T62 Pedro Luiz: Com o Rubens em Paraty

De wikITA

Com o Rubens em Paraty


A digressão anterior me trouxe à mente alguns outros episódios que tive com meu amigo Rubens Peres, o cego, em nossas andanças por Paraty.

Um deles aconteceu no Bar Refrão, em frente à praia do Pontal. Eu e o Rubão havíamos parado ali para aperitivar, quando nos surgiu inesperadamente um dos mitos de Paraty.

Eu havia ouvido muito falar nessa pessoa, mas nunca o tinha visto e a imaginava uma lenda. Tratava-se do velho Constantino, de 110 anos, que morava numa ilha próxima e às vezes vinha de canoa, remando, até a cidade.

Pois nos aparece um ancião que devia ser muito velho, encurvado, enrugado, envergado, caminhando com dificuldade e se dirige a nós:

     –Bom dia, moços. Eu sou o Constantino, tenho 110 anos, vim de canoa até aqui. Vocês podem pagar uma pinguinha para mim?

Ante aquela inesperada e surpreendente aparição, mandamos servir uma dose da melhor pinga disponível. Ele bebeu, sorvendo, e não teve dúvida:

     –Muito boa! Vocês não querem pagar mais uma dose para mim?

Evidentemente, pagamos. Ele bebeu, agradeceu e saiu no mesmo ritmo em que havia entrado. Foi então que um outro velhinho, talvez uns vinte anos mais moço e que estava num canto do bar sem que o houvéssemos notado, saiu do seu canto, chegou-se a nós e disse:

     –Moço, o Constantino enganou vocês.

     –Como assim?

     –Ele mentiu para vocês terem pena dele e pagar pinga.

     –Por que?

     –Ele não tem 110 anos, tem só 106...

Outro episódio se deu num começo de noite, no qual o Rubens cismou de comer macarrão na manteiga. Saímos então de casa, entramos no bar/restaurante do Abel, ali ao lado, pedimos duas doses de whisky Old Eight e, enquanto bebíamos, perguntamos se faziam macarrão na manteiga. Não faziam.

O mesmo ritual se repetiu nas duas próximas paradas, mas na segunda delas nos indicaram um restaurante onde possivelmente encontraríamos o prato.

Lá chegando, constatei que o garçom era um bom amigo meu e, saravá, faziam macarrão na manteiga. Pedimos então as protocolares doses de whisky Old Eight, mas ouvimos:

     –Não tem, seu Pedrinho. Só tem Drury´s e Old Parr.

     –Mas o Drury´s é muito ruim e o Old Parr é muito caro.

     –Que nada, seu Pedrinho. Eu faço a dose do Old Parr por 5 cruzados para o senhor.

Topamos de imediato, pois estávamos pagando 4 cruzados pela dose de Old Eight. O moço então abriu um litro zerinho do magnífico scoth e nos serviu duas doses que valiam por quatro, enquanto mandava preparar o macarrão na manteiga.

O timing foi perfeito. Quando a iguaria chegou, estávamos ambos na metade da quinta dose dupla do Old Parr. Bebemos aquele litro em 10 doses regiamente servidas!

A conta que veio foi uma delícia: 54 cruzados, sendo 50 de bebida e 4 de comida, claro que com 6 de gorjeta.

Um terceiro causo se deu lá pela meia noite, quando o último bar de nossa peregrinação fechou e eu ponderei ao Rubens que precisávamos ir dormir, pois não tinha mais nada aberto em Paraty. Ele rebateu de imediato:

     –Tem um bar aberto nesta direção.

     –Como você sabe?

     –Eu ouvi o barulho de uma bola de bilhar.

O ouvido privilegiado do cego não se enganara, estava o bar aberto e podemos tomar mais uma saideira.

Por fim, há o episódio do dia no qual eu peguei um soluço que resistia a todos os procedimentos para fazê-lo cessar e passou a crescer assustadoramente. Eu comecei a me assustar, pois já ouvira dizer que uma crise de soluço violenta e incontrolável pode até matar. Como aquela não passava, externei ao Rubens minha preocupação. Ele então disse:

     –Deite na cama que eu vou fazer uma mandinga para seu soluço acabar.

Obedeci, ele se concentrou e, alguns minutos depois, eu estava livre daquela crise que já fazia o meu peito doer com as pancadas em que os soluços se transformaram.

Meu amigo Rubens decerto tinha mediunidade e, muito possivelmente, me salvara a vida!

24/11/16

Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto

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