T62 Pedro Luiz: Claudio Colombani

De wikITA

Claudio Colombani


Conheci meu grande amigo Claudio Augusto Colombani quando fiz o curso científico (um dos nomes, à época, do que seria depois o ensino médio – a alternativa era o clássico, voltado mais ao estudo de línguas e filosofia) no Colégio Estadual Presidente Roosevelt da Rua Gabriel dos Santos. Ali também estudaram Roberto Peres, Eduardo Montebello e outros bons amigos que tive e ainda tenho.

Era bom de copo, chegado a jogos de xadrez e de baralho, boêmio etc., portanto logo se enturmou conosco e virou assíduo frequentador da venda que era o locus do Rubens Peres. Era, entretanto, um mau bebedor, pois se embriagava e apagava.

Filiou-se ao Partido Comunista (o então Partidão, da linha de Luiz Carlos Prestes, depois cindido com o surgimento do PC do Brasil). Isso decerto atrasou seu programa de estudos. Enquanto eu me formava no ITA ele cursava Engenharia no Mackenzie, o que foi interrompido com o advento do golpe militar de 1964, este sim um verdadeiro golpe, mas batizado por seus autores de “Revolução”. Foi preso, solto, perseguido e acabou se asilando na Embaixada do México, ainda no Rio de Janeiro.

Lá passou quase um ano aguardando salvo-conduto para embarcar. Nesse ínterim, fez amizade e jogava xadrez com o embaixador Vicente Sanchez Gavito, que chegou a jogar duas partidas comigo por correspondência por sua sugestão. Quando embarcou, teve como companheiros de vôo o líder camponês Francisco Julião e o líder católico Padre Lage, com ele asilados.

Desde que fui para o ITA, em São José dos Campos, iniciamos uma correspondência postal na qual trocávamos idéias e jogávamos xadrez e vários outros jogos disputados dessa forma, entre os quais batalha naval.

Essa correspondência se estendeu ao México e durou décadas. Lembro- me que, por muitos anos, suas cartas sempre começavam com a frase “Como é bom beber!”. Enviava-me do México uma revista política genial, chamada “Los Supermachos”, do cartunista Ríos, que era divertidíssima de ler.

Viveu muito tempo naquele país, onde trabalhava como correspondente internacional e jornalista, sem sê-lo por diploma. Ganhava bem, casou-se duas vezes. Do segundo casamento deve dois filhos, aos quais, por algum laivo germânico que pudesses ter, deu os nomes de Rainer e Werner.

A essa altura, suas idéias marxista já havia se esvaído, passando a viver como um perfeito burguês, embora mantivesse muitos contatos com a esquerda em vários países. Seus conhecimentos na comunidade árabe, dessa feita ligada à direita sunita submetida ao ditador Saddam Hussein no Iraque, me permitiram ir duas vezes àquele país participar, como poeta brasileiro, no Festival Internacional Mirbad de poesias.

Quando passava pelo México e visitava-o, sempre levava dois ou três litros de pinga de Paraty, que ele sorvia quase com veneração. Numa dessas, bebemos de enfiada um e meio litro de whisky o que, a 2.200 m de altitude, me deixou muitas horas fora de combate.

Lembro-me de uma ocasião em que combinamos nos encontrar num bar do aeroporto em frente do guichê da Varig. Cheguei, ele não estava, pedi um tequila, que veio com uns snacks. Eu estava só, mas quando levei a mão à taça para o primeiro gole, outra mão, a dele, veio por trás de mim, ele agarrou a taça e virou-a de vez, a gargalhar.

Quando eu me hospedava por dois ou três dias em sua casa, na Cidade do México, ou depois, em Cuernavaca, para onde se mudou, pouco saíamos, tanto era o tempo que passávamos conversando e bebendo. Numa dessas, na capital, minha companheira reclamou, queria ir para a rua. Ele argumentou que a cidade era muito perigosa à noite. Insistimos e fomos comer uma pizza nas proximidades. No meio do jantar, começou um tiroteio dentro do salão, do qual tivemos que nos esconder.

Não o perdoo por um desleixo inaceitável, típico do seu temperamento agitado, político, de muito trabalho e relacionamentos. A uns 20 km de Cuernavaca, onde morou por muitos anos, fica a grande e belíssima Gruta de Cacahuamilpa, com salões que se estendem por dois quilômetros. Eu visitei duas vezes essa maravilha de natureza e ele, nenhuma!

Por sua causa, estive dez vezes no México, ou para visitá-lo ou aproveitando viagens aos Estados Unidos e Japão, quando fazia lá escala proposital. É um país interessantíssimo, com uma história extraordinária envolvendo os astecas e outros povos, uma cultura muito parecida com a do Brasil, ao qual pretendo voltar tão logo seja possível.

Com a anistia, voltou ao Brasil e chegou a trabalhar na Fundação SEADE por indicação minha, mas a vida estava difícil por aqui e voltou para o México. Quando enfim retornou, trouxe consigo um câncer de reto só descoberto quando muito avançado. Sobreviveu a uma cirurgia em que tinha 98% de chance de morrer e estava se recuperando quando, já na casa de parentes, caiu da cama e isso lhe foi fatal, aos 68 anos de idade.

Isto se deu na sexta-feira santa de 2007 e eu dediquei à sua memória o soneto que segue.


                  Claudio

A morte desse amigo traz à mente
os momentos vividos de alegria,
a mocidade, a luta intransigente
que se travou pela democracia...

O exílio pô-lo longe, mas fazia
viajar e conhecer, frequentemente,
pedaços deste mundo... Quem diria
que voltaria para se ir da gente...

Roubou-no- lo a moléstia assaz temida,
cuja simples menção ainda intimida,
para ele foi a derradeira cruz

e, irônico destino, ele era ateu,
ex-comunista ativo, e faleceu
no mesmo dia em que morreu Jesus!...


E, vejam, enquanto preparava esta crônica, veio-me às mãos um outro soneto também inspirado pela morte do Claudio, escrito após o acima, que transcrevo também.


            Boa companhia

Os dias que sucedem a partida
de um grande amigo a quem devemos preito
são de uma indefinível, dolorida,
sensação de vazio... Com efeito,

parece que mudou a nossa vida,
algo difícil de explicar direito
nos atinge, perturba e, em seguida,
se aloja amargamente em nosso peito...

É um alerta, talvez... Mas faz-me bem
cismar que o morto, num lugar do além,
esteja agora, após esse destino,

celebrando com outro grupo amigo,
a beber e a sorrir, tendo consigo
Roberto, Rubens, Francis e Avelino...


Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto

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