T62 Pedro Luiz: A Grande Viagem

De wikITA

A grande viagem

A maior viagem terrestre que eu fizera até então foi de ônibus de Madrid a Madrid passando por Atenas. (Faço questão de escrever Madrid e não Madri porque os naturais da bela capital da Espanha pronunciam esse d sonora e orgulhosamente.) Foram 28 dias de uma belíssima viagem que eu descobri num recorte minúsculo de jornal, acreditei, comprei e realizei.

Foi baratíssima: custou 1.250 dólares por pessoa, o mesmo preço da passagem aérea. Imaginei que seria uma viagem supereconômica, dormindo em albergues, etc. Que nada, tudo muito bom, hotéis três estrelas, city tours.

Era, pelo visto, uma excursão destinada a cucarachas latinoamericanos, à qual aderiram 14 casais, sendo três brasileiros, argentinos, colombianos, mexicanos, etc. Acreditem: a simpática a eficiente guia espanhola advertiu: “La pontualidad es muy importante. Media hora es media hora, ni un minuto más. Si paramos para ver alguna atracción, todos deben observala.” Acreditem, tivemos inúmeras paradas e nenhum caso de atraso em todo o percurso!

O trajeto foi Madrid, Paris (2 dias), Frankfurt, Rothenburg (cidade medieval alemã), Nuremberg, Munique, Viena, Budapest, Belgrado, Nis, Skopje, Tessalônica, Atenas (dois dias com direito a cruzeiro pelas ilhas gregas), Patras, ferry-boat de 22 horas até Brindisi, na Itália, Roma (2 dias), Florença, Veneza, Milão, Nice, Barcelona e Madrid.

Nessa viagem tive dois momentos etílicos gloriosos. O primeiro foi em Belgrado, capital da então Iugoslávia, hoje Sérvia. Saímos em quatro casais para jantar, fomos ao bairro boêmio da cidade, entramos em um restaurante. O cardápio era em servo-croata, nada em qualquer outra língua inteligível. Enquanto um olhava para a cara do outro, eu chamei com autoridade o garçom e pronunciei a única palavra que eu achava que sabia naquele idioma “Slivovitz!” O moço imediatamente se retirou e voltou com um cálice dessa deliciosa bebida típica da região, uma aguardente de ameixa. O outro momento etílico glorioso foi quase ao final de viagem, quando um mexicano que ficara meu amigo que perguntou:

 –Pedro, sabes de una cosa?

 –Que cosa, Hector?

 –Nosotros somos veinte y ocho personas en este autobus, pero Usted solo bebe más que las otras veinte y siete juntas!

Não pude discordar. Apenas caí do cavalo em Atenas, quando desafiei a bebida típica deles, o malfadado ouzo, uma espécie de arak, adocicado, e sofri um dos raríssimos porres de minha vida.

Quando chegamos na Grécia, com calor de 45°C – foi um dos mais quentes verões naquele continente, com mortes, incêndios, etc. – a guia nos ensinou três expressões em grego: calimera (bom dia), calispera (boa tarde) e bira poli crea (cerveja bem gelada).

No cruzeiro que fizemos visitamos três ilhas gregas: Aegina, Poros e Hydra (água em grego). Quis a ironia do destino que, precisamente nesta ilha, eu quase sucumbisse a uma desidratação. Quando descemos do navio fomos informados de que havia logo ali uma praia, ligada ao cais por uma passarela de uns 300 metros, onde as moças costumavam ficar nuas. Sem que minha mulher percebesse, segui por ali e de fato lá estavam elas. Tirei sorrateiramente algumas fotos e decidi voltar, pois o sol estava insuportável. No meio do trajeto de volta comecei a ficar tonto quase caindo. Era a desidratação, e eu ali sozinho. Pensei “castigo divino”, mas não era, pois percebi uns 20 metros à frente um barzinho, ao qual

consegui chegar quase rastejando, entrei e supliquei ao grego que lá estava:

 –Bira poli crea...

 –Coca Cola!

Era só o que havia, mas foi o que me salvou!

Outro episódio jocoso mas decepcionante ocorreu em Florença. Fomos em uma pizzaria, onde vimos brilhar no cardápio uma denominada “pizza ai frutti di mare” Pedimos sem hesitação, já imaginando saborear aquelas delícias do oceano. Quando chegou a pizza, a dolorosa realidade, era de mussarela com três conchinhas em cima.

Em Milão, um momento sublime: ver in loco o quadro “A última ceia”, pintado por Leonardo da Vinci, não se sabe porque de acesso um tanto restrito ao público. Essa emoção somou-se a outras, de observar de perto obras antológicas como a Mona Lisa, Vênus de Milo, Pietà (do Vaticano), o Moisés e o David de Michelangelo.

Museus visitados: Louvre, Quai d’Orsay, antropológico de Atenas, do Vaticano, com a magnífica Capela Sistina, e do Prado, em Madrid.

Para terminar: o comunismo da Hungria, made in URSS, era visivelmente pior que o da Iugoslávia, marca Tito. Quando voltei a Budapest, vinte anos após, a cidade era outra, muito melhor.

22/9/16


Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto

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