T63-Amadeu-conto-Mensagem

De wikITA

Em Abril de 2017 o colega Amadeu enviou à lista de e-mails da Turma de 1963 um conto de sua autoria, com o seguinte introito.

“Já que temos falado sobre Alzheimer, tomo a liberdade de anexar uma mensagem que escrevi para meus irmãos, filhos, sobrinhos etc. O objetivo era que eles compreendessem o que se passava com meu pai, durante o desenvolvimento de sua doença. Foi bom. Deu resultado, e todos passaram a tratá-lo com carinho redobrado. Poucos anos depois morreu tendo todos ao seu lado.

Escrevi esse conto há quase 30 anos. Durante o período da doença eu conversei e observei muito meu pai. A evolução da doença ocorreu como eu havia descrito no conto. É comovente observá-la. Não sei se já houve algum avanço da medicina em relação à evolução da doença. Com relação à prevenção eu sei que há muitos estudos em andamento.”


MENSAGEM

Amadeu Aleixo Machado


Em Janeiro de 1995 eu viajava no sul de Goiás rumo a um vilarejo, ao encontro de uma senhora benzedeira, em busca de dados para a preparação de um livro sobre “simpatias”. Seria meu primeiro livro. Faltando cerca de 10 km para chegar e já anoitecendo, caiu uma chuva muito forte; poucos quilômetros adiante meu carro atolou na estrada de terra recentemente aplainada. A chuva já havia passado mas eu não conseguia sair do atoleiro de modo algum.

Com a luz da lua cheia que aparecia no horizonte, após a tempestade, dava para ver que eu estava passando por uma daquelas grandes fazendas com pastagens imensas, poucas árvores espalhadas, nenhuma casa à vista. Não se via nenhum animal.

Recostei no banco e fechei os olhos por alguns instantes para repousar, pois viajara sem parar durante todo o dia, e também para pensar sobre o que fazer.

Colaborou: Bandel

Resolvi que se eu levantasse o carro com o macaco e colocasse alguma madeira sob a roda traseira talvez conseguisse sair. Pensei em arrancar um palanque da cerca à beira da estrada. Quando eu ia abrir o porta-malas para apanhar o macaco senti um calafrio nas costas. Olhei para trás e vi um velho com uma capa escura que lhe cobria dos ombros até os pés, o qual , ao ser notado, me disse: “Boa noite, moço.”

Respondi a sua saudação enquanto o observava. Ele estava contra a luz do luar e eu não conseguia ver direito a sua face, sombreada por um chapéu de abas caídas. Contei a ele o que me havia acontecido, bem como o propósito da minha viagem. Então ele me disse:

“Moço, vou lhe pedir um favor. Já que o senhor pretende ser um escritor eu lhe peço para escrever a história que vou lhe contar. Depois que acabar de contá-la irei embora e pedirei para meus netos, que moram logo ali, atrás daquelas árvores, para virem com o trator . Eles irão arrastar o seu carro até ali em frente, onde tem uma ponte; depois dela a estrada é asfaltada e o senhor poderá chegar num instante ao seu destino. Eu lhe peço encarecidamente que me escute e que não deixe de escrever essa história, aconteça o que acontecer, porque o senhor irá ajudar muita gente.”

Apenas balbuciei minha concordância e ele continuou:

“Eu tenho que começar falando do tempo em que nasci, aqui mesmo, nesta fazenda. Fui crescendo entre as crianças dos empregados do meu pai, com as quais brincava, jogava bola, nadava, caçava passarinhos, pescava. Vivia em total liberdade, fazendo tudo que gostava de fazer. Quando fiquei maiorzinho fui para a escola aqui mesmo. Depois mudei-me para a cidade para continuar meus estudos. Mas vinha sempre aqui, passar as minhas férias. Sempre gostei daqui. Acabei estudando Direito; trabalhei numa grande empresa; conheci quase o mundo inteiro; viajei muito. Durante esse tempo continuei fazendo o que gostava; mas nunca deixei de passar temporadas aqui na fazenda. Depois que me aposentei resolvi vir morar aqui, pois meus pais já haviam falecido e a fazenda ficou sendo minha. Vim só com minha esposa, pois os filhos ficaram na cidade, onde já tinham suas carreiras profissionais traçadas, exceto o mais novo, que estudava agronomia. Minha esposa morreu logo depois e eu fiquei muito desolado.

