Paulo Victor da Silva

De wikITA


1921 - 2009

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Inovador e um grande brasileiro

Paulo Victor batizou a aeronave Bandeirante, cuja fabricação inaugurou a Embraer, com toda a carga simbólica que a expressão Bandeirante carrega: pioneiros construtores da integração nacional, founding fathers da pátria brasileira, desbravadores da imensidão continental do Brasil. Comandou o CTA entre 1966 e 1973 e foi um dos principais responsáveis pela fundação da Embraer. fonte

Foi o segundo presidente do CASD

Avião Bandeirante

Tenente Brigadeiro do Ar Paulo Victor da Silva Correio Aéreo Nacional


Imagens: arquivo da Embraer



Uma vida dedicada ao Brasil

  • 1921 - em 10 de outubro, nasce em Belém, no Estado do Pará
  • 1940 - inicia a carreira militar, Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro
  • 19xx - entra na Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos e começa a pilotar, como aspirante-a-oficial, em missões de patrulhamento no País
  • 19xx - Correio Aéreo Nacional
  • 1950 - entra no ITA
  • 1953 - forma-se engenheiro
  • 1954 - chefe da Divisão de Tráfego da Diretoria de Aeronáutica Civil (DAC), no Rio de Janeiro
  • 1956 - em 10 de fevereiro, a Revolta de Jacareacanga
  • 1966 - nomeado para a Direção do CTA, de 1966 a 1973, onde desenvolveu papel fundamental no projeto IPD-6504, o futuro avião Bandeirante
  • 1969 - promovido a Brigadeiro-do-Ar e, com o sucesso do Bandeirante, dedica-se a implantar a indústria aeronáutica no Brasil
  • 1969 - Decreto-lei nº 770, de 19 de agosto de 1969, cria a Embraer
  • 1973 - designado Adido Aeronáutico em Washington DC, nos Estados Unidos
  • 197x - Diretor de Eletrônica e Proteção ao Vôo
  • 1979 - promovido a Tenente-Brigadeiro do Ar
  • 1981 - deixa o serviço ativo da FAB, passando à reserva
  • 2009 - em 27 de dezembro, morre aos 88 anos, no Rio de Janeiro, deixando um importante legado de inovação e cidadania.

O ITA na sua hora mais difícil

A história é contada geralmente pelos vencedores. Esse é o caso: Pedro John Meinrath e eu, os responsáveis por este texto e pela edição dos depoimentos apresentados a seguir, somos ex-iteanos relativamente bem sucedidos – praticamente viramos jornalistas. Pedro John formou-se no ITA e foi executivo na Editora Abril, nos Diários Associados, no Grupo Visão. Eu, expulso do ITA no começo do quinto ano em 1964, fui editor de algumas publicações de grandes empresas – Veja, Realidade, Folha da Tarde, IstoÉ – e de outras, da imprensa popular, também chamada de alternativa, como Opinião, Movimento, Retrato do Brasil.

Para se contar uma história é preciso um ponto de vista. Dependendo do ponto de vista, é muito difícil ver o que se passa – os homens, na Terra, levaram milênios para entender que somos um pequeno planeta, girando em torno de uma estrela, numa certa posição de uma galáxia...e assim por diante. Mas o fato de eu ter sido expulso do ITA pelos militares não me desqualifica para contar os acontecimentos do final de 1965, que chamamos aqui de “a pior hora” de nossa escola, o momento em que as violências cometidas contra ela sob o comando do brigadeiro Henrique Castro Neves ameaçaram a sua própria existência. No período em que Castro Neves foi diretor-geral do CTA, pouco mais de um ano, três reitores – Marco Antônio Guglielmo Cecchini, Luiz Cantanhede de Carvalho Almeida Filho e Charly Künzi – se demitiram em protesto por suas interferências na gestão do ITA. Além disso, Castro Neves, em função de política decidida pelo ministro da Aeronáutica de então, o famoso brigadeiro Eduardo Gomes, veio para o CTA com o plano de transformá-lo numa espécie de oficina de apoio ao parque da Aeronáutica. Agia assim em oposição ao plano de Casimiro Montenegro Filho, que via no centro um papel estratégico no desenvolvimento aeroespacial do país.

Minha expulsão do ITA não foi uma tragédia, afinal de contas; foi, talvez, desses acasos que me ajudou a tomar rumo na vida. Não fui propriamente torturado no Departamento da Ordem Polícia e Social em São Paulo, nos primeiros dias de abril de 1964, quando a Aeronáutica me jogou lá, junto com outros três alunos e dois professores. Tomei umas pancadas, sofri algumas ameaças – mas nada muito mais dramático do que os trancos e ameaças que enfrentei defendendo a gloriosa camisa do time de futebol do ITA, pelo qual uma vez quebrei o nariz e onde, dizem meus melhores amigos, tive momentos de certo brilho...

Eu também não era assim tão de esquerda; certamente não como o José Roberto Arantes de Almeida, iteano da turma de 1966, expulso pouco depois de mim, assassinado pela polícia política do Regime Militar, quando voltou de Cuba anos depois. De qualquer forma, essa não é uma história dos pobrezinhos inocentes que os malvados militares expulsaram da escola e que foram infelizes para sempre...

Uma história pode ser contada de modo mais científico, objetivo, através de uma investigação cuidadosa, na qual se parte dos vários pontos de vista apresentados e as suposições feitas pelas pessoas para o desenrolar da história são confrontadas com a solidez maior dos chamados fatos objetivos: se meu amigo diz que o fato A é causa do fato B, e o fato B ocorreu antes do fato A, como o universo é regido por leis que dizem que o tempo é uma dimensão do espaço e, portanto, não anda para trás, o cidadão, a despeito de meu amigo, está errado.

Pode-se começar a contar uma história também pelos depoimentos iniciais dos personagens envolvidos. Esses depoimentos não são a história: freqüentemente a pessoa reorganiza os fatos do passado de acordo com sua experiência e interesses presentes. Se a pessoa é jovem, muitas vezes não tem conhecimento e passa pelos fatos relevantes sem vê-los. Se é mais velha, como – ó destino cruel – é o caso dos nossos entrevistados e de nós mesmos, todos da casa dos 60 para a frente, a memória passa a ser uma máquina estranha, as sinapses cerebrais parecem ser disparadas por emoções extravagantes, descontroladas, profundas, que mesmo o mais experimentado repórter tem dificuldade de entender.

Por exemplo, estávamos entrevistando nosso personagem central, o Brigadeiro Paulo Victor. Eu estava ligeiramente descuidado. Estávamos de certo modo repassando a sua história, que ele nos contou em quatro grandes depoimentos, de cerca de 16 horas de duração total, primeiro da frente para trás e depois de trás para a frente. De repente, ele se mostrou visivelmente emocionado.

O Brigadeiro é o herói de nossa história – a tese é do Pedro John Meinrath e eu a adotei: o Brigadeiro foi o soldado da paz para o ITA, quando aceitou, em condições peculiares, assumir o comando do Centro Técnico da Aeronáutica no início de 1966. Mas o Brigadeiro tem 80 anos; enfrenta o Mal de Page, um desequilíbrio no metabolismo do cálcio que lhe ataca as juntas e dificulta enormemente os movimentos inclusive a fala.

Diante de sua emoção, procurei voltar atrás na pergunta e entender melhor. Ele estava falando do lançamento do VLS, recentemente, que ele considera um projeto seu – com justa razão, pois comandou o projeto e lançamento do projeto dos primeiros foguetes, trinta anos atrás.

