T63-Amadeu-Ariel

De wikITA

ARIEL

Amadeu Aleixo Machado
(Ver este conto com ilustrações inseridas pelo colega Bandel)

Há cerca de 4600 anos viviam, na região onde hoje é a Síria, um casal idoso e seu jovem filho Ariel. O casal tivera vários filhos antes dele.

Quando ele atingiu cerca 13 anos de idade os pais sentiram que não teriam tempo de vida suficiente para vê-lo adulto, com a vida encaminhada como os irmãos, todos pastores. Puseram-se a pensar sobre qual profissão encaminhá-lo, visto que o pai já não tinha mais forças para iniciá-lo na profissão de pastor. Os outros filhos, devido à própria atividade que exerciam, não tinham condições de cuidar do jovem irmão, pois moravam muito longe dos pais.

Tanto discutiram o assunto que chegaram à conclusão de que Ariel deveria tornar-se um sacerdote. Precisavam, entretanto, convencê-lo, o que não era tarefa pequena.

Resolveram finalmente que o velho pai levaria Ariel para visitar o templo, que ficava a cerca de três dias de viagem do local onde viviam, afim de conhecer o sacerdote da região. Nessa ocasião o pai pediria que ele convencesse Ariel a se preparar para o sacerdócio.

O plano parecia perfeito, uma vez que o jovem gostava de aventuras, era muito curioso e adorava sair com o pai pelas redondezas. Por outro lado, o jovem se tornaria o primeiro religioso da família de pastores e isto certamente atrairia as benesses dos deuses para os pais, e para os demais filhos e suas respectivas famílias. O único problema seria convencer o rapaz de que precisaria estudar, dedicar-se profundamente à religião e passar o resto da vida venerando os deuses e ajudando as pessoas. Para resolver este problema esperavam contar com a ajuda do sacerdote, que, diga-se de passagem, não conheciam.

A primeira etapa, de convencer o jovem a visitar o templo, foi fácil. A data da viagem foi escolhida a dedo; uma época de temperatura amena, sem chuvas, dias de festas de agradecimentos pelos bons resultados das colheitas de aveia e trigo. Ariel estava entusiasmado. Os preparativos foram grandes. A velha mãe preparou vários tipos de comida para que os dois levassem. Planejaram cuidadosamente o trajeto e os locais de repouso, baseados em informações de viajantes que frequentemente passavam pelo local onde viviam, rumo a Canaã. Acomodaram a carga em duas mochilas mais ou menos iguais pois a força do velho e do menino eram também mais ou menos iguais. Como o peso iria diminuir à medida em que se aproximassem do final da viagem, já que quase toda a bagagem seria comida, previam uma chegada tranquila. A roupa era pouca e a água encontrariam pelo caminho. Levaram algumas coisas para trocar por comida no retorno. Levaram pouco porque mais não tinham, pois eram pobres. Ariel fez questão de levar seu cachorro.

O velho planejara conversar muito com Ariel durante os três dias de viagem afim de prepará-lo quanto ao verdadeiro objetivo daquela jornada. Assim realmente o fez. Mas o rapaz, sem desrespeitar o velho pai, ficou preocupado com a conversa de caráter muito espiritual, até mesmo meio esotérica. O pai não foi capaz de sensibilizar o jovem, que só esperava folguedos da vida. Contudo a viagem decorreu sem nenhum incidente e ambos se encantaram com tudo o que viam pelo caminho. O jovem porque nunca houvera visto, tudo era novidade; o velho porque se espantava com o progresso e pensava que o mundo já estava chegando ao fim. Por isso mesmo ele concluiu que a decisão que tomara com sua velha mulher estava mais do que correta. Ariel tinha mesmo que se tornar um sacerdote. O pai estava convicto.

Chegaram ao templo no inicio da noite, na véspera das festividades. Havia muitas tendas armadas nas proximidades. Havia também muitas pessoas repousando embaixo de árvores, pastores habituados a essa vida, que lá compareciam apenas para fazer negócios, para arrumar esposas ou apenas para folgar. Pai e filho também iriam ficar embaixo das arvores, dividindo a fogueira de alguém.

