T63-Amadeu-Planeta-X

De wikITA

PLANETA X

Amadeu Aleixo Machado


Filipe repentinamente se viu num planeta não identificado. Ele estava na parte alta de um vale de onde avistava uma imensidão de solo sem vegetação, nenhum sinal de seres vivos, nem sinal de nuvens. Parecia um deserto, mas o solo era firme, de uma única cor laranja bem clara. Sentiu uma leve brisa.

O ambiente estava claro, mas não via de onde vinha a luz. Não havia sombras. Pensou que o planeta poderia ter duas ou mais luas, e que a luz provinha delas, mas concluiu ser mais provável a existência de camada de partículas flutuantes, da mesma cor do solo, reduzindo a luminosidade do “sol”. Não havia ruído. Deu alguns passos em direção ao outro lado da elevação. Logo abaixo do local onde estava avistou uma construção que também tinha a mesma cor do solo e aproximou-se dela. Pela quantidade de poeira depositada no canto formado pela parede traseira e a parede lateral, percebia-se que levara muitos anos para se acumular. Notou que não havia rastro de chuva nesse monte de poeira.

A construção parecia um galpão, no formato de um grande paralelepípedo. No teto plano havia um pequeno apêndice no mesmo formato dele, próximo a um conjunto de pequenas antenas.

Notou que na parede frontal, voltada a ele, havia somente uma abertura muito alta, como se fosse uma porta. Na parede lateral e na frontal, muito próximas de onde ele estava, nenhuma janela era visível. Caminhou até a porta. Olhou para dentro do galpão e viu apenas uma grande quantidade do que pareciam ser armários, cobrindo quase toda a área.

Não viu ninguém, mas ouviu uma voz que disse:

“Não se assuste, eu sou um equipamento dotado de enorme capacidade de processamento de dados, imagens e símbolos. Neste local existem vários outros como eu, além de equipamentos com grande capacidade de armazenagem de informações. Mantemos o controle de muitos sensores remotos e de outros equipamentos distribuídos em outros planetas e suas respectivas estratosferas. Para nosso funcionamento captamos energia do nosso sistema planetário. Estamos trabalhando autonomamente há dezenas de anos, desde que a vida acabou neste planeta.

Através de programas que desenvolvemos passei para seu cérebro um grande volume de informações. Você deve partir agora, porque está correndo perigo. Vá com a certeza de que faremos tudo para impedir que a vida acabe também na Terra”.

No mesmo instante Filipe sentiu-se deitado em sua cama, analisando mentalmente as informações recebidas que são, em síntese, relatadas abaixo.

“Este planeta não tem mais vida. A vida acabou por completo pouco tempo após haver acabado a água. O efeito mais visível e tenebroso da ausência de água no planeta, são os tornados que se formam inesperadamente e levam consigo nuvens de sal de sódio que causaram a morte da maioria dos habitantes, por meio do sufocamento com essa fina poeira, que paira em nossa atmosfera.

Centenas de anos antes de a água acabar por completo, nossos cientistas desenvolveram vários processos para sua geração. A captação da umidade da atmosfera deu bons resultados. Entretanto, quando a umidade relativa caiu abaixo de cinco por cento não foi mais possível usar essa técnica. Descobrimos também que a água era decomposta em hidrogênio e oxigênio através de um processo químico envolvendo o gás metano. Uma elevada percentagem das moléculas de hidrogênio e oxigênio, em virtude de sua baixa densidade, sobe às camadas superiores da atmosfera e se dissipam no espaço galático. Quanto maior a velocidade de translação do sistema solar em que o planeta está inserido, maior é a perda dessas moléculas no espaço.

Em relação à Terra nosso planeta apresenta grandes desvantagens. Em primeiro lugar apenas 30% da nossa superfície era coberta por água no início da nossa formação – enquanto no seu início quase 100% da superfície da Terra era coberta por ela. Por outro lado, a Terra “viaja” a pouco mais de 1 milhão de quilômetros por hora numa espiral mortal na direção do buraco negro no centro da Via-Láctea, junto com o seu Sol e seus outros planetas. Nosso planeta, alguns milhões de anos mais antigo que a Terra, “viaja” aproximadamente 3 vezes mais velozmente, acompanhando nossa estrela central, numa outra espiral semelhante, rumo ao centro de nossa Galáxia, onde um dia seremos engolidos pelo buraco negro, junto com outros planetas. Eventualmente a destruição poderá ser antecipada devido à ação da matéria escura.

Dessa forma, e considerando ainda que sempre tivemos uma temperatura atmosférica mais elevada, já perdemos toda água que tínhamos, e a Terra ainda tem 75% da sua superfície coberta por água, apesar desta representar pouco mais de cinco por cento de sua massa total.

Não fomos capazes de prever a perda do elemento básico da vida.

Enquanto ainda havia vida construímos um kit de reciclagem da água, que era implantado nos indivíduos, em substituição aos seus próprios órgãos. O desperdício de água caiu acentuadamente, e o consumo, especialmente na produção de alimentos, diminuiu um pouco.

Quando descobrimos que estávamos perdendo água pela sua dispersão no espaço, já não era possível controlá-la com nenhum processo físico ou químico. O aumento da velocidade do planeta, rumo ao centro da Galáxia aumentava a dispersão não apenas da água, mas arrastava também esse fino pó sódico que cobre atualmente nossa atmosfera.

No tempo em que a população já estava reduzida a menos de trinta por cento, não se conseguia alimentá-la devido à falta de água e das bruscas e intensas mudanças atmosféricas. Animais já não existiam, mas os habitantes, todos com cerca de três metros de altura e grande massa muscular, consumiam muito alimento. Nos anos seguintes ainda foi desenvolvida a tecnologia de compor alimentos, que eram obtidos por meio da combinação de diferentes átomos, os quais formavam substâncias mais complexas, que constituíam o alimento específico de cada um. Os alimentos passaram a ser fabricados sob medida para cada habitante do planeta. Essa técnica dispensava a utilização da água. Na verdade, há alguns anos já se transformavam seres vivos em seres biônicos, com olhos substituídos por câmeras, pernas, braços e mãos reconstituídas com peças fabricados com o uso de fibras especiais, ouvidos substituídos por células auditivas distribuídas em seus corpos, partes do cérebro substituídas por chips de memória, transmissão de informações, em altíssima frequência, entre habitantes e máquinas.

A comunicação entre habitantes e animais já era realizada há bastante tempo e, logo depois entre habitantes e vegetais, usando a mesma tecnologia.

Mais recentemente, quando os cientistas deste planeta concluíram que não haveria mais condição de vida aqui, resolveram escolher um local para onde muitos habitantes poderiam ser transferidos e esta civilização preservada.

Escolheram a Terra, por se tratar de um planeta novo, com a superfície quase totalmente coberta por água, com temperatura mais amena e onde a vida já estava razoavelmente desenvolvida. Isso aconteceu cerca de sessenta milhões de anos depois da era dos dinossauros.

Os estudos realizados por nossos cientistas mostravam que o desenvolvimento da vida na Terra havia sido muito semelhante ao nosso.

Na Terra, como acontecera aqui, a vida começou na água, a partir de moléculas pré-bióticas (isocianato de metila). Desenvolveu-se na forma de plantas submersas. Há cerca de quinhentos milhões de anos as plantas aquáticas evoluíram, para outras plantas não submersas, com imensas palmas, depois algumas flores, e depois surgiram plantas às margens dos rios e mares, graças ao vento e ondas que levavam sementes para as margens. Em terra firme apareceram arbustos com galhos, depois com frutos, e muito tempo depois já existiam pequenas florestas. Os animais aquáticos, e depois terráqueos, e também as aves se desenvolveram. Através de mutações as espécies foram adquirindo diferentes características e então apareceram os moluscos, peixes, enguias, jacarés; depois vários animais terrestres como cobras, lagartos, animais quadrúpedes, como tartaruga e tatu; depois animais com pelos, depois os pássaros, e mais tarde outras espécies de animais. O ser humano inteligente ainda não existia.

