T63-Dalmir-Siá-Marianinha

De wikITA

SIÁ MARIANINHA

Luiz Dalmir Ferraz de Campos


Siá Marianinha era quase cega. A idade e uma catarata lhe impediam a visão em modo quase absoluto. Como não podia muito ver, ela ficava absorta em seu velho pito de barro com fumo de rolo comprado no armazém de seu Luiz.

Era uma velhinha bem pequena em estatura devido à alimentação à base de feijão com farinha sem muitas proteínas. O rosto era encarquilhado e tinha tantas rugas que mais parecia um mapa do Brasil com todos os rios da pátria. E enquanto ela ficava ali a cismar no tempo que já havia passado há muito, a festa continuava no terreiro.

A sede da Fazenda da Glória situava-se em um meio altiplano, com os terreiros de café à sua frente, do lado direito. Nos outros lados possuía currais para o gado leiteiro onde, na madrugada o leite era tirado.

A capela, ao lado da sede, tinha como padroeira Nossa Senhora da Glória, cuja imagem estava no altar com o Jesus Menino ao colo. Todos os anos, no dia 24 de maio, acontecia, ali, a festa que animava as fazendas e sítios da região.

Todo ano, Seu Zé Teodoro, o fazendeiro, homem rico e, dizia-se, dono de sete fazendas, mandava matar uma novilha, cuja carne era toda servida na festa. Para isso preparava-se o “afogado”, carne em grandes panelões, com um caldo, e servida com muita farinha. Havia ainda carne na brasa para quem quisesse. Para a festa eram erguidos, no adro da capela, vários barracos com balcões rústicos, uma espécie de jirau feito de madeira, que era farta na fazenda e cobertos de sapé. Em cada barraco eram servidos tipos diferentes de doces caipiras: de batata doce, de abóbora, doce de leite, arroz doce, pé demoleque. Também eram servidos bolos de fubá. A cachaça corria livre e havia até um latão de 30 litros que estava preparado com muita cachaça, muito limão e muito açúcar, uma espécie de caipirinha gigante, para o mundaréu de gente que sempre vinha para a festa.

Ao lado havia uma canequinha e muitos copinhos. Então era só chegar, pegar a canequinha, enfiar no latão e tirar uma quantidade da bebida, colocar no copinho; não custava nada, era uma oferta de Seu Zé Teodoro.

O padre, que sempre era convidado para celebrar a missa, não gostava nada desse costume. Sabia que a caboclada iria beber, beber até perderem a compostura e aí ... tudo podia acontecer.

Os doces eram arrumados sobre os rústicos balcões de madeira e eram o deleite da criançada que corria pelo terreiro. Grandes latões eram preparados com refresco de groselha, servido em copos, além de Guaraná Antarctica em garrafa.

Para essa festa as moças das fazendas se enfeitavam, com o cabelo amarrado em coque, ou em rabo de cavalo, muita água de cheiro, além de vestidos multicoloridos de chita e outros tecidos. E isso era tudo. O resto ficava por conta do que a natureza lhes dera: seios empinados, pernas rijas da faina diária.

Do lado esquerdo da igreja, havia um salão que fazia parte da sede da fazenda, mas que, fechada a porta lateral de acesso à sede, ficava isolado e era usado como um salão de baile.

Um sanfoneiro e dois violeiros animavam o baile da caboclada. As violas ponteavam canções caipiras que falavam das desgraças de boiadeiros, dos amores desfeitos, das caboclas Terezas que não queriam o amor sincero de seus admiradores.

A um canto, Leiriano estava de olho em Lucinha Costa. Este estranho nome de Leiriano devia-se a ser ele afilhado de um imigrante português da Leiria, aquela região de Portugal, onde está o Santuário de Fátima. Era comum nesse tempo dar ao filho (ou afilhado) o nome do lugar de origem Lucinha era uma cabocla formosa, bem feita de corpo, alegre e a razão de muita discussão entre os camaradas solteiros da Fazenda.

Quando a sanfona resfolegou um rasqueado, Leiriano puxou a Lucinha, para o arrasta-pé.