Mas resolvi continuar morando aqui, sozinho. Já não me acostumava mais na cidade. O tempo foi passando e eu sentia o peso da idade. Meu filho caçula havia se formado e casado, e veio morar aqui na fazenda comigo.

Nessa ocasião comecei a perceber uma coisa estranha, que nunca contei a ninguém: eu, que sempre planejava com antecedência o que iria fazer; eu, que sempre gostei de pensar como iria ser o mundo daqui vinte, cinquenta ou cem anos, não conseguia mais imaginar. Era como se o futuro não fosse existir; era um vazio na minha frente. Mas, em contrapartida, lembrava-me de cada detalhe de minha infância; eu me lembrava do quanto valorizava a liberdade e a vida; eu lembrava que quando ia caçar passarinhos com estilingue, sempre atirava o pelote de barro no galho onde o passarinho estava pousado, assim ele voava e ninguém lhe tiraria a vida. Eu pensava: os pássaros têm liberdade e eu quero ser como eles – eles vão para onde querem.

Mais tarde não me preocupava mais sobre o futuro e comecei a esquecer também o passado; mais do que isso, comecei também a perder a noção de espaço. Eu, que havia conhecido o mundo, não sabia mais o que era a China, o que era a África. Sabia onde meus filhos moravam, sabia seus nomes e de meus netos, mas não me lembrava mais do nome de meus amigos e de meus antigos companheiros de trabalho. Nem mesmo o que havia lido eu me lembrava mais.

Então comecei a me dar conta de que era como se houvesse uma compressão do passado e do futuro, como se houvesse também uma compressão do espaço em torno de mim. Parecia uma daquelas máquinas que se usam nos países chamados de primeiro mundo, para transformar um automóvel usado num pequeno cubo de aço de três palmos de aresta. Eu me sentia como se fora eu o bloco de aço.

Na verdade, senhor, não sabia que mais tarde me sentiria ainda pior. Eu comecei por sentir um vazio dentro da minha cabeça; já não conhecia meus filhos; não me recordava mais da minha esposa; não sabia quem eram meus netos; já não sabia dos passarinhos, cuja liberdade eu invejava quando criança. Já não controlava meus movimentos; até respirar era, para mim, um martírio. Não controlava mais meu próprio organismo.

Eu não conseguia mais falar.

Não sabia mais o que era dia e o que era noite. Nem as chuvas refrescantes das tardes de verão, que sempre terminavam em arcos multicoloridos, que me empolgavam quando criança, me provocavam qualquer reação. Meu mundo não tinha mais cores; apenas uma luz serena.

Ia esquecendo de lhe dizer que no início eu lia avidamente tudo que me caía às mãos, numa tentativa náufraga de me manter ligado ao mundo. Com o tempo os textos pareciam folhas de aprendizes de datilografia com suas letras repetidas indefinidamente; depois, pareciam grafias de línguas estranhas; mais tarde não conseguia mais distinguir os contornos e, finalmente, as páginas das revistas pareciam esses papeis zebrados usados em impressoras de computadores: faixas horizontais claras e escuras, alternadas. As cores eu já as havia perdido quando não mais distinguia as flores, as borboletas, os pássaros e os arco-íris, encantos da minha infância.

Porém o mais dolorido, sofrido e amargurado foi quando desisti da fala, pois desisti então do último vínculo com as crianças que julgava serem meus netos e com os adultos que intuía serem meus filhos. As palavras me foram fugindo aos poucos: primeiro as mais longas, que não conseguia mais pronunciar; depois aquelas das quais não conhecia mais o significado. Por pouco tempo fiquei com o vocabulário de uma criança e logo depois não conseguia dizer mais nada. Ah, como eu gostaria que ao menos as minhas últimas palavras tivessem sido uma declaração de amor aos meus, ou uma poesia, ou uma canção ou uma singela, mas profunda, oração!

Quando comecei a perder o paladar fiquei muito confuso.

