T63-Dion-biografia

De wikITA

Biografia do colega José Dion de Melo Teles, extrato do seu livro

DETERMINAÇÃO E PACIÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DO FUTURO

Entrevista e texto: Fernando Antônio Ferreira de Barros, SEDOC/CNPq

Capítulo 2 – O impacto do ITA no seu processo de formação

Tabela de conteúdo

A caminho do ITA

Logo que acabou o ano escolar em 1957, eu peguei um DC-3 que fazia escala em Bom Jesus da Lapa para Belo Horizonte, onde tinha um primo - o neto mais velho de meu avô - o José Emídio de Melo Barbosa, que estava acabando de fazer o curso de engenharia civil. É interessante observar que existia um fluxo de piauienses para Belo Horizonte, um outro para Salvador e um menor para Pernambuco. Na realidade, o Rio era o grande polo de atração, mas às vezes – como fez o Carlos Castelo Branco, o Castelinho – passava por Belo Horizonte. Outros ficaram por lá, a ponto de um deles chegar a ser governador de Minas.

Tive, então, um pequeno convívio com José Emídio, o necessário para ele me ajudar a me aclimatar. Como não tinha recurso para pagar um cursinho, tudo o que consegui foi ter acesso à biblioteca da Escola de Engenharia, por meio dele e de seus amigos. E fiquei morando numa pensão onde ele fazia as refeições, no bairro Floresta, próximo do então prédio da Escola de Engenharia de Minas Gerais.

Eu tive mais condições, por autodidatismo, de me orientar com base nos vestibulares anteriores e verificar que eu precisava adquirir aprofundamento de conceitos e não simplesmente ser um ‘decoreba’. Esse esforço continuou em São Paulo, quando meu primo já trabalhando como engenheiro na construção da BR-116 - que liga São Paulo a Curitiba – me estimulou a mudar. Trabalhava ele na região da fronteira, em Juquitiba, numa empreiteira de grande porte e ficava lá semanas a fio. Assim, pouca ajuda pessoal podia me dar. Então, o que fiz em seguida? Eu me sentia deslocado em Minas, pois o meu destino final era São José dos Campos. Por isso, decidi ir para São Paulo no ‘peito e na raça’. Todavia, tinha feito economias, pois consegui trabalhar em Belo Horizonte numa emissora de TV e em uma empresa de mecânica de solos que tinha contratos para a construção da estrada de Belo Horizonte para Brasília. Havia necessidade de se fazer muitos ensaios de solo para ver se o tipo de solo era adequado, para fazer a sub-base e base de trechos da estrada, porque às vezes tem-se de remover o material e substituí-lo pelo material trazido de jazidas que tem a composição adequada. Lembro de ensaios que eram feitos, como por exemplo o ‘Proctor California’ e o ‘Plasticidade Casagrande’. Aprendi todas aquelas técnicas e trabalhava também carregando sacos de terra. Esse tipo de trabalho me deu uma ajuda para sustentar os custos da pensão e manter o que havia poupado.

Já tinha feito dezessete anos em janeiro quando peguei um ônibus da ‘Expresso Brasileiro’ para São Paulo. Desci na Avenida Rio Branco quase com a Duque de Caxias, pois na época não tinha estação rodoviária, e peguei um táxi dizendo: “Leve-me para uma pensão”. O motorista me levou para a pensão da mulher dele que era na rua Rego Freitas, frente à Igreja da Consolação. A rua Rego Freitas estava dentro do que era chamado a “boca do luxo”, onde tinha as boates de maior porte, em contraponto com a “boca do lixo” que era o meretrício na proximidade da rua Aurora. De modo que, eu fiquei mergulhado numa confusão de ambientes e pessoas.

Naquela pensão, viviam duas estudantes, duas jovens de Três Lagoas, Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul, do outro lado do rio Paraná. Elas estavam estudando Química e Pedagogia, fazendo um esforço tremendo; eram negras e eu admirava muito o esforço daquelas duas moças estudando longe da família. Tinha uma outra moça que vendia catálogos telefônicos e era uma pessoa muito interessante. Depois eu a perdi de vista. De um modo geral, eram pessoas que passavam, não tinham muito vínculo, era uma pensão de alta rotatividade. Passei lá poucos meses. Lá morava também uma senhora italiana, que vivia de uma pequena pensão deixada pelo marido, e que começou a me observar.

Um belo dia, ela chegou para mim e disse: “Meu filho, você não pode ficar aqui nesse pandemônio”. Eu estudava na própria pensão com o material que tinha para estudar. Era muito ruído, muita confusão, eram hóspedes que geralmente apenas pernoitavam. Aí, ela me mandou pagar a pensão, pegamos um ônibus elétrico e fomos para o bairro da Aclimação para uma casa na esquina da rua Saturno com a rua Loureiro da Cruz. A casa era de uma senhora árabe que já tinha família criada – só tinha um filho solteiro que restava – e que alugava quartos para estudantes. Pois bem, essa senhora italiana – que infelizmente não guardei o nome - foi meu ‘anjo da guarda’ que pesquisando os classificados do jornal Correio Paulistano ia pessoalmente, com seus poucos recursos, verificar preço e qualidade de ofertas de quartos até que selecionou esse local. A esse respeito, devo dizer que acredito que não exista coincidência, pois a gente tem que pensar que a mão de Deus está em tudo. Essa mudança foi muito boa, pois havia lá, nessa casa, estudantes que faziam o cursinho para engenharia e um - que chegou depois de mim - para medicina. Os que iam estudar engenharia eram da região de Marília, Tupã, do interior de São Paulo e eles estudavam num curso de vestibular muito famoso – e caríssimo para mim – em São Paulo, o Anglo-Latino.

Depois que me alberguei, veio um outro que ficou comigo no mesmo quarto, o Zelman Debert. Era bem jovem como eu e filho de uma família judia, que sobreviveu ao Holocausto, e que morava em São Paulo mesmo, no Belenzinho, os pais tinham uma pequena loja de móveis. Ele veio parar também naquela casa por alguma razão, selecionou uma casa de uma árabe (Viva o Brasil!) para prestar vestibular para medicina na famosa ‘Pinheiros’, o que era um brutal desafio também, uma faculdade da USP de primeiríssima, muito concorrida. Então, quando começava o Sabbath, antes do pôr do sol da sexta, ele saía a tempo suficiente para estar em casa – creio que eles eram ortodoxos - e voltava no sábado à noite; e aí, no Domingo afora seguíamos estudando no mesmo quarto. Nós varávamos a noite e ouvíamos as estações de rádio saindo do ar.

Nessa pensão, duas pessoas, um português e um potiguar que se chamava Manuel Brito, tomavam refeições. O português era dono de uma oficina de rádio no bairro e que, com o tempo e conversas, os dois verificaram que alguns problemas de eletrônica que para eles eram muito complicados, eu tinha capacidade de resolver. Então, eu passei a ajudá-los e ganhar pela minha participação no trabalho deles. Mais uma ‘coincidência’. O Brito, o potiguar auxiliar do dono da oficina, cruzou de novo a minha vida. Depois retorno a ele que era inteligentíssimo, aquele tipo de sujeito que o Brasil está estatisticamente cheio e que se tiver uma oportunidade desponta genial; ele era muito jovem e extremamente arguto, extremamente investigativo. Se ele tivesse tido a chance de uma boa formação teórica, ele teria sido um engenheiro fantástico.

Bem, passei um tempo nesse lugar e tive o benefício das apostilas do curso Anglo-Latino emprestadas. Eu não podia frequentar, mas eu podia ter o material e a interlocução com os que estavam indo ao curso. Nesse período, mantinha contato com o Piauí pelo Correio. Não existia telefone nessa época nem para uso local, imaginem para longa distância. Não era trivial uma residência ter telefone, além do que, você tinha que ligar via rádio, pela Radional ou Radiobrás; era por horário aprazado, muito caro e para completar, minha mãe não tinha telefone. Eu sempre imagino a grandeza de minha mãe de abrir mão do filho mais velho e tolerar administrar todas as apreensões que assaltam a uma mãe. Eu devo isso a ela, foi uma pessoa fantástica. Ela tinha confiança nos filhos, talvez devido à forma como ela nos criou, no diálogo, na racionalidade. Que me lembro, havia apenas a restrição a banhos no rio Parnaíba e no Poti, por medo de afogamento, sobretudo depois que um colega de ginásio assim morrera. Esse era um ponto de controle e cobrança. Se tinha outro medo, este era de que os filhos seguissem a vida dispersiva de bebida e boêmia que a cidade estimulava para os adolescentes.

