T63-Amadeu-Kaomi

De wikITA

KAOMI

Amadeu Aleixo Machado
(Ver este conto com ilustrações selecionadas e inseridas pelo colega Bandel)


Aquela era a maior enchente que já ocorrera na Amazônia. A tribo havia se concentrado na parte mais alta da área em que viviam.

Os suprimentos haviam acabado. A caça era impossível e a pesca era escassa. Conseguiam apanhar apenas uns poucos ijuís – um peixe-sapo comum naquela região – quando eles punham a cabeça fora d'água para respirar. Os ijuís eram reservados para as crianças, para os doentes e para os velhos. Kaomi estava habituado com os problemas da tribo porque desde criança observava com atenção tudo o que acontecia. Agora estava com vinte anos. Nunca vivera situação tão desesperadora. As águas continuavam subindo. A roça de milho e de mandioca já havia sido coberta. Os homens saiam de manhã à procura de raízes e frutas comestíveis. Alguns se aventuravam a pescar. Na maioria das vezes voltavam ao entardecer de mãos vazias, ante a expectativa ansiosa dos velhos e das mulheres. As crianças pareciam não ligar. Todas as atenções e a maioria dos alimentos disponíveis eram dadas a elas. Kaomi sempre acompanhava os guerreiros.

Raramente algum deles voltava mais cedo, quando e apenas se alguém havia conseguido algum peixe. Nesse caso o peixe era imediatamente preparado e servido às crianças, sob a supervisão do velho Pajé.

Naquela noite haveria a Dança da Lua. A tribo iria pedir à Lua para que as águas baixassem. Os mais velhos sabiam que já haviam chegado ao limite. Sabiam que se as águas não começassem a baixar agora haveria mortes, primeiro dos homens e dos velhos, e então as mulheres. As crianças ficariam desprotegidas e também morreriam. Eles sabiam que após o inicio da baixa ainda levaria cerca de seis semanas até que a vida voltasse ao normal.

A tarde todos se preparavam, pintando os corpos com as cores vermelha, amarela, azul, verde e preta. Não havia um padrão de pintura, porém todos carregavam no amarelo porque aquela era a cor da Lua. O azul era a água, o verde a floresta. O vermelho era a dor. Muitos pintaram um círculo vermelho na região do estômago. Durante vários dias não havia chovido, mas as águas continuavam subindo devido ao derretimento da neve nos Andes peruanos, e devido às chuvas em outras áreas da região Amazônica, rio acima.

Assim que anoiteceu alguns índios acenderam a fogueira no centro da aldeia. Logo depois todos os índios já estavam reunidos. Olhavam ansiosamente para o leste, esperando que a Lua aparecesse. O chefe da tribo estava sentado numa esteira de palha, com seu cocar de penas de arara, nas mesmas cores com que os índios se pintaram. Ao seu lado direito estava o pajé, que também tinha um cocar de penas, quase do mesmo tamanho do cocar do chefe, só que o dele era todo amarelo e tinha, no pescoço, um grande colar de ossos de peixes. Ao lado esquerdo do chefe, também sentado na esteira, estava Kaomi. Ele tinha apenas uma tira de embira na testa amarrada na nuca, na qual prendera três penas amarelas. Nos seus braços havia braceletes de ossos de peixe. No seu pescoço um pequeno colar de dentes de animais. Kaomi havia pintado seu tórax de amarelo, com listas pretas horizontais. Ele pensava na sua semelhança com a espinha de peixe e também que a tribo precisava de peixes para sobreviver.

Desde muito pequeno Kaomi demonstrou grande curiosidade; vivia atrás do pajé, perguntando sobre ervas, sobre pássaros, sobre a história da tribo; enfim, tudo lhe interessava. Quando completou doze anos o pajé convidou-o para se tornar seu auxiliar. Kaomi aceitara de pronto. Desde então havia aprendido muitas coisas, principalmente sobre ervas, sobre as pessoas e sobre os espíritos.

