T63-Amadeu-Irmã-Maria-José

De wikITA

IRMÃ MARIA JOSÉ

Amadeu Aleixo Machado


Irmã Maria José vivia num pequeno cômodo, separado do Mosteiro Beneditino, a cerca de cinquenta metros da capela, numa pequena cidade de Minas Gerais.

Já haviam passados cerca de vinte anos desde que ela havia deixado a família, para dedicar-se exclusivamente à religião. Logo no início de seus estudos havia mostrado grande vocação para o isolamento, meditação profunda e estudos da vida de Santa Tereza. Ela seguia um ritual que parecia eterno: aos domingos acordava muito cedo, assistia a missa, apanhava um livro religioso, alguma carta, que raramente recebia, recolhia-se a sua clausura e lá permanecia , isolada, até o Domingo seguinte. Uma vez por dia recolhia os alimentos que lhe eram deixados à porta. Recebia também a comunhão todos os dias, muito cedo, através de uma portinhola que se abria de sua clausura para o pátio do convento.

Naquele domingo de Julho ela havia recebido uma carta de sua cidade natal. A remetente era uma prima, companheira de infância, com a qual havia perdido contato há muitos anos.

Irmã Maria José correu para sua clausura, ansiosa para saber notícias da prima e talvez também da tia, sua madrinha de batismo, que lhe havia incentivado a seguir sua vocação religiosa. A carta, de duas laudas, de letra miúda, dizia o seguinte:


“Amada prima, Irmã Maria José

Espero que esta carta encontre-a com boa saúde e feliz por estar realizando o que você mais almejava na vida: estar próxima de Santa Tereza. O motivo que me levou a lhe escrever é um fato que tem trazido muita preocupação para toda a nossa família, especialmente para minha mãe, sua madrinha, que está muito doente, mas que ainda teve a luminosa idéia de pedir que a querida prima interceda junto à Santa Tereza, no sentido de que possamos obter as graças de um milagre . Como você bem sabe minha mãe e eu somos devotas de sua querida Santa.

O que está nos afligindo é meu sobrinho Matias, de 5 anos, filho de minha irmã Aparecida, que ainda não fala e ignora o que ocorre ao seu lado. Permanece o tempo todo balançando o corpo, ou girando algum objeto. Seu olhar disperso passa a impressão de que não reconhece ninguém. Ele foi levado a um médico famoso, mas o prognóstico foi muito ruim. Falou que é uma doença pouco conhecida. É um comprometimento mental impossível de curar. Por enquanto não há nenhum tratamento médico para recomendar. Pode ser que no futuro a ciência descubra algum remédio. Disse que a única coisa que se pode fazer é falar muito com ele, fazer exercícios físicos nele, criar brincadeiras, deixá-lo ao lado de outras crianças, arrumar um animalzinho de estimação e rezar por ele.

Por amor de Deus, traga-nos alguma luz através de sua religiosidade. Deve existir um motivo para que isto esteja acontecendo . Mas qual será, querida prima?

Minha mãe, pelo que eu sinto, está no fim. Ela já desistiu de ter esperança. Seu tio, já passou há vários anos. Está no céu esperando sua companheira. Desculpe-me, querida prima, querida Irmã Maria José, nós não temos mais a quem recorrer. Nossas preces não têm tido retorno, talvez nós não saibamos pedir, talvez nós não sejamos dignos de uma Graça Divina, talvez nós temos que passar por isto para provar a nossa fé. Dê-nos uma luz.

Se, entretanto, não puder responder esta carta não ficaremos magoados, pois sabemos do seu voto de isolamento e não sabemos se lhe é permitido nos escrever. Nós a respeitamos e a amamos muitíssimo. Nós imploramos ao menos que nos dê a graça de uma oração especialmente por sua madrinha, minha querida mãe.

Que Deus a ilumine

Terezinha de Jesus”


Irmã Maria José leu a carta três vezes. Todas elas com emoção. Relembrou da infância, com a prima, com a nitidez de um cinema. Lembrou-se do padrinho e da madrinha. Recordou da boneca de pano que ganhou dos padrinhos no Natal dos seus cinco anos.

