a este, preocupavam-se em manter o poder e a glória terrenos, aparentemente ameaçados pelo nascimento de Jesus, descendente do rei Davi. Entretanto, Jesus, o Cristo, deixou bem claro a todos, de todos os tempos, que o seu reino não era deste mundo, quando falou diante de Pilatos na fase final de sua missão: “O meu reino não é deste mundo: se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus: porém agora o meu reino não é daqui” (João, 18). Portanto, não sendo o seu reino deste mundo, e sendo Ele o Filho de Deus na Terra, vindo com a missão de Salvador da humanidade, seus objetivos só poderiam ser outros, muito diferentes daqueles que resultam das ambições e interesses humanos, podendo-se daí, deduzir de imediato, claramente, como conseqüência óbvia, que a salvação trazida, ensinada e exemplificada pelo Cristo, é atingida por outros caminhos que não contém objetivos materiais e apego às coisas terenas. Vejamos as palavras do Mestre: O Tesouro no céu: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam” (Mateus, 6). “Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corrompe, e onde os ladrões não minam nem roubam” (Mateus, 6). “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mateus, 6). As instruções para os doze: “Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre nos vossos cintos” (Mateus, 10). “Nem de alforge para o caminho; nem de sandálias, nem de bordão: porque digno é o trabalhador do seu alimento” (Mateus, 10). A ansiosa solicitude pela vida: “Por isso vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?” (Mateus, 6). “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis muito mais do que as aves?” (Mateus, 6). “Qual de vós pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (Mateus, 6). “E porque andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campos: eles não trabalham nem fiam” (Mateus, 6). “Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como quaisquer deles” (Mateus, 6). “Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?” (Mateus, 6). “Portanto, não vos inquieteis, dizendo: que comeremos? Que beberemos? ou com que nos vestiremos?” (Mateus, 6). “Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas” (Mateus, 6). “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus, 6). “Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mateus, 6). O jovem rico: “Eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei de bom, para alcançar a vida eterna?” (Mateus, 19). “Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” (Mateus, 19). “Replicou-lhe o jovem: tudo isso tenho observado; que me falta ainda?” (Mateus, 19). “Disse-lhe Jesus: se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me” (Mateus, 19). “Tendo porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades” (Mateus, 19). “Disse então Jesus aos seus discípulos: em verdade, em verdade vos digo que um rico dificílmente entrará no reino dos céus” (Mateus, 19). “E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Mateus, 19). “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e herdará a vida eterna” (Mateus, 19). Se o caminho exemplificado e ensinado pelo Cristo não é de construções e conquistas materiais, da Terra, só pode ser de construções e conquistas espirituais, do espírito. Mas, então, quais são, afinal, essas conquistas do espírito? Ora, o espírito, que é imaterial, só pode construir e acumular qualidades, também chamadas de qualidades da alma, positivas ou negativas, que permanecem fixas em si próprio, que dão, no seu conjunto, o exato valor de cada criatura, que constituem a sua única e real identidade, a sua verdadeira personalidade. Mas por que essa construção no espírito, na alma? Inicialmente devo dizer que a vida a que se destina o espírito, eterno e imortal, a vida que vai ser vivida por ele é aquela vida eterna, verdadeira, fora da matéria, oposta à humana, terrena, que é só uma passagem rápida pelo mundo material, transitória e cheia de ilusões para todos, principalmente para os que, não crendo na vida espiritual, consideram a vida terrena como a única forma de vida existente e objetivo principal da criação divina. Disse o Cristo: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e verdade” (João, 4). Portanto, se o espírito é destinado a viver aquela vida espiritual verdadeira, eterna, imaterial, terá que, forçosamente, preocupar-se com o que levará dentro de si como sua bagagem. As única coisas reais que podemos, como espíritos que somos, levar conosco como nossos bens, que darão a Deus a exata medida do que realmente somos, serão unicamente as qualidades que tivermos construído em nossos espíritos, a despeito de quaisquer aparências que tivermos