T62 Pedro Luiz: Rubens Peres

De wikITA

RUBENS PERES

Chegou a hora de falar sobre meu grande amigo Rubens Peres, falecido há 36 anos, portanto 17 anos mais velho do que eu. Filho de pais portugueses de Trás os Montes, primos irmãos, nasceu com um problema incurável no nervo ótico que o fez perder paulatinamente a visão até, pelos 18 anos de idade, ficar totalmente cego.

Entretanto, como em geral ocorre, ele não aparentava a cegueira. Externamente, seus olhos eram perfeitos e ele, quando conversava com alguém, fazia-o mirando na direção do interlecutor, como se o estivesse enxergando.

Rubens era fisicamente muito forte, um de seus apelidos era Gordo, muito inteligente, sagaz e esclarecido. Tocava violino e violão, este bastante bem, com expressividade, sua interpretação da valsa “Abismo de Rosas”, de Américo Jacomino, celebrizada por Dilermando Reis, era primorosa. Passava as horas de manhã lendo volumes em Braille que recebia da Fundação do Livro do Cego.

Fumava e bebia muito, ao ponto de um dia eu lhe dizer: “Rubens, você é um laboratório vivo que vai nos dizer o que mata primeiro, o câncer de pulmão ou a cirrose do fígado”. Não deu para saber, quando morreu tinha as duas coisas. Sua mãe, D. Libânia, se preocupava com ele:

 Rubens, tu bebes demais. Assim tu vais morrer...
 Morrer, morri, qual é o problema?

Frequentava diariamente o empório a dez metros de sua casa, conhecido simplesmente como “a venda”. Ali o conheci pelas mãos de seu primo Roberto Peres, do qual já era muito amigo. Eu tinha 14 anos de idade, quando ele me ensinou a beber pinga. Muitos anos depois, trocou essa perniciosa bebida pelo whisky, tendo dito um dia “Se o que eu bebi de pinga tivesse bebido em whisky, hoje seria um outro homem”.

Sua mesa de trabalho e sua cama ficavam no térreo de um sobrado, onde normalmente seria o escritório ou sala de visitas. Ali e na venda se reuniam diariamente diversos amigos para beber, conversar, jogar baralho. Cito, ao longo do tempo, Roberto Peres, Claudio Colombani, João Laurino Filho, José Birasca, José Francis, Antonio Godoy, Eduardo Montebello, Yukio Karita, Avelino Junqueira, dentre vários outros. Foram anos e anos dessa rotina, enquanto todos envelheciam juntos.

Lembro que um dia estávamos jogando poker, a dinheiro, como precisa ser, quando chegou seu Avelino, pai do Rubens. Entrou na sala, às minhas costas, e perguntou:

 Que jogo é este?
 É poker, seu Avelino, respondi
 Uai, e esse dois de espadas na sua mão?

Expliquei que aquela carta substituía o ás de espadas, que estava rasgado.

 Quer dizer que tu tens uma quadra!

E lá se foi um bom dinheirinho...

Rubens também jogava poker. Para isso furávamos o baralho, carta por carta, com duas letras em Braille, uma para o valor, outra para o naipe. Entretanto, nós percebemos que um dos amigos jogadores ganhava sempre: ele se sentava contra a luz, o que lhe permitia, com frequência, ver por trás as marcas do Braille e conhecer as cartas e assim ganhava sempre. Por outro lado, quando saíamos para comer após o jogo, fazia questão de pagar e nós aceitávamos. Não jogava pelo dinheiro, mas pelo prazer de ganhar. Esse problema foi resolvido furando todas as cartas igualmente, com 6 + 6 = 12 furos, e cortando com gilete, por dentro, os que não interessavam. Nosso amigo se desinteressou de jogar.

Ensinamos também xadrez ao Rubens. Para tanto, preparamos em marcenaria um tabuleiro com as casas pretas rebaixadas e as peças pretas com uma cabeça de alfinetes acima. Logo aprendeu e ficou difícil de ser batido.

Adorava brincar com a palavras, fazer trocadilhos, como por exemplo:

 Você parece um avião.
 Por que?
 Pesado na frente e leve no rabo!

Um dia foi vítima do próprio veneno. Um amigo contou um caso espirituoso no qual se saiu bem e ele comentou:

 Gostei de ver a sua picardia.

Começamos a rir e só então se tocou.

Divertia-se com o cacófato promovido pela Caixa Econômica na propaganda da caderneta de poupança, que captou no seu rádio de pilha: “Meu amigo, nunca gaste tudo”. Corinthiano fanático, não perdia os jogos do seu time, que escutava nesse mesmo radinho.

