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De wikITA

O CAUSO DO ZÉ AGÁPITO E O DENTE DO APRÍSIO

Amadeu Aleixo Machado

Esta crônica é uma amostra de como eram os residentes da Vila Campininha (então Vila de Angatuba) em 1948 ou 1949.

Na década de 1970 resolvi fazer uma coletânea de historias de 4 tios: Joaquim Aleixo Machado (tio do meu pai), tio Aparicio (casado com minha tia Maria Aparecida), tio Claudino e tio Zunir (este do lado da minha mãe). Guardei essas histórias por muitos anos e somente agora estou mostrando-as para meus primos, filhos deles.

Eu trato essas historias com carinho porque elas representam a época pré-televisão, poucos rádios, um jornal, grande dificuldade de locomoção. Elas eram a melhor e mais engraçada maneira de circular uma informação dentro da comunidade. Todas são verdadeiras.

A presente historia foi narrada pelo meu tio Claudino, em 1948 ou 1949, quando eu tinha 11 anos. Eu me recordei dela uns 40 anos depois e resolvi digitalizar exatamente como foi narrado por ele, e deixei na memória do meu computador

A história contada pelo tio Claudino

Sabe que eu tive ontem na Campina e fui visitar o Aprísio, aquele capiáo que parece que é até meio parente nosso? Pois sabe que o Zé Agápito inventou de colocar um dente no desgraçado?

Acabaram tendo que levar ele às pressas pra Angatuba, senão o infeliz ia morrer de dor. Mas bem feito pra ele, que vivia reclamando da farta de uma presa [dente canino], que ele perdeu quando levou um coice de um burro.

Até é curioso que um burro tirou o dente do infeliz e outro burro teve ideia de pôr o dente de vorta. Não é que o Zé Agápito pegou um pedaço de osso, limou até deixar do mesmo tamanho da presa do outro lado e enfiou, na marra, bem apertada entre os dois dentes laterais do lado do coice do burro no Aprísio? O próprio Aprísio me falou que na hora achou que até ficou bonito. Tanto que ele saiu dando risada pra todo mundo. Disse que teve gente que perguntou se ele havia arrumado namorada, de tão feliz que se mostrava.

Quando chegou a noite e começou esfriar, ninguem sabe explicar direito o que aconteceu, mas o tar dente de osso começou a doer e o infeliz do Aprísio não conseguia dormir de jeito nenhum. Disse que passou a noite escutando as corujas, e de vez em quando fazendo uma espécie de gargarejo com pinga – que depois ele engolia – pra ver se a dor passava, mas não adiantou nada. De madrugada escutou todos os galos que existem na Campininha. Nem clareou o dia e ele foi atrás do Zé Agápito pra ele arrancar aquele dente, pois não aguentava mais de tanta dor.”

O estrupício pegou um alicate, mandou o outro sentar num banquinho e mandou brasa. O burro, que estava sentado, deu-lhe um chute no meio das pernas, bem nos grãos. O estrupício quase desmaiou. Os dois berraram feito cachorro atropelado por caminhão. Os vizinhos vieram correndo pra ver o que tava acontecendo e só então ficaram sabendo. Ainda bem que o João Gomes, que é um pouco mais esclarecido, disse que tinham que levar o Aprísio pra Angatuba pra retirar o tal dente. O Aprísio disse que deve a vida pro João Gomes, e até prometeu uma leitoa pra ele e outra pra festa de São Roque, quando a porca dele der cria.

Até chamarem o Aparício, filho do Casemiro, para levar o infeliz para Angatuba, e até o Aparício pegar os cavalos no pasto, arriar a carroça, a mãe dele preparar comida pra viagem, encher garrafão com água pra ele e pros cavalos, e tudo o mais, já ia ser quase hora do almoço, daí foram sem almoçar mesmo, pois o infeliz do Aprísio não conseguia nem beber água. Porém foi pra Angatuba bebendo pinga. Voltaram só de tardezinha, quase noite, e isso porque os cavalos do Aparício são muito bons e quatro cavalos pra levar só os dois dá mesmo pra andar depressa. Já faz quase uma semana que o Aprísio tá lá na casa dele, meio deitado, meio levantado, falando com a mão assim, em cima da boca, escondendo a falha do dente, mais do que fazia antes do acontecido.

Todo mundo, até os que moram no sítio, tem vindo lá visitar o Aprísio.Tem gente mais imbecil do que ele, que aconselha pra não fazer mais a locura de querer enganar o destino pois, se ele perdeu o dente num acidente, é porque o destino dele é ficar sem o dente. O Zé Agápito sumiu. Só o Aparício viu ele um dia depois de voltar de Angatuba. Disse que o Agápito tá muito chateado e não quer nem sair de casa. O Aparício convidou ele para irem sábado num baile na Fazenda Santa Albertina, só pra ver se ele espairece um pouco a cabeça.

Tomara que aconteça logo outra coisa igual ou pior que essa porque assim esquecem logo essa estória e as coisas ficam normal na Campininha.

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