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Edição atual tal como 19h48min de 27 de abril de 2019

O Efeito Tobogã

Amadeu Aleixo Machado

26/4/19

Sempre tive uma sensação de ambiguidade em relação aos meus pensamentos. Minha mente sempre vagou entre o passado e o futuro; entre o deslumbramento pela magia e a fascinação pela ciência; entre a minidimensão do átomo e a grandeza do universo.

Antes pensava que isso ocorresse por eu ser muito curioso ou talvez por eu ser geminiano. Mais recentemente eu concluí que todas as pessoas têm essa dualidade, umas em maior grau que as outras, independente das forças do zodíaco.

A partir do conhecimento de que todos estamos sujeitos à ambiguidade é que passamos a entender e a aceitar as outras pessoas como elas são.

Para se aceitar a si mesmo cada um deve reconhecer suas fraquezas e suas dificuldades e, partindo desse reconhecimento, procurar superá-las. Isto não é fácil e muitas vezes requer ajuda de alguém confiável. É por isso que o ser humano sempre precisa de outro. Além de lhe servir de parâmetro serve também de amigo e conselheiro.

Por causa de minha dualidade é que estou me utilizando do sonho verdadeiro de um tobogã irreal, para falar sobre o tobogã real, este que nos causa medo ao invés de diversão.

A história do tobogã irreal começou numa viagem que fiz a Paris, para participar da "Salon International des Composants Electroniques, 8-13 Avril 1965", a maior feira do mundo, em sua espécie. Componentes eletrônicos era minha área de atuação profissional.

Ao chegar, me deparei com o problema de encontrar hotel para me hospedar. Naquele tempo não existiam as facilidades de hoje para programar viagens. Lembrei-me então que meu colega Jerônimo estava em Paris, fazendo um estágio na Thomson-CSF, maior empresa da área de eletrônica da França. Localizei o telefone da empresa e consegui pedir sua ajuda. Através da secretária do setor onde estagiava, ele me conseguiu um hotel totalmente desconhecido onde eu poderia, pelo menos, dormir. Contou que nosso colega Luiz Pinto também estava estagiando na empresa. Passei o dia seguinte inteiro na exposição e à noite convidei-os para jantar. Fomos a um pequeno bistrô na região do Champs Elysées e depois resolvemos assistir um espetáculo num cabaré – até hoje um dos mais famosos de Paris, chamado "Crazy Horse". Compramos os últimos ingressos disponíveis para aquela noite. O saguão estava lotado. Muita gente pedia para entrar logo, porque já não havia espaço. Assim que abriram a porta de entrada, e as pessoas começaram a se mover, olhei para trás e avistei nosso colega Ciampi. Ele havia ido para a França logo após nossa formatura e estava trabalhando no setor francês de exploração espacial. Junto com o Ciampi estavam sua namorada, uma checoslovaca muito bonita, e outros dois casais de amigos dele. Trocamos poucas palavras enquanto éramos empurrados para dentro do recinto do show.

O espetáculo era o sucesso do momento em Paris: mágicas em que o tigre adulto queria atacar o público e logo depois desaparecia da jaula instantaneamente, ao deslizar de uma leve manta; um show de iluminação que fazia jus à cidade luz; músicas vibrantes, cantores e cantoras excelentes, e um grupo de quinze dançarinas, todas com a mesma altura, corpos dignos da matemática, pois a proporção áurea ali estava retratada. A perfeição dos movimentos era absoluta, deslumbrante. Todas sorridentes, desenvoltas e lindas. Depois vim a saber que a casa exigia que elas tivessem altura de um metro e setenta centímetros, umbigo localizado a um metro e cinco centimetros da planta dos pés, e vinte e três centímetros de distância entre os mamilos.

Terminado o espetáculo procuramos pelo Ciampi porém não conseguimos encontrá-lo. O tempo passou e somente foi localizado no ano 2013.

Depois de muitos anos, já no final do século passado, eu tive um sonho fantástico sobre um maravilhoso tobogã.

Estávamos o Jerônimo à minha direita e o Luiz Pinto à esquerda, jovens como éramos em 1965, novamente juntos, quase no topo de uma colina com declive muito suave. Na encosta da colina havia um gramado imenso, parecendo um campo de golfe, e abaixo do local onde estávamos viam-se muitas famílias provavelmente fazendo piqueniques. Muitas crianças estavam correndo, jogando bolas, arrastando carrinhos, empinando papagaios de papel, ao lado de um tobogã muito longo, que ultrapassava o local onde estávamos e de onde não era possível ver de onde ele vinha. As crianças guardavam uma distância de cerca de cinquenta metros até o tobogã, protegidas por uma grade. Ele tinha uns dois metros de largura e era feito de um material branco, parecido com louça. As bordas e fundo do tobogã eram arredondados, semelhante a uma enorme banheira. Aí corria uma camada de cerca um palmo de água cristalina. Era possível ver que o tobogã, além das curvas suaves ora à direita e depois à esquerda, que executava em sua descida, ainda apresentava ondulações verticais suaves, formando pequenas piscinas de água corrente, onde quem estivesse escorregando por ele poderia parar, brincar e depois continuar descendo, ou até lá permanecer, como se estivesse numa piscina. Olhando para o local mais embaixo, onde estavam as famílias, não se enxergava o final do tobogã. Ele apenas desviava para a direita e ficava invisível para nós. Entre nós e o local das crianças via-se apenas uma construção, com uma varanda enorme, parecendo um restaurante. Ele ficava mais distante, à esquerda do tobogã. A água provavelmente vinha de alguma fonte existente na montanha que estava acima da colina, à nossa direita.