Enquanto dançavam, sentiu o perfume forte, de água de cheiro, que lhe entrava pelas narinas e o calor do corpo da cabocla que lhe despertaram a libido. Lucinha não era insensível aos encantos de Leiriano e deixava se encostar mais e mais nele.

O arrasta-pé estava se animando. O sanfoneiro Seu Belarmino arrastava os dedos pela sanfona que resfolegava emitindo os sons das rancheiras, rasqueados e xaxados, sem falar da quadrilha, o momento mais importante da noite. Ao seu lado a dupla de violeiros Torres e Florêncio se esforçava para acompanhá-lo.

A moda de viola cantava pelas bocas de ambos:

“Se tem pinga nóis pede
Se num tem pinga nóis canta,
Mais nóis canta mais bunitu
Quando tem pinga na garganta”

O barracão, que fazia às vezes de salão de baile, estava cheio. Leiriano continuava dançando com Lucinha Costa, agarrando-a como se ela fosse uma coisa preciosa que não poderia escapar de seus braços.

— Cê num sabi, Lucinha, que eu tô loco pra morde ocê? Si ocê num casá cumigo, intonce num há de casá cum mais ninguém. Tudos dia, enquanto trabaio, só penso nocê. Vô pidi pro Sô Zé Tiodoro uma casinha aqui mermo na fazenda pra gente morá. Vô sabê quandé qui o Padre Calixto vem inté a fazenda, i sele num vié logo nóis vamo marcá um dia pra í inté Caçapava Véia morde nóis casá.

— Cê num se preocupi não, Aleiriano, respondeu a cabocla, que eu tamém gosto muito di ocê e tamém queru que a gente se casi logo qui der.

Um pouco à direita Amadeu conversava com Seu Zé Teodoro. Amadeu era um caboclo de vasta cabeleira lisa, braços e antebraços muito grossos, da faina no curral de leite, pele tostada pelo sol diário. Zé Teodoro, que andava pelos sessenta, estava de paletó de linho, com as calças por dentro das botas, lenço ao pescoço, como convinha a um fazendeiro e dono de muita terra, a Fazenda da Glória, e muito gado.

— Pois é, “Seu” Zé, tenho uma notícia ruim. A novía maiada apareceu morta i isticada. Acho qui foi murdida de cobra ou arguma erva venenosa que ela andô comeno.

— Amadeu, cobra não morde se não for atacada, a não ser a cascavel que vai atrás da gente, no revide, com aqueles guizos chocalhando. Acho que essa vaca foi envenenada por alguma coisa que comeu.

Era costume na fazenda que os camaradas, quando encontrassem uma cobra procurassem pegá-la com uma forquilha e depois colocar dentro de um saco. As cobras eram levadas para o fazendeiro que as enviava para o Instituto Butantã, recebendo em troca alguma quantidade de soro antiofídico.

Perto de Zé Teodoro estava Pedro Bernardo, que tinha seus 70 anos e uma barba branca rala. Pedro não andava bom da cabeça. De vez em quando desatinava, ficava mais violento, partia para o ataque e ai de quem estivesse por perto.

Certa vez tinha ido até a porta de entrada da sede da fazenda onde começou a chutar a porta e a gritar com Zé Teodoro dizendo que ele havia roubado sua mulher. Sua mulher, entretanto, já era falecida de longa data.

Seu Zé Teodoro tinha paciência com esses acessos de Pedro Bernardo e aguardava que se acalmasse. Pouco depois Pedro nem se lembraria do que fizera.

A um canto perto dos violeiros, Dona Benê, mulher de Zé Teodoro, estava sentada em um banquinho. D. Benê devia ser uns trinta anos mais moça que o marido. Ele a tinha conhecido alguns anos atrás e foi uma paixão de viúvo, correspondida pela moça envolvida pelo charme do fazendeiro e pela perspectiva de ser uma fazendeira, ficar muito rica, ter o que quisesse, vivendo na casa sede da fazenda. Devido à diferença de idade, Zé tinha um ciúme doido da mulher. D. Benê se enfarava com essas festas. Seu marido não dançava. Ela bem que gostaria que algum daqueles camaradas da fazenda a tirasse para uma dança, para poder sentir um corpo firme agarrado ao seu, mas nenhum deles teria essa coragem de dançar com a patroa.

