RUSD

De wikITA

Rádio Universitária Santos Dumont

A idéia de se criar uma emissora no ITA nasceu em fins de 1957, do Trabalho Individual (atual TG – trabalho de Graduação) do aluno Carlos de Paiva Lopes (ELE-57), que projetou e construiu um transmissor de 1kW.

Em 1958, tentando levar adiante a idéia, foram feitas reuniões entre professores, alunos e membros da Divisão de Alunos com a finalidade de se superar as dificuldades encontradas na obtenção e montagem dos demais componentes da estação. Foi assim que ainda nesse ano conseguiu-se a licença oficial para se operar a Rádio. Um pequeno transmissor interno de ondas médias passou a funcionar com o objetivo de treinar sonoplastas, locutores e programadores. Foi uma fase realmente divertida, em que o estúdio era uma pequena sala e o transmissor, um aparelho simples preso ao qual se encontrava uma folha de papel com os dizeres: “Perigo! Alta tensão!” Em meio ao emaranhado de fios, um sonoplasta preocupava-se em trocar os discos corretamente e em mandar o som para um locutor improvisado. Edzard Wybold van Holthe, o diretor da Rádio na época, não conseguiu, entretanto, manter o entusiasmo inicial dos rapazes, solicitados que eram cada vez mais pelos estudos. Em maio de 1958 a rádio entrou em hibernação.

O ano de 1959 apresentou maiores perspectivas para o projeto RUSD. Embora nessa época a construção da Rádio fosse considerada tarefa quase impossível, o projeto foi adiante. Em uma reunião que ficou famosa, os três únicos alunos que tinham persistido na idéia (Waldecy Gonçalves, AEROV-60, – então diretor do DID e presidente do CASD no ano seguinte, Luiz Oscar Dourado Falcão, AEROV-61, e Helmut Antonio Rüdiger, ELE-60) resolveram dar tudo de si pela concretização do plano inicial. Com o auxílio de calouros daquele ano, deu-se início à construção do estúdio. Dificuldades sérias de aquisição de material são superadas pela contribuição desinteressada de várias firmas. Com verba gentilmente cedida pela fundação Santos-Dumont, pôde-se finalmente comprar o material que não se ganhou. O transmissor, já há um tempo montado, apresentava irregularidades e teve de sofrer modificações. Assim, a 16 de junho de 1959, entra a RUSD no ar, em caráter experimental. Envia-se um apelo aos ouvintes no sentido de escreverem para a rádio: testava-se, assim, a qualidade do som e o alcance da emissora. Cartas animadoras chegam do norte e do sul do país, bem como da Europa e dos Estados Unidos. As transmissões prosseguem ininterruptamente, à medida que se dá o acabamento final na montagem do estúdio. No dia 3 de setembro, por fim, após os retoques finais que só terminaram às 4 horas da madrugada, é a RUSD inaugurada oficialmente pelo representante do Ministro da Aeronáutica. A força e a fibra de um punhado de jovens haviam transformado um impossível projeto na realidade RUSD – a primeira emissora de rádio estudantil do país, de prefixo ZYR-232, transmitindo em ondas curtas.

O estúdio da RUSD ficava no H8. A sua antena foi projetada pelo professor Chen-To Tai, que tinha vindo da Ohio State University para o ITA.

A alma da RUSD foi o Helmut Antonio Rüdiger, da T60, que se dedicava intensamente a ela. Ele ficava muito feliz quando chegava correspondência de várias partes do mundo, escritas por pessoas que captavam a rádio.

Inicialmente houve na RUSD um único programa regular, isto é, transmitido diariamente e que durava uma hora: ele foi introduzido e mantido por Valdemar Setzer (ELE-63), e transmitia música clássica. O nome que ele lhe deu foi A Música Eterna; o prefixo era um trecho do último movimento da 5a. sinfonia de Beethoven. Setzer costumava ir às casas dos professores e gravar as músicas que seriam transmitidas, precedidas de comentários falados por ele ao vivo. Um grande colaborador, que tinha uma vasta discoteca, foi o Prof. Luiz Valente Boffi. Setzer lembra que o prof. Boffi tinha um toca discos especial, com um prato grande e pesado; ele sempre começava a rodar o prato com o dedo, para garantir a velocidade de rotação final estável.