Na Terra, nesse período surgiram os dinossauros de várias espécies. Eles se tornaram grandes predadores porque necessitavam enorme quantidade de alimentos. Começaram consumindo outras espécies de animais e depois alguns deles passaram a alimentar-se de vegetais. Dominaram todos os continentes da Terra. Então partes de um meteorito chocaram-se contra a Terra. O impacto foi tamanho que toda a superfície da ficou coberta de pó e fumaça por muitos anos. Muitas florestas foram destruídas e todos os dinossauros morreram. Sofreram pequeno impacto os pequenos seres, e menores ainda os animais aquáticos.

Quando nossos cientistas descobriram o que havia acontecido na Terra, aventaram a hipótese de que seres de algum outro planeta, a fim de evitar que os dinossauros aniquilassem as demais espécies vivas, teriam resolvido eliminá-los. Poderiam, por exemplo ter usado fragmentos de corpos celestes de alguma galáxia vizinha, ou da própria Via Láctea, como se fossem bolas de bilhar de uma mesa imensa, para atingir diversos pontos da superfície terrestre. Essa hipótese jamais foi confirmada, mesmo porque jamais havíamos conseguido contatos com seres inteligentes em outros planetas.

Com o passar do tempo tudo foi voltando ao normal, a irradiação solar já conseguia atravessar as nuvens de pó e fumaça, começou a chover, as sementes das plantas começaram a brotar. Muitos dos animais terrestres voltaram a se desenvolver.

Depois, uma longa série de humanoides evoluídos de diversas raças de macacos foram se espalhando pela Terra. Um importante grupo, mais resistentes ao frio (Homem de Neandertal), se desenvolveu no norte da Europa atual a partir de 350 mil anos atrás.

Depois - há aproximadamente 250 mil anos quando existiam apenas o Homem de Neandertal e o Homo Sapiens, este último grupo eliminou o mais antigo e se espalhou por todo o planeta Terra.

Há cerca de 7 mil anos nossos cientistas realizaram mutações genéticas numa comunidade inteira de terráqueos. Após algumas gerações essa experiência resultou em seres semelhantes aos humanos que já habitavam a Terra, exceto que eram muito mais altos e fortes, como os habitantes daqui. Tudo indicava que o sonho científico de criar uma colônia em outro planeta seria bem-sucedida. Contudo não houve acasalamentos entre esses seres e os terráqueos. Os seres gigantes acabaram desaparecendo.

Durante todo esse tempo os cientistas locais continuaram observando e protegendo a vida na Terra até que os terráqueos se organizaram e a população começou a crescer. Houve grande evolução na vida humana terráquea. O desenvolvimento do homem foi muito grande em todos os continentes onde haviam se estabelecido, como mostram os monumentos fabulosos que foram construídos, o desenvolvimento das religiões e as aglomerações (tribos, aldeias, cidades...).

No último milênio de vida neste Planeta a população começou a aumentar novamente, porque a introdução de robôs cuidadores fez com que os idosos fossem muito melhor atendidos, sob o ponto de vista de saúde física, e passaram a viver até o tempo equivalente a 150 ou 180 anos terráqueos. Todo trabalho era executado por robôs.

O Planeta tinha um governo único. Os sucessores eram escolhidos pelos próprios governantes e todas as decisões eram impostas à população. Cada cidadão, de qualquer idade, tinha um robô cuidador. Este fazia tudo que seu protegido necessitava e ainda monitorava sua saúde em tempo integral. Todas as variações referentes à saúde de seu “patrão” eram informadas a uma central de controle, a qual prescrevia para o robô cuidador os procedimentos necessários para o bem-estar do seu respectivo “patrão”.

Mas o mal no nosso planeta chegou no formato de degradação acelerada, representada por total perda de vegetação, desaparecimento de todos os animais, de pequeno e grande porte. Variações muito elevadas de temperatura ambiente, chuvas muito intensas e furacões ultraviolentos provocaram tamanha destruição que os habitantes resolveram modificar as edificações.

Há cerca de quinhentos anos todas as casas, prédios e quaisquer tipos de moradias anteriormente utilizados foram abandonados. Em algumas áreas, quantidades enormes de residências já vazias haviam sido cobertas, parcial ou totalmente, pela poeira sódica que paira, até hoje, na atmosfera deste planeta.

Outra vez a população foi quase totalmente aniquilada pelos desastres naturais. Uma parcela muito grande da população havia simplesmente decidido abandonar a vida por se sentirem isolados e desesperançados, uma espécie de depressão intensa.

O tempo de vida de cada um passou a ser de livre escolha. Todos estavam conscientes de que não haveria mais retorno. O humano, que poderíamos chamar de humanoide, não conseguia viver sem as outras vidas e sem água.

Aos que sobreviveram foram construídas vilas para até 5 mil habitantes nas encostas dos vales de até 30 graus de inclinação. Todos os habitantes do Planeta foram concentrados na melhor região disponível, ou seja, onde havia menores variações climáticas.

Cada vila tinha dois níveis. O nível inferior era semelhante a uma imensa escadaria onde estavam as utilidades: bibliotecas, museus, salas de música, quadras de esporte, academias, equipamentos de segurança, veículos para saída de emergência etc.

No andar superior estavam as moradias individuais, todas iguais. Não havia necessidade de moradia familiar porque já não existiam famílias.

Sobre os dois pavimentos existia uma cobertura única, em forma de um plano inclinado, extremamente resistente, com áreas translúcidas de dentro para fora, mantendo a mesma inclinação do solo. Desta forma a água das raríssimas chuvas e, eventualmente, pedras soltas dos locais mais elevados, poderiam deslizar por sobre essa cobertura, sem nenhum dano aos moradores. Além disso a cobertura era utilizada para coleta da energia utilizada pela vila.

Essas vilas eram hermeticamente fechadas para evitar entrada de ar contaminado com a nuvem sódica. Elas ficavam entre 2 e 5 quilômetros de distância entre si. Todas se comunicavam por túneis, por onde podiam passar pedestres e veículos. As estradas comunicando as vilas, ao nível do solo, haviam sido abandonadas por motivo de segurança.

Há mais ou menos cem anos, o governo resolvera proibir o nascimento de novos habitantes via pai e mãe. As crianças passaram a ser criadas em laboratórios, de acordo com programa do governo, a partir de células embrionárias, dentro de úteros artificiais. Em pouco tempo os habitantes tornaram-se todos sexualmente neutros. Não havia interesse recíproco entre machos e fêmeas. A comunicação verbal já havia acabado, por completa inutilidade. Tudo era transmitido através de símbolos, através dos aparelhos eletrônicos, ou por irradiação cerebral.

No final os habitantes constataram que cada aldeia se transformara numa verdadeira prisão e que a vida não tinha mais atrativos.

Apenas os robôs “sobreviveram”, porem nós desligamos quase todos, por inutilidade.

Os escombros das antigas moradias e as vilas foram todas cobertas pela poeira.

Enquanto ainda haviam alguns poucos cientistas vivos, muitas missões de robôs visitavam a Terra para analisar a possibilidade de um novo “projeto vida”. O monitoramento a distância era feito em tempo integral. Vários sensores foram instalados no solo, subsolo, na estratosfera da Terra e no seu satélite Lua, para coletar informações.

Em tempos muito recentes – últimos 70 anos – após o desaparecimento da população local, utilizamos fotografias holográficas de objetos e de naves espaciais, que projetadas na atmosfera da Terra, davam a impressão de objetos voadores muito velozes. Essas imagens serviam para demonstrar a existência de um controle externo. Procurávamos assim dissuadir os terráqueos de praticar ações que poderiam exterminar todos os seres inteligentes do seu planeta.

Através desses sensores remotos acompanhamos tudo o que lá acontece. Quando a temperatura média na Terra aumentar apenas 2ºC, o que pode ocorrer antes do ano 2100 do calendário terráqueo, várias alterações irão ocorrer. Algumas alterações já estão acontecendo.

Os problemas imediatos decorrentes disso serão muitos, tais como dificuldades para a produção de alimentos devido à alteração do ciclo de chuvas, e aumento de tempestades, provocando acúmulo de excesso de água no solo; as geleiras polares já estão derretendo rapidamente causando elevação do nível dos mares e consequente impacto em mais de cinquenta por cento da população da Terra que vive próximo das costas marinhas; haverá aumento do número de mortos devido aumento do calor na Terra, aumento no número de descargas elétricas na atmosfera e aumento de intensidade de furacões.