O Brigadeiro contava que, a despeito do fracasso – um dos quatro foguetes do estágio inicial não acendeu – o lançamento tinha provado que os brasileiros tinham finalmente criado um míssil. Primeiro entendi o aspecto técnico da questão – os sistemas de guiagem do veículo tinham funcionado e ele subiu sob controle, a despeito da falta de um dos propulsores.

Depois, entendi a emoção que ela provocava. Ali estava um militar e um patriota, um homem para quem a Defesa Nacional, o domínio das tecnologias empregadas nos armamentos, foi o sentido maior de sua vida e que, com erros e acertos – e, na minha opinião, nos erros freqüentemente porque foi solidário aos amigos – aos 80 anos descobre que sua história está sendo revista e apreciada. A saúde do Brigadeiro Paulo Victor, aliás, melhorou ao longo dos meses do nosso trabalho e ele atribui a melhora exatamente ao ânimo que redescobriu ao contar-nos sua história. Nos meus anos iniciais de repórter, por falta de experiência profissional e por um conhecimento político mais restrito do que quer dizer “fazer um país melhor e contribuir para a elevação do padrão de vida material e cultural do povo trabalhador” – dificilmente eu conseguiria entender suficientemente aquele momento.

Nossa história, portanto, é contada desta forma inicial – por depoimentos pessoais, relativamente imprecisos, a despeito de o Pedro e eu já termos superado algumas idéias mais grosseiras que tínhamos quando começamos. Esperamos que esse primeiro relato ajude a reunir os recursos materiais e humanos que são necessários para uma investigação mais objetiva. São duas as nossas preocupações centrais, a essa altura da pesquisa:

1. O ITA não fez uma revisão do período abrangido pela última lei da Anistia. As expulsões feitas a partir de 1964 não foram revistas. Vamos que ainda existam alguns que considerem que maus elementos como eu, que escrevia no O Suplemento coisas tão extravagantes como meu best seller “Considerações Céticas sobre a Vida Sexual dos Iteanos” foram expulsos com razão. Vamos também, num exagero de boa vontade, considerar que o Luiz Maria Guimarães Esmanhoto, da minha turma, que há pouco foi Diretor Técnico da Embratel depois que ela foi privatizada, também mereça ter sido expulso. Afinal, o Esmanhoto apenas disfarça como engenheiro. Ele é um artista. Foi diretor do teatro Guaíba. Fez cursos de sapateado. O seu mote, todos sabem é: “O teatro me fascina. Vida noturna, ensaios exaustivos, mulheres fáceis...”

Mas, e o Ezequiel Pinto Dias, que foi diretor do Serpro, do Ministério de Ciência e Tecnologia, é o homem da informatização dos dados dos serviços nacionais de saúde, em cujo ministério hoje trabalha? Todos sabem que o Ezequiel é um monge, que vai para o céu com certeza. Já em 1964, na época do brigadeiro Casimiro Montenegro Filho, outro herói dessa história – a despeito de ter sido o comandante do CTA na época em que o maior número de estudantes foi expulso – o Ezequiel foi poupado. Recebeu apenas uma suspensão por um ano.

Sua expulsão beira as raias do absurdo. Quando voltou no segundo semestre de 1965, já no final do ano, a turma daquele ano quis homenagear o pensador católico Tristão de Ataíde, outro santo nacional. Houve uma sindicância militar a pedido do brigadeiro Castro Neves para apurar os responsáveis por aquele movimento que ele considerava subversivo. Pois bem: a conclusão da sindicância, feita pelo coronel Fernando Jeolás Machado Guimarães, ao que descobrimos até agora, foi de que se tratava de um movimento pacífico e legal, mesmo porque o paraninfo se enquadrava dentro de normas para escolha que haviam sido baixadas pelo próprio Castro Neves.

Eu não saberia o que fazer com um diploma do ITA hoje. Aliás, apesar de estar cursando o último ano, fui expulso em 8 de abril de 1964, não concluí os cursos todos. Pior ainda: que faria eu com um diploma do ITA? Não sei porque o avião voa. O Esmanhoto talvez saiba; mas, com certeza, iria colocar o papel no camarim de alguma casa de espetáculos, talvez até de má fama.. O Ezequiel, no entanto, meus amigos, o Ezequiel, não: ele fez todos os cursos. E ainda, e por incrível que pareça, quer ter o diploma do ITA, porque acha que isso faria parte de um movimento de reavaliação e recomposição da história da escola que ele ama.

2. O segundo ponto de nossa história são os desenvolvimentos técnicos produzidos pelo CTA e no país por iniciativas comandadas pelo Brigadeiro Paulo Victor. Ninguém pode negar seu papel na construção da Embraer, hoje a empresa de tecnologia nacional mais bem sucedida. Mesmo quem é considerado o criador da Embraer, nosso colega Ozires Silva, autor de “A DECOLAGEM DE UM SONHO, A história da criação da Embraer”, diz que: ele foi a figura essencial para fazer o projeto ser aprovado, receber os recursos indispensáveis e ser concluído com sucesso. Mas, até entrevistarmos o empresário José Diniz, dono da Eletrometal, eu via certas hipóteses do Pedro John como fantasias. A entrevista com o Diniz mudou minha avaliação.

É claro que foi uma entrevista excepcional. Diniz nos recebeu no seu haras perto de Campinas com duas garrafas de vinho tinto argentino encorpado de safras extraordinárias. Diniz, que foi dono de empreiteira de obras de engenharia hidráulica, tem uma adega enorme e seu haras fica num jardim experimental, no qual, através de manobras com o lençol freático e no armazenamento de águas das chuvas, co-existem o ambiente do cerrado, da caatinga e da floresta amazônica que ele está pesquisando. Mas, o certo é que Diniz conta que sentou-se diante do Paulo Víctor em 1972 e recebeu dele uma lista completa de metais estratégicos de que o Brasil precisaria para ter um mínimo de independência.

Através do Paulo Victor, diz Diniz, a Eletrometal, que se tornaria uma empresa de prestígio técnico nacional e internacional em sua área, recebeu apoio para pesquisas e bolsas de estudo para engenheiros irem buscar tecnologia no exterior, através de financiamentos do BNDES. A impressão que a entrevista de Diniz dá é a de um trabalho integrado entre o Estado e a indústria nacional, que, visto de hoje, parece situar-se em outro mundo, ou em outro tempo histórico. Hoje o país parece ter entregue seu destino aos talibãs da ortodoxia econômica neoliberal. - como disse, antes dos ataques ao World Trade Center, é claro, o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Horácio Lafer Piva. Para a turma da política econômica de hoje, que é uma continuidade da política de abertura descontrolada de Fernando Collor de Mello, as iniciativas empresarias do Estado são um sacrilégio. Quando o governo Collor subiu, uma de suas primeiras medidas foi eliminar todas as tarifas de proteção à fabricação de metais estratégicos no Brasil, e a Eletrometal foi vendida. fonte: Paulo Victor, o Pacificador, editado pela AEITA em 2001

Eduardo Gomes e Montenegro

Quando morreu, em 2000, com 95 anos, Casimiro Montenegro Filho, considerado com justa razão o criador do Centro Técnico de Aeronáutica e do Instituto Tecnológico da Aeronáutica era Marechal-do-Ar, a mais alta patente na hierarquia da Força Aérea Brasileira. Há tempos, no entanto, estava afastado formalmente do CTA e do ITA. Deixou a direção do CTA em janeiro de 1965. Quem lhe comunicou o fato oficialmente, em nome do brigadeiro Eduardo Gomes, então ministro da Aeronáutica, foi o então major aviador Ozires Silva, que foi encontrá-lo numa casa de praia em Salvador, onde Montenegro se achava de férias e conta a história no seu livro sobre a Embraer. Não era apenas uma troca de pessoas, lembra o atual presidente da Varig: eram outros planos que tinham sido delineados para o Centro Técnico de Aeronáutica.