Assim que chegaram refrescaram-se numa fonte ao lado do poço, em frente ao templo. O velho, muito ansioso em resolver a segunda etapa do seu plano, sem nenhuma perda de tempo resolveu que aquela era a hora apropriada para procurar o sacerdote. Tinha razão. O sacerdote tinha acabado de atender o último peregrino e preparava-se para se recolher, prevendo um dia seguinte de muito trabalho. Estava naquele momento de tranquilidade que antecede a meditação da tarde, própria de todos os religiosos desde muito antes daqueles tempos. Assim que o sacerdote viu o velho e o menino entrando no templo teve a percepção de que os dois não haviam vindo apenas para as festividades. Algo lhe dizia que haviam chegado de longe e que o propósito da visita era mais profundo. Ao se aproximarem, o velho com os olhos brilhando de ansiedade e o jovem com os olhos baixos, com medo do que poderia lhe acontecer daquele momento em diante, foram recebidos com um gesto afável do sacerdote que, compadecido do velho, convidou-os a sentar. Por alguns instantes houve um silêncio profundo como o de um sepulcro. Ao fundo ouviam-se apenas os ruídos que vinham de fora do templo. Ariel, naturalmente, não falava nada; o pai não sabia como começar a conversa que tanto ensaiara. O primeiro a falar foi o sacerdote. Perguntou ao velho de onde viera, como fora a viagem . Depois, percebendo que o motivo da viagem tinha algo a ver com o menino, perguntou ao velho se este era seu neto. Isto deu a oportunidade para que o pai explicasse que Ariel era seu filho caçula, que nascera muitos anos depois daquele que ele pensara que seria seu último filho. Explicou que apesar dele e sua esposa agradecerem a dádiva dos deuses em lhes dar mais um filho, já no final de suas vidas, isto os havia deixado deveras preocupados com relação ao futuro. O sacerdote observava o menino e percebia que o olhar e o pensamento deste vagavam pelo interior do templo. Não estava prestando atenção à conversa do pai com o sacerdote. Este julgou que o velho, com dificuldade de falar, não conseguia articular bem suas frases e ficaria mais a vontade se Ariel se afastasse, deixando-os sós. Assim é que sugeriu ao menino que fosse observar, da entrada do templo, o revoar dos pássaros, que aquela hora, logo após o por do sol, iria começar. Recomendou que não se afastasse nem um passo da porta, com receio que pudesse se perder entre a multidão de desconhecidos. Assim que o menino se afastou o velho ficou mais a vontade. Primeiro disse ao sacerdote que gostaria que Ariel se tornasse um religioso; depois confessou que de fato não estava seguro de que gostaria, pois Ariel era o único filho que vivia com ele e a esposa e teria que se afastar, talvez para nunca mais ser visto, porém, disse o velho com firmeza, não lhes restava nenhuma opção. Por último, com lágrimas nos olhos, implorou ao sacerdote que convencesse Ariel a se tornar, ele também, um sacerdote.

O sacerdote respirou fundo três vezes, com os olhos semicerrados, em silêncio. Olhou para Ariel junto à porta, observando os pássaros; teve então uma visão de Ariel voando, flutuando como os pássaros, seguindo-os em acrobacias suaves como a brisa. O sacerdote percebeu que Ariel era livre, portanto era ele que deveria decidir tornar-se ou não um sacerdote, mas por outro lado, compadecia-se do pai já no fim da vida, sacrificando-se pelo filho, preocupando-se com sua sobrevivência a ponto de arquitetar um plano que poucos naquela época eram capazes de imaginar e, menos ainda, dispostos a executar. Naquela época tudo só acontecia pela vontade dos deuses, diziam as pessoas. Aquele velho ali presente desejava que algo acontecesse segundo a sua vontade. O sacerdote resolveu ajudá-lo. Pediu a ele que tomasse o lugar de Ariel e o mandasse para junto de si.

Estando Ariel junto do sacerdote este lhe disse. “Ariel, seu pai me contou que você gosta muito de viajar e de conhecer lugares”. O menino olhou para o sacerdote mas não lhe disse nada. Apenas lhe passou pela cabeça que estivera há poucos instantes na porta do templo, observando os pássaros e pensando “como seria bom se eu pudesse voar como um pássaro, viajar para onde eu quisesse”. O sacerdote percebeu o brilho nos grandes olhos negros de Ariel; percebeu que abrira um canal de comunicação. E então prosseguiu: “Eu gostaria de lhe fazer uma proposta a respeito de uma viagem . Você deve ter percebido que uma montanha engoliu a luz do dia quando os pássaros começaram a sua revoada. Pois bem, no pé daquela montanha existe um rio de água muito cristalina que desce de algum ponto muito alto. Acima desse ponto, no inverno pode nevar e fazer muito frio mesmo durante o dia. À noite é mais frio ainda. Não se sabe se os deuses habitam a montanha, como muitos dizem, ou se moram nas águas do rio ou se os deuses são a vida dos pássaros e habitam simplesmente o vento. Muitos sacerdotes, como eu, procuram durante toda a vida a resposta a esta questão de onde moram os deuses. Ninguém, até hoje, conseguiu a resposta. Então, como eu não posso me afastar do templo, deixando-o abandonado, eu quero propor que você, que é jovem, curioso e que gosta de viajar, vá até aquela montanha suba o mais alto que puder e descubra a verdade para mim”. O sorriso de Ariel dizia, sem que uma única palavra fosse dita, que ele aceitava a proposta.