Isso não é tudo, pois haverá aumento da acidificação da água do mar devido à dissolução de maior volume de CO2 por causa do aumento de temperatura e consequente aumento de ácido carbônico no mar, impactando organismos marinhos.

Na superfície muitas espécies de animais já estão se movendo para locais mais altos devido ao aumento da temperatura. Espécies que não conseguirem se mudar poderão ser extintas, alterando o equilíbrio ecológico. É possível que grande parte das plantas e dos animais sejam extintos nos próximos 60 anos.

O pior é o que já está ocorrendo com a população: o aumento da temperatura está causando aumento de doenças causadas por mosquitos (dengue e malária, por exemplo) e o aumento de doenças pulmonares, como a asma.

Os terráqueos já estão gerando mais lixo do que o planeta Terra pode regenerar ou reciclar. É imperativo que se reestabeleça o equilíbrio entre produção de produtos nocivos ou tóxicos, e sua reciclagem, para que seu planeta não se deteriore como ocorreu aqui. O uso de combustíveis minerais deveria ser proibido enquanto não se encontrar um processo adequado para decompor o CO2 em carbono e oxigênio, ou então processos para combiná-lo com outros elementos, a fim de eliminar seus efeitos nocivos. Em outras palavras, a única solução será encontrar uma forma de balanceamento físico/químico da Terra.

No setor industrial a solução para o equilíbrio já está encaminhada, por meio do uso de impressão 3D, com eliminação total de sucatas e retalhos, e com o reaproveitamento de produtos quebrados ou desgastados para fabricar novos produtos.

Procurar estabelecer colônias humanas em outros planetas poderá ser útil apenas se for para importar materiais que compensem o excesso de demanda já vigente na Terra, e sem que essa importação aumente o desiquilíbrio físico/químico já instalado.

Tudo a ser feito para manter a vida na Terra, terá que ser feito pelos seus habitantes. De nossa parte, para aqueles terráqueos de bom nível intelectual e moral, temos usado irradiação cerebral contendo conhecimentos, capacitação e estímulos. Estamos enviando informações continuamente. Novos conhecimentos são divulgados todos os dias, o desenvolvimento humano está acelerado, o desenvolvimento da Terra nunca foi tão grande, mas ainda há muitas resistências a serem vencidas.

Nós estamos cientes que a forma mais adequada para vencer todos os tipos de resistências dependerá do trabalho que estamos realizando com as crianças. Todas estão recebendo informações desde o dia do seu nascimento. O objetivo é formar uma geração inteira de pessoas conscientes da importância de proteger a Terra. Em pouco tempo haverá novos líderes entre vocês e cada um usará seu caráter e sua honra em benefício da vida de todos.

Já estamos atuando para que vocês consigam controlar o equilíbrio físico-químico da Terra. Se formos bem sucedidos evitaremos uma catástrofe que pode acabar com a vida no Planeta azul.

Agora você entende porque fizemos contato e caberá a você decidir o que fazer daqui para frente”.

Filipe, quando cursava o sexto ano escolar, preocupava-se com a informação difundida pelos cientistas, de que a temperatura ambiente da Terra iria subir. Para ele, isso prenunciava que os seres humanos e animais iriam sofrer.

Ele era um jovem particularmente brilhante. Raciocínio rápido, capacidade de análise privilegiada para sua idade, e muito interessado em preservação ambiental. Aos sete anos de idade havia criado, por sugestão do seu avô, um planeta só seu. Neste fantástico planeta imaginário ele punha tudo o que sua mente irrequieta criava. Seu avô dizia que era o planeta das coisas impossíveis. Começava por ter gravidade tão baixa que os habitantes flutuavam. Como havia um enorme campo magnético, não precisavam de estradas, nem ferrovias, nem trens. Os habitantes usavam um cinturão magnético, que nada mais era do que uma bobina com vários taps controlados por botões frontais, os quais, ao selecionar o número de espiras ativas, comandavam a intensidade do magnetismo utilizado para fazer o indivíduo flutuar na altitude desejada e se deslocar no espaço depois de um pequeno impulso com as pernas. O transporte de cargas em geral era feito de forma similar, utilizando o mesmo campo original do planeta. Na matemática do planeta não existia o conceito de número infinito. Existia o “tripleto”, que era o infinito tridimensional.

No sétimo ano Filipe foi desafiado pelo seu avô a descobrir uma fórmula para calcular o quadrado de um número natural, sem usar a multiplicação do número por ele mesmo. Em cerca de meia hora ele descobriu que o valor da diferença entre os quadrados dos números ímpares, e também dos números pares, será sempre um múltiplo de quatro. Para os números ímpares os fatores do número 4 serão 2,4,6... (por exemplo: 3²-1²=9-1=8=2x4; 5²-3²=25-9=16=4x4; 7²-5²=49-25=24=6x4), e para os números pares os fatores de 4 serão 3,5,7... (por exemplo 4²-2²=16-4=12=3x4; 6²-4²=36-16=20=5x4; 8²-6²=64-36=28=7x4), assim evoluindo de 1 e 2, até o infinito... Discutir soluções para inúmeras situações propostas pelo avô era um passatempo muito fascinante para ambos.

Aos 13 anos de idade, quando ele foi desafiado a projetar uma residência subaquática, para eventual sobrevivência da humanidade no futuro, não teve dificuldades. Para esse projeto exigia-se a solução para moradia, alimentação, energia e transporte.

Em cerca de duas horas e meia o projeto estava pronto, e desenhado em 3D com a ajuda do programa Mine Kraft. A casa era constituída por diversos ambientes: sala de geração de energia, onde existia um reator nuclear de plutônio 238, que segundo ele - e depois confirmado - teria durabilidade de pelo menos 5 anos e sua radiação alfa facilmente contida; ao lado existia um equipamento para extrair ar respirável (oxigênio/nitrogênio) da água do mar através de um processo de desaeração da água e ao lado um equipamento para dessalinização da água do mar. A seguir vinham dormitórios com cortinas em todas as faces, verticais e horizontais, enquanto o restante da casa era totalmente translúcido. Depois vinham cozinha, sala de estar, ambiente para cultivo de algas e outras plantas marinhas, e um ambiente para captura e criação de peixes para a alimentação. Como meio de transporte ele projetou um veículo tipo jet-ski, movido a turbina de água acionada por baterias elétricas. O piloto usaria uma vestimenta impermeável e portaria um cinto com pequenos cilindros carregados de oxigênio em alta pressão, que seriam descarregados dentro da vestimenta do aquanauta, caso a viagem fosse mais longa. Com esse equipamento poderia viajar para a superfície da Terra, para outras residências, ou para fábricas e laboratórios que viessem a ser instalados nas plataformas continentais.

Agora sua idade é cerca de 35 anos. Foi aluno brilhante do ITA, onde graduou-se em Engenharia Eletrônica, fez doutorado em astronomia no California Institute of Technology. Atualmente é pesquisador da Stanford University, em astronomia. Viaja continuamente proferindo palestras em diversos países. Jamais deixou de estudar o equilíbrio entre sistemas minerais e biológicos (vegetais e animais) e a preservação da vida na Terra.

No dia em que teve o contato com o planeta X, ele estava no Brasil e havia participado, com alguns amigos, de um passeio por pequenas ilhas na região de Angra dos Reis.

Depois do contato Filipe passou alguns dias pensando no que havia captado.

Foi questionando ponto a ponto tudo que havia anotado ao despertar no dia seguinte ao contato.

A primeira questão que lhe veio à mente foi: Será que existem ou que existiram civilizações mais adiantadas do que a nossa em outros planetas?

O Universo é tão imenso que é possível que tenham existido ou até mesmo que ainda existam, avaliou Filipe. Afinal todos os corpos celestes são formados pelos mesmos elementos que existem no nosso planeta, logo não há porque duvidar da existência de outras civilizações.

Se as informações que recebi forem verdadeiras todos os sistemas planetários estão girando em direção aos respectivos centros galácticos – ou então no sentido de alguma concentração de massa escura do universo – e um dia terão fim, pensou. À medida em que se aproximam do buraco negro ou da massa escura sua velocidade aumentará exponencialmente e o equilíbrio que proporciona a vida de todos os seres vivos e plantas será destruído. Então a vida, essa coisa maravilhosa que nos encanta a todo instante, sob todos os pontos de vista, é finita. Mais dias ou menos dias a vida acabará em cada um dos bilhões de planetas do Universo, concluiu. [A vida do Sol é um destino muito mais simples...]