Montenegro concebeu o CTA nos anos 40, quando o Brasil não fabricava nem suas bicicletas. Visava atender as necessidades básicas de transporte aéreo de um país continental com sérias deficiências em sua malha viária. Além disso, alertado pela II Guerra Mundial, compreendeu que segurança, tecnologia e defesa nacional eram componentes do mesmo desafio. Para a concepção e instalação do CTA e do ITA, conquista o respaldo do Ministro Salgado Filho, o 1º Ministro da Aeronáutica, e o know-how de professores do MIT, respeitada instituição de pesquisa e ensino dos EUA com forte especialização em aeronáutica. Era o comandante do Centro após o movimento militar de março de 1964 mas não fazia parte do grupo dirigente dessa ação. Ozires chega a dizer no seu livro que suas posições “eram conhecidas na FAB e sabia-se que ele, em geral, era crítico em relação aos militares”. “Por alguma razão”, diz Ozires, guardava a impressão de que a maioria desejava ser designada para o CTA para fugir de outras atribuições menos agradáveis”. Ozires diz que, no momento em que, como tenente, apresentou-se a Montenegro, então coronel, para estudar no ITA, ele lhe disse com ironia: “Você também está vindo para o Centro para evitar uma transferência para Belém?”.

Casimiro Montenegro Filho e Eduardo Gomes tinham sido muito amigos nos anos 30. Foi Montenegro que lhe ensinou as artes finais de pilotagem. Ambos eram aviadores do Exército brasileiro. Mas, ao que tudo indica, no período que vai de 1941 até 1964, da criação do ministério da Aeronáutica até o movimento militar de março de 1964, suas carreiras seguiram caminhos diferentes. O CTA e o ITA foram criados, tendo Montenegro como seu inspirador principal, no clima de industrialização do país do governo Vargas, com apoio americano.

Eduardo Gomes teve outra trajetória. Foi um tenente revolucionário nos anos 20 e 30, como muitos outros – como Luiz Carlos Prestes, por exemplo. No primeiro governo Vargas (1930-1945) desempenhou importantes papéis – foi um dos oficiais que negociou o fim da rebelião paulista de 1932 contra Getúlio. Mas, desde meados dos anos 40 esteve na oposição ao getulismo. Foi derrotado para presidente da República, duas vezes: em 1945, pela UDN – União Democrática Nacional, um partido liberal-conservador -, disputando contra o general Eurico Gaspar Dutra, candidato de Vargas; e em 1950, quando foi candidato pelo PL e o PRP, partidos conservadores da direita, desta vez contra o próprio Getúlio Vargas. Foi também o chefe da chamada “República do Galeão”, movimento originado no IPM – Inquérito Policial Militar – que investigou o atentado, promovido pela guarda pessoal de Getúlio, contra o jornalista e líder udenista Carlos Lacerda que acabou matando o oficial da Aeronáutica Rubens Vaz. Conspirou para evitar a posse de Juscelino Kubitschek em 1955. Foi reformado compulsoriamente em 1960 como marechal do ar. Estava na linha de frente – no Palácio da Guanabara, ao lado do então governador Carlos Lacerda, quando os militares depuseram Jango Goulart. E tornou-se ministro em fins de 1964, no governo Castello Branco.

Montenegro, ao que parece, resistiu inicialmente às punições contra os alunos do ITA depois da deposição do governo civil em 31 de março de 1964. Hermano de Medeiros Ferreira Tavares, iteano da turma 1964 e atual Reitor da Unicamp, uma escola aliás formada em boa parte com gente saída do ITA, lembra-se dessa resistência. Hermano era vice-presidente do CASD, o centro acadêmico da escola. Ele e o presidente, Sérgio de Magalhães Bordeaux Rêgo - que era filho de um brigadeiro da Aeronáutica – foram chamados por Montenegro. “Ele nos disse que continuássemos estudando, que essa era nossa missão e nada iria ocorrer”. Ainda na primeira semana de abril no entanto, Montenegro os chamou de novo e disse, segundo Hermano, “que não seria possível segurar”. E, de fato, continua o reitor da Unicamp, no dia seguinte passou a “primeira carrocinha” diz ele, referindo-se a uma dúzia e meia de prisões de estudantes e professores ocorridas logo a seguir no ITA.

A repressão aos alunos era apenas um dos pontos de divergência de Montenegro com a nova política. Nesse ponto ele cedeu e continuou no cargo. A divergência maior, que levou ao seu afastamento, se deu, tudo leva a crer, com a decisão do brigadeiro Eduardo Gomes de mudar o plano geral do qual Montenegro fora o criador: o CTA deveria passar da posição de peça estratégica no desenvolvimento da aviação no Brasil, com pesquisa, ensino, apoio à indústria, para a de um centro tático, de “características eminentemente técnicas e práticas”, de serviços de apoio à operação da Força Aérea, como adaptação e manutenção de aeronaves e apoio direto aos Parques da Aeronáutica. E dentro dessa concepção os aviões, militares e civis, continuariam sendo comprados no Exterior.

Por brutal ironia do destino, o militar que mais longe enxergara na Força Aérea, sofreu uma crescente perda de visão até a cegueira total. Em 1975, Rogério Cézar de Cerqueira Leite, iteano da turma 58, físico que trabalhara nos famosos laboratórios da Bell, americana, hoje comentarista de sucesso por seus irônicos artigos na página 3 da Folha da São Paulo, de cujo Conselho Editorial faz parte, articulou com o reitor da Unicamp, Zeferino Vaz, a entrega a Montenegro de um título de Doutor Honoris Causa.

Diz Rogério: “Eu estava convencido de que ele era uma pessoa excepcional, que tinha tido uma influência muito grande. Até hoje penso que o sucesso do ITA teve reflexos no Brasil inteiro. A Unicamp, por exemplo, era uma universidadezinha provinciana. Ela se transformou com o grupo originário do ITA que veio para cá. O espírito que estava se querendo criar aqui dentro da Unicamp era mais parecido com aquilo que eu tinha aprendido do ITA”.

Um fato curioso, conclui Rogério, é que a cerimônia não foi bem vista na Aeronáutica. “A Unicamp fez convites para toda a aeronáutica. Não veio nenhum militar, só o ajudante de ordens do Montenegro. Na época eu tinha um tio que era Tenente-Brigadeiro e ele me disse que houve praticamente uma instrução para que ninguém viesse”. fonte: Paulo Victor, o Pacificador, editado pela AEITA em 2001

Paulo Victor, o pacificador

Quando o Tenente-Coronel Paulo Victor da Silva assumiu o comando do Centro Técnico de Aeronáutica, em 18 de abril de 1966, a sua famosa escola, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, vivia uma crise dramática. Tinha tido quatro reitores em menos de um ano. Marco Antônio Guglielmo Cecchini, Luiz Cantanhede, Charly Künzi e Talmir Canuto Costa. Cecchini, excelente professor e reitor desde 1960, só ficou três meses no posto tendo Castro Neves como seu chefe. Demitiu-se em meados de julho de 65. Cantanhede ficou até o final de novembro renunciando “por motivos pessoais”. Künzi se demitiu após apenas dois meses de gestão e depois de ter tentado por diversas maneiras fazer o que era considerado quase impossível, afastar o responsável pela rebelião dos mestres, o Diretor-Geral do CTA, o Brigadeiro Henrique Castro Neves.