De repente, a uns vinte metros depois do Jerônimo, num local um pouco mais elevado notei que havia um grupo de doze a quinze moças, todas rindo, brincando e cantarolando.

– "Jerônimo, olha atrás de você quem está chegando". Falei.

– "As moças do cabaré!!!" Falaram juntos Jerônimo e Luiz Pinto.

As moças vestiam-se, todas, como se estivessem no Crazy Horse. Imediatamente elas começaram a tirar toda a roupa e saltar no tobogã, em grupos de quatro ou cinco. Os suspiros que elas emitiam, não deixavam dúvidas de que a água estava fria. Quando passavam na minha frente procurei o Luiz Pinto. Vi que ele já havia se despido e estava caindo no meio do grupo. Ria junto com elas enquanto escorregavam colina abaixo. Olhei de volta para minha direita e vi o Jerônimo, ainda no ar, rumo à correnteza de água, para juntar-se ao outro grupo. Obviamente eu saltei junto com o grupo de cinco ou seis moças.

Enquanto escorregávamos naquela água cristalina, todos riam e entrelaçavávamos corpo com corpo. Hora eu estava passando por cima de uma e uma outra se entrelaçava em cima do meu corpo. Era possível sentir todos os detalhes dos corpos jovens. Delicioso perfume, dentes claros, lábios suculentos, pernas longas e bem torneadas, barrigas enxutas, zero gordura, seios e bumbuns firmes e braços fortes. Contrariamente ao que havíamos visto no cabaré, onde todas usavam perucas iguais, aqui mostravam cabelos curtos, rente à nuca, que variavam de um louro muito liso até um preto ondulado, de uma afrodescendente belíssima. Sorrisos francos de umas e outras, sempre cantarolando ao embalo do tobogã.

Eu julguei que já havíamos ultrapassado há horas o local onde famílias faziam piquenique. Nesse instante senti que havíamos chegado no final do tobogã, "puft".

Tudo evaporou e a escuridão escondeu o irreal, como se fosse uma cortina escura. O sonho acabou.

O tempo passou, até que em 2013, graças à Internet, o Ciampi foi localizado vivendo próximo de Paris.

Numa curta mensagem que me enviou ele destacou na primeira frase: "Em 1965 (antes de conhecer minha futura esposa), encontramo-nos numa representação da revista CRAZY HORSE em Paris. Foi a última vez que te vi."

Ao longo de pelo menos 48 anos, eu e o Ciampi mantivemos em nossa memória um acontecimento banal. A lembrança desse fato somente se explica pela surpresa de nosso encontro, tão inesperado, naquele local improvável.

De alguma forma nosso encontro no Crazy Horse ficou armazenado no pré-frontal e depois no hipocampo dos nossos cérebros. Mas, no momento de nossas vidas em que mais precisaríamos das nossas recordações, a memória nos falha até para um acontecimento do dia anterior! Por que será? E como contornar esse problema, já que a ciência não conseguiu resolvê-lo até agora?

Procurei explicações e não as encontrei. Conclui então que ao entrar no grupo dos octogenários, talvez um pouco antes para alguns, caímos num tobogã real, em relação às nossas memórias, aos nossos conhecimentos, à nossa capacidade de deduzir, de aprender e até mesmo de planejar.

No tobogã real em que caímos um dia, também existem curvas e altos e baixos, como aquele irreal, que vi no meu sonho. No final, quando nada mais nos preocupar, também acontecerá um "puft".

O tabogã real é personalizado. Cada um tem o seu. A descida pode ser lenta, suave como o voo da águia, agradável como uma brisa ao clarear o dia e alegre como o sorriso de uma criança. Mas também podemos sofrer solavancos intensos como no pouso forçado de um avião, pode ser perigosa como um tsunami e triste como uma grande perda.

Eu me dei conta que estava no meu tobogã quando percebi que certas pessoas me aborreciam ao me tratar de uma maneira carinhosa demais.

Numa festa de aniversário: "Acomode-se aqui neste cantinho, que vou lhe buscar um refrigerante sem gelo para o senhor não se resfriar" , mas o que eu queria era uma caipirinha de vodca, ou pelo menos uma cerveja bem gelada, para tomar com os jovens.