Depoimento de Luiz Pinto de Carvalho (ELE-63) em e-mail de 15 de maio de 2014:

Antes de entrar no ITA, eu tinha estado no Baile do Bicho (ou que nome tinha), quando da “libertação” do trote da turma ingressada em 1958, convidado pelo José Salles, ex-colega de colégio em Salvador e que veio a desaparecer do ITA aí pelo terceiro ano (foi para o Rio de Janeiro). Visitei a escola, o H-8, o antigo refeitório do Natalino e dormi no H-8. Numa das salas do H-8, José Salles me mostrou alguns equipamentos pelo chão – um toca-discos e outras poucas coisas – que, segundo ele, seria a “RUSD”, ainda em fase de implantação.

Durante o trote, em 1959, quando vários órgãos do CASD faziam reuniões com o bicharal para propor trabalhos, estive em uma reunião com o Helmut Rüdiger (na época havia trema) para ele promover a RUSD e recrutar pessoal para trabalhar nela. Fiquei entusiasmado e me propus a trabalhar, tendo recebido o cargo de Secretário.

No início de 1959, a RUSD não transmitia. Helmut me levou um dia para ver o transmissor de ondas curtas de 1 kW, frequência de 17.725 kHz, que estava instalado, mas ainda sem operar, numa casinha a lado do H-8-C (do lado “de dentro”, oposto à “Dutrinha”). O transmissor tinha sido resultado do TI (atualmente, TG) de Carlos de Paiva Lopes, e devia funcionar, mas tinha que ser testado.

Uma das salas da frente do H-8-C estava reservada para a RUSD, com uma mesa de som provisória e toca-discos e microfone também provisórios. Helmut (não lembro se com a ajuda do Dion) interligou essa sala com a casinha do transmissor por meio de um fio duplo (não lembro se blindado, como deveria ser) enfiado na terra ao longo da calçada frontal do H-8. Ligou o fio duplo, de um lado, à saída da mesa de som e do outro à entrada de modulação do transmissor.

Um dia ele me chamou e disse: vamos ligar o transmissor. Fui lá, com certo receio de algo dar errado, mas o transmissor foi ligado sem aparentar nada errado e com todas indicações de que estava funcionando corretamente. Depois foram feitos testes de recepção e o conjunto mesa e transmissor funcionaram adequadamente.

Algumas ações relacionadas com a construção da forma final do estúdio da rádio, na tal salinha do H-8, ocorreram mais ou menos nessa época, não sei se antes ou depois desse teste. Vão relatadas aqui fora de ordem.

O estúdio, depois de pronto, era formado por quatro salas enfileiradas (sendo o sentido de “enfileiradas” paralelo à frente do H-8). A maior, que servia de entrada, era a sala de recepção, com algumas cadeiras para se sentar, se não me engano um sofá, possivelmente alguma estante, e uma das paredes com um mural modernista pintado por alguém convidado para isso pelo Helmut. Nessa sala havia uma porta de entrada ampla, não original do H-8, colocada aí para ser a entrada principal, social, do estúdio. A entrada original era uma porta do formato usual no interior do H-8, que dava para o corredor interno do alojamento. Não lembro se era na sala principal ou numa outra, que era a discoteca/biblioteca e sala de reuniões.

A discoteca/biblioteca e sala de reuniões era uma sala estreita que ficava em posição oposta, em relação à sala principal, à da sala de controle de som e de locução. Nela ficava uma mesa comprida, para reuniões, cadeiras e móveis para guardar discos e livros. Comunicava-se com a sala principal por uma porta lateral, padrão de interior de H-8.

Do outro lado, na sala que estou chamando de principal por ser maior e a primeira ao se entrar pela porta social, havia uma porta que dava para a sala de controle de som; desta, outra porta, adiante, dava para a sala de locução.

