T63-Dalmir-Gracinha

De wikITA

GRACINHA

Luiz Dalmir Ferraz de Campos

(2003)

Sua grande paixão sempre fora Gracinha. Mas, nos seus dezesseis anos, Marcelo era de uma timidez acima de qualquer limite. Ficou parado na rua Santo Afonso aguardando o momento em que ela iria passar com muita graça, como era o seu nome, aliás, a caminho do colégio. Antes que ela apontasse na esquina, seu coração já começou a acelerar. Só de imaginar aqueles cabelos doirados ao sol, o uniforme do Colégio, o caminhar elegante de seus 16 anos, seu peito arfava. Respirou fundo... Já fazia mais de ano que Marcelo amava Gracinha. Desde que a vira um dia na praia com a beleza que Deus lhe dera. Mas... cadê a coragem de chegar perto dela e lhe dizer como era essa paixão, de pensar de noite e de dia, de viver com o coração acelerando cada vez que a via. Marcelo só pensava em Gracinha.

Certa vez fizera uns versos para ela. Queria um dia poder mostrar-lhe, mas como, se nem com ela ele falava... Andava sempre com seus versos que diziam:

“Gracinha, palavra de calor e beleza,
É o nome que deram para minha fada.
Graça é o nome da minha princesa,
Minha linda, meu sonho, minha amada.

Quando o sol brilha aqui no Rio,
Eu fico alegre por que sei que ela
Vai cruzar a minha rua, e eu espio...
O que acontece, pela fresta da janela.

Quando caminho, de manhã na praia,
Sinto o anseio de vê-la e roubar um beijo,
E à casa volto, quieto, quando não a vejo.

Quando será que a minha flor de faia
Saberá que estou a sua espera,
E que meu amor minh´alma dilacera.”

Ele tinha vergonha de falar nisso mesmo aos amigos mais íntimos. Tentara falar com seu amigo mais chegado, o Luiz Celso.

— Sabe Cel — Cel era o apelido de Luiz Celso — queira te mostrar...

— Pere aí, cara! — interrompera o Cel — é melhor você não mostrar agora. Tenho duas gatinhas muito maneiras miando ali na esquina à espera de dois gatões. Vamos nessa, cara. Deixe de ficar aí esperando que apareça uma princesa apaixonada por você.

Marcelo agradecia o amigo e ficava por ali, no melhor tempo do Rio, o Rio de Outono, suspirando por Gracinha.

O Rio de Janeiro reúne duas condições difíceis de encontrar numa mesma cidade. É uma metrópole, tendo sido a capital do país, e isto possibilita nela encontrar virtualmente qualquer coisa que se deseje, mas,simultaneamente, tem uma beleza natural esplendorosa. Serpenteando entre os morros ela consegue acomodar-se na paisagem, como se sempre tivesse feito parte dela.

Dizem que a melhor vista do Rio se tem quando se está em Niterói. De fato, vista dali, a cidade do Rio parece recortada no céu, quando ele está azul. Se a isso adicionarmos o caráter de seus habitantes teremos quase a perfeição total. O carioca tem essa qualidade de sempre ser escandalosamente feliz. Perfeitamente adaptado às vantagens e dificuldades de sua cidade, ele curte a vida e chega a causar inveja, com seu ar sempre tranqüilo, às pessoas que ali aportam.

O Rio de outono é paradisíaco. A temperatura amena, sempre entre 25 e 30 graus, convida todos a caminhar pelo calçadão, na orla, a ver o terno movimento do mar, a escutar o rugir das ondas quebrando na praia. O sol é suave, não queima, só bronzeia e dá aquele tom saudável às pessoas que têm o privilégio de viver nesta cidade.

Marcelo deixava-se ficar, quando tinha tempo, a cismar na maravilha que seria estar um dia andando por ali com Gracinha. Quando ela passava e ele não conseguia lhe falar nada, ficava em profunda frustração e ia para casa esmurrando as paredes até lhe doerem os nós dos dedos e sangrarem, como se elas (as paredes) fossem culpadas de seus insucessos.

O que vamos contar agora aconteceu no dia 25 de março. Marcelo havia acordado com muita disposição e tomado sua decisão. Falaria com Gracinha e já se ouvia dizendo:

— Oi, tudo tranqüilo, Maria da Graça? Você não me conhece, mas eu sou Marcelo...

—Claro que eu o conheço — responder-lhe-ia Gracinha — estudamos no mesmo Colégio. Sempre reparei em você, com esses seus cabelos loiros encaracolados e revoltos ao vento. E não só eu, minhas amigas também sempre comentam: “ Quem será aquele de cabelos loiros, que não fala com ninguém, não pergunta nada, sempre quieto. Será que ele tem namorada?” — Eu só não sabia ainda o seu nome.