No canto próximo à porta, três crianças brincavam alheias à música. Zé Roque, que parecia liderar o bando, era um pretinho levado da breca. Tinha uns 12 anos e contava vantagem dizendo que já entendia tudo de “muié”.

Como era esperto, gostava de por medo em Iná e Luizinho que ouviam suas histórias de saci. Iná, em seus dez anos, era franzina e parecia ter oito.

Luizinho, para fazer justiça ao nome, era miúdo e magrinho e tinha um medo enorme de sacis e de mulas sem cabeça.

Siá Marianinha continuava sentada em seu canto, cortando fumo com a faquinha que sempre trazia, para colocar no pito de barro, sua paixão, bem próxima da janela do barracão, ouvindo a sanfona e parte das conversas que se travavam nas suas proximidades.

Ouviu então o que parecia um sussurro, que vinha do lado de fora, bem debaixo da janela onde ela estava sentada:

— ... Num quero í cocê, i num dianta mi puxá.

— É só pra gente andá um poco, Lucinha, inquantu a gente conversa.

— I pra onde é, qui é, qui ocê qué mi levá?

— Vamu cunversá num luga mais queto, ali pros lado da ...

O sanfoneiro começou outra música, acompanhado pelos violeiros e ela nada mais pôde ouvir.

Com o pito no canto da boca, Marianinha começou a conversar com as outras velhinhas. Na verdade, eram mulheres mais jovens do que aparentavam, mas que a longa exposição ao sol, na faina de cortar cana para o preparo de ração do gado, tinha deixado com a pele enrugada.

— Eh, comadre Etervina, num vai me dizê que um bailinho num tráis sôdade dus nossu tempo di moça? Du Florenço Costa?

— Sabi di uma coisa, Mariana, cê fala muito. Acho que é ocê qui tá com sodade daqueis tempu qui ocê dançava bem garradinha co Bastião Faria Enquanto falava, Etelvina sentiu em si um tremor que lhe perpassava a coluna ao se lembrar do seu falecido Florêncio e das noites sem fim que ficavam vadiando, rolando nas cobertas. Lembrou-se de como ela e Florêncio tinham se escapado para o mato no meio de uma festa como aquela, na vila de Caçapava Velha.

Etelvina não havia conseguido resistir ao forte e espadaúdo moreno Florêncio Costa. De volta para casa enquanto percorriam a pé os doze quilômetros que separavam a fazenda da cidade, ele a convencera a fazer uma parada, na curva da estrada e ao lado de um pasto alto de capim-gordura. Amassar o capim, formar um ninho, deitar com a mulher de seus sonhos, tendo só a lua por testemunha, era o desejo quase os todos jovens da roça.

De início ela “pegara barriga” da Lucinha. Aí aconteceu o casório com o Florêncio, na tarde em que o padre Calixto veio, a cavalo, até a Fazenda da Glória.

Depois, as dores terríveis do parto de Lucinha, feito em sua casa de pau a pique com a parteira mor da Fazenda.

Devido a um acidente no parto, Etelvina não pôde ter mais filhos. E Lucinha se tornou filha única, o que é raríssimo na zona rural.

— A sióra num viu a Lucinha por aí, Cumadre Benê? Perguntou Etelvina.

— Não vi, não, Siá Etelvina. Ela esteve aqui conversando, depois foi dançar com o Zé Sebastião. E, faz uma meia hora, parece que ela esteve com o Leiriano.

Etelvina não gostou da história do sumiço de Lucinha. Na sua idade sabia que as moças costumavam sumir nas festas e ir para ninhos feitos no mato, junto com seus parceiros. O resultado, invariavelmente aparecia depois de seis meses, quando, já de barriga, iam ter que se casar com o autor da façanha, coisa que já acontecera com ela mesma.

De manhã, como Lucinha não aparecesse, Etelvina e Marianinha, que já não trabalhava mais devido à idade, foram procurar Seu Zé Teodoro.