Ele julgou que seria bom discutir o contato que tivera, com alguém que tivesse mais conhecimento em biologia. Lembrou-se do seu colega de inúmeras conferências, Pietro, jovem cientista italiano, doutor em Biologia Vegetal por Oxford, e hoje um dos maiores estudiosos do assunto no mundo. Enviou-lhe imediatamente um e-mail relatando o que havia acontecido e perguntando se estaria disposto a discutir esse acontecimento pessoalmente.

Encontraram-se duas semanas depois no Aeroporto de San Francisco. Filipe vive próximo dali, entre a Stanford University e o Centro de Pesquisas da Nasa em Montain View, e foi esperar o amigo. Filipe disse a Pietro que havia preparado o quarto de hóspedes em sua casa, para alojá-lo. Dessa forma eles teriam mais tempo e mais tranquilidade para conversar sobre o contato.

Pietro confessou-lhe que havia pensado muito sobre a história que Filipe lhe enviara, e que estava muito interessado. Porém, disse ele, havia pensado em convidar mais uma pessoa para fazer parte do grupo de discussão. Esse alguém era uma especialista em Biologia Animal, muito interessada em pesquisa genética e evolução dos seres vivos.

“Você já assistiu palestra dela no encontro de Paris. Lembra-se daquela francesa, bonita e inteligente que falou sobre os riscos que o aquecimento global representa para os animais? É ela que pensei em convidar, se você concordar”. Disse Pietro.

Filipe disse-lhe que concordava integralmente e que ela também poderia ficar em sua casa, no quarto geralmente utilizado pelos seus pais, quando veem do Brasil para visitá-lo. Pietro ligou para Clarice no mesmo instante e lhe fez um resumo do que desejavam discutir. Ela lhe disse que tinha uma reunião agendada em Los Angeles, para dali a uma semana, e estava com tempo disponível, exceto por algumas horas, em que teria que preparar documentos necessários para uma reunião. Tratava-se de sua participação, como conselheira científica, para uma nova filmagem de “Os Dinossauros”. Prontificou-se a antecipar a viagem e encontrá-los em São Francisco.

Isso acertado os dois amigos combinaram de cada um escolher itens para discussão, separadamente, os quais seriam discutidos prioritariamente após a chegada de Clarice.

Clarice nasceu em Lyon, onde estudou Química. Depois mudou-se para a Suíça, estudou Ciências Naturais e mais tarde fez doutoramento em Biologia na ETH-Zurich. A essa área dedica-se de corpo e alma. Esteve várias vezes no Brasil proferindo palestras e fazendo pesquisa de campo.

Pietro e Clarice haviam se apresentado e conversado demoradamente durante a Conferência Climática de Paris, onde 195 chefes de Estado assinaram um tratado-compromisso sobre mudanças climáticas.

Três dias depois, desembarcou no aeroporto de São Francisco e ligou para dizer que já estava indo, de carro Uber, ao endereço de Filipe.

Após as apresentações para Filipe e sua esposa, desfazimento das malas de viagem, e das boas vindas representadas por um breakfast abastado com frutas, cereais, ovos fritos com bacon e café brasileiro, a esposa de Filipe saiu para o curso de doutoramento que estava fazendo em Stanford e os três começaram a reunião, na varanda de frente para o belo jardim da residência.

Filipe explicou detalhadamente “o contato” para Clarice, e depois disso Pietro lhe explicou os tópicos sobre vegetais que já havia discutido com Filipe.

Ao final da exposição Clarice comentou que o assunto era fascinante e que ela se sentia muito honrada com o convite para discuti-lo e, se possível, esclarecer pontos ao alcance de seus conhecimentos.

A seguir perguntou: “Filipe, você costuma ter sonhos lúcidos”?

“Confesso que não sei o que é isso. Explique-me, por favor”. Disse Filipe.

Clarice: “Em geral os sonhos são muito erráticos, as cenas não são claras, mas existem pessoas que ao sonhar, passam a conduzir o sonho da forma que mais lhes apraz. Por exemplo, suponha que você sonha que está num avião, confortavelmente recostado na poltrona, e repentinamente a comissária de bordo anuncia que os pilotos desapareceram. Você, que jamais pensou em pilotar, levanta-se de sua poltrona, vai até a cabine, senta-se no lugar do comandante, pega o manche e faz o avião subir lentamente. Aí você ouve a voz do controlador de voo do aeroporto mais próximo perguntando porque você está subindo. Você explica a situação e ele diz que assumirá o pouso seguro com a ajuda da Boeing, a qual passará a controlar o avião à distância. O pouso ocorre suave como o de uma pluma. Enquanto o avião é levado para o terminal você retorna feliz para sua poltrona e é aplaudido e ovacionado pelos demais passageiros, como se fosse um herói. Então você acorda com as palmas e gritos da torcida do jogo que estava passando na TV, quando você adormeceu. Este é um exemplo de sonho lúcido”.

Filipe: “O único sonho de que me recordo com clareza foi que eu estava fazendo uma prova de matemática e não conseguia resolver nenhuma questão. Acordei suando, apavorado porem feliz de descobrir que era apenas um sonho.

Você acha que eu posso ter criado toda essa história de contato enquanto dormia”?

Clarice: “Confesso que pensei nessa possibilidade, ao perceber que os dados que você recebeu são tão realistas”.

Pietro: “Clarice, foi justamente para analisar a consistência desses dados que elenquei alguns tópicos para serem analisados. Posso iniciar?”

Clarice e Filipe falaram simultaneamente: “Sim, por favor”.

Pietro iniciou com uma questão: “Qual é a relação entre a cor do Planeta X e poeira de sal de sódio”?

Filipe explicou pausadamente: “Você observa que, nas principais cidades europeias, a iluminação das ruas por lâmpadas de vapor de sódio é de uma cor amarelada, semelhante à cor de uma fogueira aconchegante. O computador, ou melhor dizendo, o equipamento, me disse que no Planeta X o sal dominante é o sal de sódio. Então, como existe uma atmosfera impregnada desse sal, nada mais normal que, durante o dia, a luminosidade seja da mesma cor gerada por lâmpada de vapor de sódio. Você concorda Clarice¨?

“De fato, você tem razão, o sal de sódio na atmosfera pode haver funcionado como um filtro para a luz do sol, e a cor amarelada do espectro do sódio aparece com grande intensidade. Logo há coerência entre a existência de grande quantidade de sal de sódio flutuando na atmosfera e a cor do planeta”. Disse Clarice.

“Muito bem, para mim ficou claro! Agora é sua vez, Filipe”.

“De acordo com as palavras do equipamento, ocorrem violentos tornados, inesperadamente, no Planeta X. Existe uma razão para isso”? perguntou Filipe.

Clarice afirmou que não conhecia uma razão comprovada para isso, mas em suas pesquisas de campo sempre lhe chamou a atenção a diferença entre o grande número de ocorrências de tornados nos Estados Unidos e o pequeno número, e também com menor intensidade, de ocorrências na Europa. “De diferença entre os locais de ocorrência eu tenho observado que nos Estados Unidos os tornados ocorrem em regiões planas, extensas, com vegetação baixa, como em grandes fazendas de cultivo agrícola ou de pastagens, ao contrário da Europa, onde em geral as propriedades são pequenas e as divisas entre elas são marcadas por fileiras de árvores. Será que a inexistência de árvores tem a ver com isso, Pietro?”

“Sem dúvida que sim. Imagine um local onde não existem árvores, nem qualquer outra vegetação – como um deserto. Praticamente não existe umidade e por isso o pó se levanta ao menor movimento do ar. Sabemos que a velocidade tangencial no equador do planeta, é muito alta, enquanto que nos polos a velocidade é zero. Na Terra chegamos a 1500 km/h no equador, mas mesmo um planeta menor, que gire em torno do seu eixo numa velocidade igual à Terra, ainda teria um enorme potencial para mover o pó solto. Imagine agora uma nuvem de poeira se movendo, rente ao chão, com semelhante velocidade, e encontra um pequeno obstáculo, uma pedra por exemplo, aí se formará um redemoinho que sugará a poeira, pedras e pedaços de madeira, imprimindo-lhes maior velocidade, e assim uma força extraordinária, que lhes arremessam a quilômetros de distância, como se observa aqui na Terra nos furacões e nos tornados. Criar barreiras anti-tornados é um dos benefícios que o plantio de árvores pode proporcionar ao homem.” Concluiu Pietro.

