T62 Pedro Luiz: Momento Musical V

De wikITA

Momento glorioso musical V


Depois que descobri Astor Piazzola, fiquei seu fã incondicional. Procrastinado pelos amantes do tango tradicional de Gardel e Lepera, nem por isso deixei de admirar a música e as inovações desse inspirado compositor, além disso, com quase toda certeza, um insuperável virtuose do bandoneón, essa extraordinária invenção que pode ser descrita como de um acordeon, com botões a serem pressionados por ambas as mãos.

Piazzola se exibiu várias vezes em São Paulo, e eu não perdi nenhuma dessas apresentações. Nas últimas, aparecia uma cantora loura e encorpada, chamada Amelita Baltar, que se tornou sua esposa. Piazzola morreu de repente com 71 anos, quando Amelita não deveria ter mais de 52. Deve ter sido uma morte gloriosa, uma liebestod (morte de amor), como diria Wilhelm Richard Wagner.

Pouco tempo depois, anunciou-se uma apresentação de Amelita Baltar em uma pequena casa de shows do Bexiga, para a qual eu consegui ingressos numa mesa das mais distantes do palco. Este, na verdade, ficava em baixo e as mesas em diversos patamares para cima. Eu estava no último patamar.

O show atrasou, não começava, a platéia começou a gritar e a assobiar. Foi quando a pequena orquestra típica deu sua entrada característica, e a cantora se apresentou. Fê-lo, porém, de maneira inusitada, entrando por trás, por cima. Foi quando eu senti uma mão apoiar-se meu ombro! Era ela, que assim começou a cantar, para em seguida descer sensualmente as escadas e prosseguir, no palco, a sua apresentação.

Que mais glorioso momento pode ter sido este para um anônimo admirador do inesquecível Astor Piazzola, ao ter a mulher que involuntariamente o matou a começar seu espetáculo com a mão no meu ombro?


Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto
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