— Pois é, Sô Zé Tiodoro, onti a Lucinha tava si divertino na festa e garrô a dançá cum tudo qui era homi. Despois sumiu e num pareceu inté agora.

Zé Teodoro estava um pouco contrariado. De um lado não queria arrumar encrenca com as duas mulheres da fazenda, pois era por meio delas que ele se mantinha informado sobre o comportamento de Dona Benê. De outro, tinha certeza que Lucinha tinha sumido pelo mato para se deitar com algum dos seus empregados, embora Etelvina não gostasse de saber disto.

— Sabe uma coisa, Siá Etelvina, logo mais ela aparece. Vamos esperar um pouco. Essas coisas acontecem nessas festas. Vai ver que foi com alguma amiga dormir na casa delas, na cidade. Você sabe que essas moças são doidinhas pra ir até a cidade...

O que agora relatamos se passou uns dias antes da festa.

Na mangueira da fazenda a lida começava cedo. Por volta de 5 horas da manhã tinha início a ordenha ou “tirar o leite” conforme diziam ali pela fazenda.

— Zé Sebastião, eu tô amarrado na Lucinha, mais du qui bezerru na perna da vaca, rapaiz. Acho que pro ano a gente vai si casá.

— Aleiriano, ocê tá maluco, cara. Si amarrá cum uma muié só? Eu gosto di todas, quando quero é só dá uns beijo, levá pro mato e pronto.

— Ora, Zé, cê num sabi como é bão sintí o calor da Lucinha e fica juntinho cuela, falano das coisa i dus segredu nosso.

— I num vai mi dizê qui ocê inda num levô ela pro capim?

— Mais amô e menas confiança, mi faiz favô. Da minha muié, ninguém fala ansim.

— Ara seja, homi, num percisa falá ansim. Eu num disse pur mar. Dessi jeito que ocê tá, é mió marcá logu u casório.

E a prosa continuava nos entremeios de tirar o leite de uma vaca e ir despejá-lo no latão, soltar outro bezerro, que logo procurava a mãe, amarrar as pernas da vaca e amarrar o bezerro na pata dianteira da mesma.

Zé Roque havia contado uma história de que tinha visto o saci pelos lados do mangueiral de manga-rosa. No dia seguinte à festa, convenceu Iná e Luizinho a irem com ele até lá, porque tinha medo de encontrar de novo o garoto de uma perna só e gorro vermelho. Para ir até as mangueiras era necessário passar por uma trilha, que ia pelo meio de um capinzal.

Foi no meio desse capinzal que encontraram Lucinha, caída perto da mangueira rosa.

Ao ver o corpo caído e imóvel, Zé Roque logo percebeu que se encontrava de frente com uma defunta. Já tinha visto antes a morte de sua mãe e sabia o aspecto que apresentam os cadáveres. Lucinha estava com os olhos abertos e fixos no infinito.

As três crianças saíram em disparada para a sede da Fazenda, para contar o que tinham visto.

O delegado de polícia, Dr. Waldir, chegou de camburão logo à tarde. Com ele vieram dois soldados, Zelão e Pedro.

— Seu Zé Teodoro, que coisa mais esquisita. A moça está morta, sim, mas não apresenta ferimento nenhum. Parece que morreu de morte muito natural.

— O Doutô Delegado num sabi quanto tempo faiz qui a Lucinha morreu? — Perguntou Marianinha intrometendo-se na conversa.

— Sei não dona, pra isso preciso levar o corpo da moça pra cidade para que o Doutor Pacheco possa examiná-lo.

— O Dotô num sabi dizê, anssim mais o menos? — Insistiu a velhinha.

— Olhe, Dona, deve ter sido ontem de noite, porque o corpo dela já está frio.

— I o Sinhô num reparô si ela tem arguma firida de faca?

— Não tem não nenhum ferimento, nem de faca nem de bala.

O delegado, Zelão e Pedro procederam a um exame superficial do corpo não verificando nenhum sinal de violência. O corpo foi colocado no camburão da Delegacia e transportado para a cidade, para autópsia.