Bem, quando chega no fim do ano de 1958, eu prestei o vestibular no ITA em São Paulo. O exame era feito no prédio da Escola Politécnica da USP - Poli, ainda na Avenida Tiradentes. O ITA, por meio de acordos, usava, em vários lugares do Brasil, os prédios públicos de universidades e só mandava o pessoal e as provas. Vale salientar que do pequeno grupo de colegas do Liceu Piauiense que se interessou em fazer o vestibular para o ITA apenas eu terminei por enfrentar essa temeridade. Um deles fez vestibular para medicina, outro para engenharia e o terceiro para agronomia. Depois, peguei um ônibus para Belo Horizonte onde fui prestar também vestibular para a Escola Federal de Engenharia de Minas Gerais. Fiquei poucos dias na mesma pensão, lá na Floresta aonde a dona da pensão era casada na família Caldeira Brandt, que é uma família de longa linhagem de Diamantina. Ela era do Estado do Rio, tocava a pensão, pois o marido não fazia esforço. E o neto dela, na época em que morei lá, era presidente da UNE. Eu me lembro dele distribuindo bilhetes aéreos da Panair do Brasil para amigos, amigas e tal. Os recursos que a UNE tinha eram sobretudo fornecidos pelo Governo, basicamente pelo MEC, inclusive as passagens da Panair. Uma vez, ele me levou ao Rio para ver a sede da UNE no Flamengo, onde pernoitei. Devo dizer que fiquei escandalizado com o nível de confusão, de caos que era aquilo. Fiquei muito chocado, como pequeno-burguês, com a forma com que os interesses estudantis eram liderados.

Antes de ir prestar vestibular em Belo Horizonte, deixei o endereço dessa pensão em São Paulo, para a possibilidade de vir a receber um telegrama, porque também as comunicações eram por telegrama, quando eram urgentes. E aí aconteceu de chegar o telegrama do ITA dizendo para eu me apresentar porque eu tinha passado. Corri ao prédio da Escola de Engenharia e estava lá afixado o quadro de resultados: eu estava também aprovado em Belo Horizonte. Quando cheguei e dei meu nome, os veteranos conferiram e quiseram já cortar meu cabelo, mas expliquei: “Por favor, só vim aqui pegar documentos que depositei aqui para matrícula. Acontece que eu vou precisar desses papéis para fazer a matrícula no ITA”. Aí os veteranos olharam para mim e disseram: “Bem, se é assim, então leve seu cabelo”.

Em seguida, peguei um ônibus para São Paulo e depois um outro da empresa Pássaro Marrom para São José dos Campos. Parei próximo à entrada do CTA e fui com minha malinha - com os poucos pertences que tinha – nas costas até ser abordado por um veterano. Ele me mandou fazer chá e tratá-lo por ‘nobre veterano’ e tal, tendo depois me levado à Divisão de Alunos para eu me apresentar porque eu tinha poucas horas para isso. Foi muito estresse, muita adrenalina e muito cansaço. Mas, aí eu, enfim, estava no ITA e isso já era fim de fevereiro de 1959.

A vivência no ITA

O trabalho foi uma janela para minha independência econômica e para ter condições de ajudar minha mãe. Mas, também foi um ônus do ponto de vista da visão social de Teresina em relação ao trabalhador. Havia uma herança, um atavismo que vinha do período colonial, de Portugal, no qual ou se era fidalgo ou era trabalhador mecânico, e a visão, e a valoração social era como tal dividida, clivada. Quando cheguei em São José dos Campos, encontrei um outro sistema social. Aliás, quando cheguei em São Paulo, eu já tinha percebido isso muito marcado: o teu valor é o teu valor, não existem esses degraus de relatividade. Isso é uma coisa espetacular do ponto de vista da seguinte reflexão: democracia é o sistema que garante oportunidades iguais para que as pessoas se demonstrem desiguais por valor próprio. O que é precioso na democracia é a oportunidade igual de acesso ao ensino, à saúde, ao trabalho. Esta é a essência da democracia. E não essa equalização entre displicentes e dedicados, curiosos e trabalhadores, isso não seria justo, não é? Então, na medida em que eu via a condição de crescer por esse esforço pessoal – e isso, em vez de ter algum nexo impeditivo, pois ao contrário era muito bem recepcionado – eu me vi no mundo que eu tinha sonhado. Rodeado de pessoas extremamente inteligentes, desafios intelectuais a cada instante, como, por exemplo, o maior domínio do inglês e o maior conhecimento da eletrônica. Mesmo na pensão em São Paulo, eu já tinha outro tipo de interlocução. Muito melhor que em Belo Horizonte e muito melhor do que na primeira pensão de trânsito. De forma que esse crescimento pessoal vem desde o ganho intelectual pertinente ao meu projeto, como também do traquejo pessoal do relacionamento com outras pessoas. Eu já tinha um bom fundamento de ‘ educação de copa e cozinha, de garfo e faca’. Eu nasci numa família de pessoas educadas. Eu sabia como me dirigir a um adulto, eu sabia como respeitar a circunstância, sabia falar e calar. Todavia, esse introito, essa enorme expansão de espaço para crescer, que o ITA possibilitou, foi realmente precioso. O ITA foi possivelmente a segunda maior aventura, a segunda maior recriação pedagógica no Brasil, uma vez que inverteu o processo tradicional de mandar brasileiros se especializarem no estrangeiro, e que, de volta, tentavam replicar o aprendizado e, sobretudo, o ambiente em que foram desenvolvidos seus ganhos intelectuais. Este foi o segundo caso histórico, até onde eu sei. O primeiro exemplo foi de iniciativa pessoal do imperador Pedro II, buscando apoio do “Conservatoire des Arts et Métiers - CNAM” na França. O CNAM é uma antiga e peculiar instituição do sistema universitário francês criada por proposta do sábio Lavoisier à Assembleia evolucionária. Por meio de correspondências insistentes entre 1872 e 1880 a Arthur Morin, diretor do CNAM, e a Auguste Daubrée, diretor da “École de Mines”, o imperador conseguiu o recrutamento de professores e suas famílias que se dispusessem a migrar para o Brasil, para fundar em Ouro Preto a Escola de Minas em 1876. Esta quase epopeia foi realizada sobretudo graças à liderança do professor Henri Gorceix e está nos anais da história da formação brasileira ( vide Les Cahiers d’Histoire du CNAN, nº 5, Février,1996). Ele era um jovem professor de geologia, recrutado a pedido do imperador à Daubrée e liderou um grupo de professores e suas famílias, quatro estudantes brasileiros, educados na “École de Mines” em Paris, que se radicaram em Ouro Preto para criar a Escola de Minas. Os fundadores do ITA utilizaram o mesmo conceito: que melhor seria trazer estrangeiros para vivenciar uma imersão no Brasil em conjunto com nacionais, em um ambiente internacionalizado. A escolha de professores baseada nos seus potenciais, limitações e a partir do seu denodo - a pessoa que vem para o Brasil, vem certamente com uma vontade, com uma sinergia muito grande - da sua maturidade, domínio e conhecimento que os habilitassem a conseguir transportar, criar e consolidar, no País, um ambiente sólido, sério, poliglota na busca de um objetivo. No caso dos fundadores do ITA, eles tinham um objetivo. Eu ouvia isso do próprio brigadeiro Casimiro Montenegro Filho, um cearense notável que entrou na Aeronáutica por via da aviação do Exército e depois no processo de criação da Força Aérea Brasileira, a FAB. Com a junção das aeronáuticas militares – a do Exército e da Marinha - foi criado o Ministério da Aeronáutica. Vale lembrar que os aviadores do Exército eram chamados de ‘canelas pretas’ porque usavam botas pretas e os da Marinha de ‘canelas brancas’. Creio que o brigadeiro Casimiro Montenegro Filho representava muito bem o ideal que, digamos, sintetizava uma conjunção, uma confluência dos sonhos de Alberto Santos Dumont, que nos seus escritos, ensejava que fosse criado um centro de atividades que gerasse para o Brasil todos os meios para se beneficiar do transporte aéreo, dada a vastidão do seu território.