O sacerdote chamou então o pai de Ariel e lhe contou a proposta que fizera ao menino. O pai, espantado com o desenrolar dos acontecimentos perguntou a Ariel se ele estava realmente disposto a empreender aquela viagem. Alertou ao filho que vários anos poderiam se passar antes que ele tornasse a vê-lo, assim como à sua mãe. Antes porém que o jovem pudesse se arrepender da decisão apressou-se em louvar-lhe a disposição e lhe disse que certamente isto se dava em virtude da influência dos deuses e que por isso ele e sua esposa abençoavam o filho e desejavam que o jovem se sentisse tranquilo quanto à alegria que iriam sentir cada vez que comentassem o assunto com os vizinhos e parentes. Disse ainda que se era o seu desejo, Ariel não precisava se preocupar com o seu retorno para casa, uma vez que ele poderia acompanhar uma das inúmeras caravanas que certamente passariam por sua aldeia.

Ariel disse então ao pai que estava muito feliz em realizar aquela missão e que ele se sentiria livre como os pássaros que revoavam a praça em frente ao templo. Disse que estava disposto a partir o mais rápido possível em busca dos mistérios das montanhas.

O sacerdote lhes disse que a missão de Ariel era um segredo absoluto entre os três; portanto, não podia ser comentada com absolutamente ninguém. Sugeriu então que pai e filho se incorporassem naquela noite ao povo que acampava em frente ao templo e que no dia seguinte, após as festividades, deveriam se despedir e Ariel poderia vir ao templo para iniciar os preparativos para a viagem. Tendo notado o carinho do rapaz pelo seu cachorro disse-lhe também que este poderia acompanhá-lo em sua missão. Ao velho o sacerdote disse que a missão de Ariel era na verdade uma missão sagrada e como tal não apresentava risco de nenhuma espécie, podendo o velho estar seguro de que todos os seus desejos seriam realizados. Referia-se à transformação de Ariel em sacerdote. Colocou a mão sobre os ombros do velho e lhe disse que pedira muitas vezes que os deuses lhe concedessem o previlégio de ter alguém com quem dividir suas indagações sobre o sentido de todas as coisas vivas e inanimadas e que estava muito feliz que justamente nesse dia o velho lhe houvesse procurado junto com Ariel. Algo lhe dizia que havia finalmente descoberto um caminho que o levaria a desvendar todos os mistérios que existem . Abençoou o velho e pediu a este que agradecesse em seu nome a mãe que tão desprendidamente lhe emprestava o filho para a realização daquela missão.

Ariel e seu pai foram então se juntar a um grupo que estava sob uma árvore, ao lado de uma fogueira. Falavam todos em voz alta, riam, alguns cantavam enquanto outros dançavam. O velho se aproximou de outras pessoas de sua idade com uma enorme alegria no coração, enquanto Ariel ficou observando os mais jovens do grupo que dançavam próximo da fogueira. Havia também umas poucas crianças pequenas que se aconchegavam no colo das mães. Os dois se alimentaram com os demais e, logo depois de escurecer completamente, acomodaram-se para dormir. Naquela noite não tocaram no assunto da missão de Ariel. Dormiram o sono dos justos.

No dia seguinte todos acordaram muito cedo. O dia começaria com os sacrifícios de animais em agradecimento aos deuses pelas abundantes colheitas obtidas. Ariel assistiu a tudo com um misto de deslumbramento e de questionamento. Ariel perguntava-se por que os animais deviam ser sacrificados em demonstração de agradecimento. Por que os deuses necessitariam do sangue dos animais que não faziam mal a ninguém? O que levava as pessoas ali presentes a pensar que praticando este tipo de ação estariam agradando aos deuses? De acordo com o que Ariel entendera da missão que o sacerdote lhe confiara, nem mesmo este sabia onde estavam os deuses. Então, de que servia sacrificar os animais naquele local, se os deuses poderiam estar muito longe dali?