Marianinha procurou consolar Etelvina que não parava de chorar.

— Siá Marianinha, eu quiria sabê du qui foi qui ela morreu. Era tão mocinha, meu Deus. I era mia única fiínha.

— Deus sabi o que faiz, Itervina, i Ele achô qui já era a hora dela. Agora ela já devi di tá lá nu céu.

— Mais, di qui será qui ela morreu, Siá Marianinha, será qui foi di nó nas tripa?

— Onti ela tava tão feliz co Aleiriano i hoji...

— Itervina, ocê reparô si ela tomô caipirinha, o guaraná o refresco di groseia, ou arguma otra coisa?

— Não vi, Siá Mariana, não vi nada ..., ela era muito boazinha — respondeu inconsolável a mãe.

No dia seguinte Siá Marianinha esperou o momento certo pra pegar de jeito o Zé Roque.

— Vem cá, Zé Roque, ocê viu a coitada da Lucinha, onti quando ela tava lá no capinzar da mangueira-rosa?

— Vi tudinho, siá Marianinha.

— I cumé qui ela tava deitada no capim?

— Tava cum a cabeça na pedra e caída meio qui di conhém.

— Tinha argum pedaçu di panu o vestidu, pertu dela?

— Siá Marianinha, a sióra tá quereno sabê si ela si deitô cum arguém lá no capim?

— U qui é qui ocê sabi dessas coisa? Seu moleque safado — respondeu Marianinha, que queria manter o respeito do moleque, sem perder a sua fonte de informações.

— Óia, Siá Marianinha, tava tudo certinho, i num tinha nada fora di lugá. A Lucinha ali, de zóio aberto e mortinha, parece inté árti do saci.

— Ocê viu a qui hora qui ela saiu da festa, ónti?

— Foi despois qui ela dançô cum o Aleiriano, elis saíru junto e pegaru a istrada que vai lá pro manguerá di manga-rosa.

Pedro Bernardo perambulava pelas fazendas da região e vivia da caridade das pessoas. Na manhã em que foi descoberto o cadáver de Lucinha, Pedro estava na Fazenda da Glória e, como todos, foi ver o corpo da moça.

— É minha Ana, mataru ela, gritava Pedro em seus desvarios achando que Lucinha fosse sua falecida esposa.

— Carma, Sô Pedro, dizia o pessoal e mais e mais Pedro gritava.

— Foi castigo di Deus pruquê ocê mi abandonô e me trocô pelo Seu Zé Tiodoro...

— Fica quieto, Sô Pedro, disse Marianinha, sua muié já morreu faiz é tempu. Essa aí é a Lucinha Costa. Para cum esse berrero.

Pedro costumava respeitar Siá Marianinha e esses repentes de loucura passavam logo. Depois vinha um estado de depressão e uma tristeza e tudo voltava ao normal.

À tarde Siá Marianinha voltou para o seu canto preferido, do lado de fora de sua casa, picou um tanto de fumo, acendeu seu pito e ficou a pitar, pensando nos acontecimentos. Ela ajudava na casa sede da fazenda para pequenos serviços e foi assim que D. Benê a chamou.

— Siá Mariana, a senhora podia me ajudar a fazer uns biscoitos de polvilho que o Zé gosta muito?

— Tô aqui, cumadre Benê, respondeu Mariana, que queria mesmo achar um pretexto pra puxar conversa com a patroa.

— Que coisa maluca a morte da Lucinha, disse D. Benê, enquanto acendiam lenha dentro do forno abobadado onde se faziam os assados da fazenda. A lenha aquecia o forno e quando estava bem quente a lenha era retirada e as formas com biscoito eram colocadas para assar.

— Puis é, Cumadre Benê, quem será qui ia querê a morte dela? — Você acha que mataram ela? O Delegado não disse nada de morte por crime.

— Ele num disse, mas tava pensano, pruque foi vê o lugá ondi ela foi encontrada, mais num tinha nada fora di lugá lá.