Canuto, da turma 1957, se destacara como um excelente goleiro do time de futebol do ITA, e estava no cargo quando Paulo Victor tomou posse. Era considerado um reitor tampão, uma solução de emergência. Nenhum professor da congregação do ITA aceitava mais o cargo de reitor, por deliberação coletiva. A reunião da Congregação de professores que decidiu tomar uma posição contra as atitudes de Castro Neves, no dia 21 de março de 1966, diz claramente os motivos da revolta. Em contrapartida Castro Neves acusara “um pequeno grupo” de professores, nos quais, evidentemente incluía o professor Cecchini, que fora reitor por cinco anos, de se omitir como conselheiros dos alunos; dizia que eles “fomentavam a agitação”; eram “maus professores”, “sem condições morais para continuarem no ITA” e que tinham contribuído para a “indisciplina de fundo ideológico comunista” cometida pela turma de 1965. Essa indisciplina era basicamente o fato de os alunos terem pretendido – inicialmente – homenagear os 19 colegas que tinham sido expulsos da escola no ano anterior. Posteriormente, quando eles desistiram dessa homenagem, o desentendimento com o brigadeiro se concentrou no fato de eles terem escolhido para paraninfo da turma o pensador católico Tristão de Ataíde.

Paulo Victor da Silva é um homem animado, vivo, a despeito de sofrer de uma doença renitente, o Mal de Page, que lhe ataca as juntas e lhe dificulta levemente a fala e pesadamente os movimentos. É paraense de Belém, baixinho, e tem algo de índio nos traços do rosto, de pele lisa que esconde seus atuais 80 anos. Quando chegou no CTA em abril de 66 já conhecia São José dos Campos – foi aluno da turma 1953, a primeira integralmente formada no ITA. E era uma figura conhecida nacionalmente: fora o companheiro do Major Haroldo Velloso na chamada Rebelião de Jacareacanga, contra o presidente Juscelino.

Quando o ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Eduardo Gomes, o convidou para o cargo de Diretor do CTA ele aceitou, como uma missão. Mas foi acometido de grandes dúvidas. O ministro já o havia convidado duas semanas antes, para outro posto – o comando do Parque dos Afonsos, talvez a mais importante base técnica de apoio da Força Aérea do país na época. Só que, logo em seguida, lhe comunicara que ele deveria aguardar para tomar posse. Alguma coisa havia mudado, ele pensava.

De repente, o ministro reformulava o convite mandando-o para o CTA. Que acontecera? Paulo Victor não sabia das articulações que tinham precedido o afastamento de Castro Neves. Não sabia - até há pouco aliás, como praticamente ninguém no ITA - que o ex-reitor Künzi tinha feito manobras incríveis – tinha se encontrado, inclusive, e secretamente, com o então presidente da República, o marechal Castello Branco – para conseguir o afastamento do Brigadeiro Castro Neves. Não sabia que tinha havido uma reunião do Alto Comando da Aeronáutica à qual Künzi teve acesso parcial (veja seu depoimento na página 36) que analisara a crise do ITA.

Na conversa com Eduardo Gomes, Paulo Victor lhe mostrou a gravidade da decisão pelo aspecto mais óbvio que ela apresentava. Ele era um coronel, estava substituindo um brigadeiro. “Minha carreira na Força Áerea está acabada”, ministro. “O senhor está nomeando um coronel para um cargo dois postos acima. Está queimando todo mundo que fica pelo caminho”.

E em relação à confusão que se formara pelo fato de ter sido nomeado para um posto e, de repente, ser mandado para outro, sem saber porque, ele resolveu tomar uma providência que de algum modo ajudaria a identificar as forças que estariam agindo. Ele procurou Castro Neves e, sem consultá-lo sobre nada, disse-lhe o que ia fazer: que iria trazer de volta para os postos de comando no ITA os ex-reitores Cecchini e Cantanhede e que nomearia o professor Francisco Antônio Lacaz, considerado o melhor amigo dos alunos e, por alguns tido como de esquerda, para o cargo de reitor da escola.

Era uma situação extravagante: um brigadeiro que via comunistas por todos os cantos tinha acabado de ser afastado por um ministro conservador-liberal que chamara para colocar no seu lugar um coronel considerado da linha dura, que, por incrível que pareça, decide, como primeira providência, chamar de volta para os postos de comando da escola três professores dos quais dois eram considerados comunistas.

O lance inicial de Paulo Victor no ITA pode ser entendido melhor como uma manobra tática. O Brigadeiro Eduardo Gomes não lhe tinha dado nenhuma instrução. Mas, ao comunicar o que faria a Castro Neves, sem vacilação, logo que assumisse, era como se cutucasse as forças que poderiam se opor a ele para ver a reação que teriam. “Não sei como a decisão poderia ser interpretada”, diz Paulo Victor. “O próprio Castro Neves poderia levar alguma coisa ao Ministro. Tudo isso eu imaginei. Ele poderia endurecer a posição. Isso era um risco...Eu não tinha tomado posse no Parque dos Afonsos. Podia ser que não tomasse posse no CTA”.

Foi como um jogo, concorda ele, hoje. Ele deu uma tacada. E esperou a resposta do outro lado. Para sua sorte e para sorte do ITA, a manobra deu certo. Quem queria mudar os rumos do CTA, quem pretendia manter um clima de repressão mais forte sobre a escola, perdeu a parada, pelo menos provisoriamente. E Paulo Victor começou então seu mandato como Diretor-Geral interino do CTA. Saiu ainda como interino. Mas ficou sete anos – até o começo de 1973.

É possível que o clima entre os alunos do ITA jamais tenha se recuperado totalmente. Hermano Tavares, que foi professor do ITA no período em que comando do CTA já tinha saído das mãos do Castro Neves, e quando Paulo Victor já tinha nomeado o professor Lacaz para reitor, diz que ficou pouco tempo no CTA. Foi para a Unicamp porque o clima em São José já não era mais o mesmo de antes. Mesmo o prestígio do professor Lacaz entre os estudantes, que era enorme no pré-64, estava abalado. O Centro Acadêmico Santos Dumont, por exemplo, pode estar sofrendo as conseqüências daquele período até agora. “Hoje as eleições do CASD me parecem vazias, comparadas com as de antes”, diz o professor Cecchini, que se aposentou mas continua acompanhando os acontecimentos de São José dos Campos, onde ainda mora. “Não há mais aquelas assembléias gerais, movimentadas”, diz ele.

De qualquer modo, entre 1966 e 1968 a atividade de Paulo Victor no CTA foi intensa. Em dezembro de 1968 há uma mudança política no país, com o Ato Institucional número 5, que suspende os direitos e garantias individuais e iria permitir inúmeras arbitrariedades. (Uma história contada pelo atual vice-reitor do ITA, Paulo Rizzi, talvez não reflita o clima desse período, mas ajuda a compreender o espírito com que Paulo Victor se dedicou aos alunos do ITA. Por força do A.I.-5, a Turma 1969 ficara sem o avião da Aeronáutica que iria leva-la para a tradicional viagem à Europa. Paulo Victor, então, relata Rizzi, que fazia parte da turma, reúne a Comissão de Viagem, e propõe que o CTA pague o fretamento de uma aeronave comercial desde que a turma o reembolse no transcurso de 1969. “Viajamos e reembolsamos o CTA” diz Rizzi).