Como podia ser uma boneca, ao mesmo tempo, uma carícia e um carinho? Irmã Maria José voltou a sentir, naquele instante, a maciez da boneca na maciez de seu rosto branco e sereno, da mesma forma de quando tinha cinco anos. Sentiu o odor levemente perfumado de água de cheiro, como se ela ainda estivesse ali, nos seus braços. Recordou-se de que quando veio morar no Convento havia guardado sua boneca de pano num baú de madeira, junto com algumas roupas e um sabonete de flor de laranjeira. Lembrou-se de que sua intenção era encontrá-la, como um náufrago que encontra uma bóia, caso não se acostumasse com a vida religiosa e tivesse que voltar para casa. Não fora preciso. Nunca mais voltou.

Maria José habituara-se com o isolamento de tal forma que não sentia saudades de ninguém, nem mesmo de sua mãe , nem de seu pai, nem dos irmãos, muito menos dos outros parentes. Não porque não os amasse, mas porque os amava muito, como nos amava a todos. A carta mexeu consigo. Fê-la pensar em todos eles: como estariam? Haviam se casado? Haviam se mudado para a cidade? Haviam morrido? Mas certamente haviam os nascidos! E certamente haviam os retornados! Havia, enfim, o ciclo interminável da vida. Aquela carta a arremessara de volta, como uma flecha, aos seus tempos de criança.

Por muitas horas ela pensou na sua vida passada. Recordava-se somente com carinho, sem nenhuma ansiedade. Admirou-se de não estar com o pensamento fixado no tema da carta. Não lhe ocorrera, por outro lado, nenhuma ideia sobre o que fazer. Na verdade não sabia por onde começar e talvez por isso mesmo estivesse tão serena. Passou o resto do dia como em qualquer outro Domingo. Ouvia ora os pássaros, ora o coral das noviças, ora o silêncio. Irmã Maria José aprendera a ouvi-lo havia vários anos. Fazia-o de uma maneira quase automática: respirava fundo, fechava os olhos e prestava atenção a um ruído de fundo; quando este terminava ouvia o silencio que o seguia, entrando imediatamente num estado de relaxamento próximo àquele que usava para seus exercícios de meditação. Durante o resto da tarde orava pelo que sempre orou: pela paz, pela saúde de todos, pelo amparo aos pobres, pela fé religiosa de todas as pessoas, pela resignação dos sofredores, pela esperança dos desafortunados, pela ética dos homens, pela iluminação dos governantes, pela alegria das crianças. Vez ou outra as palavras de Terezinha de Jesus lhe soavam aos ouvidos, mas sem ecoar. Maria José estava como que entorpecida. Só no final da tarde, na hora da Ave Maria, quando o sol se punha deixando atrás de si uma esteira dourada e uma tarde fria, é que ela resolveu acender uma vela em intenção da prima. Rezou então um terço para que a prima não perdesse a fé em Deus. Pediu que Santa Tereza a ajudasse a confortar os sofredores, principalmente estes sofredores que estavam tão próximos de si. Por um momento julgou estar cometendo o pecado do egoísmo, porque estava pedindo por seus parentes, quando, segundo os seus votos, deveria tratar a todos com igualdade. Pediu perdão a Deus.

A carta começou a incomodá-la. As palavras da prima agora lhe ecoavam nos ouvidos. Irmã Maria José não conseguia mais concentrar-se no longínquo ruído da noite para encontrar o silêncio da mente. A carta estava lhe atormentando. Resolveu fazer suas ultimas orações do dia e deitar-se no leito duro e frio. Não tinha a pretensão de repousar. Desejava mais se reencontrar, voltar ao seu ritual.

Irmã Maria José quase não dormiu; teve uma noite muito agitada, com muitos sonhos sem nenhum sentido. Imaginou estar sonhando com santas em diversas situações. Depois viu que em comum entre os personagens de seus sonhos só se percebia que eram crianças correndo, sorrindo ou cantando, sem que nenhuma lhe dirigisse a palavra. Nenhuma lhe mostrava a face com clareza. Talvez fossem anjos, pensou. Ela não sabia explicar quem eram esses personagens, afinal só tinha contato com as imagens de santos aos quais orava com frequência e nunca, desde que entrara no Convento, havia visto alguma criança, nem mesmo por fotografia.

