T63-Dalmir-biografia

De wikITA

LUIZ DALMIR FERRAZ DE CAMPOS
Biografia

Tabela de conteúdo

INFÂNCIA

O que se poderia destacar na infância foi o fato de ser filho de agricultor pecuarista e vivido até 7 anos em zona rural. Aos 7 anos fui para casa de uma tia, em Santa Branca, pequena cidade próxima a Jacareí, a fim de cursar o primeiro ano do curso primário.

Aos 8 frequentei escolas de roça em Caçapava Velha, um distrito rural de Caçapava SP, e depois no bairro rural Descampado, a 12 km de Santa Branca.

Característica principal destes cursos rurais era que uma só professora dava aula simultânea para o primeiro, segundo e terceiro anos (não havia quarto ano nas escolas rurais). Eu fazia o segundo. No terceiro ano estudei pela primeira vez em um grupo escolar, em Mogi das Cruzes, onde iria residir mais tarde. Em 1949 meu pai comprou um sitio de 23 alqueires próximo a Jacareí. Neste sítio havia um casarão colonial que, finalmente, abrigou toda a minha família (meu pai, minha mãe e meus 10 irmãos). Num quarto que a mim parecia enorme estavam as 4 camas pertencentes a meus irmãos nº 1, nº 2, nº 5 e eu, nº 6, que éramos os filhos homens mais velhos. Num outro quarto ficavam minhas irmãs maiores que eram 3 (nº 3, nº 4 e nº 8) e no quarto de meus pais ficavam os dois menores, ainda bebês. O filho nº 7 estudava em colégio interno e só vinha nas férias escolares

Éramos ao todo 6 homens e 4 mulheres. Minha irmã caçula ainda não havia nascido... Nessa época comecei a trabalhar... Enquanto os irmão mais velhos cuidavam de tirar o leite na madrugada eu fui incumbido de levantar-me às 4h30 h da matina, vestir-me, calçar a bota de borracha, pegar o cavalo e buscar o gado que estava no pasto e trazê-lo ao curral. Às 6h30 regresso, soltar o cavalo, entrar em casa, tomar banho, pegar o material escolar e pegar o ônibus para Jacareí, para estar na escola às 7h55 h...

Aí, minha mãe resolveu que eu deveria estudar piano, pois meu avô havia dado um piano para uma de minhas irmãs, que já estudava havia alguns anos. Então minha rotina, que já não era fácil, ficou mais complicada por dois fatores: horário para estudar piano, frequentar o conservatório musical, e ainda cursar o preparatório ao ginásio, que havia naquela época. Isto foi até 1951, quando meu pai vendeu a fazenda e fui morar na cidade de Mogi das Cruzes e virei citadino...

ENSINO MÉDIO

Foi ali que por volta de 1956 alguém trouxe à nossa classe do curso Científico um rolo de papeis mimeografados falando de um curso que havia em São José dos Campos, para estudar engenharia aeronáutica e eletrônica, com alojamento e alimentação... Eu nunca havia chegado nem perto de um avião. Prestei exame vestibular no início de 1957 e quando vi questões que não era capaz nem entender, percebi que meu preparo estava deficiente.

Pedi a meu pai o pagamento de um cursinho anexo à Escola Politécnica, que frequentei em regime intensivo até prestar exame em início de 1958, no Ita e na Poli. Aí me saí bem melhor no ITA mas não o suficiente para ser aprovado e o mesmo aconteceu na Poli.

No ano de 1958 pedi a meu pai que me pagasse uma pensão em SP e ainda o Anglo que era o “melhor” para quem quisesse engenharia. Aí meti a cabeça no estudo. Lembro-me que o Anglo fazia uns simulados, distribuindo as notas e a classificação.

Procurava ficar sempre entre os primeiros 200, ou no máximo 300 classificados. Uma vez, em química inorgânica com o Feltre, consegui o primeiro lugar entre todos os alunos do Anglo. Eu fazia a turma da “Poli”, pois diziam que era mais “puxada” que a turma do ITA. E assim em inícios de 1959 recebi um telegrama do ITA...

ALUNO DO ITA

No ITA, quis juntar-me aos aeronáuticos, pois a matemática me trazia problemas... Resolvi tirar um brevê de piloto. Tinha uma bolsa do DAC, mas a gente tinha de pagar o curso, apresentar o brevê e então ser reembolsado.

Fui fazendo o curso como podia até que um dia… O instrutor decidiu que eu devia aprender a fazer o voo de coordenação com curvas alternadas em voo planado, ou algo assim.

Naquele dia o Natalino ou o sucessor dele, cujo nome não recordo devia ter feito alguma comida mais pesada. O fato é que depois de uma hora de voo, pousamos, desci do avião e vomitei tudo e mais um pouco... Ali acabou a promissora carreira de um roceiro que queria ser piloto privado.

No CPORAer, tive como padrinho da formatura o saudoso capitão Borges. Formei-me em 4º lugar. Acho que daria um bom milico...