— Como a senhora acha, Siá Mariana, que ela foi morreu, lá no mato? Porque se fosse uma mordida de cobra dava tempo dela voltar aqui pra fazenda.

— Ah, isso eu num sei, não. Só si ela dismaiô.

— E o que ela estava fazendo lá, pelo meio do capinzal?

— Ela pode tê ido, cu namorado, lá praqueis ladu i aí foi mordida por uma cobra, qui é o qui mais tem nessis mato.

Vendo que o papo não iria lhe render muitas informações, Marianinha aquietou-se e ficou a matutar muito naquilo tudo.

No outro dia chegou a notícia. O médico legista procedera ao exame do corpo constatando que havia um sinal de picada de cobra, com edema local e todos os sinais de envenenamento pela mordida. Fora também constatado que ela apresentava um ferimento na cabeça, que poderia ter sido ocasionado pela queda após o envenenamento. O legista dera o atestado de óbito por envenenamento decorrente de mordida de cobra.

Após o enterro de Lucinha tudo voltou ao normal na fazenda.

Siá Marianinha, entretanto, continuava a pensar muito na morte da moça.

Muita coisa não se encaixava. O delegado não parecia ter se interessado muito pelo assunto. As mortes na roça eram raramente assunto da Delegacia. Ele viera até a Fazenda da Glória no dia da morte da Lucinha somente a pedido do Seu Zé Teodoro, que o homem era rico e importante.

Foi só algum tempo depois, num domingo, depois da missa na capela da fazenda, quando todo mundo ia tomar o café com broa de milho no terreiro em frente, que o assunto voltou à baila.

O delegado Dr. Waldir tinha vindo até a fazenda para dar uma explicação a Seu Zé Teodoro, pois sempre na cidade precisavam de favores do fazendeiro e era preciso tratá-lo bem, pois corria o boato de que ele iria se candidatar a prefeito.

Estavam presentes: Siá Marianinha, o delegado Dr. Waldir, Seu Zé Teodoro, Dona Benê, Zé Sebastião, Amadeu, Etelvina, Leiriano, Pedro Bernardo além de outros empregados da fazenda.

Como sempre, foi Siá Marianinha quem recomeçou:

—Eu queria contá procês tudo, que onti eu descobri uma coisa. A Lucinha, fia da comadre Itervina, num morreu só de mordida de cobra, como falaru.

Ela morreu di morte matada.

— De que é que você está falando, comadre, disse Zé Teodoro, você já está começando a caducar, é?

— Num tô não, respondeu Marianinha, eu vou expricá direitinho cumu é qui foi.

A essa altura todos se tinham agrupado fazendo uma roda em volta da velhinha que continuou:

— O Zé Sebastião, o Madeu, O Aleiriano, o Sô Pedro Bernardo e inté otros homi tudu quiria a Lucinha que era a moça mais bunita da fazenda, a gente sabi. No dia da festa, Madeu cunversô cum ela despois di dançá i quiria que ela saísse cum ele. Lucinha num quis.

— É verdade, Siá Mariana — disse Amadeu — eu só quiria cunversá cum ela, mais ela num quis.

— Puis é, Madeu, prá azá seu eu iscuitei a cunversa. E inté achei qui bem pudia sê ocê qui, de reiva, levô a Lucinha pro mato e matô.

— Zé Sebastião tamém dançô cum ela — continuou Marianinha — i quando passaru perto di mim inscutei a cunversa deis. Bastião prometia pra Lucinha, qui ia morá na cidade, pra saí aqui da roça, i isso era u qui ela mais quiria, si ela si casasse cum ele. Intão pensei qui pudia tê sido o Zé Sebastião qui levô ela lá pro capinzar.

— Ocê tá ficano mais maluca que o Sô Pedro, Siá Marianinha, devi di sê pruque tá anssim beim veínha, respondeu o Zé Sebastião.

