T62 Pedro Luiz: Enfim, a Europa

De wikITA

Enfim, a Europa


Eu tinha 23 anos de idade, ao iniciar meu último ano no ITA, quando conseguimos os apoios suficientes para uma viagem de estudos de dois meses na Europa nos meses de janeiro e fevereiro de 1962, visitando Portugal, França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica e Suíça. O principal dos apoios foi usarmos aviões C-46 da FAB – Força Aérea Brasileira, para a ida e a volta, conseguidos pelo nosso colega de turma Ozires Silva, então capitão da Aeronáutica. Foi a primeira vez que saí do Brasil.

A turma da Europa da T62 na frente do C-46

O C-46, cuja versão civil era o Douglas DC-4, era um quadrimotor a hélice que voava a cerca de 2.500m de altitude sem pressurização. A versão que nos foi cedida, que fazia ligação com as tropas brasileiras de paz no Canal de Suez, comportava 40 passageiros. Assim, fomos 19 estudantes de Aeronáutica (eu entre eles), 19 de Eletrônica e dois professores, os insignes Jacek Piotr Gorecki e Richard Wallauschek, que morreria logo depois em um acidente na Via Dutra.

A viagem de ida, do Rio de Janeiro a Lisboa, durou três dias. Sete horas do Rio a Natal, jantar na base aérea e meticulosa explicação de como usar os equipamentos para sobreviver no mar “quando o avião ali cair” – o instrutor falava no futuro, não no condicional. Apavorados, embarcamos e voamos 12 horas, boa parte à noite, até a Ilha do Sal, Cabo Verde, possessão de Portugal. Para lá o ditador Antonio de Oliveira Salazar mandava os inimigos políticos.

Nessa ilha, permanência de 24 horas para descanso da tripulação. Tinha 15 vagas no único hotel. Jogamos no palito. Os perdedores dormiriam no avião. Dois outros episódios ocorridos nessa ilha merecem menção. Primeiro: a única coisa possível de se fazer lá para passar o tempo era visitar as salinas, que ficavam a sete quilômetros da base aérea. Tinha um português que alugava uma caminhonete com bancos e lá fomos nós, por turnos. Na minha vez, no meio daquele deserto tórrido, furou um pneu. O luso parou, desceu e ficou contemplando o estrago a dizer:

– Raios me partam... Raios me partam...

– O senhor não tem estepe, alguém perguntou.

– Claro que tenho, está em casa!

E lá se foi a trocar, nos deixando por meia hora sob aquele sol abrasador.

Segundo: nos alertaram para não ir à aldeia dos nativos, mulatos no caso, pois era um antro de ladrões e assassinos, gente muito perigosa. Pois fomos, com cautela, em grupos de quatro. Lá chegados, sabendo que éramos brasileiros, organizaram uma grande festa, cantaram músicas típicas, nós cantamos também, uma beleza. Vejam como são as coisas!

Da ilha a Lisboa, mais doze horas de voo. Lá encontramos o inverno, temperatura próxima de 0°C. Chegados ao hotel, já à noitinha, eu e o Eduardo Montebello nos dirigimos imediatamente ao bar e pedimos duas doses do conhaque Macieira, aquele que se bebia no Brasil como preciosidade portuguesa. Um tanto constrangido, o barman baixou a voz e nos disse:

– Aqui nós só servimos bebidas de certa qualidade para cima.

E, baixando mais a voz:

– O Macieira só se bebe nos botequins...

Foi assim que, conscientizados, bebemos um Velha Reserva, que estava muito bom.

Outro episódio de que lembro com o Montebello foi quando precisávamos ir a um ágape na Rua do Alecrim e nos deram a dica:

– Peguem o ailétrico (bonde) do Caxdré, vão até o ponto final e estão lá.

Fomos para o ponto. Os bondes passavam em abundância, em fila indiana. O primeiro indicava: C. do Sodré. Não entramos, mas logo veio outro com o mesmo destino e resolvemos perguntar a uma rapariga (lá é assim que se diz) para onde ia aquele ailétrico.

– Vai para o Caxdré, não sabem leire?

Assim chegamos à Rua do Alecrim, após descobrir que descêramos no Cais do Sodré. Essa rua levava ao Bairro Alto, onde havia inúmeros bordéis.

Depois do encontro, fomos a um deles, cuja proprietária nos brindou com o seu cartão: Madame Inocência. Seguia-se lá um ritual curioso: os homens sentavam-se em cadeiras em volta da sala e as senhoritas (lá é assim que se diz) entravam em desfile, sorrindo para os potenciais clientes. Pagava-se adiantado e Madame Inocência usava caixa registradora que tinha um som estrepitoso. Duas ou três vezes fui incomodado por esse som durante a minha performance!

Nas nossas andanças, fizemos amizade com estudantes portugueses. Contamos, a pedido, muitas anedotas de lusos nas quais estes faziam sempre o papel de estúpidos. Riam assim mesmo. Por insistência nossa, contaram uma anedota de brasileiro na qual, ao final, este fazia um português de trouxa!