A sala de controle de som era pequena e veio a conter a mesa que foi doada pela STP, empresa de um tio do Homem de Mello, do qual ele veio, posteriormente, a ser proprietário. Fazia parte do conjunto um toca-discos profissional.

A sala de locução era a última, um pouco maior que a de controle de som. Nela ficavam simplesmente uma cadeira e um microfone profissional RCA. Entre a sala de locução e a de controle de som havia uma larga janela de vidro, para o controlador e o locutor se avistarem, sem que sons externos perturbassem a locução.

A construção desse conjunto de salas, a partir da sala originalmente existente, utilizou material de construção cedido pelo CTA, que o Helmut arranjou com o Brig. Montenegro (posteriormente Marechal Montenegro).

Uma ocasião, eu fui designado pelo Helmut para ir buscar uns tijolos na administração do CTA ou nas obras de construção do H-13 e, para isso, tinha que usar um caminhão do CTA. Pelo que lembro, o caminhão estava junto às obras de construção do H-13, já acertado seu uso, mas eu tive que esperar alguma coisa que estava sendo feita lá. Enquanto isso, mostraram-me um oficial que estava em pé pouco adiante, observando a construção, e me disseram que era o Montenegro.

O Brigadeiro, num certo momento, precisou de um caminhão e foi falar com o motorista do “meu” caminhão. O motorista disse que o caminhão estava comigo (me apontou). O Brigadeiro veio até onde eu estava e perguntou para que eu ia utilizar o caminhão. Eu disse que era para levar material de construção para o estúdio da RUSD. O Brigadeiro estava sabendo do que se estava fazendo em relação à RUSD. Parou, pensou e concluiu que deveria deixar o caminhão a minha disposição. Não disse uma palavra, simplesmente virou as costas e se afastou... Levei o material para o H-8.

O estúdio teve a sala de locução, a de controle de som e mesmo o teto da sala principal revestido de Eucatex, para absorver o som e, com isso, melhorar a acústica. Esse Eucatex foi doado, como também foi doado o Vulcapiso que se colocou no chão de todo o estúdio. Eu tenho a vaga impressão de ter tido alguma tarefa no transporte de um desses materiais de São Paulo para o H-8, mas não lembro exatamente como foi.

O que eu lembro bem, por causa das consequências, foi a doação da mesa de controle de som. O Helmut tinha conversado com o tio do João Alves Homem de Mello e acertado comprar a mesa. Só que a RUSD e o CASD não tinham dinheiro para isso. Helmut, então, me encarregou de telefonar para o tio do Homem de Mello para convencê-lo a doar a mesa. O homem ficou deveras zangado, disse que o Helmut tinha ficado de comprar, mas no final concordou em doar. Poucos dias depois eu recebi uma ligação (terá sido pelo interfone improvisado pela RUSD?) do Homem de Mello dando a maior bronca por eu ter telefonado para o tio dele para pedir que a mesa fosse doada. O fato é que a mesa chegou, funcionou bem, e, com isso, pode até ter tornado a STP mais conhecida, pelo menos no âmbito dos alunos do ITA.

Posteriormente, eu aproveitei umas férias de meio de ano, quando eu ficava no H-8 para não dar despesa de transporte aéreo a minha família, em Salvador, para refazer totalmente o circuito eletrônico da mesa. Usei um esquema comercial de amplificador dos chamados na época de “alta fidelidade”. Deu certo. Interessante que quando o Helmut retornou de férias e eu disse a ele o que eu tinha feito, ele ficou aborrecido, achando que o resultado não poderia ter sido bom. Depois ele viu que a mesa estava funcionando bem.

A RUSD recebeu licença da Comissão Técnica de Rádio (a “ANATEL” da época) para operar na frequência de 17.725 kHz, com o indicativo (na época, chamávamos “prefixo”) ZYR-232.