—Oie aqui Zé, ocê mi respeiti, ocê sabe qui num tô doida coisa ninhuma. Só num inxergo mais. Meus oio num presta pra nada, só cunsigo vê o que tá bem perto di mim, mais iscuito quarqué baruinho, e quarqué cunversinha pra azá de arguns, com as Graça di Deus. E Marianinha continuou sua história:

— O Aleiriano tamém dançô cum a minha Lucinha, i passaru pertinho di ondi eu istava, só qui num pude escuitá o qui o que eis falava. Mai eis tava dançano bem juntinho i a gente sabi o qui eis devia di tá falano, dançano tão juntinho anssim. Intão eu pensei A Lucinha tá querenu o Aleiriano, num dianta us outro querê ela. Mais adispois pensei - será qui o Aleiriano ficô com ciúmi e acabô cum ela?

Leiriano, bastante chocado com o que ouvia, tinha os olhos vermelhos de chorar nos últimos dias e nada respondeu.

— ... Dispois tem o Sô Pedro Bernardo qui tamém falava qui quiria acaba cum ela, qui eli querditava qui era Ana, sua muié qui largô eli.

Ai meu Deus. Será qui a locura feiz eli matá a Lucinha?

— Seu Zé Tiodoro tamém cunversô cum ela, quem mi contô foi a cumadre Itervina, mais num escuitei o que disseru, disse a cabocla, que ficou com medo de acusar o patrão.

— Intão nu dia du baile, despois que ela saiu pra cunversá com o Madeu ela vortô pra dançá mais.

Preguntei pro Zé Roque si tinha visto a Lucinha saí di novo. Eli contô qui viu ela saí di novo cô Aleiriano e foru ali pros lado das árves di manga-rosa qui lá tava bem sussegadu. E tem tamém um capinzar dus bão. Aí, eu acho qui a Lucinha arresorveu tomá um refresco di groseia, pruque ainda não tinha bibido nada e pediu pro Aleiriano vi buscá. Eu vi quando eli pegô u refrescu

pruque era bem pertinho di onde eu táva sentada e vi qui ele num bebeu nada. Intonce eu vi qui era pra Lucinha. Mais quando eli vortô pro capinzar cum o refresco devi di tê incontrado a moça caída e morta.

— Dotô Delegado, si o sinhô fô percurá lá nu matu, u sinhô vai incontrá um copo de prásticu cum resto di refresco.

U Aleiriano num vortô mais pro baile, naquei dia.

Eu fiquei pensano si u Aleiriano pur ciúmi síria capaiz de ter feito essa mardade co a Lucinha.

Pra mim o Aleiriano, quando viu a Lucinha caída, largô u refrescu e chegô mais perto, intonce viu qui ela já tava morta. Foi muito covarde, homi, jogô u refreiscu fora i foi simbora.

— Siá Mariana,--interrompeu o Leiriano – quando cheguei lá, ví a Lucinha já caída no chão. Anchei qui ela tava só dismaida mais dispois vi qui ela já tava morta. Ai fiquei disisperado. Eu já tive um pega di tapa co Madeu faiz uns dois meis, tudo pru causa da Lucinha.Tudo mundo sabi. Tamém viru eu i mais ela saí da festa. Fiquei cum muito medo qui arguém mi visse i pensássi que eu tinha matado ela, pur ciúme. Sai di lá e fui chorá lá no currar, onde num tinha ninguém di noite. Di madrugada vortei pro trabaio morde ninguém percebê nada i fiquei isperano que arguém achasse a coitadinha.

— O Madeu — continuou Marianinha — qui viu quando a Lucinha saiu co Aleiriano, ficou muito doido di ciúme, i arresorveu matá a Lucinha. Já fazia tempu qui ele tava quereno isso e tava esperano u dia. Nu dia da festa inquanto o pessoar dançava, iscuitei um baruiu que vinha da janela, do ladu di fora, um baruinho que eu cunheço muito bem. É o chacoaiá do rabu de cascavér. Mi arrepiei di medu. Ai iscuitei uns passu i oiei pra fora. Puis num é qui o Madeu passô perto da janela cum sacu di stopa. Intão foi qui aquele baruio cabô. I eu pensei na minha cabeça -- o qui é qui o Madeu vai fazê cuma cobra cascaver essa hora da noite? Coisa boa num há di sê.

