T63-Amadeu-Tristeza

De wikITA

                      Tristeza

               Amadeu Aleixo Machado


Um dia muito cedinho, antes do galo cantá
Dexei meu fiinho durmino e saí pro leite tirá.
A noite inda tava iscura, pruque num tinha luár.
Tava tudo in silencio, mas sinti arguma coisa no ar.
Era um pé de vento tremendo, que vinha feito tufão
Derrubava cerca de arame, levantava arve do chão.
Vortei correndo prá casa, temendo pelo pió.
Num deu tempo de chegá, o vento moia tudo, sem dó.
Quando vi tudo vuando, gritei por Nosso Sinhô
E caí no chão sem força, i quasi perdi o ar.
Num sei como guentei, inté que tudo passô.
Foi intão que vi meu fiinho, quetinho, deitado perto de mim,
Só fartando as asinha, prá um anjinho ficá.
Tinha um sorriso nos lábio, mas num mexia mais nada,
Parecia ter encontrado Maria,
A mãe que tinha partido quando o fio nasceu.
Peguei o corpinho nos braço e caminhei sem pará.
Fui inté o cimitério onde interrei , junto da mãe falecida
Intão saí pelo mundo, sem rumo, sem nada, sem vida.
Depois de argum tempo eu comecei a pensá:
Que foi a mãe que veiu buscá?
Ou será que foi Deus que quiz me prová?
Pruquê tanto sufrimento um ome tem que guentá?
Durante o choro incontido, eu me puis a rezá.
Foi intão que tudo clareô, como in noite de luár.
Percebi que o motivo, era pr’eu tê o que falá.
Pois inté a dor mais dolorida tem motivo pra doê.
Deus sarvô minha vida pra qu’eu pudesse contá
Esta istória sofrida, pra quem quizé iscutá.
Num existe nada na vida qui num tenha razão de sê,
Num existe dor, a mais doída, qui num se possa sofrê,
Mas num existe coisa mais triste do que in Deus num crê.


Álbum literário da T63

Turma de 1963

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