Apesar da noite mal dormida Maria José acordou no horário habitual, apenas uns instantes antes dos galos começarem a cantar lá embaixo, no vale acima do qual se situava o convento. Fez suas orações de costume, trocou-se e logo depois bateram-lhe a porta para dar-lhe comunhão. Abriu seu livro de orações e deparou-se com a carta da sua prima. Lembrou-se novamente de seu desespero e tornou a orar por ela e pela sua madrinha. Por alguns instantes pensou em escrever uma carta para Terezinha de Jesus. Pesquisou na sua memória alguma passagem bíblica que pudesse ser relacionada com o momento que a família estava passando e que pudesse servir de bálsamo para aquele sofrimento. Entretanto não se lembrou de nenhuma. Pensou nas imagens dos santos, especialmente nas de São Bento e Santo Agostinho, imaginando que talvez os sonhos que tivera pudessem conter algum tipo de mensagem apropriada para uma carta à sua prima, mas nada, nenhuma inspiração.

Maria José resolveu então praticar meditação, como sempre fazia naquele horário do dia. Sentou-se na sua cadeira rústica de madeira, com o terço na mão, de frente para a imagem de Santa Tereza. Fez primeiro um exercício de respiração; depois concentrou- se no silêncio do universo; conseguiu ouvi-lo por completo; pediu à sua Santa que a inspirasse na tarefa de confortar sua prima e sua tia. Não se sabe quanto tempo ficou naquela posição, como se fosse uma obra de arte, imóvel e serena, com os olhos abertos sem enxergar e com os ouvidos atentos sem ouvir, envolvida por uma aura de luz que parecia neblina, mas que era, na realidade uma espécie de irradiação. Era uma irradiação igual a essas que a gente sente num local em que existe só bondade e amor.

Quando ela se ligou novamente ao mundo terreno o fez muito devagar; primeiro respirou vagarosamente, depois moveu os dedos da mão, tocando as contas do rosário e as pontas dos pés, como para sentir se eles ainda estavam lá. Seu espírito estava leve, seu semblante muito tranquilo.

Irmã Maria José virou a cadeira para a pequena escrivaninha, apanhou papel e caneta e começou a redigir uma carta.


Querida Prima

Que a paz do Senhor esteja com você e com os seus e que Santa Tereza os ilumine neste momento de dor pelo qual vocês estão passando.

Minha missão religiosa é a de, através dos ensinamentos de Santa Tereza, trazer conforto a quem dele precise e de rezar pela paz dos povos e pela felicidade de todos. Portanto eu não poderia deixar de orar por vocês todos e de responder a sua carta. Confesso a você que não é uma tarefa fácil. A emoção de receber notícias tão tristes depois de tantos anos de ausência torna esta tarefa ainda mais difícil, porque o que você me relatou envolve pessoas que muito amo, e aos quais desde o princípio dediquei as minhas preces . Confesso que fiquei muito perturbada porque você perdeu a esperança; fiquei chocada quando você afirmou que sua mãe parece renegar a vida, imaginando que alguém pudesse estar melhor se não estivesse entre nós. É errado pensar assim, porque a vida terrena é apenas uma parte do ciclo pelo qual passamos e não está em nós provocarmos qualquer alteração, por mais insignificante que possa ser. Portanto, se minha madrinha está aqui, é porque aqui é o lugar onde ela tem que estar. Isto pode parecer incoerência, pois o reino dos céus é um local ideal, tranquilo, sem dores, sem sofrimentos, sem remorços, e ela tem o direito de pensar que estaria melhor se sua jornada já tivesse terminado. Entretanto, querida prima, como você mesma disse, deve existir um motivo para vocês estarem passando pelo que estão. Mas não procure culpar ninguém por isto. Lembre-se de que Deus não quer o sofrimento de seus filhos. Ele quer a alegria e a felicidade de todos. Portanto, o motivo não é o de punir alguém pois Ele nunca castiga. O motivo tem que ser outro. Poderá ser, por exemplo, o de unir toda a família, inclusive a mim, em torno de uma luta, uma luta pela esperança, através da fé. Pode ter sido a maneira que o Senhor do Universo encontrou para nos colocar novamente em contato. Afinal, em nossos dias, estar enclausurada não mais significa estar afastada do mundo. Na verdade eu posso até receber visitas, e isto não é pecado.