Chegou a vez de Clarice fazer sua pergunta. Ainda em desvantagem com relação aos outros, porque ela ainda não havia estudado o documento, mas apenas ouvido a descrição de Filipe, ela quis saber porque os habitantes do Planeta X eram mais altos que os terrestres.

“É uma questão de força de gravidade” disse Filipe. “Como já está comprovado que todos os corpos celestes têm composição química semelhante, então a força de gravidade dele é menor que a da Terra, já que o Planeta X é menor que o nosso. Assim, todos os seres vivos do planeta X, semelhantes aos da Terra, crescem mais porque a força que os atraem é menor do que aqui [eu acho que não há relação entre esses dois fatores. Note que as árvores crescem contra a gravidade. Além disso, o crescimento humano não é uniforme no tempo]. Embora essa não seja a única razão para o desenvolvimento físico dos seres, cujos crescimentos dependem inclusive de sua alimentação, ou da dificuldade de alcançar os alimentos, ou ainda, por exemplo, da forma ou tamanho de seus predadores. No caso dos seres inteligentes a força gravitacional é o fator preponderante.”

Prosseguiu: “Você tem algo a acrescentar, Pietro?”

“Sobre isso não tenho nada a acrescentar, mas estou com fome, visto que agora seria meu horário de jantar em Milano. Então sugiro fazermos uma parada de duas horas a fim de acalmar a mente. Isso é importante para os europeus, não é Clarice?”

Todos sorriram.

Terminado o lanche foram todos para o jardim examinar flores e insetos. Clarice encantou-se com as borboletas, abelhas e pássaros. Tentou encontrar alguma espécie de formiga, mas a procura foi infrutífera. Enquanto isso Pietro examinava as plantas, e dava sugestões sobre o melhor posicionamento de algumas espécies, no sentido de melhor aproveitamento da água distribuída pelo sofisticado sistema de irrigação, recentemente instalado.

No final da caminhada Pietro comentou que na bela região onde nasceu, Lomagna, próxima da Suíça, era costume fazer uma caminhada após as refeições do meio do dia, para auxiliar a digestão. Em seguida falou: “la passeggiata è finita, ora è il momento di lavorare” como se fala em Lomagna.

Acomodaram-se novamente na varanda e Pietro perguntou: “A comunicação entre homem e máquina, e vice-versa, é possível, Clarice?”

“Atualmente já existe comunicação por voz, limitada, entre sistemas robóticos e seres humanos. Isso ocorre em call centers de bancos, empresas de vendas por internet, etc. Há vários anos neurocientistas vêm fazendo experiências com comunicação não verbal, com implantes de chips em cobaias e seres humanos para lhes permitir o controle de movimentos de pernas, braços, pés e mãos artificiais. Um dos experimentos mais conhecidos foi realizado pelo brasileiro Miguel Nicolelis, ao transmitir um comando de movimentos de uma macaca, nos Estados Unidos, para um robô no Japão, via internet. Dessa forma podemos dizer que já está provado que a comunicação entre homem e máquina é possível. Ao que eu saiba o caminho inverso ainda não ocorreu”.

"Você quer acrescentar alguma coisa Filipe”? Perguntou Pietro.

Filipe falou: “Vamos considerar que o Planeta X deve ter tido uma população muito mais antiga e mais desenvolvida que a nossa. Haja visto que, segundo as informações da máquina com a qual sonhei, ou me comuniquei, eles já possuiam robôs individuais que controlavam a saúde de cada habitante, e estes já usavam comunicações via cérebros, transmitindo sinais de um para outro. Lá todo trabalho era executado por robôs. Pela descrição da máquina do meu sonho, ela e seus semelhantes tinham a capacidade de desenvolver programas, e analisar qualquer tipo de dados, fazer contatos com seres alienígenas, em linguagem que estes pudessem entender. No nosso conceito de inteligência, ela era uma máquina inteligente. Na Terra estamos no estágio em que foi descoberto que todas as ações cerebrais são sinais elétricos, que levam as ordens até o órgão que deve executá-las. Nos assustamos com a hipótese de que em pouco tempo esses sinais poderiam ser gerados por um robô e executado por humanos. Portanto minha resposta é que já é possível a comunicação de um cérebro humano com um robô, mas ainda não é possível o caminho inverso”.

“Como é minha vez de perguntar, e desde que o Pietro concorde em comentar nossas respostas enquanto responde à pergunta que eu lhe faço: Você poderia comentar para nós sobre a possibilidade de comunicação puramente mental, entre humanos, e se existe perspectivas de comunicação mental com animais e vegetais?”

“Eu concordo, Filipe”, disse Pietro, que continuou: “Certos sinais de comunicação puramente mentais já se percebem no dia a dia. Por exemplo, um motorista boceja enquanto espera a abertura de sinal e olhando em quaisquer direções observa outros motoristas bocejando.

Também já houve tentativa da NASA em confirmar essa possibilidade quando foi realizada uma viagem com trajetória da capsula espacial por trás da Lua. Nessa ocasião escolheram várias pessoas, espalhadas por vários países, com algum tipo de capacidade especial para tentar receber por telepatia, na Terra, mensagens dos astronautas, atrás da Lua.

Recentemente realizaram experiência com dois grupos de pessoas, com semelhante distribuição de características tais como idade, formação, religião, etc. O primeiro grupo foi colocado numa sala onde deveriam preencher uma planilha de Sudoko, num certo tempo. Depois o segundo grupo, sem nenhum contato prévio com o primeiro grupo, entrou na mesma sala recebeu copias das mesmas planilhas e obteve resultado muito melhor do que o primeiro grupo, em igual tempo. Apesar de haverem realizado uma única experiência, o resultado parece indicar que ao requerer um esforço do cérebro, o ser humano emite algum tipo de energia. Essa energia do primeiro grupo ainda estaria no local quando o segundo grupo entrou. Aparentemente em algumas situações, como perigo, stress intenso, e até de ansiedade, os seres humanos conseguem transmitir informações, involuntariamente, para outros seres humanos.

Numa outra situação em que duas pessoas não se lembram do nome de uma terceira pessoa e repentinamente os dois se lembram simultaneamente desse nome, também se especula se haveria aí uma evidência de transmissão de pensamento.

Com relação à comunicação entre animais, há o caso muito intrigante, da borboleta cabeça de cobra. Ela tem esse nome porque a figura que tem na asa reproduz com exatidão a cabeça de uma cobra, e serve para espantar pássaros predadores de borboletas. O mistério, neste caso é que o tempo de vida de uma borboleta é de 34 dias, após sair do casulo. Muitos animais usam a técnica da camuflagem (desenvolvida de geração em geração) para enganar o predador, mas este caso é diferente porque o ovo da borboleta se transforma em lagarta e esta em borboleta, então se questiona: como a borboleta descobriu que seus predadores temem a cobra, em 34 dias de vida?; como a borboleta imprimiu no seu óvulo o desenho exato da cabeça da cobra?; como a lagarta transmitiu essa informação para formatar a asa da borboleta, uma vez que ele não tem esse órgão?

Sobre comunicação entre vegetais o que posso dizer é que recentemente foram publicados artigos científicos de um pesquisador holandês, mostrando que existe comunicação entre vegetais. Porém, como isso é novidade, acho melhor aguardar outras comprovações antes de aceitar o que foi dito sobre esse assunto.

Enfim, eu acredito que ainda há muita coisa a estudar sobre comunicação entre vegetais, animais. Algum resultado prático poderá ser uma realidade somente daqui a muitos anos. Já a comunicação entre robôs e seres humanos está em pleno desenvolvimento, como exemplificou Clarice”. Concluiu.