Por outro lado, por meio, sobretudo, dos oficiais do Exército, foram direcionadas ações sob influência filosófica do Positivismo de Auguste Comte. O Positivismo é uma filosofia que se entranhou muito no tecido cultural do Exército no fim do século XIX e na sua doutrinação teve em Benjamim Constant um expoente, a ponto do dístico da nossa bandeira “Ordem e Progresso” ser tipicamente positivista. Eles ficaram entranhados do conceito, mesmo de uma crença – o Positivismo era quase uma religião – de que a ciência e a tecnologia seriam a alavanca da libertação da Humanidade. Lembremos que o Positivismo assim como o Saint-Simonismo nasceram nos albores da Revolução Industrial, do entusiasmo com a máquina a vapor, a estrada de ferro e outras maravilhas tecnológicas então anunciadas. Acreditavam os positivistas que por ações proativas e positivas, a redenção da Humanidade seria alcançada. O brigadeiro Montenegro dispunha de um pequeno conjunto de oficiais que acreditava no sonho dele. O sonho, em 1947, era gerar capacidade humana e infraestrutura local capaz de projetar, construir aviões e a necessária infraestrutura aeronáutica. Um sonho quase enlouquecido porque o Brasil ainda não era capaz de produzir bicicletas. Só em 1951, o Brasil conseguiu ter uma siderurgia (Volta Redonda) e, com isso, capacidade para produzir bens de produção. A consolidação da siderurgia no Brasil é outra aventura que começou, em 1931, com a Comissão Metalúrgica criada pelo Ministério da Guerra. A esta iniciativa juntou-se com entusiasmo o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro. Foi então transformada em Comissão Metalúrgica Nacional e depois em Comissão Siderúrgica Nacional. Estabeleceu escritório em Berlim buscando interesses em transferência de tecnologia e capitais na Alemanha para implantar uma planta siderúrgica no Brasil. Com o risco de ambiente de guerra, esse escritório foi transferido para Nova Iorque. Isso foi antes da Segunda Guerra mundial quando Getúlio era ditador.

Quando ele foi presidente eleito, na hora de negociar a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo, uma das condições estipuladas pelo presidente foi a montagem de uma siderúrgica no Brasil, em Volta Redonda. Vinte anos depois do início deste projeto o Brasil produziu pela primeira vez ferro-esponja e depois aço. São coisas que acontecem e não se percebe nos tempos que se seguem o quanto custou construir esse País. Mas, voltando ao brigadeiro Montenegro e seu pequeno grupo de oficiais: Casimiro Montenegro Filho - engenheiro aeronáutico formado pelo Instituto Militar do Exército – IME - foi certamente um dos homens de maior visão de futuro que nosso país já gerou. Ele esteve nos Estados Unidos com o coronel Leal, que era seu braço direito, empreendendo ações da própria Aeronáutica, questões de compra de partes e componentes para avião. Visitou o MIT possivelmente com o coronel Leal. O Artur S. Amorim, ex-aluno do professor Smith, certamente foi elemento de ligação nesse contato. Quem poderia esclarecer isso com mais fidedignidade seria o professor Paulo Ernesto Tolle, que foi um dos fundadores, um dos pioneiros do Ministério da Aeronáutica e do ITA. Foi ele quem escreveu toda a legislação que afrontou na época os estamentos e as convicções sobre o ensino superior no Brasil. Ele acreditava em fazer uma inoculação, no CTA, de inteligência internacional para dar uma salto qualitativo gigantesco. Mas não foi só isso: ele queria criar homens capazes.

Uma das coisas que ele repetia – e eu ouvia diretamente dele – era o seguinte: “Essa escola não foi criada para formar futuros empregados e, sim, futuros empresários”. De forma sintética, a diferença que ele trouxe foi a seguinte: a formação de um homem completo - não um tecnólogo de cabeça estreita - é uma tarefa que exige bons referenciais profissionais e éticos, muito bons exemplos, para estaquear esta construção. Desse modo, na estrutura de ensino montada, havia as cadeiras técnicas, que eram todas iguais nos dois primeiros anos do curso fundamental para todos. Exigia-se, dessa maneira, o mesmo embasamento em química, de conhecimento profundo de corrosão - que é o pavor em se tratando de equipamento aeronáutico – como um sólido conhecimento de física, de matemática, tudo o que é necessário para embasar o curso profissionalizante propriamente dito.

Havia, assim, o curso fundamental de dois anos e o curso profissional de três anos, ou melhor, de seis períodos. As aulas eram dadas a partir da primeira segunda-feira útil do mês de março e o curso era estruturado em semanas e períodos. Um período constava de semiperíodos com dezesseis semanas cada; havia uma semana de folga entre eles. Um período, então, totalizava trinta e duas semanas, com uma intercalada. Era interessante porque nos anos 1950 e 1960, as famílias e amigos estavam acostumados com o sistema tradicional de ensino brasileiro de ano corrido e só perguntavam se havíamos passado no fim do ano. Na realidade, passar por dentro do ITA - que é mais difícil do que entrar - é uma corrida de obstáculos com dez “barreiras em cinco anos”.

O sistema de ensino constava de matérias técnicas, mas tinha uma diferença fundamental: o ensino de desenho técnico, por exemplo, e o projeto de máquinas. Como o pressuposto era de que o aluno algum dia assumiria função de liderança, ele mais tarde deveria conduzir uma iniciativa empresarial em um país que ainda não a conhecia, não se sabia por onde entrar e nem por onde sair. Era preciso que esse estudante, um futuro profissional-empresário, conhecesse profundamente o nível de dificuldade de fazer as coisas funcionarem em nível técnico. Então, nos dois primeiros meses do ano, o estudante voltava para as chamadas ‘oficinas’. Na primeira oficina, você recebia dois tarugos de aço 1500 e ia para a forja, a martelar numa bigorna para fabricar à mão - com lima, desempenadeira e tudo mais - um alicate. Parece trivial, mas limar à mão uma superfície perfeitamente plana não é trivial. De forma que se o estudante não era uma pessoa com muita habilidade manual ia ter de desenvolvê-la ou ia perder muito material. O alicate era fabricado na lima e depois se dava a têmpera do aço, o revenimento, e só assim se sabia o quanto difícil era sua execução. Na segunda etapa, o estudante ia para as pranchetas, desenhava um dispositivo que imaginava e que o orientador aprovava. Do desenho ia para as oficinas. Aí era necessário operar máquinas–ferramentas como torno, fresa, tudo o que é maquinário para executar com as próprias mãos o que havia sido imaginado. Por quê? Porque o que era ensinado era o seguinte: “Se um dia vocês derem um comando, uma orientação para a execução de uma tarefa, muito além ou muito aquém do razoável, a pessoa que vocês estiverem chefiando vai sentir isso, e não vai lhes respeitar mais. E mais: se essa pessoa lhe passar a ferramenta e disser: então faça o senhor! Vocês saberão fazer e não vão perder a face. Vocês têm de liderar por valor próprio e não por valor imposto”.

