T62 Pedro Luiz: Dois grandes bebedores

De wikITA

Dois grandes bebedores


Na condição de apreciador de boas bebidas, chegando a me considerar um bom bebedor, que não sofre ressacas e leva à risca o sábio conselho do meu querido e saudoso pai – “O segredo do bem beber é o bem comer” – já parei para meditar sobre o que seria um “grande bebedor”.

Nesses pensares, lembrei-me da entrevista que fizeram com o recentemente finado homem do mundo Carlos Miele, tido como grande bebedor de whisky, na qual lhe perguntaram quantas doses dessa bebida ele sorvia, em média, por dia. A resposta, certamente após cofiar a barba,foi:

     –Umas oito.

     –Só?

     –Eu bebo pouco porque quero beber muito...

Isso me levou a tentar definir grande bebedor como “aquele que consegue beber mais”, evidentemente durante sua vida inteira. A morte do Miele com a minha idade deixou-me em dúvida quanto a ser ele um grande bebedor.

Mas aqui quero contar meu encontro com duas outras figuras do ramo, sobre as quais paira a mesma dúvida, mas que, decerto, me impressionaram pela voracidade alcoólica.

A primeira foi Vinicius de Moraes. Ele deu um espetáculo no auditório do CTA, quando eu ainda era aluno do ITA, com dois violonistas ilustres a seu lado: Carlos Lira e Baden Powell. No centro da tosca mesa improvisada no palco, ele cantou, contou histórias e consumiu, durante o espetáculo de pouco mais de uma hora, um litro de whisky Black&White.

A segunda foi Helder Câmara, mestre internacional, campeão brasileiro de xadrez, sobrinho do celebrado arcebispo homônimo. Ele deu uma aula de xadrez aos alunos da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, presenciada por mim, durante a qual, em cerca de uma hora, consumiu uma garrafa de 900 ml do conhaque Otard Dupuy, que após perdeu seu espaço entre nós para o Domecq.

Nenhum dos dois se embriagou. Vinicius faleceu com 66 anos, não sei de que, e Helder com 78, há pouco. Ele chegou a essa marca pois teve cirrose hepática mas largou de beber após ouvir as famosas palavras do médico:

“Ou para, ou morre”. Pelo visto, o nosso enxadrista, ao contrário de muitos que não o fizeram e não foram longe, tomou a decisão correta. Ele foi meu amigo por algum tempo, depois não o vi mais. Ao saber de sua morte, dediquei-lhe o seguinte soneto:


Helder


Faleceu Helder Câmara, o enxadrista
provocador que eu conheci um dia...
Foi campeão brasileiro e mestre... Lia
o tabuleiro com arguta vista...

Era orgulhoso, tinha erguida a crista
aos rivais que enfrentava e que vencia...
Se não bebesse tanto poderia
decerto ser maior sua conquista...

Na minha galeria de troféus,
que conservo num canto da memória,
tem um empate que caiu dos céus

entre eu e ele, porém quem tamanho
penhor aos altos deve nessa história
é ele, posto que eu estava ganho!...

12/03/2016

Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto

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