“Muito interessante o que você relatou, Pietro. Eu acho que podemos parar por hoje, assim daremos chance para Clarice descansar e se quiser poderá ler toda a mensagem da máquina do Planeta X. Depois iremos jantar num restaurante próximo. Lá estamos proibidos de falar do nosso trabalho. Teremos oportunidade de nos conhecer melhor e amanhã eu gostaria de levá-los num giro turístico pelo Vale do Silício. Na parte da tarde voltaremos ao nosso tema”, completou Filipe.

“Já que estamos tão perto, num outro dia eu gostaria de percorrer as Forty Nine Miles Drive. Na verdade, já fiz esse percurso num dia muito chuvoso. Agora que a primavera está tão linda eu gostaria de percorrer novamente. Terei uma visão melhor de São Francisco”. Falou Clarice, apoiada pelos companheiros.

Na reunião daquela tarde, após o passeio pelo Vale do Silício, Clarice foi a primeira a falar: “Eu li e reli a narrativa do ‘contato’ de Filipe. Então eu imaginei o que aconteceria com os animais se a água da Terra acabasse. Examinei duas hipóteses. A primeira foi de que a água acabasse lentamente, e a segunda, que acabasse rapidamente.

Na primeira hipótese certamente haveria luta entre animais de todas as espécies, inclusive dos humanos, para obter água. O homem, evidentemente seria um dos últimos animais a sucumbir porque tem inteligência para proteger as reservas de água contra o ataque dos outros seres, e de desenvolver novos métodos de reciclagem da água, nos quais até hoje ninguém pensou porque não houve necessidade. Os últimos a sucumbirem certamente seriam as formigas. Elas representam hoje, no nosso Planeta, uma massa maior que a de todos os humanos juntos; sua organização social é muito mais avançada do que a do homem; sua capacidade de sobrevivência subterrânea é maior do que a do homem, sua necessidade de água, proporcionalmente à sua massa corpórea é menor que a do homem (e muito provavelmente a existência de água subterrânea, onde elas habitam, seria mais duradoura). Alimento para as formigas será mais disponível do que para o homem.

A segunda hipótese, de que a água da Terra desaparecesse rapidamente, na prática só ocorreria no caso da inexistência de árvores e outros vegetais, quando os mares, os lagos, os rios, e as fontes secassem. A razão disso é que vegetais são depósitos vivos, cheios de água. Mas, se não existirem árvores o homem será extinto em pouco tempo, mas as formigas sobreviveriam por alguns anos mais.

Na realidade, no caso de haver um desiquilíbrio entre a quantidade de árvores e o número de habitantes na Terra, a água irá acabar e inicialmente morrerão os animais aquáticos, depois os grandes animais vertebrados, depois os invertebrados e os pássaros e depois os humanos e finalmente os animais subterrâneos, inclusive formigas.

Eu fiquei curiosa em saber: quanto de água uma árvore contém, em relação à sua massa? Quanto de água está sendo contaminada pelo ser humano, sem possibilidade de recuperação? Quanto de água está sendo dispersada na estratosfera, na forma de evaporação e/ou decomposição em hidrogênio e oxigênio, devido à enorme velocidade da Terra em sua viagem pelo Universo? Talvez Pietro possa nos esclarecer a relação quantitativa de vegetais e água.”

A exposição de Clarice causou forte impacto ao despertar nos dois companheiros a sensação de que o problema prioritário do planeta Terra talvez seja a conservação da água, e a emissão de CO2 um problema secundário.

Antes que Pietro responda eu quero informar que a NASA realizou recentemente o projeto MAVEN – que fez uma análise completa do planeta Marte, na procura da relação entre a ausência de campo magnético com o desaparecimento total da água, e, portanto, da vida, no planeta. É sabido que Marte era parecido com a Terra no que concerne a um passado com muita água, nuvens, camadas de gelo, dunas de areia, rios. Hoje é um planeta totalmente seco, com atmosfera muito sutil, totalmente desolado. Em síntese, apesar de Marte estar muito mais distante do Sol do que a Terra e, portanto, sujeito a menores consequências advindas das explosões solares, conclui-se que o desaparecimento da água em Marte tem a ver com a falta de um campo magnético capaz de protegê-lo dessa irradiação, ao contrário do que ocorre com nosso planeta, segundo pesquisa da NASA, da qual participei” disse Filipe.

Pietro então disse: “Quando Clarice perguntou sobre o conteúdo de água nas árvores e sobre água contaminada, lembrei-me de um austríaco chamado Viktor Schauberger, que muitos consideram o pai da preservação ambiental, que há mais de cem anos já recomendava a plantação de árvores nas margens dos rios, para evitar poluição da água. Schauberger estudou profundamente os riachos. Descobriu por exemplo que a fonte de água no alto das montanhas precisa ser protegida da luz do sol, e que o caminho dela, morro abaixo, é trilhado nas sombras das árvores, mantendo assim suas propriedades e sua pureza, graças às árvores que impedem a incidência da luz do Sol diretamente sobre ela. Ele criou vários aparelhos para purificação da água. Alguns são vendidos até hoje, principalmente na Inglaterra.

Quanto à relação entre vegetais e água eu lhes afirmo que as árvores recolhem grandes volumes de água do solo, por osmose, e suas folhas expelem a maior parte por transpiração. O volume de água contido nas árvores em ambientes normais, é estimado em cerca setenta por cento de seu volume.

Eu desejo realçar que não é apenas água que as plantas recolhem da terra. Acompanhando a água os sais minerais, que alimentam as plantas, que crescem, e que absorvem mais agua e transpiram mais e provocam mais chuva. Paralelamente a isso as plantas ainda absorvem o gás carbônico da atmosfera, mitigando sua ação maléfica.

Existem quatro forças interagindo no processo de captação de agua pelas plantas: forças de gravidade da Terra, da Lua e do Sol, e a força centrífuga devido a rotação da Terra. Esta tem uma participação pequena, e ela é maior nas regiões equatoriais do que nas regiões polares.

Obviamente que a ação da força de gravidade da Terra age no sentido contrário das forças gravitacionais da Lua e do Sol. Porem a soma destas forças supera a força gravitacional da Terra. A Lua, cuja ação corresponde a 60% do efeito resultante final, apresenta uma variação dependendo das suas fases. Sua força é menor durante a fase Minguante e isto leva o homem escolher essa estação para o corte das arvores. Contrariamente, a colheita de frutos é feita preferencialmente na fase de Lua Cheia, quando elas estão mais suculentas.

Existe uma pesquisa que foi coordenada pelo cientista brasileiro Antônio Donato Nobre em que se demonstra a fantástica participação da floresta amazônica no ciclo das chuvas em todo oeste e sudeste do Brasil, além de Bolívia, Paraguai e parte da Argentina. Basta dizer que estou falando de cerca vinte bilhões de toneladas de água por dia. Tamanho volume de água possibilita que no centro-oeste do Brasil já estejam produzindo até três safras de grãos por ano. Possibilita também que o Brasil tenha um aproveitamento até vinte por cento maior que o da Índia, na produção do álcool da cana de açúcar.

O maior benefício da floresta amazônica não é este. O mais importante é que ela impede, através de seu regime de evaporação, que todo o centro oeste brasileiro se transforme num enorme deserto.

Para não tomar mais do nosso tempo, falando sobre a floresta amazônica, eu estou lhes enviando por internet uma cópia do relatório do cientista Nobre. Leiam e se houver algo para discutir falamos amanhã”.

“Minha esposa sugeriu irmos hoje no final da tarde até São Francisco para comermos os melhores Crabs da costa oeste. Vocês concordam?” Perguntou Filipe.

“É claro que sim!” respondeu Pietro com a aprovação de Clarice.

Depois do jantar concordaram em começar no dia seguinte às 10:00h, pois tanto Clarice como Filipe desejam ler o relatório do Antônio Nobre antes do encontro.

“Para comprovar que li o fantástico relatório do meu conterrâneo, eu lhes informo que encontrei um erro! “ Disse Filipe em tom jocoso, ao começar a reunião.

“Como é isso possível? Eu também o lí e não percebi nenhum problema! Conte-nos onde está esse erro”. Falou Clarice assustada.

“Sim, eu li esse documento em inglês e depois em alemão, e não notei absolutamente nada errado. Fale logo onde está o erro”. Disse Pietro atônito, com o documento aberto na tela de seu computador.