Isso era precioso. Esse sistema também continha um Departamento de Humanidades, além dos departamentos técnicos. Por mais que outras escolas tenham copiado o sistema educacional do ITA anos depois, não enxergaram ainda esse valor nele. Não há dúvida nenhuma do impacto do sistema educacional do ITA no sistema superior brasileiro, sobretudo nas engenharias. É bom que se registre que quando o brigadeiro Montenegro foi ao MEC e submeteu o sistema curricular e pedagógico do ITA ao Conselho Federal de Educação da época - isso deve ter sido no início dos anos 50, quando começaram as aulas no Campus - houve uma negativa do Conselho, pois sua proposta foi considerada herética. Quando ele voltou do Rio, comunicou à turma que eles iam se formar e seriam potenciais desempregados, dado que o diploma não ia ser registrado no MEC. Cabe lembrar que o ITA começou a ser planejado em 1947 e as primeiras aulas foram dadas em 1949. Em 1951, começaram as aulas no Campus de São José. Houve um período de transição na consolidação do ITA, no qual foi utilizado o Instituto Militar de Engenharia do Rio de Janeiro, como base para as primeiras aulas. Portanto, o ITA nasceu, na realidade, em salas de aula do IME, com muitos oficiais, tanto do Exército como da jovem Aeronáutica, e também em salas no Aeroporto Santos Dumont, tudo improvisado. Os professores americanos vieram do MIT. O reitor era americano, o professor Richard Harbert Smith, que tinha sido o diretor do Departamento de Aeronáutica do MIT e gerou o plano de criação do ITA. Havia vários outros estrangeiros. Uns foram recrutados na Índia, como o professor Richard Robert Wallauschek, um tcheco genial da área de eletrônica, e outros na Europa. Esses professores e suas famílias - como os Gorceix anteriormente - viviam com certo desconforto, muita improvisação de ambientes de trabalho, até que o Campus do CTA, Centro Técnico da Aeronáutica – hoje Centro Técnico Aeroespacial – foi inaugurado. A primeira grande instituição gerada foi o ITA, ou seja, uma escola civil. Depois vieram outras: O Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento- IPD, o Instituto de Fomento Industrial- IFI, o Instituto de Atividades Espaciais- IAE, o Instituto de pesquisas Espaciais- INPE, o Instituto de Estudos Avançados- IAE, e o Centro de preparação de Oficiais da Reserva da Aeronáutica - CPOR-AER.

Mas, até ter condições de habitação, São José dos Campos era uma cidade que dispunha de uma infraestrutura limitada no início dos anos 50. São José, considerada de bom clima, tinha vários sanatórios e pensões para tuberculosos. Havia poucas indústrias e o acesso melhor era pela ferrovia. Era uma cidade bucólica, pequena. Não havia o parque industrial sofisticado e os serviços que tem hoje. Vale dizer, também, que nesse processo de criação do ITA não houve nenhum envolvimento de outras escolas de engenharia. Isso era um mundo estranho. Embora o ITA tenha sido criado pela energia de um pequeno grupo de militares da Aeronáutica e egressos do Exército, ou optantes pela Aeronáutica nascente, a escola é civil. O ITA é uma escola civil.

Embora os recursos do ITA viessem do Departamento de Ensino e Pesquisa da Aeronáutica, houve, no início, bastante suporte de recursos dos Estados Unidos. Eu não sei se era o “POINT IV”, mas sei que muito dos equipamentos, que vieram para o ITA, vieram como crédito que o Brasil tinha na Segunda Guerra Mundial. Nós tivemos muitos saldos por fornecimento de matéria prima etc. Esses créditos foram utilizados a partir do Tesouro Nacional via Ministério da Aeronáutica. Àquela altura, o ensino no Brasil seguia o sistema francês, extremamente francês. Havia o professor catedrático que era catedrático até a morte, quando então o seu assistente era alçado à condição de catedrático; era um “medalhão” com se dizia na época. Havia naturalmente exceções notáveis. Os que criaram a Politécnica eram titãs também. A Politécnica de São Paulo tinha um sistema pouco travado nesse aspecto. Não esqueçamos o seguinte: na formação das Forças Armadas do Brasil, existe uma distância muito grande entre uma Arma e outra por elas terem origens diferenciadas, o que induz a comportamentos diferentes.

A Marinha, por exemplo, é de origem inglesa. Foi organizada em 1822 por Lorde Cochrane, sob contrato; era a Arma para onde a nobreza imperial mandava os seus filhos, quando não ingressavam no Itamaraty. Foi uma Arma criada com os conceitos de casta e nobreza. Até hoje o comandante de um navio de guerra, se ele se dispuser, convida o seu imediato para almoçar com ele, senão ele é tratado como uma autoridade inacessível. Ele não dá ordens diretamente, todos os comandos são dados via imediato. Quer dizer, a tradição que vem da Armada Britânica ainda está vigente. Por isto, o nosso marinheiro usa um fumo preto no boné em memória à morte do Almirante Nelson. O coitado do marinheiro não sabe nem que Nelson é esse.

A outra Arma, o Exército, estruturou-se mais na classe média, classe média baixa. Recrutava onde a Igreja recrutava, entre os filhos de comerciantes e funcionários. É muito mais aberta, muito mais democrática. Cresceu com a Guerra do Paraguai, demonstrou ter mais eficácia militar daquela que era esperada e a Marinha também mostrou que tinha menos eficácia do que era presumido. Fortemente influenciado pelo positivismo, como já disse, criou e cresceu com a República.

Já a Aeronáutica, foi criada em 1941, em plena Segunda Guerra, sob forte influência americana; é liberal para os padrões estritos do Exército, para o regulamento disciplinar do Exército. É uma Arma muito à paisana. E dá para entender, pois quando um comandante de um avião com seu copiloto e seu mecânico de bordo saem em alguma missão, aterrissam em lugares remotos e vão praticamente por vezes dividir o mesmo local, comer e beber a mesma comida. Não podia ser de outro jeito. Então, essa Arma, muito paisana, muito mais liberal, é da qual nasceu esse sonho e deu a forma como o ITA foi construído e organizado. O grande valor ali não era a disciplina; ninguém tinha hora marcada, nem tocava corneta para dormir, ou para isso ou aquilo. A gente tinha o CPOR para cumprir como a obrigação militar, mas a escola era civil e eu vou relatar como os alunos eram administrados.

Formatura do CPOR-Aer, com o seu padrinho e conselheiro prof. Tolle

O Departamento de Humanidades era quem preparava os estudantes para se tornarem empresários. O aluno tinha de ter suficientemente conhecimento de algumas coisas e mais que isso, uma mentalidade, uma cabeça arejada. Por exemplo, o Departamento promovia um nível mínimo necessário de proficiência em inglês. A biblioteca tinha basicamente livros em inglês, alguns em espanhol, francês, e em alemão. Tinha-se que aprender também todos os conceitos básicos de direito romano e seus desdobramentos em propriedade industrial, em direito cível, tributário, para poder dialogar, no futuro, com um advogado. Ou até mesmo, considerando a hipótese de se vir a empresar em alguma coisa nascente e na necessidade de se aconselhar o mestre, o principal chefe de oficina, que estivesse com problema de sucessão na família, de alguma coisa de inventário, esse conhecimento poderia ser uma ajuda também. Contabilidade, análise de balanço, microeconomia, tudo isso estava no currículo. Aprendia-se, assim, a fazer um balanço, a saber o que era uma nota promissória e assim por diante. Além disso, tinha teatro, música, filosofia e outras línguas. Eu tive seis meses de russo, buscando outra fonte, porque tinha muita coisa de fronteira produzida em Barcelona, de origem de escrita cirílica, não necessariamente russa, mas tcheca e assim por diante. Então, esse Departamento de Humanidades viabilizava uma formação dos futuros profissionais com uma visão muito mais extensa, mais humanista. Isso ocorria nos dois primeiros anos. Depois de fazer o pacote obrigatório em direito, contabilidade, economia e língua inglesa, você podia optar por filosofia, sociologia, entre outras disciplinas. Mas, para ser ministrado um curso, era preciso haver uma opção, uma massa crítica de alunos. Para dar aulas de teatro vinham de São Paulo e do Rio, em datas aprazadas para dar cursos, professores que eram grandes expoentes da época. A mesma coisa acontecia com a música. Então, isso era organizado de modo que não era um corpo próprio e permanente, a não ser os professores de língua, direito etc. Tudo isso fazia a diferença, mas outra grande diferença estava no seguinte: a gestão dos alunos era feita por eles mesmos, a Reitoria não se metia na vida do aluno. O que quer dizer ‘vida integral do aluno’, pois se vivia quase isolado em comunidade, longe da família; na minha época, entravam oitenta alunos por ano. Nós éramos cerca de quatrocentas pessoas convivendo, e para ter uma convivência boa era necessário um bom conhecimento de regras, digamos, comportamentais.