— Você sabe, Gracinha, posso chamar você assim? Sempre pensei em um dia conversar com você. Em lhe dizer muitas coisas que tenho guardadas aqui — lhe diria mostrando com um gesto o lado esquerdo do peito.

Gracinha iria corar e ele tomaria suas mãos e iriam caminhar pela praia a dizer milhões de coisas, sobre a areia, sobre o sol sobre as flores e outras dessas coisas das quais só os enamorados sabem falar.

Mas, nesse dia Marcelo estava mesmo resolvido. Afinal — pensava ele — um só minuto conversando com Gracinha vale por um ano inteiro aqui a sofrer sem saber o que ela vai me dizer. — E telefonou para o celular dela, cujo número conhecia tão bem, mas nunca tinha coragem de digitar.

— Alô, quem é você? — Ele ouviu o som doce daquela voz que fazia seu peito arfar.

— Você não me conhece, meu nome é Marcelo, estudamos na mesma classe.

— Claro que eu o conheço, você tem aqueles cabelos loiros revoltos e um ar sempre sério.

— Gracinha, eu gostaria de conversar com você após a aula de hoje. A gente poderia se encontrar na porta do Colégio?

— Claro — respondeu Gracinha. — Me dê o número de seu celular, porque no caso de haver algum impedimento eu lhe telefono. Minha mãe quer que eu saia com ela hoje e preciso saber a que horas ela quer ir.

— Tá bem, Gracinha. Anote meu número aí.

Marcelo ditou seu número de celular, enquanto seu coração quase lhe saia pela boca batendo muito acelerado e se ela o pudesse ver nesse momento veria como estava corado, com as faces em fogo.

Era sete e meia da manhã de um dia útil no Rio de Janeiro e o número de viajantes do metrô era muito grande.

A estação estava lotada, embora a bilheteria estivesse com relativamente pouca gente.

Próximo à entrada da estação, João “Alemão”, Josias “Maluco”, Carlão “Cara de Cavalo” e Vanderson conversavam:

— E aí, Josias. Tudo tranqüilo?

— Nem te conto, Alemão. Acho que tá tudo no ponto certo. Estive olhando agora e não tem ninguém perto da bilheteria. É só chegar e levar a grana. Vamos nessa? Eu bem, que tô doidão por uma grana para um pouco de crack.

— Topo, disse o outro.

Carlão e Vanderson ficariam no pé da escada rolante, para o caso de surgir alguém, enquanto que o Alemão e o Maluco recolheriam o dinheiro na bilheteria. Os dois caminharam casualmente até a bilheteria. Fizeram o gesto de alguém que iria comprar um bilhete e então Alemão gritou:

— Isto é um assalto, meu chapa. Vai passando a grana que eu estou armado e com pressa.

O bilheteiro, à vista do Revolver 38 na mão do assaltante, entregou o dinheiro e quando o Alemão se virou para sair, viu um policial postado a penas 20 metros dali com ar de quem percebera o que ocorria. Assustado, Alemão começou a correr e, ao ver que o policial sacava sua arma, atirou.

Então a correria se generalizou. Enquanto a multidão corria sem saber para que lado, como uma manada que estourasse, Alemão e Josias Maluco corriam em direção ao túnel da via férrea para escapar por ali, Cara-de-cavalo e Vanderson correram para a escada rolante da entrada. Nesse momento, por ali, na escada oposta, entrava um outro policial da segurança do metrô que, vendo a correria e sabendo dos constantes assaltos no Rio, sacou sua arma e atirou na direção de Cara-de-cavalo e Vanderson, que responderam ao fogo.

Gracinha também sonhava com Marcelo e o encontro que teriam. Há tempos que ela, mais do que suas amigas, tinha reparado no rapaz com ar ausente, cabelos revoltos e cara de sonhador. Gostaria de conversar com ele, mas ainda não tinha tido seu momento justo.

Conversando com sua mãe, perguntara se ela poderia dispensá-la, pois teria um encontro muito importante logo após a aula. Sua mãe concordara, não sem antes saber com quem era esse encontro. Gracinha fizera segredo, dizendo que apenas iria encontrar uma amiga.

— Gracinha, cuide-se, meu bem, venha logo para casa. Você sabe que esta cidade esconde mil perigos. Aliás, tenho medo que você ande de metrô sozinha. Fico com meu coração na mão. Só Deus sabe o que passo...