“Olhem aqui na página 13, nota 26:

Área da copa com raio de 10 m, 324,2 m2 x 3,6 litros/m2 = 1131,1 litros transpirados em um dia.

“O erro está no cálculo da área da copa da árvore.

Se a copa tem um raio de 10m, sendo A=pi x r² então A=3,142x10² m²

Ou seja, a área é A=314,2 m² e não 324,2 m² com está escrito.

Mas esse erro não causa nenhum problema.”

“Como não? É um erro de mais de 3%”, disse Pietro.

Filipe então continuou: “Vamos ao passo seguinte: cálculo da quantidade de água evaporada por dia, por uma árvore.

Veja só: se a área fosse aquela indicada no texto, a evaporação seria 324,2 m²x3,6 litros/m²/dia, ou seja, seria igual a 1167,1 litros/dia, porém, no texto está sendo indicado o valor de 1131,1 litros transpirados por dia. Este valor é correto porque 314,2 m³ x 3,6 litros/dia = 1131,1 litros.

Portanto ocorreu apenas um erro de digitação do número 324,2, erro esse que não foi notado na revisão, mas ele não afetou em nada o resultado da pesquisa.

Aliás, um excelente trabalho realizado pelo meu conterrâneo”.

“Você testa todos os números existentes num relatório, enquanto o lê?” Perguntou Clarice.

“Os números me fascinam e quando estou lendo, muitas vezes, como foi neste caso, sinto uma suspeita. Geralmente ela procede”. Respondeu Filipe.

“Eu quero me manifestar antes de vocês sobre o estudo! OK?” Não ouvindo nenhuma manifestação Clarice continuou.

“Eu entendi tudo o que está no relatório e, somado às nossas discussões anteriores, concluí que as dúvidas que eu apresentei estão todas respondidas a contento e agora eu descobri que estamos discutindo a sobrevivência dos seres vivos.

Em poucas palavras: descobrimos que nenhum ser vivo sobreviverá se acabar a água na Terra; descobrimos que o ser humano não sobreviverá se não existirem outros seres na Terra; descobrimos que o maior risco que temos é o de uma gigantesca explosão solar capaz de vencer o campo magnético que nos protege atualmente. As características desse campo magnético da Terra já são bem conhecidas.

No meu entender temos que resolver algumas questões:

1. Como armazenar, distribuir e utilizar a água para nos manter vivos mesmo que ocorra uma irradiação solar tão intensa que nosso campo magnético não consiga nos proteger.

2. Como cuidar para que toda água existente na face da Terra seja limpa, não contaminada e abundante em qualquer ponto do Planeta

3. Como reconquistar os desertos, transformando-os em áreas uteis à nossa segurança.

4. Como desenvolver os seres humanos no sentido de diminuir a necessidade de água em seu organismo.

5. Como reestabelecer o equilíbrio ecológico na Terra, ou seja, como despoluir nosso Planeta e daqui para frente fazer a compensação de tudo o que possa prejudicar a vida animal e vegetal?

Naturalmente não seremos nós três que iremos resolver todos esses problemas. Então nosso maior desafio será o de convencer outros pesquisadores e a população em geral para que tomem atitudes proativas no sentido do que necessitamos ou que necessitaremos no futuro, mesmo longínquo”.

Filipe pediu licença para comentar o documento do Antônio Nobre e disse:

“O que me chamou mais a atenção no estudo foi o extraordinário volume de água liberado diariamente pela floresta amazônica. Enquanto eu lia, pensava na região Nordeste do Brasil, onde chove muito pouco e a população sofre muito. Dei-me conta de que eu deveria retomar estudos sobre controle de chuvas. Como vocês devem se recordar, em alguns países, como no próprio Brasil, foram feitos muitos experimentos com o objetivo de provocar chuva em locais selecionados. Ao que eu saiba usavam uma solução de iodeto de prata, que era borrifada sobre a nuvem. O principal problema era o fato das nuvens raramente estarem nos locais onde a chuva era desejada e, também raramente, tinham a concentração de umidade necessaria para início da chuva. Com o tempo esse processo foi abandonado.

Porém, lendo o relatório do Antônio Nobre, me ocorreram algumas ideias:

1. Seria possível desenvolver tecnologia para conduzir nuvens aos locais onde se deseja chuva? Poderíamos selecionar vegetais capazes de armazenar grande quantidade de água e cultivá-los em locais que contenha lençol freático não muito profundo?

2. Lembremo-nos que existem programas bem-sucedidos em Israel e no Egito, onde transformaram áreas de razoáveis dimensões, no deserto, em campos produtivos de alimentos.

3. Já existem experiências em curso para a coleta de água do próprio ar do deserto. Afinal o teor mínimo de umidade do ar aí, é próximo de 10%, o que significaria a existência de água suficiente no ar que permita sua captação. Em alguns oásis a umidade relativa pode chegar a 45%. O princípio do equipamento que estão considerando é um sistema eólico que direcionaria o ar ao mesmo tempo que gera eletricidade. Essa energia elétrica alimentará uma bomba de calor que irá resfriar o ar direcionado à ela, provocando a condensação da água nele existente.

4. Quanto à ideia da Clarice no sentido de reestabelecer o equilíbrio ecológico eu proponho que pensemos no período pré-industrial quando praticamente todo o lixo gerado pelo homem era orgânico e era reciclado automaticamente no solo. Obviamente o homem vivia menos, transmitia-se muito mais doenças, e logo começaram a jogar nos rios todo o lixo orgânico produzido, mais especificamente o esgoto residencial nas maiores cidades.

Aliás, essas cidades se desenvolveram às margens de rios com a finalidade de facilitar o transporte em geral e para disponibilizar água para a população. Mas despejar o lixo orgânico nos rios foi uma má ideia porque, com o desenvolvimento industrial, começaram a despejar no rio toda espécie de produtos químicos juntamente com o lixo orgânico. Essa prática é utilizada até hoje e, apesar do grande esforço dos governos no sentido de eliminá-la, pode-se dizer que não conseguiremos. O pior ainda é que muitos rios não possuem margem ciliar arborizada e outros detritos químicos – em uso na agricultura – vem piorando as condições. Por outro lado, vários tipos de indústria são implantadas às margens dos rios justamente para despejar detritos neles.

Hoje temos um outro problema gravíssimo que é o despejo de embalagens plásticas, tubos de papel ou de plásticos para tomar bebidas (apenas os Estados Unidos descartam quinhentos milhões de unidades por dia e a maioria vai parar nos rios e mares). Além disso, com a rápida evolução dos aparelhos eletrônicos, dos calçados, das roupas, dos acessórios, dos recipientes de uso caseiro, e até partes de automóveis, motocicletas, etc. são despejados nos rios e nos mares.

Portanto o equilíbrio ecológico é indispensável porem é caro e precisa sem encarado por toda a sociedade com muita determinação e coragem”.

“Com licença Filipe, eu desejo acrescentar um comentário – disse Pietro.

“A região central da Itália está totalmente contaminada por poluentes, onde a maior parte é lixo eletrônico, devido uma ação da máfia. Ela entrou no negócio de descarte, mas ao invés de fazer o desmonte e reciclagem seletiva dos materiais, simplesmente enterra milhões de toneladas de produtos descartados embaixo de uma pequena camada de terra, ou enche antigas minas de carvão e cavernas naturais. A situação é tão grave que estamos temendo que muito em breve não se possa cultivar mais nada naquela região italiana.

Por outro lado, eu desejo falar sobre reflorestamento de grandes áreas desérticas, inclusive sobre sua recuperação, ao ponto de transformá-los em regiões agrícolas. Eu e minha equipe desenvolvemos um projeto, cuja implantação já foi iniciada na África, que consiste em cavar grandes áreas onde serão colocados lixo orgânico, junto com grande quantidade de sementes, e que depois o local será encharcado com agua dessalinizada do mar vizinho, e cobertos com uma camada de areia, para manter a umidade por longo tempo. Quando esse lixo estiver decomposto serão plantadas vegetação de folhas palmas. Depois de cerca de alguns anos algumas espécies de palmeiras. Nessa ocasião serão levados para o local razoável quantidade de aves silvestres, e mais tarde será a vez de pequenos animais. A ideia é criar um ecossistema que se desenvolva por si próprio.