No período da tarde houve muita música e dança. Havia também uma competição onde os homens mediam forças, num tipo de luta que consistia em derrubar o adversário, sem que nenhum dos contendores saísse de dentro de um circulo traçado no chão de terra seca. O vencedor do torneio era festejado por todos, principalmente pelas moças que procuravam marido.

Atendendo a sugestão do sacerdote, tão logo terminadas as festividades o velho partiu para casa acompanhando uma caravana que iria passar por sua aldeia. Ariel despediu-se de seu pai com a sensação que seu coração iria implodir, tão apertado ele ficou. Abraçou o pai como nunca houvera feito; beijou-lhe a face com um carinho jamais outrora demonstrado e pediu-lhe que informasse à mãe que ele voltaria assim que possível para vê-los. Ariel dirigiu-se então ao templo, com seus pertences e com seu cachorro.

O sacerdote o recebeu com imensa alegria. Chamou um auxiliar que acompanhou Ariel ao seu aposento, simples e rústico porém muito melhor do que tinha em sua casa. Ariel começou a imaginar que a vida de sacerdote poderia ser atraente.

No dia seguinte Ariel acordou muito cedo; estava ansioso por iniciar os preparativos. Ele se alimentava de frutas e leite quando chegou o sacerdote. Este foi logo lhe dizendo que a viagem demoraria cerca de 7 luas novas para ser iniciada. Este tempo seria suficiente não só para dar a Ariel as noções de religião que o jovem ainda não tinha mas, principalmente, para ensiná-lo como agir para sobreviver por longo tempo nas montanhas.

Assim foi feito e Ariel partiu logo que o inverno havia terminado, levando duas cabras, dois cabritinhos, um dos quais muito novo, um bode, o cachorro, uma manta grossa, alguma comida, algumas roupas e muitas idéias.

O sacerdote havia dado a Ariel instruções muito claras: caminhar em direção às montanhas até encontrar o primeiro rio; subir, sempre acompanhando o curso do rio até chegar ao topo da montanha. Se encontrasse um outro rio, confluente com o primeiro, deveria escolher qual deles seguir; se o rio escolhido não o levasse ao topo da montanha, deveria voltar e seguir o confluente até chegar bem alto, na nascente do rio. Desde que começasse a caminhada Ariel deveria perguntar a todos, e a tudo que encontrasse, onde moravam os deuses. Finalmente, Ariel só deveria voltar quando tivesse a resposta; não interessava quanto tempo iria demorar. Em contrapartida o sacerdote lhe prometera orar pelo sucesso da missão e que o tornaria mais poderoso do que qualquer pastor ou mais famoso do que qualquer outra pessoa, quando retornasse com a resposta.

O tempo passava e não havia sinais de Ariel. O sacerdote cumpria rigorosamente sua promessa de orar pelo sucesso da missão, mas no seu íntimo pensava que Ariel havia morrido, devorado por algum animal selvagem ou talvez não houvesse resistido ao frio dos vários invernos que já haviam passado.

Uma manhã, logo no inicio da primavera, muito cedo, Ariel bateu no portão do templo, que àquela hora ainda estava fechado. O templo havia sido expandido e Ariel logo percebeu que muitas pessoas circulavam pelo interior dos muros que agora o cercavam. Ele se identificou e pediu para ser levado ao sacerdote.

Este, ao vê-lo não conteve a emoção, pois tinha certeza de que se ele havia voltado depois de tanto tempo é porque havia cumprido a missão. A fisionomia irradiante de Ariel também demonstrava isso. O sacerdote abraçou-o e chorou como um pai que recebe o filho que julgava morto.

Outras pessoas logo se acercaram dos dois porém o sacerdote os afastou com a desculpa de que Ariel deveria estar muito cansado e precisava repousar. Na verdade ele queria ouvi-lo a sós para conhecer o resultado da missão e somente depois disso iria divulgar as informações aos demais. Afinal, apenas ele sabia qual havia sido a missão confiada a Ariel.