A gestão das coisas relativas a essa comunidade era feita pelos estudantes por meio de um código ético gerado, cultivado, praticado e não escrito. Um exemplo de uma vertente mais induzida em sociedades baseadas mais na lei comum – “Common Law” em inglês - do que no código romano. Não era necessário escrever, mas conhecer. A Carta Magna inglesa, por exemplo, nunca foi, nem está escrita. Essa cultura foi trazida, possivelmente, pelo pessoal da Aeronáutica que foi treinado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra. Então, a chamada ‘Disciplina consciente’ do ITA era uma conjunto de preceitos que os estudantes passavam, de turma a turma, por um processo inteiramente verbal em que, o que valia era o espírito e não a forma. Se alguém dizia: “Calouro/ bicho, durante o trote, você não tá autorizado a sair do campus”, não tinha esse negócio de interpretar, pois não era uma ordem irracional, isolada; o espírito desta colocação era de que não se devia sair, pois a convivência entre eles estaria prejudicada. Então, o preceito a observar era que estávamos em época de intensa convivência para transferência de informações.

Essa transferência de informações era feita durante o trote, em março, quando chegavam os calouros. Havia uma comissão de trote e um código de ética do trote. Em geral, onze estudantes veteranos cuidavam das coisas pertinentes à transferência da tradição oral de comportamento e de condução do Centro Acadêmico. O Centro Acadêmico Santos Dumont - CASD, que não tinha estatuto escrito, era o gestor da vida dos estudantes. O trote tinha diferentes sequências tradicionais e tinha mecanismos de fortalecimento de uma relação solidária. Não era uma coisa brutal. Ele era um exercício de formação de pessoas. Havia as coisas tradicionais e coisas muito hilárias, muito engraçadas. Tinha uma visita ao túmulo do ‘Profeta Assis’, que ninguém sabia afinal quem tinha sido, e ia todo o mundo vestindo um lençol, de branco com turbante, uma vela na mão. Saía-se em procissão até uma represa, que fazia parte do sistema de provisão de água, e aí era declinada a grande previsão feita pelo profeta: “Muitos ‘bichos’ se rebelarão e muitas cabeleiras cairão por terra”. O ‘bicho’ tinha de usar uma tabuleta, do tamanho padrão, em que tinha o nome dele bem pequenininho e o apelido de calouro - atribuído a ele por algum veterano - bem grande. O meu era ‘Xuxu’; meu nome Dion aparecia bem pequenininho. Então, com aquela tabuleta (que se usava constantemente na aula, em todos os lugares), os veteranos podiam reler e ter a certeza que guardara o nome. E o veterano não, ele não usava nada. Ele dizia o nome, mandava o calouro repetir, e ficava naquele exercício até ele repetir sem gaguejar. Era um negócio desequilibrado, pois eram em torno de oitenta contra trezentos e vinte estudantes.

A estrutura, o funcionamento e o papel do Centro Acadêmico Santos Dumont

O Centro Acadêmico era uma estrutura bem concebida, um sistema extremamente democrático. Elegia-se os representantes de cada ano. Esses representantes, por sua vez, tinham várias funções de relacionamento entre a turma do ano e a estrutura do Centro Acadêmico. Que estrutura era essa? Era formada por uma assembleia geral, departamentos, comissões e conselho fiscal. Existia um regimento de funcionamento e documentação como se fosse base para a gestão de uma sociedade anônima. Os responsáveis para cada função eram eleitos pela assembléia. Entre as comissões, além da de prestação de contas, lembro a de viagem, pois todo quarto ano angariava recursos para fazer uma viagem, usando os aviões da FAB. Os professores acompanhavam os estudantes que faziam um ‘tour’ pela Europa, conhecendo indústrias etc. Nesse caso era prestado conta de quanto dinheiro tinha sido angariado e como foi usado.

Lembro ainda do Departamento Comercial que ajudava os alunos a suprirem itens que precisavam como, por exemplo, réguas de cálculo. Na época não tinha computador, nem essas maravilhosas maquinetas de calcular, de hoje em dia. Usava-se mesmo réguas de cálculo que eram importadas. O Centro Acadêmico consultava quem queria uma régua - uma “Pickett” americana em alumínio ou uma japonesa, ou coisa que o valha - e colocava os pedidos de compra e nós pagávamos. Essa iniciativa era um conforto para adquirirmos todo o material escolar que precisávamos.


Desenho feito por Francisco Leme Galvão (Turma de 1959) para os cinzeiros do Baile do Besouro de 1958

Havia também o Departamento Social que cuidava das festas, dos relacionamentos com a sociedade. Havia muitas festas, tanto no campus quanto fora. Entre elas, o ‘Baile do Besouro’, uma festa de congraçamento no final do trote. Por que ‘besouro’? Por que, no começo, o campus vivia infestado de besouros e onde tinha uma lâmpada, havia milhares. Então, os ‘bichos’ eram ‘convocados’ a coletar, em latas, o maior número possível de besouros para poder exterminar aos poucos aquela praga.

O Departamento Esportivo cuidava de todas as competições – as tradicionais com a Marinha, com a Politécnica de São Paulo, com a PUC do Rio etc. - e todo o treinamento intermediário. Era interessante que o grande entusiasta e treinador do time de futebol era o professor Antônio Lacaz Neto, matemático fantástico. Lembro também do Sérgio Porto, que era físico e gostava muito de futebol. Nesse aspecto, o entrosamento era grande com os professores.

O mais importante dos departamentos era o de Ordem e de Orientação, o DOO que funcionava uma corte de justiça. Em quê que se baseava? Na consciência pessoal aderindo à chamada ‘disciplina consciente’ baseada numa série de regras de convivência e de respeito aos outros, numa ética de comportamento entre colegas face à Escola. Vou dar um exemplo: tinha-se o direito de furar fila no restaurante caso houvesse uma emergência; mas se aquilo começava a ficar muito recorrente, um colega podia chamar a atenção, e se ele fosse recalcitrante, o representante do ano no Departamento era chamado ao contexto para aprofundar o conhecimento sobre um comportamento não esperado pela convenção.

O Centro Acadêmico tinha um presidente um vice e um secretário que supervisionavam e coordenavam os departamentos. Devo salientar que o DOO era o mais sólido porque ele era responsável por coisas extremamente consequentes na vida do estudante e no relacionamento dos estudantes com a Reitoria, com a Escola propriamente dita. A pior, a mais grave de todas as ofensas àquele contrato social era a ‘cola’. A ‘cola’ era um roubo, uma coisa grave. Então, se era comprovado que alguém ‘colou’, ele era chamado ao DOO e tinha direito de ampla defesa. Mas se fosse verificado, pelas evidências, que ele tinha ‘colado’, e, sobretudo, se era uma coisa já recorrente, ele era convidado a pedir desligamento da Escola. Podia ocorrer, todavia, faltas menores como, por exemplo, o sujeito ser suspenso de aula pelo DOO que comunicava à divisão de alunos. Ele podia ir à aula, mas estava perdendo presença, o que poderia ter consequência grave na medida em que era tolerado apenas um percentual pequeno de faltas. Caso ele tivesse uma doença ou qualquer outro impedimento, ele entrava em faixa de risco de ter de trancar a matrícula. Ademais, se o número de faltas compulsórias passasse do limite ele teria também que trancar matrícula. Essas questões, entretanto, passavam por um processo que iam desde uma chamada de atenção pessoal - “Olha, fulano, por favor, você sabe qual é a regra”- até o desligamento, de forma muito discreta. Tudo isso era transmitido já no primeiro mês durante o trote.