Obviamente muito lixo orgânico deverá ser transportado para o local, e isso custará muito caro. Mas para esse primeiro projeto já temos patrocinadores suficientes para cerca de 50 anos.”

“Eu proponho pararmos agora, tomarmos um lanche preparado por minha esposa, que está de folga hoje, e aproveitando esse céu claro, maravilhoso, fazermos o passeio pedido pela Clarice. Com as paradas tradicionais nas 49 milhas do passeio, nós iremos gastar cerca de quatro horas. Então poderíamos jantar em São Francisco no restaurante brasileiro ‘Fogo de Chão’ que é o maior sucesso da gastronomia na cidade, atualmente.”

A aprovação foi geral, mas Filipe continuou falando.

“Como depois de amanhã a Clarice irá a Los Angeles, assinar o contrato referente à nova filmagem de Os Dinossauros, e depois voltará à França, eu proponho que amanhã façamos uma síntese do que conversamos e na sequência discutiremos como dar prosseguimento no que poderíamos chamar de nossa “missão em prol da vida no Planeta Terra.”

“A propósito, gostaria de informá-lo que Clarice me pediu para acompanhá-la em Hollywood, e servir de testemunha na assinatura do contrato referente ao filme. Assim iremos a Los Angeles e no dia seguinte partiremos juntos para a Europa.” Disse Pietro, que completou:

Eu e Clarice comparamos as análises de nossos DNAs. Eles são muito semelhantes e, além disso, o avô dela é suíço das proximidades de Lausanne, portanto é possível que sejamos parentes muito próximos!”

“Que interessante! Fico muito feliz com isso!” Falou Filipe.

No dia seguinte estavam todos descansados e felizes com o programa da noite anterior. Clarice e Pietro agradeceram efusivamente a Filipe e sua esposa pela oportunidade de haverem realizado um passeio totalmente ciceroneado pelo casal, que fizera questão de mostrar todos os mínimos detalhes da bela cidade de San Francisco. Adoraram também o jantar, com um sabor totalmente diferente do que estão habituados em seus respectivos países.

Filipe então falou:

“Como são interessantes certos fatos que acontecem em nossas vidas! Vejam só: eu tive um estranho sonho, cheio de dados sobre nosso planeta e com indicações sobre o que poderá nos acontecer se não forem tomadas ações com a maior brevidade. Pedi então ajuda ao Pietro, que pediu ajuda à Clarice, e passados apenas alguns dias, aqui estamos, prontos para iniciar projetos capazes de mudar a forma de pensar das pessoas influentes e ativistas ambientalistas de toda a Terra.

Vocês já notaram que estou assumindo que vocês estão engajados com esta tarefa e que tudo farão para realizar projetos objetivando a perpetuação da vida neste planeta.

“Eu, que já tenho projetos em andamento que se encaixam com esses objetivos, não poderia perder essa oportunidade de levar avante outros projetos, direcionados para um objetivo comum: a preservação da vida”, disse Pietro.

“De minha parte, não tenham dúvidas! Direcionarei todos os meus conhecimentos, contatos científicos, educacionais e políticos para a concretização de nossos objetivos.” Completou Clarice.

“Muito obrigado a vocês. Isso é muito bom!

Para confirmar que eu não tinha dúvidas sobre o engajamento de vocês, informo-lhes que o Chefe do Departamento de Pesquisas da Stanford University colocou à nossa disposição todos os dados do Departamento referente ao assunto. Já conversei também com o Diretor de pesquisas na NASA e consegui autorização para utilizarmos a rede de internet de altíssima velocidade e também para termos acesso a todas as pesquisas da NASA que não estejam bloqueadas por motivo de segurança nacional. Para gozar desse privilégio vocês devem apenas entrar no site da NASA, usando estas senhas que estou lhes passando. Depois sigam as instruções para criarem novas senhas individuais e para a coleta de seus dados biológicos. Naturalmente vocês terão um arquivo pessoal e poderão fazer o que desejaram com ele e poderão ler quaisquer relatórios dos arquivos da NASA que estiverem disponíveis, porém não poderão copiar, fotografar, imprimir ou retransmitir para terceiros quaisquer dados que esteja disponibilizado para seu uso. Todas as informações que vocês receberem ou enviarem serão criptografadas. Cada usuário tem criptografia diferente, para sua segurança. Para isso vocês serão informados de qual é a capacidade de memória que deve estar disponível em seu computador e serão instalados automaticamente, nos seus computadores, programas de bloqueio contra qualquer tentativa de invasão.”

Isso posto, eu gostaria de ouvir de vocês quais os temas que vocês entendem que deveríamos pesquisar.” Completou Filipe.

Pietro falou: “Em primeiro lugar muito obrigado pela iniciativa do contato com sua Universidade e com a NASA e de haver conseguido nosso acesso ao enorme acervo de que elas dispõem. Isto foi fantástico! Eu entendo que devemos iniciar imediatamente uma pesquisa visando determinar o real risco que existe de uma tempestade solar cujos efeitos nosso campo magnético não consiga conter. Poderíamos considerar, nesse estudo, se já aconteceu, em algum planeta vizinho, do campo magnético haver desaparecido.

Em minha opinião deveríamos fazer um estudo sobre o consumo de água limpa na Terra. Tenho ouvido notícias alarmantes sobre a diminuição das reservas subterrâneas, principalmente da África, onde a reposição de água nos aquíferos não está ocorrendo e uma alta parcela da população já estaria passando sede. Eu entendo que deveríamos urgentemente tentar fazer a reposição de água nos aquíferos através de reflorestamento intensivo nas regiões em perigo.

Eu entendo também que deveríamos contatar cientistas de países onde o abastecimento de água potável é mais crítico, para entender qual a solução que adotaram. Talvez possamos até mesmo solicitar a colaboração deles para nosso projeto.”

“Com licença,” disse Clarice! “Eu também desejo falar.”

“Ontem já falamos das diversas ações que deveremos tomar. Em minha opinião, deveremos manter um canal aberto de comunicação entre nós três, e cada um de nós apresentar nos próximos dias quais são os temas que desejam pesquisar, dentro de sua especialização. Assim Filipe ficaria com a parte de física e astronomia, Pietro com os assuntos relacionados à vida vegetal, e eu com a vida animal, inclusive dos seres humanos, naturalmente. E todos nós com o assunto despoluição do nosso planeta.

Cada um de nós procuraria apoio e financiamentos nas organizações em que trabalhamos hoje e faríamos todo o possível para atrair o maior número de cientistas para esses projetos.

Além disso, e talvez mais importante, será nosso compromisso com a divulgação, oral, escrita, ou via internet, dos dados que coletarmos, e tentar assim frear a série de maldades que estamos praticando na Terra, em geral.

Eu, por exemplo, poderia começar estudos imediatamente, no sentido de desenvolver peixes capazes de despoluir a água, tomando como referência o que já ocorre no Brasil com o “cascudo” e outros peixes. Também existem vários locais onde a água é despoluída por plantas aquáticas, inclusive em instalações onde se pratica a piscicultura, associada ou não com a cultura de hortaliças. Isso é um tipo de estudo que pode ser desenvolvido pelo Pietro.

Por sua vez, Filipe, você poderia verificar se já existe na NASA algum estudo sobre existência de mata ciliar em todos os rios da Terra. E fazer um plano de implantação dessa prática em todos os países, para o bem de seu povo.”

“Concordo plenamente com você!” Disse Filipe, no que foi seguido por Pietro.

Os três passaram o restante do dia discutindo detalhes do plano que se propuseram a levar avante.

No dia seguinte, de manhã, Clarice e Pietro partiram para Los Angeles.

Filipe começou seu trabalho de divulgação narrando para sua esposa tudo que os três haviam conversado nos dias anteriores, e a decisão que haviam tomado. Esta sugeriu que ele preparasse artigos para publicação na mídia não cientifica, com o fim de conscientizar a população em geral.

Depois que sua esposa havia partido para a universidade e Filipe ainda pensando sobre o que lhe acontecera nos últimos dias, lembrou-se do Dilema de Enrico Fermi e perguntou para si mesmo:

“Será que ainda existiria dilema relativamente à existência de seres mais avançados do que nós, se ele tivesse sonhado o que eu sonhei?”


Álbum literário da T63

Turma de 1963

Ferramentas pessoais