Quando em condições de operar, foi inaugurada com certa pompa e começou a operar. Pedia-se, pelo “éter”, que as pessoas que a escutassem enviassem algum cartão acusando a recepção. Helmut colocou um quadro onde foi pregando os cartões que começaram a chegar de várias partes do mundo, e chegaram muitos, de todos os continentes.

Para minha decepção, a RUSD não era bem recebida na cidade de São José do Campos. Quase nada. Mais tarde, quando alguns alunos quiseram usar a RUSD para dar cursos de alfabetização na cidade e possivelmente em outras partes do Vale do Paraíba, o Dion, por sugestão do Prof. Rios (de Antenas), propôs usar uma antena vertical em vez da antena horizontal, dipolo de meia onda, com três fios, que era usada desde o início. Eu e ele labutamos na instalação da antena, que era um mero tubo fincado no chão, de tamanho compatível com a frequência (cerca de 4 metros, para ser de quarto de onda), com vários radiais enterrados e um coaxial ligado em paralelo a uma certa altura do tubo, perto da base.

Para enterrar os radiais, Dion arranjou uns dois trabalhadores braçais do CTA, que vieram para cavar as valas onde ficariam os fios e cobri-las de terra depois de os fios serem colocados. Eles começaram a fazer isso um ou dois dias, mas depois simplesmente sumiram; tivemos, eu e Dion, que completar o serviço sozinhos.

Infelizmente, parece que não resolveu o problema na cidade.

Várias pessoas do CTA começaram a reclamar que a RUSD dava interferência nas televisões. Helmut me mandou conversar com o Brig. Montenegro a respeito; foi a segunda vez que o vi. O Brigadeiro estava bastante preocupado com o problema, embora ele atribuísse bastante importância à RUSD.

Por causa desse problema, eu fui conversar com o Prof. Plínio Tissi e, depois, com o Prof. Wallauschek.

Foi sugerido fazer um filtro passa-baixas à saída de antena para atenuar os harmônicos que caíssem na faixa de TV. A saída do transmissor era bifilar, de 300 ohms, para combinar com o dipolo de meia onda trifilar.

O filtro foi feito e constava de dois conjuntos (um para cada fio da alimentação) com uma alternância de capacitores e indutores, formando células, cada célula alojada em um compartimento de alumínio, para evitar acoplamento espúrio dos harmônicos. Creio (a memória não é perfeita...) que eram umas três ou quatro células, com quatro ou cinco capacitores e três ou quatro indutores.

Os indutores eram de fio grosso enrolados no ar e os capacitores eram placas de alumínio isoladas da carcaça de alumínio por uma placa de teflon, cortadas na oficina mecânica da Eletrônica.

Instalamos e fomos testar o filtro. Com o transmissor ligado, o filtro começou a soltar fumaça... Eram os capacitores que tinham entrado em curto.

Levei os capacitores ao Prof. Wallauschek, que os examinou com surpresa; fomos conversar com o Toth (assim que se escreve?), chefe da oficina mecânica da Eletrônica, que mostrou como as placas de teflon eram preparadas: para fazer o furo de fixação do alumínio na posição central, ele fazia um X a lápis, a partir dos quatro vértices do retângulo.

O Prof. Wallauschek concluiu: era isso! A grafite, condutora, conduzia a corrente e queimava o teflon.

Não resolveu totalmente o problema. O Helmut comentou que, em vez de serem harmônicos, podia ser a fundamental, de 1 kW, que, sendo recebida com ainda bastante intensidade pelas antenas de televisão, causava sobrecarga nos circuitos de entrada de alguns televisores de menor qualidade. E mandou-me, mais uma vez, falar com o Montenegro.

Fui. Ele continuava preocupado com as interferências. Argumentei que poderia ser culpa de receptores de TV de baixa qualidade. Levei a maior bronca: ele não podia mandar consertar todas as televisões do CTA! (Isso dito aos berros.)

O próprio Montenegro sugeriu fazer uma enquete em toda a área residencial do CTA para saber a extensão do problema. Eu preparei uma espécie de folheto com perguntas sobre a interferência, que foram copiados em estêncil a óleo e, seguindo sugestão do Montenegro, consegui um soldado da Aeronáutica para me ajudar a distribuir em todas as residências, eu do lado esquerdo de quem vai entrando pela “Dutrinha”, ele pelo direito.