Talvez por sua história de antigo participante da rebelião de Jacareacanga e pelo fato de ter sido ativo militante da “República do Galeão” contra Getúlio e por isso ser considerado da “linha dura” do novo regime, Paulo Victor é nomeado presidente da Comissão Geral de Investigações para apurar os casos de enriquecimento ilícito no Estado de São Paulo. Ele não guarda nem grandes nem boas recordações dessas atividades, diz hoje. Lembra-se que trabalhava o dia inteiro no CTA e ia para São Paulo à noite; que era uma tarefa humanamente impossível descobrir os corruptos num Estado do tamanho de São Paulo, com centenas de municípios, com a população que tem. Lembra que o general Golbery do Couto e Silva um dia lhe ligou para dizer que tinha sabido que ele mandara prender o Mário Covas. Não era verdade; alguém tinha prendido o Mário Covas e, na hora de dizer de onde tinha partido a ordem, disse que era dele, que era, de qualquer modo, o comandante da CGI. Lembra também da investigação contra um corrupto famoso da época, o J.J. Abdalla, que tinha confecção no Rio de Janeiro e fábrica de cimento em Perus, São Paulo. Fez o Abdalla pagar os atrasados dos funcionários. Os trabalhadores aplaudiram, diz ele. “Acho que foi uma das poucas organizações que deram vivas à Revolução nesse período”, diz ele.

Paulo Victor, no entanto, que na política tinha entrado sistematicamente por solidariedade a amigos, estava trabalhando a todo vapor, noutra área, onde também buscava fazer amigos e, mais que isso, equipes de trabalho: no desenvolvimento tecnológico, nas atividades de apoio à indústria ou mesmo em iniciativas industriais do próprio Centro Técnico da Aeronáutica. Em 1968, o governo do marechal Costa e Silva visita o CTA, com todo seu ministério e políticos próximos. Foram a São José: Delfim Netto, professor de economia da USP e ministro da Economia; Magalhães Pinto, banqueiro mineiro e ministro das Relações Exteriores; Gama e Silva, autor do AI-5, mas também professor da USP e ministro da Justiça; Garrastazu Médici, general e comandante do Serviço Nacional de Informações; Paulo Maluf, então presidente da Caixa Econômica de São Paulo e que no ano seguinte iria ser prefeito da capital do Estado, nomeado por Costa e Silva. Nessa altura, Paulo Victor tinha muito a apresentar.

“A visita”, diz Paulo Victor, significou um apoio total à atividade que nós estávamos desenvolvendo. Costa e Silva veio ver os projetos dos aviões. Mas não era uma visita a Embraer. A Embraer era apenas o principal projeto. Mas havia muitos outros. Costa e Silva foi ver, por exemplo, o forno de fusão a vácuo, que visava as pesquisas para ligas extremamente puras. Trabalhávamos para dominar a tecnologia do titânio, um material estratégico na indústria aeroespacial.

O CTA já tinha um trabalho pioneiro no campo da computação, conta Tércio Pacitti (T52), brigadeiro, engenheiro do ITA e reitor de 82 a 84. Em 1961, por exemplo, diz Pacitti em seu livro “Do Fortran à Internet”, alunos do ITA tinham projetado e construído um “Pequeno Computador Digital Paralelo”, o ITA 1, ou Zezinho, cuja finalidade era “provar a possibilidade de projetar e construir computadores digitais no Brasil, utilizando-se, tanto quanto possível, componentes e peças produzidos no País.” Em fins de novembro de 1966, Paulo Victor acompanhou no CTA o “Jogo Tático de Guerra Aérea”, realizado por 35 oficiais superiores, alunos da Escola de Comando e Estado Maior da Aeronáutica (ECEMAR), uma simulação, através de modelos matemáticos, das condições de uma batalha de guerra aérea real entre duas nações. Pacitti montou o “jogo”. “Estamos fazendo um cuidadoso levantamento dos serviços prestados à tecnologia e a economia nacional para mostrar ao Brasil como trabalhamos por ele”, disse Paulo Victor, em entrevista à revista Visão, na época.

O CTA de Paulo Victor também deu apoio às pesquisas em tecnologias avançadas, como a de energia nuclear pela Marinha. “Quando assumi, meu primeiro contato foi com as pessoas que tinham cargos como o meu, nos centros de pesquisa da Marinha e do Exército”, diz ele. No CTA, por exemplo, trabalhou o almirante Othon Pinheiro da Silva e desses esforços resultou o fato de o Brasil ter tido a possibilidade de construir um reator nuclear seguindo um caminho próprio – depois do fracasso do acordo nuclear Brasil-Alemanha, do General Ernesto Geisel através do qual os alemães prometeram nos transferir uma tecnologia que não tinham e que, de fato, nunca nos transferiram.

Mas, esquematicamente, as grandes iniciativas comandadas pelo Brigadeiro Paulo Victor no CTA podem ser agrupadas em três blocos: 1) o desenvolvimento dos projetos de fabricação de aviões; 2) o esforço para a produção, pela indústria brasileira, de materiais estratégicos para a defesa nacional; 3) o esforço para o desenvolvimento de foguetes lançadores de cargas. Dos três, o seu sucesso indiscutível é o fato de ter criado a Embraer – Empresa Brasileira de Aeronáutica – e de ter comandado a operação deu escala, peso e continuidade à fabricação de aviões no País.

Paulo Victor tem consciência de que havia divergência de orientação entre Eduardo Gomes e Casimiro Montenegro Filho quanto ao que fazer no CTA. Mas não se recorda precisamente dos pontos básicos dessa divergência. Lembra-se de uma discussão com Castro Neves e o Brigadeiro Osvaldo Balloussier, Diretor do Material do Ministério da Aeronáutica, que criticavam seu ponto de vista de concentrar os engenheiros do ITA em alguns locais. “Eu disse que o que não podia era pulverizar o pessoal, isolar todos eles, colocando um em cada lugar. Sei também que houve quem chegou a sugerir que os oficiais aviadores não fizessem o ITA. E eu tinha opinião completamente diversa. Eu achava que os oficiais aviadores que estavam no Comando é que deveriam tomar a coisa pela mão, conhecer o ITA e apoiar a filosofia do Brigadeiro Montenegro”, diz Paulo Victor. De qualquer modo, a impressão que fica dos depoimentos e documentos examinados nesta fase de nossa história é a de que a chegada de Paulo Victor ao CTA acabou com os planos de transformar o Centro numa espécie de oficina de reparos de aviões. E o projeto do que viria a ser depois a Embraer começava a decolar.

Paulo Victor lembra-se com alguns detalhes desse começo. No dia 4 de junho, pouco depois de chegar ao CTA, portanto, teve uma reunião com dois dos engenheiros do Departamento de Aeronaves do CTA que iriam ser figuras destacadas na Embraer - Ozílio Carlos da Silva (T61) e Guido Fontegalant Pessotti (T60) - a respeito de um certo Projeto IPD-6504. O Guido já era um projetista de aviões e iria ser o projetista de praticamente todos os modelos futuros da Embraer. O Ozílio iria ser o grande Diretor Comercial da Embraer. E é do Projeto IPD-6504 que iria nascer o avião Bandeirante. “Eles me disseram que o projeto estava completamente parado, não tinha nenhuma chance. Tinha meia dúzia de funcionários apenas trabalhando especificamente nele”.