Agora, enquanto esperava a Lua aparecer no horizonte para que a dança começasse, Kaomi sabia, no fundo de seu pensamento, que a dança em si nada resolveria. Ele sabia que sua tribo estava isolada na imensidão da enchente amazônica. Sabia que outras tribos estavam na mesma situação. Kaomi sabia que mesmo que as águas começassem a baixar agora, não haveria comida por várias semanas, porque a roça estava perdida. Muitos índios não sobreviveriam. Kaomi pensava que a única solução era encontrar uma forma de apanhar os peixes, os quais, durante a época da cheia se dispersam e ficam arredios.

Enquanto pensava nisso surgiu a Lua cheia no horizonte. Imediatamente o chefe levantou-se e com ele o pajé e Kaomi. A tribo toda ficou em silêncio e todos olharam para a Lua. Permaneceram imóveis até que ela apareceu por inteiro. O chefe então declarou que todos iriam dançar em honra à Lua, para que ela aparecesse todas as noites. Se ela aparecesse seria porque não iria chover e então as águas baixariam. Kaomi voltou a pensar que outras enchentes ocorreriam em anos vindouros e que a única solução era conseguir apanhar os peixes.

O chefe dirigiu-se ao centro do terreiro, onde estava a fogueira, e começou a dançar em volta dela. Os guerreiros imediatamente se enfileiraram atrás do chefe, formando um círculo. Batiam o pé direito compassadamente no chão. Com a boca emitiam um som, que mais parecia um gemido. Com esse som marcavam o ritmo da dança. Em torno dos homens formou-se um círculo de mulheres, que dançavam da mesma forma, mas em sentido contrário. Por ultimo formou-se o círculo das crianças, dançando no mesmo sentido dos homens. Somente permaneceram sentados o pajé, Kaomi e as mulheres que amamentavam crianças de colo, e outras com crianças já adormecidas.

Kaomi havia aprendido que a fogueira, naquele momento, simbolizava a Lua e que os três círculos rodando em sentidos opostos, simbolizavam as correntes da vida. Ele percebeu que todos dançavam mais por esperança do que por convicção. Não havia entusiasmo. A batida cadenciada dos pés direitos no chão elevava uma poeira fina, enquanto os ossos dos enfeites que muitos levavam no tornozelo, chocavam-se e produziam um som parecido com o guizo da cascavel. Os pés esquerdos só se arrastavam no chão.

Com a vareta em chamas trazida por um dos meninos o pajé acendeu o cachimbo. Tirou uma baforada e o passou para Kaomi, que repetiu o gesto, aspirando profundamente, e o devolveu ao pajé. Enquanto os índios dançavam esse ritual foi repetido inúmeras vezes, em silêncio. Vez ou outra o pajé adicionava mais ervas ao cachimbo. Os movimentos do pajé e de Kaomi eram repetidos sistematicamente, como uma dança das mãos.

A dança da tribo já durava cerca de duas horas; algumas mulheres e algumas crianças já haviam se recolhido. Então o chefe olhou para a Lua que estava já alta, ergueu os braços em sua direção, no que foi imitado por todos os outros que ainda dançavam, murmurou alguma coisa, e também parou de dançar. Todos se recolheram, exceto Kaomi e o pajé, que continuaram sentados, fumando o cachimbo e olhando fixamente para a fogueira.

A temperatura havia caído um pouco. A fogueira, já esmaecida e um pouco distante, não chegava a aquecer. A luz da Lua clareava toda a floresta. Do local onde estavam o pajé e Kaomi enxergavam a água que cobria as árvores; de algumas só apareciam as copas escuras, que se destacavam contra o fundo prateado das águas iluminadas pela luz do Luar.