conseguido manter na vida terrena. Torna-se, portanto, óbvio que o maior objetivo de cada um de nós, espíritos, deveria ser a formação de qualidades que tenham valor na vida eterna. O Cristo, provindo exatamente dessa vida espiritual de que estamos falando, por ser conhecedor dela na sua plenitude e profundidade, por ser perfeito e viver no nível da perfeição espiritual junto a Deus, e sabendo ser essa vida o destino de todos pela vontade de Deus, que a criou, só poderia ter vindo ao nosso mundo para mostrar o caminho dessa construção de qualidades positivas na alma, e não poderia ser diferente, pois Ele sabe, mais que todos, que essas qualidades serão o único patrimônio possível de cada um de nós na vida eterna, a real e única identidade espiritual de cada criatura diante de Deus, como já dissemos antes. É este, pois, o caminho do Cristo: a conquista pela alma das virtudes apresentadas por suas palavras relatadas nos evangelhos, virtudes chamadas, por isso, de qualidades evangélicas. Tal conquista significa evolução espiritual na direção de Deus. É importante que fique bem claro para todos, que para chegar a Deus só existe o caminho exemplificado pelo Cristo. Isto é sério. Qualquer outro caminho pregado por filosofias e religiões da Terra, sejam elas quais forem, não passará de mera ilusão que não levará a resultado algum em termos daquela vida eterna de que viemos falando até aqui. Se assim não fora, o Cristo não teria dito: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João, 14). Já ao pronunciar suas primeiras palavras no início de sua missão na Terra, o Cristo, num lampejo, mostrou um quadro de qualidades evangélicas de alma e a glória alcançada no final da jornada por aquele que percorrer a sua verdadeira estrada, a da reconstrução da alma. Essas primeiras palavras foram as bem-aventuranças, no sermão da montanha (Mateus 5, 1-12), que são uma clara chamada a esse trabalho de reconstrução. Não somente as bem-aventuranças, mas toda a palavra do Cristo é sempre uma chamada a esse trabalho, e definição dos objetivos da formação das qualidades de alma de teor evangélico. Esse caminho de reconstrução é conseguido pelo esforço perseverante de transformação de sentimentos, impulsos, desejos, tendências, gostos e paixões, numa substituição do que é velho pelo novo, substituição de qualidades de teor negativo, inferior, humano, por aquelas outras, evangélicas, que lhe são opostas. Como todas as nossas qualidades de alma, positivas ou negativas, são o mesmo que nossos sentimentos, impulsos, desejos, gostos e paixões, que tem sede em nossos corações, esse trabalho de transformação das qualidades, só pode ser realizado no e pelo coração; é, portanto, a reforma do que existe de inferior no coração. Disse o Cristo: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem” (Mateus, 15). “Mas o que sai da boca procede do coração, e isso contamina o homem” (Mateus, 15). “Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, formicações, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mateus, 15). “São essas coisas que contaminam o homem; comer, porém, sem lavar as mãos não contamina o homem” (Mateus, 15). “Bem aventurados os limpos de coração porque verão a Deus” (Mateus, 15). É fácil agora ver-se claramente que esse esforço de transformação é por sua natureza, toda interior e, portanto, individual, e não pode mesmo ser de outra forma. Daí a razão por que de nada vale viver-se na repetitividade de práticas exteriores das religiões do mundo, porque tais práticas, justamente por serem exteriores, não podem, de modo algum, substituir aquele esforço todo interior de reconstrução da alma, única via de sua transformação. Assim, tais práticas, com suas pregações vazia do evangelho, deixam a criatura automaticamente fora da estrada do Cristo, a despeito das mais belas e reluzentes aparências que possam ser emolduradas. Disse o Cristo: “Pois que aproveita ao homem, se ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? ou que dará o homem em recompensa de sua alma?” (Mateus, 16). “Nem todo o que me diz: Senhor! Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mateus, 7). Uma outra conseqüência evidente de tudo o que foi mostrado até aqui: pela natureza da estrada do Cristo, toda interior e do coração, a criatura não necessita de intermediários humanos; estará sempre só, diante de Deus, nesse esforço de transformação de seu íntimo. O único intermediário entre a criatura e Deus é o Cristo. Salvação, é, pois, essa transformação da alma na aquisição das qualidades evangélicas que fazem a criatura aproximar-se de Deus. Salvar-se é, portanto, entender e realizar essa transformação. Salvador, único, foi e é Aquele que exemplificou e ensinou na Terra esse caminho da salvação: o Cristo. O caminho do Cristo significa, em outras palavras, evolução para a perfeição, e essa é a vontade, determinação de Deus, para todas as criaturas humanas que, fatalmente, um dia terão que tomá-lo para si e percorrê-lo por inteiro. Disse o Cristo: “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota nem um só til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mateus, 5). “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus, 5). O tempo passou, e depois desses quase dois mil anos desde a vinda do Cristo, a humanidade não sabe qual é o verdadeiro sentido de suas palavras e, em consequência, não sabe andar no seu caminho porque, de fato, não o conhece e, por isso, não faz o que é da sua vontade e vontade de Deus, e essa situação é muito grave. As religiões existentes no mundo, sem exceção, portanto, incluindo a Católica Apostólica Romana, não dão à humanidade esse entendimento, porque também não o alcançaram. Como resultado, as religiões construíram-se, estabeleceram-se e mantêm-se hoje com práticas e rotinas somente de ações exteriores, para as quais são voltadas todas as suas exigências, muitas vezes até bem severas, práticas enfatizadas e reafirmadas como importantes pelo próprio exemplo de seus dirigentes. Esses aspectos são mais evidentes na Religião Católica, pela enorme dimensão de sua organização no mundo, império terreno, pela notoriedade de seus atos, enfeitados de erudição, e pelas grandes massas humanas movimentadas para o seguimento de suas práticas. Tal estado de coisas, além de não dar à humanidade a compreensão exata da salvação do Cristo, leva todos a admitirem que, para agradar a Deus e resolver o problema individual em termos de vida eterna, baste o cumprimento fiel dessas rotinas e não seja necessário modificar alguma coisa da vida que se vive e se gosta de viver no mundo, como se tais rotinas pudessem substituir aquele caminho de esforço, todo interior, numa reflexão profunda de si mesmo, de seus atos e pensamentos, de forma constante, para a transformação da alma, como se essas mesmas práticas fossem de fato a estrada capaz de levar alguém para o céu. Disse o Cristo: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mammon” (Mateus, 6). Com isso, ficou implantada uma situação de fato muito difícil, diria mesmo, impossível de ser modificada agora: pela consolidação definitiva de todos esses procedimentos através dos tempos, não há a preocupação do homem da religião, dirigente ou dirigido, da busca ardorosa de um entendimento cada vez maior dos ensinamentos do Cristo, para aplicação deles na vida pessoal de cada um, no desenvolvimento daquele esforço íntimo, individual, do coração, de transformação dos sentimentos, impulsos, gostos e paixões, objetivo a alcançar em vista da vida espiritual que espera cada um de nós, como já foi explicado antes. A própria divulgação clara e aberta da realidade dessa vida do espírito, que continua com naturalidade após a morte, não é feita pela quase totalidade das religiões, inclusive a Religião Católica. Em seu lugar, é feita uma menção vaga a uma certa vida eterna, de forma enigmática, pouco clara e objetiva, que não é entendida e vista pelos seus fiéis com a realidade com que assunto tão simples, importante e fundamental, precisaria ser conhecido por todos. A passagem da vida terrena para a espiritual é um fenômeno natural que significa apenas uma mudança na forma de viver, pois, na verdade, a morte não existe. A vida espiritual é ativa e organizada, onde cada um continua a ser o que é, vive plenamente consciente e é situado no nível evolutivo que corresponde aos valores (qualidades de teor evangélico) que tem no coração. Cristalizou-se em cada religião uma verdade particular, que se resume na maneira própria que cada um tem de ver, entender, usar e apresentar a vida que foi deixada pelo Cristo, ficando o esclarecimentos dos seus fiéis limitado ao que lhe apresente a sua religião. O sentido de tudo que foi exemplificado e disse o Cristo não foi alcançado e não é buscado. Torna-se, por isso, grave a situação e grande, consequentemente, a responsabilidade das religiões, porque, além da vida passar para todos sem que se avance um só milímetro na via da transformação interior, permanecerá a ilusão de que se está de fato garantindo o céu, tudo isso por ser trilhado um caminho que não é o caminho do Cristo. Estas palavras foram escritas com um grande desejo que cada um faça uma profunda e séria reflexão também. Que o Cristo ilumine a mente e o coração de todos.


Paulo Gonçalves Serra


Roma, novembro de 1990

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