Por ter sofrido com a derrota das paulistas na Revolução de 1932, não gostava de gaúcho.

 Todo gaúcho é filho da puta.
 Mas, Rubens, e o Lupicínio Rodrigues?
 Todos menos um.

Viajei varias vezes com o Rubens para o litoral, algumas só nós dois, algumas para Paraty. Gostava do mar, porque curava ressaca em poucos minutos. Eu era a sua bengala humana: punha a mão no meu ombro e andávamos por aí.

Numa dessas, bebíamos alguma coisa num bar da praia da cidade quando chegou, curvando, enrugado, um senhor que parecia velhíssimo. Postou-se ao nosso lado no balcão. Eu ouvira falar no velho Constantino, de 110 anos, mas acreditava ser mais uma lenda que verdade. Mas ali estava ele, só podia ser. Perguntei:

 O senhor é o Constantino?
>  Sou sim, tenho 110 anos. O senhor me paga uma pinga?

Mandamos vir a melhor que tinha, sorveu em alguns goles, com satisfação.

 Se importa de pagar mais uma?

Pagamos, agradeceu e se retirou lentamente. Então um outro velho, que estava sentado em um canto e nem tínhamos notado se levantou e veio até nós:

 O Constantino enganou vocês para vocês pagarem a pinga.
 Por que?
 Ele não tem 110 anos, tem só 106...

Numa outra, em Ubatuba, pediu uma pinga num bar. Ao ouvir o ruído do copo sendo colocado à sua frente, tateou com a mão até encontrá-lo. Um velho a seu lado perguntou-lhe:

 O senhor não enxerga bem, não é?
 É isso mesmo. Com a vista esquerda eu não enxergo nada e da direita eu sou cego!

Uma terceira foi em Caraguatatuba. Num bar de praia pedimos duas caipirinhas de whisky Old Eight. À nossa frente um forte, risonho, luzidio e simpático afrodescendente, com a maior boa vontade, começou a preparar o pedido, quando tocou no alto-falante uma música do Jair Rodrigues, que o Rubens detestava. Ele imediatamente, os olhos perfeitos virados na direção do moço, se manifestou:

 Não sei por que, mas eu não vou com a cara desse crioulo!

O susto do moço ao ouvir isso daquele homão que o encarava (com olhos perfeitos) à sua frente foi tão grande que deixou cair o pilãozinho. Tive que ser rápido para desfazer o mal-entendido:

 Seu cego filho de uma puta, não entendo por que você não gosta do Jair Rodrigues...

O moço, além de tudo, era esperto, compreendeu imediatamente, o sorriso lhe voltou aos lábios e a caipirinha ficou ótima.

Eu poderia encher cem paginas contando causos do Rubão, mas vou voltar ao ponto em que eu lhe disse que seria um laboratório vivo. Aos 58 anos de idade, o Rubens estava mal, já tinha sido diagnosticado o câncer de pulmão, que logo atacou o fígado, enfraquecido pela cirrose. Ademais, sua pressão arterial chegara aos incríveis 29 x 21.

Por causa disso, além dos remédios, foi proibido de beber. Isto iria matá-lo em poucos dias, assim diligenciamos junto ao médico, que lhe autorizou duas doses diárias de whisky, uma no almoço e outra no jantar. No dia seguinte entrei em sua casa às 11h30 e o encontrei com um enorme copo com muito whisky e pedras de gelo.

 Esta é a minha dose do almoço...

Não deu outra, logo foi internado no Hospital do Câncer, onde seu irmão Oswaldo, médico rico pela profissão era diretor. Na saída para lá, foi claro:

 Desta eu não escapo

Visitei-o no primeiro dia de internação, ainda com seus 110 kg de peso e pensei, consternado: “Vai ficar uns três meses aqui até virar pele e osso para morrer.

Nesse dia, à tarde, levaram-lhe um padre. Ao se apresentar, disse-lhe o Rubens:

 Ah, o senhor é padre? Muito prazer. O que veio fazer aqui?
 Vim conversar com você.
 Tudo bem, se quiser falar de futebol, vamos falar; de política, vamos falar; de mulher, vamos falar; mas não me fale de religião.

E botou o padre para fora.

Para minha enorme e feliz surpresa, nessa noite ele morreu. Parada respiratória, segundo o atestado de óbito assinado pelo próprio irmão. A verdadeira causa, suposição minha, não constou, como não poderia constar, mas o irmão, para mim, saiu engrandecido do episódio.


26/2/2016

Pedro Luiz de Oliveira Costa Neto
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