Distribuímos; alguns dias depois recolhemos. Não lembro o que concluímos do que foi preenchido, mas me parece que, na maioria, não havia grandes reclamações.

Em uma das casas, quando me aproximei, vi que o morador, um homem jovem, imagino que militar, estava sentado no jardim com a jovem mulher sentada no colo. Parei à distância, mas, para não perder a viagem, perguntei, como fazia em todas as casas, se ele tinha televisão. Ele disse que não. Perguntei se pretendia comprar (pergunta inútil, nas circunstâncias). Ele disse, já num tom de quem espanta cachorro, que não. A mulher dele deu risada...

Depois de tudo isso, cessaram ou diminuíram muito as reclamações. Não sei explicar por quê.

Outro fato interessante: a Divisão de Eletrônica nos cedeu, em meio expediente, um técnico de origem portuguesa, chamado Arnaldo, para ajudar nos ajustes e manutenção dos equipamentos da RUSD.

O Arnaldo contou-me que, antes de vir de Portugal para o Brasil, ele já trabalhava em eletrônica. Nosso transmissor trabalhava, na saída RF de alta potência (1 kW), com duas válvulas tríodo em paralelo, alimentadas por uma tensão próxima a 1.000 V. Quando o transmissor estava aberto para manutenção, aquilo ficava exposto e era necessário grande cuidado para não tocar nos terminais de alta tensão, que ficavam no topo das válvulas.

Um belo dia, quando o Arnaldo ainda estava em Portugal, ele estava junto com um outro técnico, lidando com um equipamento que tinha uma tensão semelhante. De repente, o Arnaldo percebeu que o colega tinha produzido um som estranho e dado um salto. Virou-se para ele e viu-o pálido e transtornado. Como era natural, perguntou: “Que foi?”, ao que o colega disse: “Peguei aqui” e novamente pôs a mão no fio com alta tensão. Morreu. (Não posso jurar que o Arnaldo não inventou essa história, mas juro que foi exatamente assim que ele me contou.)

Pois outra ocasião chegou uma reclamação de uma estação internacional que tinha frequência muito próxima à da RUSD e estava sendo interferida por esta. Veio com uma fita gravada que mostrava que, realmente, a RUSD interferia com a transmissão da tal estação. Eu lembro que foi a Voz da América, mas o Amadeu afirma que foi a Rádio Moscou.

Como pode ser isso?! Foi-se investigar. Descobriu-se que o Arnaldo (que ele me perdoe por contar) tinha descoberto que a câmara termostática que abrigava o cristal oscilador, que determinava a frequência de operação, tinha um parafuso, dentro de um buraco, que estava meio frouxo, e ele o apertou...

Depois dessa época inicial, eu tive outros cargos na RUSD: “Diretor de Estúdio” e por fim “Superintendente Técnico”, que, estranhamente, era dito acima de “Diretor Técnico”, na época ocupado pelo Leendert Orange (ELE-65). No entanto, embora na fase inicial eu tenha sido bastante ativo na RUSD, nessa fase posterior eu apenas ostentava a condição de “Superintendente Técnico” como se fosse um título nobiliárquico...

Ainda na fase inicial, houve ocasiões em que eu ajudei como sonoplasta (o indivíduo que controla o som) e até como locutor, sendo que uma ocasião em que eu estava de férias mas permanecia no H-8, fui sonoplasta e locutor simultaneamente: transportei o microfone para junto da mesa de som.

Houve também uma vez em que duas moças, que eram técnicas da Divisão de Eletrônica, creio que húngaras, pediram para fazer um pronunciamento sobre a ocupação russa no seu país. Não lembro se pediram diretamente a mim ou ao Helmut ou, dependendo da época, ao Tyla, que foi Presidente da rádio depois do Helmut. Em todo caso, coube a mim coordenar o evento. Como, afinal, se tratava de um pronunciamento político, fui consultar o Prof. Tolle, que, depois de alguns “vai e vem” de argumentação comigo (ora eu lembrava algum problema e ele concordava, ora eu sacava uma atenuante, e ele também concordava), concluiu que o programa podia ser levado ao ar.