— Mãe, veja se não exagera, já tenho 16 anos e tenho de fazer minhas coisas... — dissera Gracinha.

E assim, após a aula, dirigiu-se ao metrô para encontrar o Marcelo dos cabelos loiros e encaracolados.

A bala atravessou o tórax e atingiu o coração da jovem que entrava na estação. Ela sentiu uma pequena dor no peito, tentou caminhar e caiu. Sua maleta escolar caiu ao lado e seus cadernos se espalharam no chão. Seus óculos caíram ao lado de seu corpo. Seu celular ficou agarrado à sua mão.

Quem visse aquela cena perguntaria qual o significado de tanta violência. Porque atirar em uma vida tão iniciante, uma criança que nunca sonhara em fazer mal a alguém?

Como está banalizada a violência no Rio! Sabemos que o ser humano é um ser frágil, que depende de alimentação adequada, e muita água e um ambiente adequado, para viver. Ora, quando esse ser frágil é colocado diante de uma arma manipulada por gente má, tudo se pode esperar. E a conseqüência sempre sobra para o inocente que se encontra naquele momento em lugar infestado por bandidos.

Quem aperta um gatilho contra alguém indefeso tem de ter má índole, vontade de matar, de tirar a vida do semelhante. Parece que o gênero humano é o único ser das espécies viventes capaz de matar outro da mesma espécie. A essa espécie chamamos de seres racionais. Será?

Caminhando para a estação onde encontraria Maria da Graça, Marcelo viu que ali havia grande tumulto nas proximidades do metrô. Gritos de pedidos de ambulância se faziam ouvir cá e lá. Pessoas saiam correndo para todos os lados. Carros de paramédicos soavam suas sirenes como gritos fúnebres, enquanto tentavam romper o trânsito para chegar ao local.

— Com certeza um acidente no Metrô — pensou Marcelo. Seu coração se apertou quando ele foi tomado por um horrível pressentimento: Gracinha!!

— Não gritou, num grito rouco. Não pode ser. — Seu coração ficou pequeno e ele começou a correr.

Nesse instante seu celular tocou. Pelo visor viu que era o número de Maria da Graça. Acalmou-se um pouco, mas ficou muito desapontado porque isto significava que Gracinha não poderia se encontrar com ele. Teria de acompanhar a mãe. E ele que tinha tanto sonhado com esse momento...

Seu celular continuava a tocar e Marcelo hesitava.

— Se eu não atender ela terá que vir ao encontro marcado, não importa o que a mãe diga. Talvez ela venha com a mãe só para me avisar. Não faz mal, contanto que eu fale com ela...

Não adiantava esperar mais e ele apertou o botão de “atender” e atendeu ao chamado.

Quase nesse momento ele a viu na calçada correndo em sua direção com o celular ao ouvido e sentiu uma agradável sensação de bem estar.

Gracinha se atirou para ele e o abraçou instintivamente. Ele percebeu que ela tremia muito e que sua voz saía entrecortada por soluços.

— Aconteceu uma coisa horrível, Marcelo, uma estudante estava entrando na estação, houve um tiroteio, pânico e correria. Ela foi atingida por uma bala perdida. Vi quando a levaram, ela estava morta. Ai, meu Deus, poderia ter sido eu. Marcelo, me ajude a ligar para minha mãe porque eu não consigo. Ela estava super preocupada e quando ouvir essa notícia vai morrer um pouco lá em casa, enquanto não souber que estou bem.

Sem pensar no que fazia, Marcelo acariciou seu rosto e a beijou com suavidade.

— Acalme-se, meu amor, está tudo bem agora. Você está comigo — disse, enquanto a abraçava tentando acalmá-la. Finalmente ela parou de soluçar e percebeu que estava abraçada a Marcelo.

Mais tarde, enquanto conversavam, Gracinha se dera conta de que havia sido beijada por Marcelo e lhe disse:

— Pena que uma coisa tão trágica tivesse de acontecer no mesmo dia em que nos conhecemos. Será que aquela menina tinha alguém que a estava esperando, também?

— Isso eu não sei, Gracinha, mas uma cidade linda como o Rio, abençoada pelo Cristo Redentor, não merece essa bandidagem que tomou conta de muitas áreas. Às vezes me pergunto até quando nossa população vai assistir quieta sem uma reação muito mais forte, capaz de mudar essa situação. — disse ele, enquanto caminhava com Gracinha pela rua.

Na manhã de sol o Rio de outono continuava esplêndido, com o mesmo céu azul intenso, indiferente ao que acontecera nas escadas da estação do metrô.


Álbum literário da T63

Turma de 1963

Ferramentas pessoais