T62 Pedro Luiz: Anedotas

De wikITA

Anedotas


Todos nós temos alguns grandes dias: de glória, de amor, de tristeza, etc. Pois eu tive o meu grande dia de anedotas! Foi quando éramos há pouco formados no ITA, residíamos vários colegas em São José dos Campos e o companheiro Antonio Bakowski ganhou, em sorteio promovido, se não me engano, pelo American Express, um almoço para vinte pessoas. Promoveu então esse almoço para os colegas iteanos na Cantina do Mario, o melhor restaurante da cidade.


Ao meio dia estávamos lá, pedimos os aperitivos e resolvemos contar algumas anedotas. Esse “algumas” acabou entusiasmando e engrenou-se uma sequência, na qual todos queriam contar alguma, e o resultado é que o almoço só foi servido às nove horas da noite! Foram nove memoráveis horas consecutivas de risos e gargalhadas.

Eu contei uma que ninguém conhecia e riram bastante.

Um psicanalista recebeu em consulta um homem que aparentava muito cansaço. Indagado sobre o que o afligia, o paciente contou que não conseguia dormir, toda noite ele sonhava que era motorista de caminhão entre São Paulo e Belém e, quando acordava, estava exausto. O psicanalista então teve a idéia genial:

– Vou lhe dar uma sugestão. Ao começar o seu sonho, me ligue e eu irei lhe fazer companhia. Além disso, como eu também sou motorista profissional, posso guiar o caminhão grande parte do tempo e aí você dorme. Faça isso e me dê um retorno.

Um tempo depois, o cliente voltou outro, bem disposto, e agradeceu ao médico pela magnífica idéia. Este ficou orgulhoso de si, já pensando em relatar sua solução em artigo a alguma revista especializada. Essa intenção se fortaleceu quando, alguns dias depois, outro sujeito em petição de miséria se apresentou no seu consultório:

– Doutor, eu não consigo dormir. Toda noite eu sonho que sou motorista de ônibus entre São Paulo e Fortaleza e quando acordo, estou um bagaço.

Feliz, o médico lhe receitou a mesma terapêutica e lhe pediu que voltasse.

Entretanto, quando ele voltou, estava pior ainda.

– O que é isso? Você seguiu as minhas instruções?

– Segui, doutor. O problema é que, quando eu lhe ligo, atende a sua secretária e me informa que o senhor está viajando para Belém de caminhão!

Vamos agora à minha frustração nesse mundo das anedotas. Creio que todos conhecem aquela do Costa e Silva segundo a qual quando ele morreu, levando em conta que pensou em devolver o poder aos civis, São Pedro o acolheu no céu, mas como havia problemas de alojamento, o colocou provisoriamente no recanto dos sábios. Não demorou muito para que Confúcio, o representante dos sábios junto ao santo, o procurasse muito irritado.

– Tem que tirar o cara de lá, Pedrão (ele tinha essa intimidade)!

– Mas por que?

– Pedrão, é Platão, não Pratão, Sócrates nunca jogou no Corinthians, Karl Marx não é parente do Armando Marques. Espinoza não tem espinhos, e por aí vai. E tem mais, Pafúncio é a pqp!

Aí termina a anedota conhecida. Eu quis lhe dar, há tempo, uma sequência, mas parece que não foi muito apreciada ou compreendida. Confiando na solércia dos meus atuais leitores, aí vai essa sequência.

Ante os argumentos de Confúcio, São Pedro então enviou Costa e Silva ao recanto dos escritores. Não resolveu, pois pouco depois o representante destes procurava o santo.

– Qual o problema, senhor Poquelin?

– Pedro, não dá. Balzac não é tarado por mulheres de trinta anos, nem Nabokov por garotinhas, José de Alencar não torce para o Guarani, nem Camões para o Vasco, Olavo Bilac não conversava com as estrelas de cinema, Victor Hugo não passava miséria, Camilo Castello Branco não era parente do ditador brasileiro, Calderón de la Barca não foi marinheiro, surpreendeu-se por encontrar Dante no céu e não no inferno, indispôs-se com Clausevitz ao querer lhe provar que no Brasil houve uma revolução e não um golpe militar em 1964, mas o pior é que ele não consegue entender que eu sou muito macho e Molière é apenas o meu pseudônimo!

São Pedro então transferiu o inconveniente ex-presidente para o recanto dos músicos. Não adiantou, logo foi procurado por seu representante.

– Qual o problema, senhor Girolamo?

– Tem que tirar o homem de lá. Brahms não é chegado a cerveja da Brahma, nem Bach a botecos, Leoncavallo não tem duas cabeças, não é pai da Leona Cavalli e nunca foi palhaço, Villa Lobos não cria esses animais numa chácara, Carlos Gomes não torce pelo Guarani, nem Palestrina para o Palmeiras, Samuel Barber não é ruim de volante, Donizetti não foi um padre milagreiro, Camargo Guarnieri não escreveu “Eles não usam black tie”, Ari Barroso nunca foi pintor de aquarelas e, sobretudo, não admito que ele se refira a mim como o fresco Baldi!...

São Pedro, então, pacientemente, removeu o incômodo general para o recanto dos físicos, com esperança de resolver o problema. Qual nada, logo o procurou o representante daquela categoria, ao qual indagou, desanimado:

– Qual é o problema agora, senhor Lussac(*)?


(*) Louis Joseph Gay-Lussac (1778 - 1850), respeitado físico francês.


Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto

Ferramentas pessoais