T62 Pedro Luiz: Amigos paratienses

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Amigos paratienses


Fiz dois amigos em Paraty das maneiras mais insólitas possíveis. Um deles era um rapaz chamado Zacarias que preparava as bebidas no bar Lapinha, que ficava na Praia do Pontal, a sem graça da cidade que quebrava o galho dos banhistas menos exigentes.

Em um fim de semana chuvoso, eu e um amigo bebíamos reiteradas doses de whisky naquele bar, acompanhadas dos inevitáveis tira-gostos.

Tínhamos tomado 16 doses pelas nossas contas, mas a cobrança veio de 17. Já bastante alcoolizado, fui reclamar e perguntei ao rapaz (o Zacarias, que eu ainda não conhecia) se ele estava querendo nos roubar. Pois o moço se ofendeu e saiu do balcão para brigar comigo. Só então percebi que ele mancava!

Felizmente, o estado etílico não me impediu de raciocinar “pô, se ele me bate, é uma vergonha, se bato nele, é covardia” e dizer:

     –Desculpe, você tem razão. Eu estou bêbado e devo estar enganado.

O resultado dessa proposta de paz foi que o Zacarias, ficou tão meu amigo que passamos a sempre nos ver em Paraty e beber juntos.

O segundo foi José Kleber, um advogado paulista que largou a profissão e se radicou em Paraty, onde passou a ser um agitador cultural, autor do hino da cidade, organizador de festas, orgias etc. Dedicou-se também, ao alcoolismo, às drogas e ao homossexualismo. Terminaria morto em uma briga entre iguais.

Eu sabia que essa figura existia, mas não o conhecia. Pois em outro fim de semana chuvoso, que nos obrigou a perambular três dias pelos bares mais freqüentados da cidade, eu notei várias vezes a presença de um tipo com grande cabeleira e barba negra, que falava e gesticulava muito.

No quarto dia pelas 11h00 da manhã, eu resolvi tomar uma dose de Campari, a bebida ideal para “limpar”, no Bar do Abel. Ao pedi-la, notei a memorável figura acima descrita a poucos metros de mim bebendo uma dose de whisky. Instintivamente, lhe perguntei:

     –Escute, você é Deus?

     –Por que?

     –Porque é onipresente. Em todo lugar que eu vou você está

     –Engraçado, eu também vejo você em todo lugar onde eu vou. Alias, você é parecido com o Delfim Neto.

     –Eu posso ser parecido com o Delfim, mas não sou veado!

Porque falei isso!? O homem enfureceu-se:

     –Desgraçado! Eu vou lhe quebrar a cara!

     –Uai, o que foi que eu fiz?

     –Eu não admito que você se meta na minha vida!

     –Como assim?

     –Eu dou [omito o objeto] para quem eu quero e você não tem nada com isso!

Já havia juntado gente para apreciar a discussão e possível briga, quando me caiu a ficha. Era o Kleber! Sua frase altissonante, uma das mais inesperadas e emblemáticas que eu me lembro de ter escutado em toda a minha vida, me convenceu disso.

Então lhe expliquei que não quisera ofendê-lo, blá, blá, blá, e acabamos ficando amigos. Só amigos, claro...


21/11/2016

Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto

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