Ozires Silva (T62), Major-Aviador formado em engenharia no ITA, e que era o chefe do Departamento de Aeronaves, estava fazendo um curso de aperfeiçoamento nos Estados Unidos. Tinha sido enviado para lá por Castro Neves e considera em seu livro que a decisão de mandá-lo para fora do país era, de certo modo, uma forma branda de esvaziar os esforços de fazer um turbo-hélice no Brasil, que era, em essência, o que, para ele, significava o Projeto IPD-6504. O projeto fora apresentado de forma disfarçada, diz Ozires, porque Castro Neves estava decidido a fechar o Departamento de Aeronaves, dentro da orientação geral de mudar os rumos do CTA. Castro Neves tinha lhe dito isso explicitamente: “Este Departamento não presta para nada! Vamos fechá-lo!”. Na época, diz Ozires, apresentou o Projeto IPD-6504 como sendo uma reforma de velhos aviões North American T-6 que a FAB possuía, porque essa era a maneira de reforçar seu Departamento com o objetivo de projetar aviões: iria contratar um grande técnico francês – Max Holste – que saberia fazer as adaptações no T-6 cujos motores seriam trocados. Para conseguir a aprovação da contratação de Holste, no entanto, Ozires abriu mão de pedir verbas para investimentos no Projeto IPD-6504. Pior ainda: em julho de 1965 Castro Neves o avisou, de repente, que deveria ir para os EUA, buscar um doutoramento. Só voltou em junho de 1966. Segundo o relato de Ozires, Paulo Victor foi quem lhe permitiu transformar uma intenção de fabricar aviões, disfarçada em reforma de aviões velhos, no projeto do Bandeirante.

Paulo Victor o recebeu “de braços abertos”, ele diz; convidou-o para assumir a chefia do Departamento de Aeronaves e comprou a sua idéia de “projetar um avião de transporte aéreo regional”. “O Brigadeiro Paulo Victor”, escreve Ozires, “era realmente a figura forte, com o vigor e a iniciativa que nosso projeto precisava”. Diz também: “Formado pelo ITA em 1953, ele foi o primeiro entre os engenheiros do Instituto a assumir o comando do CTA. Dotado de um entusiasmo contagiante, era dono de uma férrea vontade e de uma determinação impressionante”. Paulo Victor fez de tudo. Arrumou verbas; fez construir uma pista de pouso com capacidade para teste do avião; fez montar no laboratório de estruturas do CTA uma ponte metálica para ensaios estáticos do protótipo, que precisava de umas 30.000 horas simuladas de vôo, antes da primeira decolagem; enviou para o centro de ensaios em vôos em Istres, na França, para serem qualificados como engenheiro e piloto de ensaios o engenheiro Michel Cury (T61) e o major José Mariotto Ferreira. E cuidou disso pessoalmente: passou horas acompanhando os trabalhos da equipe técnica comandada por Ozires, que atravessava madrugadas. E, no dia 22 de outubro de 1968 o turbo-hélice Bandeirante brasileiro decolou pela primeira vez.

Do protótipo à produção em série de aviões, numa empresa estatal brasileira com estrutura e poder suficientes, iria uma distância muito grande. Paulo Victor foi o comandante evidente dessa operação. Quem diz isso, de novo, é o próprio Ozires. Uma vez, diz o atual presidente da Varig, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, Paulo Victor ficou andando em volta de um protótipo do Bandeirante conversando com um soldado comum da Força Aérea fazendo propaganda da tese do quão importante era o Brasil fabricar aviões. No caminho, encontrou um general e passou a conversar com ele sobre a mesma tese. “Cada vez que penso no Brigadeiro Paulo Victor e nos eventos que vivi com ele”, diz Ozires, cresce minha convicção de que, sem ele, a Embraer jamais viria a existir”.

Um dos obstáculos para a criação da Embraer era a determinação do governo de que o CTA só deveria apoiar a fabricação de aviões; a atividade industrial propriamente deveria ficar a cargo da própria indústria; ou seja, o governo não queria criar uma estatal para tocar o empreendimento. Paulo Victor tinha ordens explícitas do ministro da Aeronáutica, então o Brigadeiro Márcio de Souza e Mello, para procurar investidores privados que quisessem produzir o Bandeirante.

O Brasil já fazia aviões há muito tempo. Eram aviões pequenos para dois a quatro passageiros; e a pistão e hélice; não para 10 a 20 passageiros e com turbopropulsores, como o Bandeirante. Mas empresários haviam ganho muito dinheiro fabricando esses aviões pequenos para o Ministério da Aeronáutica. Por que não foram empresários, como esses, que produziram o Bandeirante, como era, aliás, determinação oficial. Aldo Weber Vieira da Rosa, que foi do ITA, do CTA e do Instituto Nacional de Atividades Espaciais e hoje vive em Palo Alto, Califórnia, onde é professor emérito no Departamento de Energia Elétrica da Universidade de Stanford, faz um resumo da produção brasileira de aviões pela iniciativa privada. O primeiro fabricante, diz ele, foi um cidadão chamado Henrique Lage, apoiado pelo primeiro Ministro da Aeronáutica, Salgado Filho. O ministro criou aeroclubes por todo o país e Lage fez aviões HL para eles. Posteriormente, o empresário Francisco “Baby” Pignatari com a Companhia Aeronáutica Paulista, fez 724 aviões, o CAP-4; a Aeronáutica comprava dele 100 aviões por ano e ele ficou rico, diz Aldo. Depois de Pignatari foi a vez de José Carlos de Barros Neiva, que em 1955 atualizou o CAP-4 graças a um contrato com a Aeronáutica e passou a produzir os aviões Paulistinha. Depois, também com apoio da Aeronáutica, Neiva produziu o Regente, um avião para competir com o avião mais popular da aviação civil da época, o Cessna 172. Eram feitas 50 unidades por ano e o avião foi um sucesso, diz Aldo. Ele diz também que a Embraer matou a Neiva porque, depois, quando deixou de ter apoio oficial, para sobreviver passou a importar aviões Piper, que competiam diretamente com o Regente.

Aldo é contra a Embraer ideologicamente, ele mesmo admite: diz que “o que o governo faz não funciona”. Mas é possível que ele tenha razão em parte: faltou apoio à Neiva; faltou apoio à Embraer. De qualquer modo, é fato que alguns industriais foram procurados para produzir o Bandeirante, inclusive estrangeiros, e não aceitaram. Paulo Victor diz que as divergências com Neiva começaram antes em torno do contrato de fabricação do avião Universal, que ele tinha com o Ministério da Aeronáutica. Neiva vendeu sua empresa ao governo. Diz que houve uma intervenção branca na empresa, por motivos anteriores, decorrentes das intenções de mando dos militares. Paulo Victor o teria chamado em 1967, dito que o Alto Comando das Forças Armadas estava muitíssimo preocupado com o atraso do programa da Neiva na produção do monomotor Universal e que o contrato com a FAB só prosseguiria se o CTA estivesse quotidianamente informado de todas as providências e todos os gastos da companhia. “Acabou nomeando um de nossos engenheiros como representante pessoal do Diretor do CTA, que é quem passou a determinar todas providências e todos dispêndios da Neiva. Uma intervenção branca e do conhecimento de toda comunidade, nos colocando numa situação vergonhosa”, diz José Carlos Neiva, em carta a Aldo Weber Vieira da Rosa, em dezembro do ano passado. Neiva diz também que “a diretiva do pessoal da Revolução e da Embraer era a Embraer ser sócia majoritária da Neiva” e que Ozires Silva lhe teria comunicado essa decisão, dizendo que o governo seria majoritário “sem limites”.