Fomos a Coimbra e visitamos a famosa Universidade. Os estudantes falavam muito depreciativamente de um tal “gajo”, que logo percebemos ser Salazar. Se se aproximava um estranho, mudavam de assunto.

Eu e alguns colegas almoçamos na República dos Cágados, onde havia uma mesa comprida e um tonel de vinho que corria por trilhos sobre ela, sendo puxado por cordões. Serviram-me uma caneca de vinho tinto e, quando me preparava para o primeiro gole, vi que soltavam risotas. Logo descobri porque: ao inclinar a caneca, meus lábios bateram em algo sólido: era um órgão masculino de louça, perfeitamente caracterizado, que vinha desde o fundo até quase a superfície!

De Lisboa voamos até Toulouse, no sul da França, onde a turma se dividiu em duas: a dos Aeronáuticos e a dos Eletrônicos. Uma magnífica foto (anexa) foi tirada antes dessa divisão.

Nós Aeronáuticos visitamos as instalações da empresa Sud Aviation, que fabricava, entre outros, o jato comercial Caravelle, que eles queriam vender no Brasil. Talvez em face disso, nos proporcionaram, na cidade de Pau, nome que se deu o que falar, um magnífico jantar, com cinco jogos de talheres e cinco copos à mesa para cada comensal. Após os canapés antecedentes, com forte distribuição de whisky e cognac nacional, vieram: coquetel de camarão com vinho rosé, filé de peixe à belle meunière com vinho branco, carne e acompanhamentos com vinho tinto. Então, quando ninguém mais aguentava comer, levanta-se o anfitrião e faz um discurso sobre a venerável procedência dos queijos que iríamos degustar antes da sobremesa. Veio então a ordem do Ozires, nosso líder: “Tem que comer”.

Eram seis fatias de queijos variados olorosos, que engolimos na marra, sem nos darmos conta da preciosidade gastronômica que assim estava sendo menosprezada. Hoje tenho gana de lá voltar só para saborear essas iguarias. Após, a sobremesa e então descobri para que servia o quinto copo ali presente: para água! Para encerrar, café e a opção dada pelo garçom: cognac ou armagnac. Pedi o segundo, por mera curiosidade, e descobri que era da mesma família que o primeiro, apenas de outra procedência. Não me lembro de outro jantar como esse em toda a minha vida!

Dali até Paris em várias horas de trem noturno. Nosso hotel na capital francesa ficava na Rive Gauche, a meia quadra da praça da Catedral de Notre Dame. Logo no primeiro dia eu e o Montebello fomos à beira do Sena apreciar e fotografar aquela magnífica paisagem. Eu estava lá, contemplativo, quando o Edu me cutucou:

– Você viu onde nós estamos?

– Ué, à beira do Sena, contemplando a catedral

– Mas veja de que lugar.

E apontou para a placa, onde se lia “Quai de Montebello”

O hotel em que estávamos era um prédio de seis andares sem elevador. Nós ficávamos no quinto andar. Havia um quarto de banho para cada dois andares, utilizável sob hora marcada, no qual se banhava sentado usando um chuveiro de mão.

Nesse hotel pudemos testemunhar a pachorra, educação e elegância do nosso colega militar, o então ainda Capitão Ozires Silva. Voltávamos muito cansados de um longo dia de visitas técnicas, subimos os cinco andares pelas escadas e, acima chegando, ouvimos a voz lamentosa do Ozires:

– Puxa vida, esqueci de pegar a chave.

E desceu para apanhá-la. Ficamos estupefatos pois, a nosso ver, a expressão verbal adequada ao momento era inequivocamente outra.

Após vários dias na capital francesa, trem e navio até Londres e viagem de ônibus pela Inglaterra, passando por Chester, Manchester e Derby. De segunda a sábado visitávamos indústrias, institutos ou universidades e aos domingos viajávamos. Sobravam as noites para conhecer as cidades, como em quase todo o percurso.

De Londres por trem e navio até o porto de Oostende, na Bélgica, e daí em trem noturno até Hamburgo, na Alemanha. Foi quando pela primeira vez vimos neve em abundância ao amanhecer. De Hamburgo, de avião, até Berlim Ocidental, onde ficamos dois dias.

Num deles, o grupo foi passar algumas horas em Berlim Oriental, onde imperava o comunismo. Usava-se uma passagem controlada por soldados, fortemente armados, americanos de um lado, russos do outro. Eu havia esquecido o passaporte no hotel e, não sei como, passei pela barreira americana, mas não pela russa. Aí não podia voltar sem o passaporte. O fato é que fiquei cerca de uma hora naquele espaço neutro, sob um frio terrível e com dezenas de metralhadoras olhando para mim enquanto um colega abnegado, o saudoso Mario de Medeiros Bethlem, filho do General Fernando Belfort Bethlem, que assumiria o Ministério de Guerra quando o ditador Ernesto Geisel deporia o então Ministro Silvio Frota, colega que viria a ser presidente da IBM do Brasil, sacrificou sua ida à parte oriental da cidade para apanhar meu passaporte. Sou-lhe eternamente grato por isso. Esse mesmo Mario Bethlem, no dia seguinte, provocaria a sua incrível mancada: ao partirmos de avião para Hannover, despachou o passaporte dentro da mala e na hora do embarque, ao precisar dele, retardou a decolagem por uma hora até que a bagagem fosse recuperada e o documento resgatado.