No dia, aguardei as duas na entrada do H-8-C e conduzi-as pelo corredor interno, para a porta do estúdio que dava para esse corredor. Quando estávamos andando, lá pelo meio do trajeto, vi que uma porta de apartamento se abriu e alguém saiu, andando para longe de nós. Aí, a pessoa virou para ver quem ia entrando no corredor e deu um berro: “mulher!!!” e saiu correndo para entrar em outra porta. Estava nu... As meninas não se perturbaram.

Essas são minhas recordações positivas da RUSD. De negativo, quando voltei ao ITA como professor, fui procurado por alunos que me disseram que queriam reviver a RUSD, mas o chefe da Divisão de Alunos, na época um oficial, se opunha, e pediram-me que conversasse com ele, o que concordei em fazer. Eu iria comentar sobre o uso que fazíamos da RUSD antes de 1964, e que não havia nada de “subversivo” nisso. Mas como eu demorei um pouco, um dia os mesmos alunos voltaram para me dizer que eles próprios tinham ido falar com o chefe da Divisão de Alunos e este tinha dito que não iria concordar nunca, de jeito nenhum. Morreu a história.

Em alguma ocasião posterior à “gloriosa revolução de 1964”, alguns militares destruíram a casa e o transmissor de ondas curtas da RUSD, ao que consta, a marretadas.

Cartão de visita do Dion

Depoimento de José Dion de Melo Teles (ELE-63) em e-mail de 21 de agosto de 2012:

Eu fui diretor de programação da RUSD. Ainda tenho o cartão de visita que o Helmut fazia questão que a gente tivesse. (Ver à direita a imagem desse cartão; acione-a para ampliá-la e ver os detalhes.) Montei o equipamento do estúdio, mesa, gravadores, links; o transmissor, que operava na faixa de 17 m, era conveniente para transmissão a longa distância, e os programas (música cedida em rolos por embaixadas, locutores, etc) eram recebidos e confirmada a recepção no norte da Europa, quando a gente queria mesmo era que nossas famílias nos sintonizassem… O transmissor, instalado em uma casinha ao lado do H8 parece-me que foi montado pelo Yaro Burian Júnior, ou ele estudava em seu violino lá, para não ser perturbado pela corja ignara que chiava. A uma certa altura foi feita uma adaptação de antenas 'na marra' para irradiar nas proximidades para um programa de alfabetização pelo rádio para crianças de casais trabalhadores em coleta agrícola e, como tal, migrantes ao longo do vale do Paraíba. Como a freqüência era da Aeronáutica, e a aplicação poderia ser vista como 'da esquerda' pois era promovida pelos iteanos da JUC, o prof. Tolle ajudou a acertar o ajuste do acordo de comodato de uso da freqüência com o CASD, enquanto era testada a aplicação didática, mas com o caráter de trabalho de laboratório (não lembro se o prof. Barradas estava nessa); foram comprados kits de receptores a pilha na Philips e creio que o Barata (ELE-63) ajudou (como eu) a montá-los para irem para o campo com apostilas para os monitores e os alunos.


Depoimento de Luiz Pinto de Carvalho (ELE-63) em e-mail de 31 de agosto de 2012:

O símbolo da RUSD na época, escolhido pelo Helmut a partir da sugestão de um amigo dele que lidava com essas coisas (marketing, etc.), aparece no cartão do Dion. É o conjunto de duas figuras no canto direito inferior, o círculo pontilhado branco e preto e o quadrado amarelo (ou dourado) com um círculo interno, dentro do qual estão as quatro letras da RUSD.