O fato é que em fins de agosto de 1969 o presidente Costa e Silva assinava o decreto que criava a estatal Embraer, na forma de uma empresa de economia mista sob controle do governo. E que a Embraer se revelou de fato uma indústria de produzir aviões no período em que foi estatal. Paulo Victor faz o seguinte balanço: “De 1920 a 1970, num processo muito importante, longo, de 50 anos, nós produzimos 1300 protótipos. A Embraer, de 1970 a 1990, em 20 anos, de meia dúzia de protótipos, produziu 4.500 aviões.”

Uma prova da boa vontade de Paulo Victor com os empresários, de qualquer modo, é o relato de José Diniz, da Eletrometal. Do que se lembra, um dos oficiais ligados a Paulo Victor o levou ao CTA para uma conversa. Ele lhe teria dito: “Precisamos achar uma forma de esse país ter uma indústria avançada. O CTA se propõe a ser um núcleo para a produção no Brasil de materiais de alta performance”. “Ele me apresentou a seguir uma lista de materiais, que incluía aços de ultra-alta resistência, aços resistentes à corrosão, aços refratários resistentes a altas temperaturas, materiais magnéticos, materiais com memória. E me mostrou o que eles tinham no CTA para contribuir com esse esforço, basicamente fornos especiais pequenos para fusão e refusão de lingotes metálicos.”

O CTA, diz Diniz, não tinha equipamentos para transformação mecânica – laminadores, prensas e forjas para laminação a quente, a frio, forjaria a frio, tratamento térmico e usinagem. Aí que entrava a indústria nacional, diz ele: o CTA ficava encarregado dos equipamentos e dos trabalhos na escala de laboratório e projeto piloto, e a indústria com os trabalhos e equipamentos da classe semi-industrial e industrial. “E aí”, diz Diniz, “nós fizemos uma planta nova com os fornos que o CTA tinha, mas na escala industrial e semi-industrial. Fizemos também os fornos de tratamento térmico. E ampliamos a fábrica que já tínhamos na área de transformação mecânica, a quente e a frio, a laminação e a forjaria. E enviamos 65 engenheiros para cursos de pós graduação nos EUA. Para isso o CTA nos ajudou junto ao BNDE – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico.”

Diniz não é o único. Várias outras indústrias se associaram ao CTA em projetos estratégicos do mesmo tipo: a Termomecânica, a Bardella, a Villares, a Usiminas, a Petrobrás – com quem o CTA desenvolveu componentes para os propelentes dos seus foguetes. O CTA foi, de fato, um núcleo de apoio aos empresários interessados em tecnologia avançada. Do apoio do CTA surgiu a Tecnasa, fabricante de radares e componentes eletrônicos de sistemas de defesa, que trabalhou para o projeto conjunto Brasil-Itália do avião militar AMX, que incluía radares de bordo. Surgiu a Avibrás, hoje fabricante de blindados transportadores de foguetes terra-terra e foguetes inteligentes com sistema digital de navegação, centro inercial a laser e um receptor GPS ativo. Surgiram os fabricantes de mísseis que recentemente formaram a Mectron e finalmente desenvolveram o Piranha, o sofisticado míssil ar-ar guiado por infra-vermelho, concebido em 1976 pelo CTA e semelhante ao Sidewinder, americano.

O Brigadeiro Paulo Victor nos conta sua história numa sala de aulas do Instituto de Proteção ao Vôo no CTA. É final de agosto, e é a última entrevista com ele antes da redação do trabalho. A conversa já se estende por mais de três horas. Está sendo revista a parte do programa de foguetes Sonda, que começou com o Sonda 1, lançado pela Avibrás em 1965. O programa estatal dos Sonda, foi formalizado por ele, em 1967, e o seu primeiro lançamento foi o Sonda 2 em julho de 1969. Posteriormente, ainda no Regime Militar, esse programa foi transformado na Missão Espacial Completa Brasileira visando já construir um Veículo Lançador de Satélite, com capacidade de colocar em órbita satélites artificiais da Terra. Paulo Victor fala sobre o primeiro lançamento do Sonda IV, a partir da base de Alcântara, que ele acompanhou, ocorrido há poucos anos. “É um foguete de quatro estágios. No primeiro estágio são quatro propulsores em torno da carcaça central. No lançamento, me lembrei que nós começamos tudo há mais de trinta anos. Um propulsor do primeiro estágio apagou. Mesmo assim o Sonda 4 subiu sob controle. Tivemos de destrui-lo, mas o controle direcional funcionou. Tínhamos um foguete guiável.” Paulo Victor interrompe a conversa por segundos. Tem os olhos cheios d’água. Busca se controlar. Retoma a narrativa. “É um resultado fantástico. Só de lembrar me emociono. Muita gente não vibra com isso, não sabe avaliar.”

Paulo Victor é um militar. Militar não é gente simples de entender. Militar é gente que pensa na defesa do Brasil, da Pátria. Coisas meio fora de moda hoje, quando se difunde a tese de que militar deve cuidar das PMs, ocupar morros de favelas rebeladas, impedir que narcotraficantes entrem na Amazônia. Militar tem que cuidar da produção, do controle e do disparo de armas. Todo mundo gosta da paz. Mas a história das nações não é só de paz. As nações mais fortes se impõem às mais fracas. Paulo Victor é um nacionalista, desses que acham que é preciso voltar a cantar o Hino Nacional nas escolas. “O país precisa de determinação, de perseverança”. Diz que está animado, que se sente melhor depois de ter feito as entrevistas para esta história e quer voltar a participar da vida do país “de todas as maneiras, de todas as maneiras possíveis e imagináveis”.

Paulo Victor da Silva nasceu em 1921, em Belém do Pará. “Meu pai era um advogado de classe média”. Era um liberal, anti-Getúlio. Fez parte do movimento dos constitucionalistas, que deu na Revolução de 1932 em São Paulo. Adolescente, escolheu a carreira militar. Quis ser piloto e aviador. Na época, a Aeronáutica não existia. Ele podia ser aviador pela Marinha ou pelo Exército, que tinham aviões. Fez exame de seleção na 8a. Região Militar, em Belém, passou e ganhou uma passagem de navio para o Rio, onde teria direito de fazer concurso para a Escola Militar. Da primeira vez não passou; na segunda, fez cursinho e foi aprovado entre os 30 primeiros de 400 alunos.

Em 1941 foi criado o Ministério da Aeronáutica. Em janeiro de 1942 o governo Vargas, que havia manifestado certas simpatias com o fascismo, rompeu relações com o eixo Alemanha-Itália-Japão. Paulo Victor foi declarado aspirante e passou a formar o grupo de aviadores da Aeronáutica em setembro de 1942.

“Uma semana depois já estávamos nas Bases do litoral fazendo vôos de patrulha. Nós voávamos em aviões de treinamento, que tinham autonomia de apenas 6 horas e ficávamos a 50, 100 quilômetros da costa. Em janeiro de 1943 é que recebemos os primeiros aviões de combate, os hidro-aviões Catalina. Os aviões tinham armas leves, comparadas com as dos submarinos e nossas bombas de profundidade, quatro delas, de 300 quilos cada uma, só os atingiam se os pegassem a menos de 30 segundos do início da imersão”. Dois submarinos alemães foram pegos: um foi destruído; num deles o comandante alemão foi capturado e enviado para os Estados Unidos.