Kaomi apreciava a beleza da cena mas não deixava de pensar na fome do seu povo. Achava que o Pajé estava pensando na mesma coisa. Os dois em silêncio. Kaomi lembrou-se de quando era criança e queria ser pajé. Naquele tempo pensava que o velho era um mágico fantástico, capaz de resolver qualquer problema. Achava que o ele era mais poderoso que o chefe da tribo, pois enquanto este comandava os homens aquele dominava a selva e seus segredos. Naquele tempo ele achava que o pajé sabia tudo e que podia tudo, ilimitadamente. Naquele instante Kaomi estava lembrando de tudo que já havia aprendido com o velho. Sabia, por outro lado, que o pajé já lhe ensinara tudo. Algumas coisas ele já havia ensinado repetidas vezes, não para reforçar, mas apenas porque já esquecera que havia ensinado. Kaomi concluiu que o velho não sabia como a tribo poderia capturar os peixes de que, desesperadamente, precisavam. Se soubesse já haveria ensinado. Kaomi sabia que acima do pajé havia o Grande Pajé, aquele que ensinava a todos os pajés da floresta, aquele que não aparecia e que só se comunicava com os pajés em ocasiões muito especiais. Kaomi pensou que aquela era uma ocasião especial.

Ele percebeu que o pajé, há algum tempo não lhe passara mais o cachimbo. Observou que ele havia adormecido com o cachimbo na mão e estava deitado, encolhido, em silencio, sobre sua esteira. Havia adormecido.

Kaomi levantou-se, apanhou o cachimbo, cobriu o pajé com sua manta, e decidiu encher novamente o cachimbo e continuar a meditar sobre uma solução para o problema da tribo. Ele decidiu por no cachimbo apenas duas das sete ervas disponíveis, que o Pajé vinha utilizando. Dirigiu-se até a fogueira, acendeu-o, tirou uma baforada, olhou para a Lua e disse em voz baixa:

“Você faz as águas subirem e baixarem, e eu não sei como você consegue isso, mas eu sei que você não consegue fazer as águas irem embora. Elas irão quando a natureza quiser, quando a missão estiver cumprida. Mas, enquanto isso, eu preciso da sua ajuda, preciso achar um jeito de conseguir os peixes para matar a fome da minha tribo. Por isso eu lhe imploro que encontre o Grande Pajé, onde Ele estiver, e peça para Ele se comunicar comigo, para me ensinar como apanhar os peixes que precisamos, só os que precisamos, nenhum a mais do que precisamos. Se eu não conseguir apanhá-los meu povo vai acabar” disse, já em soluços. Kaomi enxugou as lágrimas com as costas das mãos e voltou a sentar-se em sua esteira, de onde continuou a observar a Lua e seu reflexo na água, e continuou aspirar do cachimbo. Vez ou outra percebia, ao longe, um peixe que saltava, deve ser um tucunaré, ou talvez um tambaqui, para apanhar um inseto, pensava ele.

A Lua já estava baixando no horizonte, do lado direito de Kaomi; havia esfriado um pouco mais; as ervas do cachimbo estavam no fim. Kaomi então percebeu que seu espírito estava deixando seu corpo, pondo-se em pé. Viu que seu corpo continuava sentado, ao lado do pajé, encolhido sobre sua esteira, ainda coberto pela manta.

O espírito de Kaomi tomou o rumo da roça de milho, que agora estava coberto pelas águas, como se uma força o atraísse. Olhou para trás e ainda viu o seu corpo sentado, com o cachimbo na mão, ao lado do pajé, deitado.

Chegando à roça o espírito de Kaomi viu um velho, cuja face não conseguia distinguir, de cabelos brancos e longos, que tinha nas mãos algumas varinhas de um tipo de cipó, conhecido naquela região pelo nome de timbó.

Estavam também lá vários outros índios, todos com cocar de pajé, dentro da água, até mais ou menos a altura do umbigo. A cada um deles, inclusive a Kaomi, o velho entregou uma varinha de timbó. A seguir falou com tal autoridade que Kaomi imediatamente entendeu que estava frente a frente com o Grande Pajé. Sem dar atenção especial a nenhum dos índios, ordenou-lhes que cada um deixasse pingar uma gotinnha da seiva do timbó, próximo a um peixe da sua escolha. Kaomi escolheu um grande pirarucu e viu que alguns Pajés escolheram tucunarés e que outros escolheram tambaquís.

Assim que as gotas da seiva do timbó atingiram a água todos os peixes flutuaram, de barriga para cima. O Grande Pajé ordenou que todos apanhassem o peixe que haviam escolhido. Muitos outros peixes continuavam flutuando na água, de barriga para cima, como se estivessem mortos. Assim que todos haviam apanhado o peixe escolhido o Grande Pajé ordenou que todos os pajés urinassem na água. À medida que os pajés foram urinando os peixes que estavam na água foram se reanimando e voltaram a nadar.