A transmissão desses valores era uma questão extremamente cuidada porque o cerne do espírito do ITA estava lá. Desse modo, não se via uma ponta de cigarro no chão porque isso era trabalhado como valor. Respeitava- se também o sono do colega de quarto e outras questões de ética de relacionamento interpessoal, pois senão o convívio poderia virar um inferno. Outro exemplo: como havia estudantes de origem humilde, durante o trote, para não constrangê-los, todos andavam a pé, mesmo os que tinham bicicleta. Ninguém tinha carro, a não ser um aluno que era paraplégico. O Brasil, ao fim década de 1950 e começo dos anos 60, não era o Brasil de hoje. Mas para equalizar - vejam o espírito democrático - todo mundo a pé. O trote que transmitia esses valores tinha aspectos interessantes de relação interpessoal. Por exemplo, um veterano que resolvia orientar um determinado calouro lhe dizia: “Bicho, hoje às sete e meia, o veterano do grupo do apartamento tal, tá querendo tomar chá e você vai fazer o chá.” O ‘bicho’ chegava lá e fazia o chá, tratando o veterano como ‘nobre’ veterano, era nobre pra cá, nobre pra lá. E naquela conversa, o veterano ia explicando, para o novato, coisas sobre a vivência. Ou, então, chegava e dizia: “Bicho, eu queria um serrote, te vira”. E o calouro descobria que, dentro dos edifícios de apartamentos, havia uma marcenaria para quem gostasse de trabalhar com madeira, como havia também um laboratório fotográfico e uma biblioteca que só tinha ‘Tio Patinhas’, que era para descontrair as tensões que nós vivíamos. Tinha brincadeiras também durante o trote que eram pura bobagem. A pergunta podia vir à queima roupa: “Bicho, como é o nome do cavalo do Fantasma ou do cachorro do Fantasma? Qual o número dos irmãos Metralha? Quais os nomes dos sobrinhos do Pato Donald? E aí ouviam: “Cê num tem cultura geral, bicho”, “cê é um bicho monótono”, “cê precisa desenvolver algum ‘hobby’, algum derivativo”. Essas eram cenas das relações interpessoais, mas havia também momentos coletivos do trote. Havia o dia da ‘Maria Cebola’, evento derivado de um desenho animado sobre uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, muito caipira; um belo dia, as solteiras têm um dia de chance de literalmente ‘agarrar’ um marido. Colocavam os homens solteiros na frente e elas ficavam tantos metros ou jardas atrás. E aí o delegado, o juiz de paz, dava um tiro depois de dizer: “Quem pegar um homem, o juiz casa aqui na hora”. Então, metade dos ‘bichos, vestidos de mulher, iam pedir roupa emprestada às filhas dos professores que viviam no campus. Os homens arranjavam roupa, também, para se vestirem de caipira; era um negócio hilário, aquelas ‘mulheres’ correndo, subindo árvore. Depois, faziam o casamento coletivo. Eventos desse tipo eram realizados exatamente para criar um espírito de camaradagem, de equalização de egos no ridículo.

Ao mesmo tempo, havia também um dia que a situação se revertia: era o dia que os ‘bichos’ davam trote nos veteranos. Para quê? Para ver o nível de recalque, para ver aqueles que estavam traumatizados e precisavam de mais atenção e também para enquadrar veteranos abusivos. Vale dizer, entretanto, que, ao longo do trote, o DOO podia receber, reclamações dos ‘bichos’ por abuso e agir imediatamente.

Cabe salientar ainda dois momentos muito interessantes do trote sobre os quais não vazava nunca informação sobre o desfecho, ninguém dava de barbada a ninguém. Primeiro era o do Jean Paul Jacob, muito conhecido, um grande divulgador de inovação tecnológica, que acabou indo para a IBM. O Jean Paul tinha um ar sisudo de professor e entrava com um guarda-pó no único anfiteatro da escola, onde cabia uma turma toda, os oitenta ‘bichos’ e alguns veteranos. No geral, as turmas do ITA, em aulas, não passavam de doze, treze, no máximo dezesseis alunos; eram todas muito pequenas, divididas por laboratório para aula teórica. O grupo era subdividido para não ser muita gente, para o professor poder dar uma atenção mais pessoal. Mas, nesse momento do trote, juntava-se toda a nova turma naquele auditório que tinha, como nas salas de aula, quadros verdes, que subiam e desciam. Essa parte do trote acontecia logo que o pessoal chegava, com todos os novatos com o ego ainda muito escovado pela namorada, pela mãe, pelos parentes, pelos amigos: “Gênio, entrou no ITA”.

O Jean Paul entrava no auditório, dava uma aula pesadíssima de matemática avançada, cálculo integral e equações de campo etc. E os calouros não sabiam que era um outro estudante e ficavam tomando nota, desesperados. Após escrever fórmulas mirabolantes na lousa, ele apagava logo e os mais ousados diziam: “Professor, por favor, não tô conseguindo copiar”. Ao que ele retrucava: “Poxa, você não é um gênio? Cê entrou no ITA! Para que anotar? Como não entende coisa tão trivial?” Aí, no fim daquela cena toda, com os ‘bichos desesperados’, ele dava um bruto conjunto de exercícios para serem feitos para o dia seguinte; para fazer no apartamento, que era uma das coisas mais odiadas pelo estudante, porque não ficava definida a carga de trabalho. Quando o professor não conseguia cumprir com o cronograma do curso, transferia o problema para hora de lazer ou de dormir e era uma ‘chiação’. Um representante dos alunos na Congregação poderia apresentar reclamação. De qualquer jeito, o professor informava: “Vejam, aqui está o exercício ou a prova; vocês podem consultar tal fonte, mas não podem consultar mais nada.” E aquelas deveriam ser realmente as únicas fontes. Por isso é que a ética de ‘não colar’ era preciosa, para que a prática nos exercícios pudesse funcionar. A turma reagia brutalmente contra prova feita no apartamento. Outro detalhe: não havia bedel, folha de presença, nada disso. Então, se o aluno faltava aula, ele mesmo comunicava, porque ele sabia que estava dentro de um contexto ético, que se não fosse comunicado o outro observaria. Ele tinha que fazer o aviso, era ele quem tomava a iniciativa. Então, quando o Jean Paul – que se formou no meio de 60, pois apesar de ter sido da turma de 59 tinha adoecido em seu último ano - dava essa aula e passava esse exercício, à noite ninguém dormia; de manhã cedo, quando iam tomar café no restaurante, lá estava o Jean Paul na fila. Os ‘bichos’ de olheiras, desesperados, pensando em pedir desligamento, pois não aguentavam o nível de exigência da escola, sentindo-se os ‘gênios decaídos’. Na verdade, essa encenação feita pelo Jean Paul era para trazer o ‘cara’ para o chão, de propósito. A mensagem silenciosa era: “Não seja presunçoso, você tem muita coisa pra aprender”. Um outro momento da fase de trote muito interessante acontecia em fim de março, depois do jantar, sete e meia da noite por aí. Nesse período, chovia muito e o capim no campo de futebol dos militares, dos sargentos, ficava muito alto. Então, a gente levava dois veteranos e os oitenta calouros em coluna por três, marchando até chegar do lado do campo, e debaixo do poste dizia: “Bicho, tira o sapato! Tô falando português claro? Cês tão entendendo ? Sabe o que é sapato? Sabe o que é tirar? Cês têm um minuto pra tirar o seu sapato!” Mas, para tirar o sapato era uma ‘chiação’...“Agora, joga o sapato no capim!”...“Huhh.” “Tá claro não? Tô falando grego?”. Então, jogavam o sapato no capim e ficavam todos descalços. Aí os veteranos diziam: “Tchau, vamos embora.” Era aquela revolta. Se o ‘espírito de corpo’ não estava formado, cada um saía atrás do seu sapato e o trote era repetido. Se funcionava, o que era esperado, alguém dizia: “ Espera um pouquinho, não vamos cada um por si. Vamos na direção do campo, ombro a ombro, e vamos pegar os sapatos que encontrarmos até achar o último, aí a gente volta pra sair daqui.” Esse seria possivelmente o futuro presidente do Centro Acadêmico. A partir da tranquilidade expressa nesse comportamento, podia-se ver quem ia ser, no futuro, o condutor e os condutores do Centro Acadêmico. Essa era uma prova reveladora. Por conta de tudo isso, aderi a essa pequena sociedade com muito entusiasmo.

De certo modo, posso dizer que o ITA foi a minha ‘alma mater’ e é a minha referência de vida. Lá, acredito ter me desenvolvido muito, pois tive oportunidade de conviver com pessoas extremamente edificantes.

Creio, assim, que muito do que eu, mais tarde, usei de maneira consciente veio deste ambiente. Não foi só a carga teórica, de alta matemática, de teoria de campo, antenas ou computadores. A parte mais preciosa, no meu entender, foi o ambiente de convívio. Eu espero que um dia o ensino brasileiro, num país mais rico, coloque suas universidades em campi mais isolados e não como está aqui em Brasília. A Universidade de Brasília, por exemplo, devia estar em algum lugar, entre Brasília e Anápolis, porque esta é a maneira de se criar, com muita densidade, esse tipo de relacionamento.