Depoimento de Laudo Bernardes (ELE-63) em e-mail de 23 de agosto de 2012:

Também trabalhei na RUSD, na época da 'ressurreição' (1959). Eu era programador, lendo previamente e selecionando aqueles releases que recebíamos. Lembro-me em especial dos fornecidos pela Embaixada dos EEUU (do Serviço de Informação deles). O Salgado (Nepo) era locutor, falando em mineirês, claro. Uma noite ele estava de plantão. Anunciava uma sessão de música clássica e, lá pelas tantas, mandou ver num tal Rakhmaninoff, com acento destacado no o. Foi um auê geral por parte dos admiradores do famoso russo.


HISTÓRICO DA RUSD

1963: Primeira rádio brasileira a transmitir em FM.

Criação da RESD (Rádio Educativa Santos-Dumont), como forma de contribuição do estudante universitário contra o analfabetismo.

1964: Em alguma ocasião posterior à “gloriosa revolução de 1964”, alguns militares destruíram a casa e o transmissor de ondas curtas da RUSD, ao que consta, a marretadas. A RUSD entra em hibernação.

1968: Com a chegada ao ITA da Turma de 1972, João Batista Carvalho Filho se interessou pelo espólio da RUSD e começou a trabalhar pela recuperação do transmissor de ondas curtas, muito danificado, e conseguiu, antes do final do ano, colocar no ar o que se chamou RISD Rádio Interna Santos Dumont com um transmissor de pequeno alcance que cobria basicamente a áres do CTA. Mais tarde, com a ajuda de bixos de outras turmas, conseguiu completar seu sonho de reativar a RUSD.

1971: Quando Luiz Pinto de Carvalho voltou ao ITA como professor, foi procurado por alunos que queriam reviver a RUSD e pediam sua ajuda pois um oficial com algum cargo de chefia que ele não se lembra, se opunha à reativação. Como ele estava demorando um pouco, os próprios alunos foram falar com este chefe e ele teria dito que não iria concordar nunca, de jeito nenhum. Morreu a história.

1972: Nessa época o Luciano Humberto Lampi (AER-76) foi a Ribeirão Pires com o José Geraldo Chiquito e o Wagner Chiepa Cunha, ambos ELE-74, buscar alguns componentes doados pela Constanta para a nova mesa de operações da RUSD. Aproveitando foram visitar Paranapiacaba e também a antena da Eldorado, que continuava a jogar muitos kilowatts no Oceano Atlântico. É que o Lampi quando era criança e morava em Ribeirão Pires, ouviu muito a Rádio Eldorado, que, por causa da potência, era a única que êle conseguia sintonizar em seu rádio galena.

1974: Cassação de seus direitos de transmissão pela RADIOBRÁS. A RUSD entra em hibernação pela segunda vez.

Entre 1975 e 1979 a RUSD esteve completamente desativada, sem qualquer forma de programação e/ou transmissão. O estúdio, com isolamento acústico, tinha uma mesa para o operador com dois toca-discos e um toca-fitas de rolo, existindo ainda uma boa quantidade de discos de vinil guardados, vários de 78rpm. Havia num dos ambientes um transmissor de FM não instalado e inoperante que, segundo alguns, teria sido o TG de um ou dois alunos, usado para as transmissões da RUSD alguns anos antes. Nos arquivos, podiam ser encontradas várias correspondências mantidas com outras rádios, inclusive de outros países.

1982: O Trabalho de Graduação de dois alunos de eletrônica da turma 82 – “Projeto e Montagem de um excitador FM para a rádio-difusão sonora” – despertou um interesse pela RUSD, após alguns anos de desativada. Ainda no primeiro semestre desse ano, foram realizados testes em 95,5 MHz, com potência de 0,1W, suficiente para cobrir todo o H8 e imediações e incentivar os alunos a participarem da reativação da rádio. No semestre seguinte, encerraram-se as transmissões e iniciaram-se os trabalhos de organização e legalização da RUSD.