Enquanto caminhavam para os aposentos que Ariel ocuparia, e para onde o sacerdote já ordenara que se enviassem roupas limpas, água, leite e frutas, Ariel contou que chegara ao parque onde se situava o templo na noite anterior. Não o havia procurado porque achara que era muito tarde e também porque resolvera dormir embaixo da mesma arvore onde ficara na primeira noite em que estivera no templo. Apenas entraram nos aposentos e o sacerdote dispensou os serviçais. Disse então que havia orado muito pelo sucesso da missão de Ariel e que estava deveras ansioso para saber o resultado mas que os detalhes Ariel poderia deixar para mais tarde, para depois que descansasse, se trocasse e se alimentasse. Ariel então lhe disse: “Descansar eu não necessito, pois durante todo este tempo me habituei a dormir pouco e o que dormi embaixo da árvore já me foi o suficiente; desejo apenas me banhar, colocar uma roupa limpa, comer alguma fruta e depois poderemos falar. Eu não posso dizer-lhe apenas qual foi o resultado da minha missão pois você não iria entendê-la; eu terei que lhe contar tudo em detalhes.”

Algumas horas mais tarde os dois acomodaram-se em algumas almofadas sobre o chão de pedra e Ariel começou a falar:

“Desde o momento em que saí do templo rumo às montanhas comecei a questionar a tudo e a todos sobre onde moram os deuses. Os primeiros aos quais perguntei foram as cabras e o meu cachorro. Não obtive nenhuma resposta. Daí observei os pássaros que pareciam nos acompanhar, voando de uma árvore a outra, à margem da estrada. Naquele momento tive a impressão que os pássaros eram os olhos dos deuses, por meio dos quais eles poderiam nos observar o tempo todo e saber o que estaríamos fazendo. Quando a noite caiu eu conclui que estava errado pois se isso fosse verdade os deuses não poderiam saber o que fazemos durante a noite, mas eles sabem. Observei as outras pequenas criaturas pelo caminho, cheguei a perguntar a elas onde habitam os deuses e não obtive resposta alguma. Concluí que apesar de serem criaturas importantes, embora diminutas, apesar de serem muito bonitas, embora muito simples, apesar de serem criaturas dos deuses, elas não eram parte dos mesmos. Certamente elas foram colocadas pelos deuses para servir a algum objetivo específico. Observei que uma criatura se alimenta de outra; que algumas se alimentam de folhas. Aprendi que todas as criaturas servem para manter um equilíbrio entre os seres da natureza, até chegar ao ser humano.

Continuei minha caminhada até chegar ao rio. Ele é um rio muito largo, com uma forte correnteza entre as pedras, por onde as suas águas correm ruidosamente. Na sua margem existe uma trilha por onde passam os viajantes. Acampei na margem do rio por alguns dias, tentando decifrá-lo. Perguntei a ele, várias vezes, se os deuses habitavam suas águas pois eu via nelas um poder imenso, assustador. Não obtive resposta alguma, mas percebi que o rio servia não apenas de referência para os viajantes, pois servia também como fonte de água potável para as pessoas e os animais que habitam as suas margens . Vi também que as frutas que caem em suas águas, das árvores que o margeiam, são devoradas pelos peixes e estes, depois, servem de alimento aos pescadores. Conclui que também o rio e as árvores, assim como os peixes são criaturas dos deuses. Aprendi que também o rio participa do ciclo da vida.

Então eu comecei a seguir a trilha, em direção à montanha. Encontrei, por várias vezes, caravanas de viajantes. A todos eu dava um jeito de perguntar se alguém sabia onde habitavam os deuses. Ninguém nunca sabia. Alguns até riam de minha pergunta; outros ficavam pensativos; alguns faziam brincadeiras. Porém todos foram amáveis e eu sempre obtive com eles alguma comida .Quando alguém perguntava onde eu estava indo eu dizia que procurava meu irmão mais velho, que deveria estar morando naquela região, com sua família e seus animais. Todos acreditavam em minha história. Na verdade eu sentia certa vergonha de dizer que estava somente à procura dos deuses, como se isso fosse uma missão muito pequena . Eu aprendi a entender as pessoas. Vi que no fundo não existem pessoas propositadamente maldosas ; o que existem são pessoas que, por terem interesses conflitantes, não se entendem umas com as outras. Afinal o homem também é uma criatura divina, certamente a mais importante das criaturas. O homem é a criatura para a qual os deuses criaram todas as outras coisas. Eu conclui que o homem é a criatura que deveria viver mais próxima dos deuses.