Numa visita a parentes: "E o senhor? Está bonzinho?" Com meus oitenta anos a vontade foi de falar "Com meus noventa eu estou muito bem. Só o que eu quero é dar uma volta de moto, mas meus netos não deixam".

Por causa desses tipos de tratamento carinhoso demais eu descobri um truque para melhorar o ego. Quando alguém me pergunta a idade eu respondo "noventa" (nunca falo "noventa anos"). Aí me dizem: "Mas como o senhor está bem! Sem nenhuma barriguinha, pele rosada, muito saudável! Como se faz para conseguir esse físico e essa simpatia?" Isso equivale a uma considerável elevação no percurso de meu tobogã, freando a velocidade de queda.

Outro sintoma complicado é o de reconhecimento de imagem. Outro dia vi uma mulher, aproximei-me dela, estendi-lhe a mão e disse: "Oi Cida, como vai? Ela pegou minha mão e respondeu: "Eu estou bem. E o senhor?" "Eu estou ótimo, mas você está olhando como se não houvesse me reconhecido". Ela disse: "É verdade, porque eu não sou a Cida." Como no decorrer de minha vida eu aprendi a sorrir de mim mesmo, esse tipo de situação eu tiro de letra, e me rendem pontos positivos na descida pelo tobogã.

Eu andava sofrendo com o desempenho de meu time de futebol favorito. Ele perdia todas as partidas. Daí escolhi um time adversário, passei a torcer contra ele e deixei de torcer a favor do meu time. Não deixei de assistir nenhum jogo do adversário. Me diverti muito com a fisionomia de desespero da torcida, principalmente quando há perigo de gol numa jogada próxima da pequena área. Nunca sofro quando ele ganha, porque o adversário não é o meu favorito. Assim eu não sou afetado quanto ao percurso pelo meu tobogã.

Sempre tive dificuldade de conversar com pessoas que reclamam de tudo. Há algum tempo eu desenvolvi modelos padrões de conversa com essas pessoas. Quando a reclamação é leve – tipo aumento de preços – eu falo do clima, da chuva que está anunciada e quando chegar vai melhorar a produtividade e reduzirá os preços, falo da possibilidade de substituir um produto por outro, conto que na minha infância não existiam tantas alternativas como agora, e eu estou aqui, vivo. Quando a reclamação é muito intensa, indo desde o latido do cachorro do vizinho até o calor deste dia desgraçado, desde o jovem que lhe aborrece até o velho que se nega a conversar com ele, aí o meu comentário é do tipo: "Eu conheço gente que comprou um cachorro mais bravo do que o do vizinho, só para fazê-lo calar; o calor é resultado do descuido das pessoas com a natureza, e também da variação climática, e só vai melhorar quando nós todos mudarmos nossas atitudes; quanto aos jovens não há remédio, quando eu era jovem também incomodava os idosos; quanto ao velho que não quer conversar eu sugiro que você descubra qual é o interesse dele e passe a lhe falar daquilo e você ganhará um grande amigo." Conversas desse tipo ainda me fazem perder pontos na minha trajetória.

Em todo caso, o que mais nos assusta e nos provoca perdas consideráveis é a memória, desde "onde deixei a chave do carro?" até "como é o nome daquele primo que esteve ontem aqui?". Para evitar perda de objetos eu resolvi guardar chaves, canetas, óculos, carteira, telefone celular, tudo no bolso. Isso eu não perco mais. Documentos importantes eu guardo no cofre e é lá que vou procurá-los. O maior problema são aqueles documentos menos importantes, aquela chave da mala, a lista de compras, e tudo mais que está abaixo dos importantes. Quanto a isso, o meu tobogã continua descendo, embora suavemente, mas continua.

Para o tobogã da vida não descer muito depressa eu recomendo: ser feliz, rir de si mesmo, não se preocupar com problemas políticos, religiosos, futebolísticos, nem mesmo problemas de saúde (porém, cuide-se). Conversar com jovens o máximo possível. Certamente você tem muito a lhes ensinar e também tem muito a aprender com eles. Converse também com pessoas simples, você irá aprender mais com eles do que com os filósofos, psicólogos e matemáticos.

Não deixe que os solavancos do tobogã joguem você pra fora.

Se você é avô nunca esqueça de seus netos, nem que precise fazer tatuagem de seus nomes em seu braço, ou dedos. Escreva para eles sobre qualquer assunto, mas não esqueça de enviar por email ou WhatsApp. Invente uma aventura, um poema, um conto, tudo vale a pena, pois:

  • Quando, de todos os sentimentos, só nos restar a saudade;
  • quando, por mais que desejemos falar, não pudermos mais ser ouvidos;
  • quando o tempo não for mais tempo, e a escuridão for a luz;
  • tudo que restará de nós serão os nossos escritos e as memórias de nossos amigos e familiares.

Álbum literário da T63

Turma de 1963

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