— Eli sabia qui a Lucinha tava lá, suzinha pruque viu o Aleiriano vortá.

Intonce pensô – Si eu achá a Lucinha lá, levo ela pro capim nem qui seja na marra. I foi andano levano cum ele, na mão, o saco coa cascaver drento nu casu di as coisa num dá muito certo. Chegano lá, incontrô a moça caída,

dismaiada e ficô com muita reiva puiz pensô qui ela tinha deitado mais o Aleiriano i qui tava drumino. Intonce abriu o saco i sortô a cobra do saco in cima da moça i isperô a mordida da cobra nu qui tava mais pur pertu, a pobre Lucinha, dismaida i qui num pudia fazê nada. Adispois o Madeu vortô pra festa pra ninguém percebê.

— Tava fartano, pra mim, discobri cumo é qui a Lucinha tinha caído. Isso, eu só adescobri dispois di conversá cum a cumadre Benê, quando fui ajudá na casa grande, a fazê biscoito de porvio.

Faiz ai pruns dois meis, quando eu vim ajudá a Cumadre Benê iscuitei uma baita discussão dela mais o Sô Teodoro. Nhá Benê quiria sabê pruque o Sô Tiodoro tinha chamado a Lucinha pra drento da Casa Grande nu otro dia.

Adispois di um bate-boca, dus grande, inté pensei qui ia saí tiro, tudu ficô quieto. Sô Zé disse qui ela tava cum ciúme bobo pruque eli era homi sério.

Nhá Benê disse pra ele num si metê a besta de arrastá asa pra cima da Lucinha.

— A cumadre Benê tinha reiva da Lucinha, pruque ela era muito bunita i quirida por tudos camarada da fazenda. Quando ela viu qui o Aleiriano vortô suzinho, pra pegá u refrescu qui a Lucinha pidiu, Nhá Benê saiu quasi qui correno e foi atráis da Lucinha, antis qui o Aleiriano vortasse pra lá. Eu preguntei pro Zé Roque si eli tinha visto Nhá Benê naquele dia i eli mi dissi qui ela tinha saido pra andá lá pras banda das Árve di manga rosa.

Quando a cumadre Benê incontrô a Lucinha elas cumeçaru a discutí. Nhá Benê cum muita reiva, empurrô a Lucinha. A Lucinha caiu, bateu cum a cabeça na pedra i dismaiô. Mais, na briga, Lucinha puxô o vistido de Nhá Benê i arrancô dois butão de ropa. Otru dia quando eu fui ajudá a cumadre Itervina pra istendê a ropa lavada no quaradô, ela mi falô qui um vistido que Nhá Benê tinha usado na festa tava cum dois butão fartano.

Anssim qui Nhá Benê viu qui a Lucinha num si mixia, havéra di tê pensado: —Será qui ela morreu, será qui eu matei a Lucinha? E arresorveu ir simbora antis qui o Aleiriano vortasse i num deu nem tempo de percurá us butão..

— Pidi pro Zé Roque, continuou Marianinha, pra qui eli fosse percurá dois butão de ropa lá no mangueirar di de manga-rosa, adonde a Lucinha tinha caído. Ei foi e trôxe um, qui tá aqui oh Dotô e vosmecê podi pidi o vistido di Nhá Benê qui tá coa Itervina i vai vê qui são iguar e qui faltano dois naquêli vistido.

Adispois qui a Lucinha caiu i dismaiô, Nhá Benê ficô apavorada, achano qui tinha matado ela, e vortô correnu pra festa.

— Seu Doutô Wardi, si o sinhô fô oiá la ondi a Lucinha morreu vai incontrá essas coisa qui eu falei.

O Dr. Waldir agiu rápido.

— Amadeu, teje preso. Seu Zé num deixe D. Benê sair de casa até eu voltar.

Por enquanto preciso verificar toda essa história com o Doutor Juiz de Caçapava.

Siá Marianinha, satisfeita porque a tinha sido feita justiça para a filha de sua amiga Etelvina, picou mais um pouco de fumo, encheu o cachimbo e ficou no seu canto a pitar.


Álbum literário da T63

Turma de 1963

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