Após muitos dias, na verdade muitas luas, a trilha acabou. Eu já havia passado por muitos povoados e observado muitas coisas, algumas muito tristes e outras muito alegres; muita miséria e muita riqueza; muito sofrimento e muita felicidade. Comecei a pensar que os deuses são muito injustos com alguns enquanto protegem outros, e a me perguntar porque isso acontece. Na verdade, esqueci por algum tempo que minha missão era descobrir onde os deuses habitam. Durante algum tempo comecei a questionar se os deuses agiam corretamente ou não. Comecei a me questionar se realmente valia a pena saber onde eles habitam, já que não me pareciam justos. Um dia, descansando sob uma frondosa árvore eu me dei conta que aquilo que se passava, o questionamento que eu fazia, era normal da minha juventude. Assim eu resolvi voltar ao objetivo da minha missão.

Eu aprendi a observar as coisas sem fazer comparações ou criticas. Concluí que deveria haver uma razão para as coisas serem como elas são. Aprendi a aceitar os fatos, mesmo se eu não concordasse com eles.

Quando a trilha acabou eu estava mais ou menos na metade da minha jornada para o topo da montanha. Ela terminava junto a uma pobre casa de uma família bondosa que me acolheu com muita afeição. Vim a saber depois de muitas luas após aquele encontro que eu lhes lembrara um filho que haviam perdido, o qual deveria ter mais ou menos a minha idade. Combinei com aquela família que eu deixaria minhas cabras, assim eles poderiam usar o leite para alimentar a criança recém nascida e o velho patriarca que não conseguia mais mastigar; em troca me dariam alguma comida para que eu pudesse prosseguir em minha missão. Combinei ainda que no período de inverno eu voltaria para aquela casa pois naquela altitude já era muito frio e durante alguns invernos todo o pico da montanha podia cobrir-se de gelo. O rio que eu seguia, àquela altura já era bem pequeno mas suas águas eram mais cristalinas. Podia-se ver todos os peixes que subiam entre as pedras do seu leito. Um dia eu comecei a pensar se os peixes também estariam à procura dos deuses. Mais tarde vim a descobrir que o motivo de sua viagem era outro, pois subiam o rio para deitar os ovos em locais seguros.

Num dos invernos, quando voltei aquela casa, eu conheci a morte. O ancião havia adoecido e quando eu cheguei todos estavam ao seu redor. As crianças choravam assustadas, a mulher passava um pano molhado na sua testa suarenta e o filho segurava as mãos do ancião como se segurasse a própria vida. Ninguém percebeu que eu havia chegado. Eu já havia entendido que muitas vezes não se pode interferir no fluxo da vida, eu já havia compreendido que tudo tem sua hora. A morte, quando é natural deve ser compreendida, pois ela não causa dor, mas apenas sofrimento aos que ficam; entretanto, ela traz alívio aos que se vão. O ancião partiu com um suspiro profundo, como se estivesse leve, deixando ali seu próprio corpo . Era como se ele flutuasse. Minha presença foi percebida pelas crianças, que pararam imediatamente de chorar. Consolei o casal. Mais tarde fiquei sabendo que naquele momento todos eles pensaram que eu era o filho que já havia morrido, que retornava ao lar, como se a morte recriasse a vida.

Na montanha eu aprendi a contemplar o amanhecer e o entardecer. Aprendi a contemplar as árvores e os pássaros; o arco-íris e as estrelas. Aprendi a sentir a chuva e a neve. Vi todas as cores e ouvi todos os sons da natureza. Aprendi a ver e a sentir o mundo.

No começo eu subi o mais alto que minhas forças me permitiram. Procurei abrigo em uma caverna. De lá eu tinha uma vista magnífica. No alto eu via a neve branca que cobria a montanha como se fosse uma manta; à minha direita eu via o nascer do sol e à esquerda o crepúsculo do entardecer; embaixo eu via o vale, florido na primavera, cheio de frutas no verão, e cheio de cores no outono. O rio que eu segui havia se transformado numa pequena vertente, no vale lá embaixo. Numa ocasião eu o contemplei por muito tempo; era uma tarde agradável da primavera; eu me imaginei como se fora suas águas, sentindo meu corpo correndo por entre as pedras; eu as via no fundo do leito, como se eu as envolvesse; via também as raízes das árvores que penetravam no rio para absorver-lhe a água; sentia os peixes nadando, como se atravessassem o meu corpo, correnteza acima para deitar os ovos. Foi nesse dia que me dei conta de que o rio representa a perseverança: não há nada que o prenda eternamente; ele ultrapassa todos os obstáculos. Tente represá-lo e suas águas subirão até vencer a obstrução, passando por sobre ela ou então contornando-a. Naquele dia, senhor, eu aprendi que se pode lutar contra as dificuldades e que se pode vencê-las: basta fazê-lo com a mesma perseverança das águas do rio.