Paulo Victor tinha um grande amigo desde a Escola Militar, Haroldo Coimbra Veloso, mineiro de São João Del Rey. Ambos são designados para Belém e, depois da guerra, no início de 1945 vão também juntos para o Rio de Janeiro, para a Diretoria de Rotas Aéreas, que era dirigida pelo famoso Brigadeiro Eduardo Gomes. No início de 1945, o brigadeiro despontava como um eventual candidato de oposição a Getúlio, apoiado por setores próprio grupo getulista, como Osvaldo Aranha, ministro da Fazenda do governo, e por camadas de intelectuais e estudantes. No dia 6 de abril, Eduardo Gomes deixa a Diretoria de Rotas Aéreas para concorrer à presidência. O brigadeiro perdeu duas eleições como candidato a presidente contra o varguismo: primeiro contra Dutra, em 1945. Depois contra o próprio Vargas, em 1950. Vargas ainda convidou Eduardo Gomes para Ministro da Aeronáutica, depois de eleito em 50. Ele recusou e passou a ser visto como a grande figura do movimento anti-getulista.

Em 1950, enquanto Getúlio voltava ao poder pelo voto popular e Eduardo Gomes era derrotado pela segunda vez como candidato à presidência da República, Paulo Victor ia para o ITA para graduar-se em engenharia aeronáutica. Com os créditos das escolas militares entrou no segundo ano da escola e foi o primeiro presidente do CASD, o Centro Acadêmico Santos Dumont. Concluiu o curso em 1953 e foi nomeado chefe da Divisão de Tráfego da Diretoria de Aeronáutica Civil.

Em 5 de agosto de 1954 o jornalista que se tornara o principal agitador da campanha anti-getulista, Carlos Lacerda, diretor da Tribuna de Imprensa, do Rio, sofre um atentado, no qual morre um oficial da Aeronáutica que o acompanhava, Major Rubens Vaz. O major era padrinho do filho de Paulo Victor que se engaja no movimento da chamada “República do Galeão”, junto com o Brigadeiro Eduardo Gomes, líder da turma. “Vaz era padrinho de meu segundo garoto”, diz Paulo Victor. “O companheiro nosso que estava escalado para acompanhar o Lacerda não foi e o Vaz o substituiu, desarmado e em trajes civis. Eu também fui convidado para acompanhar o Lacerda e me recusei. Se fosse amigo dele, iria como amigo, teria essa opção”.

A República do Galeão foi uma articulação feita em torno do IPM da Aeronáutica para investigar as causas da morte do Major Vaz cujo objetivo era a derrubada de Getúlio. “Nós assumimos as operações todas, o Veloso e eu, na Diretoria de Rotas Aéreas. E conseguimos prender toda guarda pessoal do Getúlio. A situação estava de tal maneira – não havia praticamente autoridade, e então nós assumimos e o Exército e a Marinha vieram atrás. Fomos a vários lugares. Fomos a Queluz, onde tinha uma fazenda do Osvaldo Aranha. Mas pegamos todos eles,” diz Paulo Victor.

Getúlio se suicida em 25 de agosto de 1954. Mas, em 1955 o grupo político do brigadeiro é derrotado mais uma vez: o candidato apoiado pelos conservadores articulados em torno de lideranças como o Brigadeiro Eduardo Gomes e Carlos Lacerda, pela União Democrática Nacional, é derrotado pela candidatura de Juscelino Kubitschek para presidente e Jango Goulart para vice, apoiada pela coligação PSD-PTB. No dia 11 de janeiro de 1956, num movimento imaginado como o estopim de uma revolta para impedir a posse de Juscelino e Jango, Veloso foge com um avião da Aeronáutica, da Base de Campo dos Afonsos, no Rio, para Jacareacanga, na Amazônia.

“Eu era como um irmão do Veloso. Estava em viagem pela Amazônia quando ele saiu dos Afonsos. Ele decolou já com ordem de prisão. Eu havia saído do Rio de Janeiro para Belém, num vôo regular do Correio Aéreo que chegava a Caiena, nas Guianas. Dizem que eu já sabia qual era a missão do Veloso, mas isso é falso. De Belém eu sai em missão para transportar combustível para Porto Nacional. Tinha intenção de ajudar o Veloso. Como a guerra estava perdida, minha idéia era pelo menos retirá-lo para outro lugar. Voltei a Belém e recebi a missão de sobrevoar Jacareacanga e, se possível, ocupar o lugar. Resolvi aderir ao Veloso”.

Ficou três semanas em Jacareacanga. No dia 27 de fevereiro os rebeldes se dividiram, por motivos que Paulo Victor hoje diz que nem lembra mais. Veloso foi para Santarém e ele fugiu de avião para a Bolívia. Desceu em Santa Cruz de la Sierra e pediu asilo político. No dia 1 de março de 1956, Juscelino manda projeto de anistia geral para o Congresso e Paulo Victor e Veloso são incluídos no benefício.

No dia 2 de dezembro de 1959 Veloso ainda apronta outra: seqüestra um avião comercial com outro oficial da Aeronáutica, João Paulo Moreira Burnier, e obriga a tripulação a levar o aparelho para Aragarças, iniciando uma revolta, imaginada para garantir a posse de Jânio Quadros, que havia ganho as eleições para presidente disputando contra o marechal Henrique Lott, que foi debelada em três dias. Paulo Victor não acompanhou o amigo Veloso nessa nova empreitada. Ficou, como ele diz, “colocado no desvio”, em funções de manutenção e intendência, cuidando do parque de equipamentos eletrônicos da Aeronáutica no Rio, na Ponta do Caju.

Em 1962 foi fazer o curso de Comando e Estado Maior da Aeronáutica, curso de alto nível, para qualificar oficiais para os postos superiores. E em 1966 foi para o CTA, a grande oportunidade de sua carreira. fonte: Paulo Victor, o Pacificador, editado pela AEITA em 2001

Texto do Maj. Brig. Ref. Pedro Frazão de M. Lima

"Prezado amigo Brig. Paulo Victor:

A sua família, os seus parentes, os seus amigos e admiradores estão aqui reunidos em homenagem de despedida a um homem que serviu de exemplo de valor para todos nós. Você (como nos tratávamos) pertenceu a uma classe rara de homens que utilizam os seus valores e o conhecimento para o bem da sociedade nacional.

Agora dirijo-me aos presentes:

O Ten. Brig. do Ar Eng. Ref. Paulo Victor da Silva formava entre aquela classe de homens para quem a Pátria está acima de tudo, como ele mesmo disse em uma ocasião muito oportuna: “A PÁTRIA EM PRIMEIRO LUGAR”.

Por sua determinação e coragem, a nação tem hoje a EMBRAER, justificando para o BRASIL a criação do ITA e do CTA. Para tanto, ele possuía todas as coragens que fosse preciso usá-las, e na hora própria.

Tinha a coragem física de sacrificar-se por uma causa nobre, em benefício da nação, como tantas vezes demonstrou.

A coragem moral de enfrentar e convencer os poderosos por uma causa valiosa, como no esforço persistente para criar a EMBRAER, ou ainda na simples defesa de um injustiçado.

E também possuía a maior de todas as coragens: a coragem de omitir-se, quando a sua influência pudesse causar uma injustiça ou prejudicar o valor de alguém.

Eis aí, meus amigos, em poucas e modestas palavras, a personalidade do homem de quem tristemente nos despedimos hoje. Como foi dito no enterro de Caxias, “Se lhe arrancassem o coração, nele encontrariam gravado um nome: BRASIL”.

Maj. Brig. Ref. Pedro Frazão de M. Lima"

Deixando saudades

Faleceu no dia 27 de dezembro de 2009, com 88 anos. fonte

Links externos

  1. Ana Paula Soares, "Adeus ao Ten Brig Paulo Victor". Portal da Assossiação dos Engenheiros do ITA (AEITA), 28.12.2009.

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