Sobre o professor Gerald Albert Fleischer: devo confessar que eu e o “bulletman” tínhamos andado às turras durante o curso do ITA. Não me lembro qual o motivo, mas me irritei muito com ele enquanto professor. Daí, com o pavio curtíssimo que herdei de meu pai, resolvi escrever uma cartinha “delicada” ao mestre, visto que meu inglês não me permitia dizer tudo o que queria pessoalmente e de viva voz.

Meu conhecimento de inglês advinha daquilo que aprendi no curso secundário, sendo que na 3ª, 4 ª séries do ginásio e também nos três anos de Científico tive um professor que se chamava Dr. França, o que já é um tanto estranho para quem ensina inglês. Esse Dr. França não queria ensinar nada de gramática nem de conversação nem de nenhum dos quatro modos de aprender inglês (reading, listening, speaking, writing). O que ele queria é que decorássemos com boa pronuncia alguns trechos clássicos da língua inglesa, como o poema “Oh Capitain, my Capitain” de Walt Whitman, ou do Hamlet de Shakespeare do “to be or not to be”, ou ainda o trecho do discurso de Marco Antonio aos romanos, diante do César assassinado “Friends Romans, countrymen, lend me your ears...”

Voltando ao Fleischer, escrevi na minha cartinha “I dislike you” entre outras barbaridades. O homem-bala ficou uma fera, e num primeiro momento queria me reprovar... creio que o Jeremias Chrispim e alguns outros explicaram que era devido à dificuldade da língua etc. e tudo ficou por isso mesmo.

VIDA PROFISSIONAL

Na década de 60 comecei a vida profissional como auxiliar de ensino no ITA. Escolhi essa opção a duas outras que me foram oferecidas, engenheiro na indústria de tratores VALMET (hoje VALTRA) em Mogi das Cruzes e engenheiro na PETROBRÁS. Acho que escolhi bem...

Só que eu era auxiliar de ninguém, pois logo me deram uma disciplina para lecionar sobre “Métodos e Medidas de Trabalho” sem nenhum professor titular...

Já no semestre seguinte fui designado junto com um colega da Universidade de Minas Gerais para assessorarmos o prof. Fleischer (parece que ele nem incluiu em seu CV essa experiência no BRASIL). Devido ao acontecido quando eu era aluno, vocês podem imaginar a minha situação quando fui designado para seu assistente. No entanto, esse curso de “Engenharia Econômica” foi muito bem organizado e ainda melhor lecionado. Eu e o Antonio Maria, o outro assistente, assistíamos aulas privadas em inglês com o “Bulletman”, e depois as reproduzíamos aos alunos do ITA, estando o Fleischer sempre presente na classe. Aprendi muito de matemática financeira e escolha entre alternativas, o chamado “Engineering Economics”. Pois nos demos bem. E, como eu disse, foi um curso interessante.

Estive depois na Kansas State University onde fiz um curso de mestrado com ênfase em engenharia industrial, ou engenharia humana.

De regresso ao Brasil resolvi deixar o ensino e, já com dois filhos, procurar um emprego. Como interiorano que era e ainda morando em casa da sogra, acabei por me empregar numa siderúrgica de Mogi das Cruzes, a Aços Anhanguera. Detestei a siderurgia. Ali fiquei um ano e meio e depois fui para uma empresa de montagens industriais chamada SETAL. Então o Charly Künzi – mais tarde Reitor do ITA –, convidou-me para uma experiência como autônomo, no projeto de uma nova fábrica para as geladeiras CONSUL. Não deu certo, pois o dinheiro não dava para viver. Voltei ao ensino e fui lecionar em Universidades particulares, sempre em Mogi das Cruzes.

A DÉCADA DE 70

Permaneci lecionando por um ano (1970). Aí eu soube que uma nova empresa chamada EMBRAER havia sido constituída e bati à sua porta. O Ozires Silva precisava de alguém para introduzir a era dos computadores na empresa... Antes de me contratar, mandou-me para ser sabatinado pela IBM, a fim de saber se eu serviria ou não para ser o homem dos computadores na EMBRAER. Lembro-me de que o Ozires não era inteiramente a favor da introdução da era de computadores na EMBRAER. Dizia que isso iria tirar o emprego de cerca de 300 funcionários... E eu me vi frente à frente de uma equipe de 10 gerentes da IBM, que queriam saber o que eu pretendia e poderia fazer na EMBRAER... Parece que fui aprovado pois o Ozires me contratou. São José dos Campos naquela época era pouco mais do que no meu tempo de ITA. Teria uns 50 mil habitantes e era prefeito o saudoso Sérgio Sobral de Oliveira, que havia sido nosso Comandante no CPOR-Aer. A tarefa de montar uma equipe de Informática ali não era nada fácil. Quando aluno do ITA tive meu primeiro contato com o famoso IBM 1620, com seus 114 k digitos decimais de memória. Já na Kansas State, minha dissertação sobre “curvas de aprendizagem” foi toda baseada em estatística com uso intensivo de computadores. No ITA o meu “programa” era perfurado em cartões e entregue ao operador do 1620, através de uma janelinha. Depois eu olhava através do vidro, a sala em ar condicionado e o operador a operar aquele ser distante. Se não me engano o Xismit (Luiz Celso) era um dos que tinha acesso ao recinto sagrado... Pois bem, já na Kansas State, reservei um horário no IBM-1620 de lá, e no horário indicado lá fui eu para a sala do computador. O aluno do horário anterior saiu e eu entrei na sala. Só então percebi que aquele computador era para uso de nós alunos, e que cada um o operava, sozinho no seu horário. Fiquei olhando para a máquina, da qual nunca chegara nem perto no ITA, e pensei:

– Deve haver em algum lugar um manual sobre como operar este bicho...

E foi assim que aprendi sozinho a operar e usar o IBM-1620, e depois o IBM-1401...

Viver no ambiente universitário americano foi interessante para me situar na área de processamento de dados. E assim me tornei chefe de uma incipiente seção de processamento de dados na EMBRAER, subordinado ao colega Irajá e ao diretor técnico Guido Pessotti.

Nessa fase da EMBRAER fiquei 3 anos, tendo introduzido o IBM /370-135 com sistema operacional OS/VS 1 na empresa. Esse computador era muito bom na época, mas para programá-lo precisei recrutar 13 jovens joseenses com “zero” de conhecimento de informática, para os quais a IBM deu um curso na linguagem PL/1.

Depois de 6 meses pudemos fazer alguns sistemas da Embraer, da área administrativa, comercial e de pessoal e também processamento para a engenharia com seus cálculos de estrutura pelo método de elementos finitos, e começamos a imaginar como fazer um controle dos desenhos no computador.

A EMBRAER, recém constituída, precisava emitir cautelas de ações para seus 120.000 acionistas. O caso era sério, pois precisávamos criar uma rotina para escrever números por extenso, com terminação no feminino. É isso mesmo, aquilo que qualquer maquininha de preenchimento de cheques faz hoje em dia. Isso foi feito e as cautelas emitidas. Elas tinham que ser assinadas por dois diretores cada uma. 120.000 acionistas requeriam então 240.000 assinaturas. Como eram 5 diretores (Ozires, Guido, Ozilio, Alberto e ... fallhou a memoria), cada um teve de assinar 48.000 vezes... foi um horror; logo depois foi introduzido o sistema de chancela mecânica.

Um dia o Guido e o Ozilio me chamaram e disseram:

– Estivemos em uma feira de máquinas operatrizes e vimos uma fresadora que opera com controle numérico. Já compramos uma e precisamos programá-la. Atualmente, para cada peça que vamos produzir nela enviamos o desenho aos USA e o fabricante nos fornece a fita de mylar que comanda a operação. CAD-CAM ainda era coisa de filmes de ficção científica. Hoje, com o extraordinário progresso que houve com essas máquinas devido aos japoneses e depois o advento da robótica, o que vou falar está para um robô como o homem de neandertal para o homo sapiens.

Mas naquele tempo era preciso o uso de um programa usando uma linguagem (APT) amigável para os engenheiros que pouco contato tinham com computadores. No entanto, era necessário desenvolver uma interface entre essa linguagem de alto nível (APT) com a linguagem de máquina. A dita cuja usava programas feitos em fitas perfuradas de mylar. Para isso foi montada uma força-tarefa incluindo gerentes da IBM, pessoal da minha seção (que tinham 6 meses de contato com o computador) e do fabricante da fresadora.

Após 6 meses de trabalho foi possível tomar uma peça, programar sua usinagem em APT, através da interface criada, produzir um programa em linguagem de máquina e perfurar a fita de mylar correspondente. Cada peça teria uma fita a ser carregada na fresadora. E assim a Embraer teve sua primeira máquina CNC.

Só pra se ter uma ideia, antes que chegasse o IBM /370-135, enquanto nós treinávamos os programadores e futuros analistas, era necessário a cada noite tomar uma Kombi em SJC e ir até São Paulo na sede da Camargo Correia, que possuía um similar, e durante a noite efetuar os nossos testes de programas e voltar na madrugada para SJC para mais um dia de trabalho na EMBRAER.

Por essa época o “Seu” Sérgio Sobral, prefeito de SJC, pediu ao Ozires que me cedesse em tempo parcial para auxiliá-lo na criação de um sistema de processamento para a prefeitura. Assim fui, por dois anos, assessor de “Seu” Sérgio.

Em 1973 o Brasil amanhecia... o Banco Auxiliar de SP procurou meu subchefe da seção, o Lobato, e o convidou a ir para o banco. O Lobato me indicou e o banco veio a mim.

Era época de inflação relativamente pequena no Brasil e o banco comprou meu passe dobrando o salário da EMBRAER, que já era competitivo.



Turma de 1963

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