Acontece que, por opção própria, tenho achado melhor manter-me afastada das atividades mundanas, por medo de fraquejar, de errar, de não conseguir voltar. A sua carta foi uma prova. Confesso que ela me perturbou muito, trazendo recordações agradáveis de nossa infância , como se estivesse me pondo à prova. Me perturbou também porque tomei conhecimento do sofrimento de entes tão queridos. Talvez a doença do menino tenha servido para pôr à prova a minha reação aos contatos com o mundo externo. Graças a Deus e a Santa Tereza eu consegui superar essa experiência grandiosa e me colocar em contato com vocês, através desta carta, sem ferir, nem um pouco, a minha religiosidade.

Mas, querida prima, ainda resta uma questão imensa a responder: como lhes trazer alguma luz, para que vocês não percam de vez a esperança, e mais do que isto, não percam a fé no Senhor e nem nas pessoas.

Eu pedi muito a Santa Tereza que me iluminasse, me permitisse obter alguma força para passar a vocês através de palavras; talvez o exemplo de alguma pessoa conhecida, de algum mártir ou de algum santo, mas não consegui. Obtive porém as graças de uma Visão, que embora não tendo conotação religiosa, deve servir, de alguma forma, para vocês e para outras pessoas, mesmo os de outras religiões ou até aqueles sem religião alguma, que estejam passando por situação semelhante.

A Visão que eu tive, num momento de meditação junto a Santa Tereza, foi a imagem de uma árvore cultivada em alguns conventos, conhecida como “árvore da vida” e que se desenvolve muito vagarosamente, durante 150 a 200 anos, passando por diversos cuidadores.

Junto com visão da árvore da vida surgiu um diálogo entre uma noviça e uma monja, que eu transcrevo em folha separada, onde se compara a “árvore da vida” com o ser humano.

Eu espero que isto possa ajudar vocês a entenderem a condição do pequeno Matias, protegendo-o, amando-o e minorando as dificuldades que ele tem. Isso irá aumentar a compreensão da vida e a fé, pois só assim vocês estarão atendendo aos desígnios de Deus e reencontrando a esperança e a felicidade, nas graças do Senhor.

Que Santa Tereza a proteja para sempre

Irmã Maria José



Árvore da Vida

– Monja, qual foi a grande realização da sua vida?

– Eu cultivei uma árvore.

– Mas, Monja, cultivar apenas uma árvore não é muito pouco para uma anciã como a senhora?

– Filha, para cultivar essa árvore eu tive, em primeiro lugar, que deitar a semente na terra. Para isso eu me ajoelhei e ao fazer isto eu aprendi a orar. Orei para pedir e orei para agradecer. Eu aprendi a ser humilde.

Quando minha árvore nasceu ela era muito frágil e exigia muitos cuidados. No início pensei que eu não havia escolhido uma boa semente nem uma boa época para o plantio, mas assim mesmo cuidei dela com muito carinho. Com ela aprendi a compreender o sentido de todas as coisas. Percebi que tal qual as plantas, as pessoas são diferentes umas das outras. Algumas são frágeis, outras são fortes; algumas parecem fortes porém são frágeis. Aprendi a compreender as pessoas; aprendi a perdoar, aprendi a pedir perdão e, principalmente, aprendi a me perdoar.

Depois minha árvore foi crescendo e eu pensei que ela daria flores mas ela não floriu; achei que ela seria frondosa, mas ela não desenvolveu, porém ela foi teimosa e sistematicamente tornando-se cada vez mais forte e mais linda.

Aprendi a não me decepcionar e a ter esperança; aprendi a sentir a alegria das pequenas conquistas; aprendi também que cada um, que cada coisa, tem seu modo de ser; aprendi o que significa perseverança a aprendi a ter paciência.

Minha árvore sofreu com invernos rigorosos, com tempestades cruéis e com secas terríveis. Cada vez que algo ocorria eu precisava acudir, proteger, curar e salvar. Aprendi o significado da aceitação e da doação; aprendi o que é a dor e o que é a felicidade. Aprendi o que é o amor, aprendi a amar os outros e aprendi a me amar.

Como pode ver, minha jovem, essa árvore é muito importante para mim; ela é ao mesmo tempo minha criatura e minha criadora. Eu cultivei a árvore da vida.


Álbum literário da T63

Turma de 1963
Ferramentas pessoais