Naquela ocasião também não enxergava bem e já não controlava meus movimentos. Quando me serviam comida, adequada à minha dificuldade de mastigar, eu não sentia o sabor, pensava que deveria adicionar algum condimento ou molho, mas era constrangedor perceber que entornara o copo de água ou de suco na minha sopa ou no arroz doce que tanto gostava.

Eu me dava conta do erro porque me acudiam.

Logo depois do paladar perdi o olfato e a salivação. Nesse tempo eu só tomava água se alguém me servisse na boca, pois não sentia sede, como não sentia fome.

Numa ocasião me dei conta que, embora não ouvindo, nem falando, não enxergando, nem me movendo, pode-se, ainda assim, ter liberdade. Não aquela liberdade que eu queria quando criança, mas outra, a liberdade de viajar no tempo e no espaço. Eu podia estar, por um instante em Nova Iorque e no instante seguinte em Paris. Noutro momento podia viajar no tempo e ser novamente criança ou então ser um herói do futuro numa galáxia distante milhares de anos luz da Terra, onde eu podia derrotar o mal com minha arma de raios laser e salvar a mocinha. Como era boa ao menos a liberdade de sonhar! Veja o caso daquele cientista inglês que escreveu o livro "Uma Breve Historia do Tempo". Ele não consegue mover mais do que um dedo, entretanto, com sua mente em liberdade, ele viaja por todo o universo; formula teorias fantásticas; produz equações matemáticas para prová-las; vê e sente os buracos negros ainda indecifráveis e deduz a origem de tudo. Em síntese, em sua cadeira de rodas motorizada ninguém, nada, consegue tirar a liberdade da sua mente. Ninguém imagina como eu gostaria de ser como ele! Mas minha vida seguiu outro destino. Eu não era mais nem mesmo o bloco oco a que me comparava anteriormente; eu já me sentia, depois de algum tempo, como se fora um ponto onde tudo se perdia: meus conhecimentos, minhas fantasias, minhas alegrias, minhas tristezas, meus sonhos, meu romance e minha poesia. Eu me transformei num ponto vazio, completamente vazio !

Foi por isso , senhor, que resolvi procurar alguém para descrever como me senti, como foi a minha vida, como foram meus últimos tempos. Não precisa mencionar nenhum nome, pois minha história é igual à de muitos outros que sofreram do mesmo mal. É necessário que se escreva isso porque o médico, quando descreve a doença o faz sob o ponto de vista de quem busca os sintomas, mas não sob o ponto de vista do paciente, que passa por tudo o que relatei.

Eu lhe imploro senhor, que escreva por todos nós; escreva uma odisseia ou apenas uma página, ou até mesmo somente uma frase, mas diga aos nossos o que nós passamos e o que nós sentimos. Diga que não guardamos rancores da vida, nenhum ressentimento das pessoas, nenhuma mágoa do Criador. Diga, por último, que aqueles que desfrutaram de grande liberdade como eu perderam mais; aqueles que, por quaisquer razões, não foram senhores de seu destino perderam pouco ou quase nada. Diga que nossa perda foi proporcional ao nosso ganho: ninguém saiu prejudicado da vida.

Agora irei buscar ajuda para o senhor. Que Deus o abençoe."

Tentei falar alguma coisa mas o velho já se distanciava, sem olhar para trás. Entrei no carro e logo depois ouvi um ronco de trator. Dois rapazes, de cerca 15 e 17 anos chegaram dizendo que estavam indo até a ponte, logo na frente, para verificar se, após a forte chuva, a barragem que seu avô havia construído anos ainda atrás estava em ordem.

Arrastaram meu carro com uma corrente grossa, presa na barra de tração do trator. Chegamos rapidamente até a ponte, após a qual a estrada era pavimentada.

Agradeci aos rapazes e já com o carro em movimento lhes disse: "Agradeçam ao seu avô, por favor". Ao que o mais jovem disse: "Nosso avô morreu há cerca de um ano, moço". Eu quase parei o carro mas algo dentro de mim disse-me: "Vá embora. Não precisa mencionar nenhum nome, pois minha história é igual à de muitos outros...”


Álbum literário da T63

Turma de 1963

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