Mais tarde, o campus do ITA criou em volta grandes desdobramentos que fizeram com que fosse possível criar um Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento - IPD para desenvolver pesquisa tecnológica de ponta, dividida em eletrônica e construção aeronáutica. O ITA era o criatório de cabeças, com base científica e de conhecimentos básicos de engenharia. Lá procurava-se formar pesquisadores, induzindo-se o gérmen da pergunta, da dúvida e do método. Já o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento estava voltado para pesquisa tecnológica de ponta. O José Israel Vargas, por exemplo, trabalhou no desenvolvimento de transistores à base de germânio.

Em seguida, criaram o Instituto de Fomento Industrial - IFI. O IFI era responsável por transferir os resultados em nível de protótipos, de pré-série do IPD, para a indústria, uma indústria ainda incipiente. Tinha- se que pegar uma indústria que já fornecesse autopeças para a indústria automobilística - que, por sinal, foi muito impulsionada por profissionais do ITA - para produzir alguma coisa com exigência aeronáutica, o que não deixava de ser um ‘upgrade’. Depois era obtido financiamento, treinamento de pessoal, ferramental e tudo mais para a indústria acontecer.

Muitas vezes esse processo acontecia com um ex-aluno do ITA. Então, em torno de São José nasceu um ‘cluster’ de empresas que possibilitou a EMBRAER. Diferente do atual conceito de incubadora, que não havia na época, esse fenômeno nasceu ao longo da Dutra, com grande concentração em torno de São José dos Campos. Se alguém tinha talento para empresar ou tinha uma oportunidade, quando havia uma demanda dirigida, tinha-se todas as ferramentas. Sabia-se organizar uma empresa, do ponto de vista fiscal, tributário, legal etc. Sabia-se o rumo, não se era um jejuno falando com o advogado ou com o contador. Desse modo, muitas empresas, que antecederam a criação da EMBRAER, foram criadas por ex-alunos do ITA, CTA e IPD, podendo-se, assim, dizer que essas instituições funcionaram também como verdadeiras incubadoras por treinarem seus estudantes para tornarem-se futuros empresários.

Hoje se focarmos, por exemplo, o Campo de Lançamento de Alcântara ou a Barreira do Inferno e tudo o que aconteceu em foguetes, (de metalurgia avançada, em química para propelentes) encontraremos muitos ex-alunos do ITA envolvidos. São os profissionais que enfiam a mão na massa –“hands on”- pois eles tiveram oportunidade de praticar em nível de laboratório, em nível de protótipo e tudo mais. Desse modo, essa constelação inicial, ITA, IPD e IFI é muito importante para se compreender os avanços ocorridos. Mas, não foi só o ITA, o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento e o Instituto de Fomento Industrial que contribuíram para esse processo; criou-se também o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, não incorporado ao campus, mas vizinho a ele, o Instituto de Atividades Espaciais - IAE, ambos civis, e o Instituto de Estudos Avançados- IEA que é mais militar, muito ligado à defesa. O ITA estava ligado ao Departamento de Ensino a Pesquisa da Aeronáutica, que é onde foi concebido o plano estratégico de longo prazo para que o Brasil tivesse a capacidade aeroespacial que possui hoje em dia. Foram planejamentos de 15, 20, 25 anos à frente.

Vale ainda dizer que o ITA foi uma translação da tradição anglo-saxônica de ensino. Ele foi propositadamente criado por alguns pioneiros da educação contemporânea no Brasil como uma espécie de denúncia do status quo, pois eles acreditavam que na nova proposição estariam contribuindo para gerar engenheiros-empresários e não para formar futuros empregados. É bom ter isso em mente: eles criaram a sementeira para que viéssemos a ter mais adiante uma EMBRAER.

Essa empresa não nasceu do acaso. E é um dos melhores exemplos do Brasil em termos de competência no segmento de pesquisa de ponta. Como também é o caso a EMBRAPA, com a agricultura e o ITA, na construção aeronáutica. Pode-se ter todos os petrodólares do mundo, mas não se vai longe se não se tiver competência própria, sólida, e que tenha objetivamente um foco como: “Queremos ser a melhor agricultura tropical do mundo” ou “Queremos construir aviões planejados para o ambiente brasileiro”. Observem que essas proposições, na realidade, são mudanças profundas de paradigma. Talvez todas essas transformações diante do sistema acadêmico possam explicar o fato de o MEC não ter reconhecido o curso de engenharia do ITA como de nível superior. O meu diploma é registrado no Departamento de Ensino e Pesquisa da Aeronáutica. Esse é um exemplo de um fato que realmente contestou o ‘cartorialismo’. Tem-se que procurar dar valor ao que tem valor e não ao que tem carimbo. A esse respeito, vale salientar que o Isu Fang, que formou-se na minha turma, fez um doutorado em Berkeley. Depois, fomos convidados eu, ele e o Valdemar Setzer, a criar o Centro de Cálculo Numérico da Escola Politécnica da USP, três ex-alunos do ITA.

Quando o brigadeiro Casemiro Montenegro reuniu a primeira turma do ITA e anunciou que eles seriam futuros desempregados, dado a recusa do MEC em aceitar o currículo e o método de ensino do ITA e a consequente falta do registro do diploma, os alunos conscientemente, tranquilamente, aceitaram ser futuros desempregados porque tal fato não era crítico para o mercado. A fé que essas poucas pessoas tinham na construção de um país por meio do embasamento tecnológico, da competência humana era tal, que isso passou a ser um detalhe. Lembrem que esses pioneiros queriam construir aviões planejados por brasileiros. Buscou-se teimosamente vários protótipos e várias frustrações foram acumuladas até se chegar à EMBRAER. O Ozires Silva, o Ozílio, outro pioneiro da EMBRAER, foram sem dúvida produtos genuínos dessa fé inquebrantável, enfrentando um desafio extremamente pesado, se for considerado o fato que o País nesse momento nem bicicletas conseguia fazer.

O Centro Acadêmico e o debate político no contexto do Governo João Goulart

O debate político no Centro só começou a acontecer em 1963 no processo de eleição do presidente do CASD. Foi a primeira vez que foi rompida uma tradição, rompeu-se um certo consenso de que aquele líder que despontasse no trote dos sapatos seria o presidente do CASD, no chamado espírito ‘iteano’ de lealdade, de honestidade, de abertura, de transparência. Pois havia, então, toda uma rota para aquele líder chegar a presidente. O ‘cara’ não se tornava presidente por demagogia, ele não tinha o quê prometer numa sociedade dessa, a não ser aperfeiçoamento via esforços. Mas, a turma posterior à minha atropelou essa regra com base num conteúdo ideológico muito grande – era tempo do governo de João Goulart – e, até então, não influente. Depois a gente entendeu que este processo estava associado ao fim do governo Goulart e a efervescência que esse país estava vivendo.

Assim, quando surgiu a proposta dessa direção eleita do Centro Acadêmico contra a tradição da comunidade, para filiar o Centro Acadêmico Santos Dumont à UNE eu comecei a refletir sobre todo esse processo.

Lembrava da minha visita à sede da UNE no Flamengo, quando morei em Belo Horizonte e fui convidado pelo então presidente da UNE, que era um Caldeira Brandt. Como afirmei anteriormente, voltei chocado, como pequeno burguês, com aquela bagunça e aquele mau cheiro que reinavam no ambiente. Era uma população flutuante, sem ordem e sem rumo. Havia uma corrupção de valores e muitos oportunistas ali. Eu vi gente explorando gente, gente explorando a expectativa dos outros, como salvadores da pátria, como condutores de bandeiras falsas, vazias. Esta memória estava na minha cabeça, eu era testemunha, eu não sabia de ‘ouvir dizer’ sobre a UNE. Desse modo, comecei a alertar o pessoal no ITA e na rua Caiubi. Dizia: “Turma, assim como existe carne pra canhão, existe inteligência pra canhão. Tenham cuidado, porque se vocês querem transformar o País, vamos persistir no trabalho e no conhecimento e no uso efetivo deles para conseguir. E não sair por aí querendo destruir instituições e criar uma República comunista ou socialista, isso não vai resolver”.