Uma vez eu me concentrei, observando um falcão que pousara numa pedra próxima à entrada da caverna onde eu me instalara. Quanto mais eu me concentrava nele, mais eu me sentia dentro dele. Comecei a sentir a textura da pedra onde estava pousado, depois comecei a ver o vale, lá embaixo, através de novos olhos, depois voei livre e solto no espaço. Subi o máximo que eu pude e lá de cima observei tudo. Foi uma coisa fantástica; voei para lugares distantes, via tudo aqui embaixo, em seus mínimos detalhes; entretanto, mesmo assim, não consegui descobrir onde habitavam os deuses. Aprendi, porém, que existe um enorme poder em nossas mentes e que através dela pode-se chegar onde se queira.

Eu fui percebendo a beleza das coisas; fui entendendo o que se passa no coração de cada ser. Assim como me foi possível sentir-me o falcão, me foi fácil sentir-me o cão, me foi mais fácil sentir-me a cobra, o escorpião e a árvore. Difícil foi conversar com as pedras, mas também isso eu consegui. Descobri que elas não são seres como os animais e as plantas; mesmo assim perguntei a elas onde habitavam os deuses mas não obtive resposta.

Eu já havia esgotado as possibilidades de encontrar os deuses na terra, então comecei a olhar para o céu, todas as noites, logo após o pôr do sol. A cada estrela eu perguntava onde habitavam os deuses. Novamente não descobri, mas, mesmo assim, eu aprendi que existe lá em cima uma grande fonte de energia e de sabedoria e que se aprendermos a aproveitá-la seremos capazes de obter milagres. Aprendi que as estrelas nos indicam o passado e o futuro. Se olharmos para frente e para o alto as estrelas indicarão nosso futuro. Se olharmos para trás, para nosso passado, devemos olhar também para o alto, em direção das estrelas. Então elas trarão à nossa mente as nossas realizações mais nobres, nossas realizações mais grandiosas, nosso passado de glórias. Aprendi que não devemos olhar para baixo, para as coisas vis, pois mesmo olhando para a frente, se olharmos para baixo, obteremos apenas coisas pífias, as coisas insignificantes, e não é esse o destino dos homens. Portanto quem quiser ser grande deve olhar sempre para o alto, como se estivesse observando as estrelas.

Eu me banhava sempre nas águas geladas da pequena cascata que ficava bastante abaixo da minha caverna. Cada vez que sentia a água gelada molhando minha cabeça eu sentia uma renovação de energia no meu interior. Novas idéias me povoavam a mente, novos planos eu fazia para encontrar os deuses.

Mas o tempo foi passando e eu ainda não havia descoberto onde eles habitavam, porém nunca fiquei ansioso, pois já houvera descoberto a beleza de todos os seres e de todas as coisas, e cada dia era cheio de novas descobertas e de engrandecimento. Eu amava tudo que me cercava, nos seus mínimos detalhes.

Meu cão, que já estava bastante velho, morreu numa tarde calma e serena. Eu não fiquei triste. Achei normal, pois isso fazia parte do fluxo da vida. Coloquei seu corpo numa fenda entre duas pedras grandes e o cobri com varias pedras menores para que nenhum pássaro ou outro animal tirasse o meu amigo de perto de mim. Diariamente eu olhava aquele túmulo, mas no fundo eu sabia que meu cão não estava mais lá. Somente o seu corpo inanimado jazia sob as pedras.

Um dia eu notei que uma pequena planta conseguiu brotar por entre as pedras do túmulo do meu cão. A planta foi crescendo devagar. Eu cuidei dela com carinho. Ela resistiu ao inverno e na primavera desabrochou uma linda flor nas cores branca e lilás. Eu logo compreendi que aquela flor representava o amor. Ela era a transformação do meu cão. A flor era o símbolo do amor. Ela exalava um perfume muito intenso. Mais intenso à noite do que de dia. Eu sentia o perfume a metros de distância. Numa bela manhã, ao frescor da aurora, quando eu observava a flor, percebi uma pequena abelha que a sobrevoava. Eu me concentrei naquele pequenino ser, sobrevoei a flor por bastante tempo, sentindo seu odor agradável, e foi então que obtive uma revelação: “o perfume sempre estará onde a flor estiver.” Então, minha mente subitamente se iluminou, e eu fiz a correlação: “os deuses sempre estarão onde estiver o amor”, ou seja, se alguém tiver o coração cheio de amor, os deuses sempre estarão onde ele estiver.

