T62 Pedro Luiz: Momento Musical III

De wikITA

Momento glorioso musical III


Morei quase um ano, entre 1974 e 1975, em Palo Alto, California, onde estudei e fiz meu segundo mestrado na Universidade de Stanford. Fui com a família mas, nos meses finais, eles haviam voltado e eu residi só.

Foi quando comprei ingresso e fui à cidade próxima de San José para assistir no Flint Centre, um magnífico auditório com 4.000 lugares, a um recital com obras só de Wagner, contando com a Orquestra Sinfônica de San Francisco, dirigida por Seiji Ozawa, e a mezzo-soprano Jessie Norman, que eu nunca tinha ouvido ao vivo.

Na primeira parte do espetáculo, tocaram a sinfonia de Wagner e algumas canções com a referida diva. Esta era uma negra enorme, devia pesar uns 150 quilos, mas a voz era maravilhosa. Eu, na quarta fila do teatro, encantado com aquela voz potente e maviosa a um tempo, ao final gritei “bravo!”. Confesso que fiquei um pouco acabrunhado por ter sido o único a fazê-lo.

Na segunda parte, entretanto, ela cantou o Prelúdio e Liebestod (morte de amor) de Tristão e Isolda, contracenando com a orquestra. Aquela voz impressionante não era dominada pela força orquestral. Foi algo musicalmente quase indescritível. Ao terminar, não houve como: os 4.000 presente venceram qualquer preconceito racial que pudesse ter havido e prorromperam em duradouros aplausos e gritos de “bravo”. Foi quando eu realmente me convenci de haver presenciado uma atuação da maior voz feminina da atualidade.

Dois dias depois, o jornal San Francisco Chronicle, que eu assinava, publicou a crítica do espetáculo. Lá estava: “O concerto de Mrs. Norman no Flint Centre foi o acontecimento musical do ano na costa oeste dos Estados Unidos.

Inexplicavelmente, na primeira parte do espetáculo, a plateia mantinha-se fria e apenas uma voz anônima gritou o primeiro ‘bravo’ ”. Faltou dizer, “voz anônima de alguém que se mostrou mais sensível a um maravilhoso espetáculo que todos os outros presentes”.

Evidentemente recortei e guardei essa crítica, mas infelizmente não sei onde foi parar.


Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto
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