Quando Kaomi urinou, sentiu um calor em sua perna e viu-se, assustado, sentado novamente no terreiro, ao lado do corpo encolhido do velho. Viu que a fogueira já havia apagado e que o clarão vermelho do sol começava a surgir no horizonte, em contraste com a água amarelada e também com a cor verde das copas das árvores.

Quando as primeiras crianças acordaram e foram para o terreiro, Kaomi não estava lá. Somente o velho pajé bocejava, preguiçosamente. Kaomi apareceu logo depois com uma braçada de timbó. Pediu as crianças que chamassem todos os índios, velhos, velhas, mulheres e crianças e avisassem que ninguém deveria urinar. Enquanto isso Kaomi e o pajé se dirigiram ao chefe, em cuja presença Kaomi detalhou o que havia acontecido. O pajé explicou ao chefe que o Grande Pajé havia se comunicado com Kaomi afim de ajudar a tribo sobreviver. Enquanto o chefe foi explicar aos índios qual era o plano, o pajé ajudou Kaomi a moer os galhos de timbó num pilão de madeira muito dura, capaz de conter a seiva que Kaomi colocou, cuidadosamente num vaso de barro.

Todos se dirigiram então ao local onde o espírito de Kaomi havia visto o Grande Pajé. O chefe ordenou que todos entrassem vagarosamente na água, para não espantar os peixes que comiam o milho submerso. Formaram dois círculos; o primeiro de homens e o externo de mulheres e velhos. As crianças ficaram na margem, exceto os menores, que foram para dentro da água nos braços das mães.

O velho pajé, que levava o frasco de seiva jogou o líquido no meio do círculo formado pelos homens. Os peixes começaram a flutuar. Os índios exultavam gritando e cantando; muitos choravam de emoção. Cada um pegou um peixe, o maior que conseguiu, sem desmanchar o círculo; passaram os peixes para as mulheres e para os velhos do círculo externo e apanharam mais um peixe para cada índio. Então o chefe ordenou que todos urinassem na água, inclusive as crianças que estavam na margem, e os peixes que ainda flutuavam voltaram imediatamente a nadar.

Todos os índios festejaram. Voltaram ao terreiro onde fizeram uma grande festa. Ganharam mais do que uma nova vida. A tribo ganhou a certeza da preservação do seu povo. Kaomi ganhou do chefe um cocar de pajé, que lhe foi colocado pelo seu mestre, o velho pajé da tribo.

Poucos meses depois o velho pajé morreu. Kaomi substituiu-o de fato, pois na prática já se tornara o pajé da tribo, desde o dia em que a fome foi banida para sempre da história do seu povo.

Em setembro daquele ano a cerimônia do Kuarup foi celebrada na tribo de Kaomi. Ele se encarregou de preparar o tronco que representava o seu velho mestre. Enfeitou o tronco o melhor que conseguiu, usando as cores mais intensas, exceto o vermelho, pois já não havia dor.

Quando os representantes das outras tribos, encabeçados pelos chefes e respectivos pajés, dirigiam-se ao tronco colorido, ladeado por Kaomi e o chefe de sua tribo, para venerar a figura do velho pajé, Kaomi empalideceu, quase perdendo os sentidos, pois reconheceu um a um, todos os pajés, que estavam com ele naquela madrugada, aprendendo a pescar com o Grande Pajé.

Todas as tribos daquele povo indígena haviam se salvado graças ao método de pesca com o timbó, que ainda hoje é usado na Amazonia, durante o período de cheias. Kaomi tornou-se famoso entre todos os povos amazônicos, pois era o único que conseguia se comunicar com o Grande Pajé sempre que o seu povo necessitava.

Ainda jovem, tornou-se o mais famoso xamã de toda a Amazônia.


Vídeo com pesca usando o cipó Timbó, enviado pelo Amadeu – ver o uso do cipó a partir do min 11.


Álbum literário da T63

Turma de 1963

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