O restante do trajeto germânico, que incluiu uma passagem pela Bélgica, foi feito em ônibus gentilmente cedido a velocidades baixas, pois a neve tornava as estradas muito escorregadias. Na volta de Bruxelas, paramos para almoçar numa pequena cidade chamada Bastogne, próxima à fronteira com Luxemburgo, em cuja praça principal havia um monumento representado por um tanque de guerra. O banheiro do restaurante, onde todo fomos para desaguar e lavar as mãos, tinha na pia um sabonete incrustado num ferro, com o aspecto de um falo. Para usá-lo era preciso formar uma concha com as duas mãos e esfregá-lo fazendo um movimento típico da masturbação. Ao ver aquilo, todos aguardamos pela reação do sisudo Prof. Jacek ao usar aquele sabonete. Ele chegou, olhou e fez como todos. Percebeu que o observávamos atentamente, como a esperar uma declaração sua. Então disse:

– Este sabão parece... parece... um consolador de viúvas.

A gargalhada foi geral.

Dali fomos a Duisburg, Düsseldorf, visita à Volkswagen, Colônia, em cujos arredores visitei a casa de Beethoven em Bonn, Stuttgart, visita à Mercedes, e, enfim, Munique, a cidade da cerveja. Lá fomos à maior cervejaria do mundo. Éramos cinco colegas, entre eles Ozires e Montebello, mais uma moça de Taubaté que estudava alemão por lá.

Pedimos cinco chopes grandes e um pequeno. A resposta, traduzida pela Marise: só tem de litro. Vinham, pois, os canecões de litro mas, ao esvaziá- los, as corpulentas alemãs colocavam outro. Bebemos vários litros até descobrir que, para encerrar, precisava deixar um pouco no fundo e pedir a conta.

Era noite e acompanhei a Marise até sua residência. Na volta, sob forte nevasca, só, eu estava perto do hotel, mas não conseguia vislumbrá-lo. Eu estava na verdade sucumbindo à neve e ao frio, e poderia cair duro e morrer congelado naquela rua deserta. Foi quando ouvi um barulho de música, segui-o e encontrei um bar com grande movimento. Entrei e imediatamente pedi: “Grog”. Para quem não sabe, é vinho quente com conhaque. A bebida veio fumegante e, após sorvê-la, pagar e sair, eu estava novo. Achei facilmente o hotel e me salvei.

O ônibus alemão nos levou até Zurich, na Suíça, atravessando de balsa o lago de Konstanz. Visitamos Berna, Lucerna, Interlaken e Genebra, onde ficamos dois dias. Daí a Paris de trem noturno para encetar o regresso.

Dormimos uma noite em Paris. Como o hotel lotou, dois voluntários precisaram se deslocar a um outro próximo. Fomos eu e o Mario Rosenthal. Este me perguntou onde eu havia comido fondue na Suíça.

– Fondue? O que é isso?

Eu não conhecia!... O meticuloso gourmet Rosenthal me explicou detalhadamente o que era aquela iguaria helvética à base de queijos fundidos. Não sei se me aporrinhou mais a inveja ou a ignorância.

O fato é que saímos pelas vielas do Quartier Latin à procura de alguma biboca para comermos, quando me deparei com um pequeno restaurante que expunha uma relação de pratos do dia na qual li: Mercredi – Fondue a la Suisse. Imediatamente, perguntei:

– Mario, que dia da semana é hoje?

– Deve ser quarta-feira.

– Então é aqui que eu fico!

E comi um delicioso e barato fondue, com queijos grossos, eu precisava erguer o garfo meio metro e enrolar para levar à boca, enquanto o Mario discutia tecnologia de motores com uns estudantes de Engenharia que fez por amigos.

No dia seguinte, embarcamos no C-46 para Lisboa, onde ficamos mais dois ou três dias. Após, a apavorante decolagem descrita em outra crônica. A escala para descanso da tripulação foi em Dakar, capital do Senegal, onde tivemos a oportunidade de fazer um passeio noturno pelas ruas da cidade, com suas casas todas pintadas de branco.

Como decolamos para a travessia do Atlântico sem que nenhuma instrução fosse dada quanto ao uso dos equipamentos de sobrevivência no oceano, indagamos a respeito a um dos oficiais de bordo. A resposta foi direta.

– Bobagem, se cairmos no mar, não escapa ninguém...

Não caímos e, umas 20 horas depois estávamos são e salvos no Rio de Janeiro, onde terminou essa inesquecível viagem.


Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto

Ferramentas pessoais