1983: Durante as férias, um grupo de alunos participantes da CV83 foi encarregado de pesquisar projetos para transmissores FM na Europa. Foi adquirido então um “bit” para transmissor de 60 watts, trazendo-se ainda outras idéias e sugestões para a Rádio. Embora a parte técnica da rádio estivesse funcionando bem (estavam prontos o modulador FM, o amplificador de RF, o multiplex e a sintonia digital), os trabalhos de legalização da rádio, os quais se iniciaram em final de abril, demoravam e desgastavam os alunos. A administração do ITA apoiava a iniciativa através do professor Darwin, que participou de várias reuniões, formulando sugestões e auxiliando na recuperação do material de rádio. Os professores Obemor e Octanny, por sua vez, cooperavam nos aspectos legais da Rádio – em especial na elaboração dos estatutos juntamente com a equipe da RUSD, a qual tinha permissão para ir ao ar em baixa potência visando testes, divulgação da OI e informação geral.

1984: Havia um transmissor de 40 watts montado e funcionando e uma antena em boa altura para transmissão para boa parte da cidade de São José. Contudo, problemas de ordem burocrática (legalização junto ao Ministério das Comunicações e autorização do Ministério da Aeronáutica) e problemas técnicos (mesa de som com ruído) impediam que a rádio funcionasse. Para conseguir o único canal FM educativo de São José dos Campos, era necessário criar uma fundação dentro dos padrões do MEC para depois requerer o canal ao MINICOM. Nesse sentido, foram criados os estatutos da Fundação Casimiro Montenegro Filho.

22 de abril de 1986: Entrou no ar com um novo transmissor de pequena potência construído por alunos. Radiodifusão restrita apenas ao H8. O transmissor foi montado pelo Carlos Augusto Soares Ribas (ELE-89) e José Ricardo Baddini Mantovani (ELE-88), baseado em um esquema publicado em uma revista francesa. Era um transmissor estéreo baseado em um CI sintetizador de freqüência que permitia ser programado digitalmente para qualquer freqüência de operação dentro do espectro de FM comercial em passos de 0,1 MHz. Escolheram-se 105,7 MHz para a freqüência de operação.

Os componentes do transmissor foram doados pela Embraer. A antena foi projetada pelos dois alunos e fabricada na Embraer e o amplificador de RF (1 Watt) foi doado pela Tecnasa. Com esse transmissor, a RUSD abrangia boa parte de São José.

No final dos anos 80 a RUSD voltou a ser muito ativa no H8 e a programação era transmitida para todo o CTA..

O Bagual se lembra de bons programas, como o "Canta Nordeste", "Koyaanisqatsi", "Delta H negativo: o programa exotérmico", e também do programa do Primo: - Você está ouvindo Audiência Zero. Vamos ouvir agora, Mozart.

Nessa época a RUSD tinha até um noticiário comandado pelo Cegonha, e o Bagual tinha que sair correndo do treino de basquete pra dar notícias de Astronomia. Era muito legal.

Alguns detalhes sobre a programação da RUSD naqueles tempos podem ser encontrados em:

Maurício de Arruda

Rogério Alessandro da Silva Passos

Luis Eduardo Santos Coelho Netto


1988:Murilo Pagnano Ribeiro (INFRA-91) começou a pintar o mural da RUSD – um desenho com quatro mulheres semi-nuas. Ele iniciou o mural em 1988 e terminou em 1989. Morreu logo depois de se formar, por afogamento (quando surfava).

1989: A rádio operava com mais de 100 pessoas participando ativamente, entre diretores, assessores e programadores. Havia cerca de 14 horas de programação diária, desde 13:00h até 3:00h da madruga... Participavam professores, alunos do CSTC (Curso Superior de Tecnologia em Computação), pessoal da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, havia programas infantis, programas religiosos, jornal diário (RUSD Notícias), entrevistas com Reitores, Brigadeiros, professor Lacaz Neto (essa tem gravada) e Flory (escritor), visitas de cantores (tem até um CD da Cássia Eller com sua dedicatória para a RUSD), transmissões ao vivo de bandas tocando, cobertura de eventos esportivos, karaokê...

1998: Transmissão via internet

2000: Reforma da sala da RUSD


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