É isto, senhor, que tenho a revelar: os deuses habitam em redor e dentro de nós, se nossos corações estiverem cheios de amor.

Desde aquela manhã nunca mais deixei de senti-los perto de mim, onde quer que eu esteja.

Naquele mesmo dia eu iniciei a descida da montanha, com uma imensa alegria na alma. Parei alguns dias na casa da minha segunda família, mostrei a eles a beleza das coisas e depois prossegui a viagem. Encontrei novamente inúmeras caravanas; preguei a eles o amor, curei muitos doentes, saciei a curiosidade dos jovens, infundi esperança aos necessitados e incuti perseverança aos desanimados.

Andei rápido mas demorei a chegar aqui. E partirei logo, pois apesar de sentir em minha alma que meus pais já se foram, eu desejo ir para minha aldeia, mas depois prosseguirei viagem rumo ao sul e irei muito longe. Já que o rio foi a trilha que me levou aos deuses, eu quero saber para onde me conduzirá o mar. Portanto eu seguirei rumo ao sul, até onde o mar conseguir me levar”.

O sacerdote, emocionado, postou-se ao chão e beijou os pés de Ariel. Este prontamente o ajudou a levantar-se, dizendo-lhe:

“Aprendi que devemos amar a todos e a tudo, mas não devemos nos diminuir diante de ninguém, pois perante os deuses todas as criaturas são iguais, ninguém é melhor nem pior que o seu semelhante. Apenas as circunstâncias nos fazem parecer diferentes”

O sacerdote então lhe disse:

-”Você tem razão Ariel, eu jamais entenderia onde habitam os deuses se você não tivesse me contado toda a sua experiência. Mas eu pretendo passar também por ela. Agora que o templo cresceu e temos vários sacerdotes, eu irei recrutar alguns para subirem comigo a montanha e obtermos a graça da revelação dos deuses. Se possível construiremos lá um templo. Você partirá numa direção e eu em outra. Eu peço que você ore pelo sucesso de nossa missão, pois entendo que cada um terá que descobrir, por si, que os deuses habitam o nosso ser e o lugar onde nós estamos. Quanto a você, eu tenho certeza que continuará pregando o amor e a sabedoria que você conseguiu no alto da montanha, e eu espero que a grandiosidade do mar possa realçar ainda mais a generosidade do seu coração”.

Alguns dias depois os dois partiram.

Muito tempo mais tarde Ariel chegava na região onde hoje é o Egito. Ariel era amado pelo povo, ao qual compreendia e confortava, e sua fama chegou aos ouvidos do faraó Djosi'e. O faraó mandou chamá-lo ao palácio. Depois de ouvi-lo ele nomeou Ariel seu conselheiro. Algum tempo depois iniciou a construção de uma pirâmide grandiosa, que simbolizava a montanha . Ela iria servir, depois de sua morte, para preservar seu corpo para a eternidade. Lá o faraó imaginava encontrar seus próprios deuses, após à morte.

Ariel continuou a pregar o amor, a alegria, a compreensão, a perseverança, a realização e a paz. O Egito desenvolveu-se como nenhuma nação jamais se desenvolvera; descobriram-se muitas coisas importantes para a humanidade; apareceram sábios e sacerdotes que por muitos séculos preservaram os ensinamentos de Ariel.

Depois de Djosi'e todos os faraós passaram a construir seus túmulos em forma de pirâmide.

Ariel tornou-se o mestre de todos os sacerdotes que se lhe seguiram. Todos sabiam que ele era o elo de ligação entre os deuses e o faraó, pois além de lhe interpretar corretamente todos os sonhos (que naquela época eram considerados como uma mensagem dos deuses), Ariel ainda orientava todos os sábios.

Ariel, já muito velho, subiu mais uma vez, sozinho, a montanha. Todos permaneceram com a certeza que algum dia ele voltaria, mesmo que num futuro distante, para ajudar novamente o povo. Muitos diziam que ele apenas se retirara para conviver por algum tempo, com os seus pares, os deuses. Depois de muitos anos dele nunca mais se ouviu falar.


Álbum literário da T63

Turma de 1963

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