Mas, não tive eco e me afastei. Segundo as minhas convicções, não era por ali. Se você é cristão, se você acredita que deve cuidar do próximo e dos mais desvalidos, não é por meio da violência. Você tem de construir as coisas com paciência, com caridade. Meu credo era esse, franciscano. Não esqueçamos que os dominicanos foram, de longe, os mais zelosos gestores da Inquisição, principalmente na América espanhola. A ordem criada por São Domingos montou a primeira cruzada na Europa, que acabou sendo contra os próprios cristãos, contra os albigenses, os cátaros, foi uma mortandade. Acredito, assim, que quem tem um pouco de visão histórica de mundo tem um pouco mais de critério para raciocinar. Eu também fui da Juventude Universitária Cristã - JUC, e participava de reuniões no Convento dos Dominicanos na rua Caiubi, lá em Perdizes, onde frei Beto estava ainda bem jovem, imberbe. Os frequentadores eram jovens muito idealistas. Fui levado a participar desse grupo, por volta de 1959, pelo meu colega de quarto, o Luíz Alves Neto, que era de uma família extremamente católica, muito convicta em procurar ajudar o próximo. Ele me convidava para passar o fim de semana com a família, que morava em Perdizes. E a missa que a gente ia era em Perdizes, no convento. Havia também o Amir Khair, muito católico, carioca, também com essas convicções, que frequentava lá e que seria em seguida meu colega de apartamento. Mais tarde, ele foi Secretário de Finanças da gestão da Erundina como prefeita de São Paulo. Bom, então, o quê ocorreu? Eu vi aquele mar de bons propósitos, muito bem frequentado, num ambiente em que se tinha um tratamento muito bem desenhado para inocular em cabeças de jovens sedentos de justiça. Lia-se ‘Medo ou Liberdade’, lia-se muito Gustavo Corção, havia uma sequência de leituras recomendadas que induziam a uma revolta enorme contra o status quo. O jovem saía dali com um tijolo na mão para destruir qualquer vidraça.

Assim, quando houve a Assembleia Geral para decidir essa proposta de filiação, eu já sabia como seria a condução daquela Assembleia Geral, pois além de ter feito parte do Diretório – onde fui representante de ano - eu conhecia isso do lado de fora também. Tem um grupo de pessoas que vai para lá para uma coisa razoável, no tempo e no tema. Quando começa a suceder aquele monte de discursos para encher lingüiça, para levar ao esgotamento, aqueles que pensam no dia seguinte, na carga de trabalho (‘ainda tem um exercício para fazer’, ‘um estudo teórico para fazer’), começam a ir embora. Aí propõe-se votação da matéria, mas não tem quorum. Daí se pede uma segunda convocação da Assembleia, e, assim, chega-se a uma aprovação com qualquer quorum. Esse processo é uma maneira suja de manipular os outros. O que procurei fazer? Eu me preveni com outros colegas que estavam mais na linha de preservar o Centro Acadêmico como um centro de formação de pessoas, dentro desse código não escrito etc. Tenho a convicção que o Centro, caso se filiasse à UNE, teria sido corrompido. Não é que nós fossemos um ‘bando de alienados’, que era o argumento utilizado; mas acreditávamos que o diferencial do ITA estava na evidência de que o trabalho, o conhecimento e a boa fé é que funcionam. Então, na hora dessa segunda convocação trouxemos gente, acordamos gente, deu quorum, e a proposta não passou.

A proposta era articular o Centro Acadêmico à UNE e aí passar a ter as regras e a orientação de tudo que fosse ditado pela UNE. Todavia, essa era a posição de uma minoria, muito pequena, de que o modelo do nosso centro acadêmico era uma alienação. Alienação à realidade nacional na qual “só um por cento dos que entram no curso primário chegam na universidade”; era um discurso cheio daquela argumentação de consciência pesada, de alienados, de elite, de isolados, dentro de uma nuvem ou dentro de uma torre de marfim. Isso era o argumento básico, “nós precisamos ir para a planície, nos igualar aos outros”; coisa que eu não acreditava, porque eu vim da planície, passei por uma série de experiências de morar em pensão etc. Conheci um presidente da UNE, conheci a UNE, eu tinha convicções muito sólidas de que isso não ia acrescer nada ao Centro Acadêmico do ITA.

Mais tarde, infelizmente, a ‘Revolução de 64’ mutilou de certo modo tudo isso, porque obrigou todos os centros acadêmicos a ter um estatuto escrito igual, pasteurizaram tudo. Foi o Suplicy de Lacerda, o Ministro da Educação, que fez essa desgraça. Depois tudo foi recuperado, é claro que ninguém levou a sério aquele negócio de papel, mas como, nessa altura, muitos militares também tomaram ‘mão de força’, em 64, o que aconteceu? A turma que advogava isso foi desligada, foi presa, aconteceu o que eu previa. Não foi só a turma da JUC, tinha comunista, gente com n convicções porque era moda. As pessoas eram consideradas avançadas, progressistas, quando tinham ideias muito alinhadas com esses ditames da época.

Havia o teatro - todo um movimento através do teatro - para ir às bases, ao povo, levar o teatro à praça pública. Muita gente com boas intenções e tudo mais, mas na realidade era uma espécie de compensação para um complexo de culpa. Tenho um amigo baiano que tem uma explicação muito engraçada para essa tendência que ele chamava de ‘infecção eclesiástica’. Ele explicava assim: um sujeito bem nascido que estuda em escolas pagas, muito caras, digamos, escolas jesuítas ou dominicanas, entra em conflito psicológico porque lhe é induzido um comportamento cristão de solidariedade com o pobre, o desgraçado, o marginalizado; mas ao mesmo tempo ele tem o seu automóvel, ele tem o seu círculo social, ele tem livros importados, bebe vinho francês, veste roupa italiana. Um dos exemplos que ele apresentava como ilustração era o do ex-ministro Severo Gomes. Ele faliu a fábrica de Cobertores Parahyba, desempregou um monte de gente, mas tinha um discurso de esquerda. Uma coisa é se falar da pobreza, outra coisa é você trabalhar para suprimi-la. A única forma de reduzir a pobreza é pela geração da riqueza e de uma política distributiva justa dessa riqueza, para não se ter, por exemplo, a concentração de renda imoral que nós temos no Brasil. Havia, assim, em 1963, esse indutor de reflexões, com essa mensagem de revolução, de pôr um prego na ponta da tábua e sair martelando. Na minha visão, não havia motivo para se corroer um ‘contrato social’ que eu tanto valorava no ITA. Por isso, 1963 foi um ano tão traumático para mim. Acredito, entretanto, que se algo pudesse ser dito de nós que éramos considerados ‘alienados’, é que só pensávamos em construir um país, uma EMBRAER. Ainda era estudante nesse período e lembro que passamos um ano e meio comendo a mesma sobremesa, que era um doce de laranja. A comida caiu de qualidade uma barbaridade, e todo mundo sabia que o dinheiro estava sendo aplicado na construção dos dois protótipos do Bandeirantes. Esta era a nossa cabeça, o nosso objetivo coletivo. Aí aparecem vinte pessoas, digamos, que resolvem denunciar essa situação como um estado de alienação total. Isso foi muito chocante no momento. Devo dizer, porém, que nessa época, havia entre quatrocentos e quinhentos estudantes no ITA e se vinte pensassem assim, era muito. Havia, por exemplo, o presidente do Centro Acadêmico, que era muito rico e tinha um automóvel com um rádio alemão - que eu consertei pra ele e ele me pagou pelo conserto – usava roupas de primeira linha compradas na Augusta. No geral, eram dândis.

O Amir não, o Amir era filho de um homem rico, um libanês, mas o Amir tinha convicções sólidas. Ele, realmente, ia aos subúrbios, procurava ajudar as pessoas desvalidas.

Nesse período, estava me preparando para trabalhar e ganhar algum dinheiro, eu não tinha esse suporte de família para me dar esses luxos. Eu tinha de continuar na minha rota. E já tinha para onde ir, embora desgraçadamente, esse ano de 63 tenha sido um ano de profunda crise. Um aluno do ITA não tinha problema em ir para a PETROBRÁS ou de ir para a IBM porque o recrutamento passava por lá. Mas a crise se aprofundou de uma maneira brutal. Eu sentia isso quando fiz um trabalho na ERICSSON para organizar o laboratório de controle de qualidade dela, e ela não podia importar mais do que tantas válvulas dos fornos de micro-ondas, porque tinha cota de importação. Tinha, assim, percepções diretas com relação à situação política e econômica do país. Eu não era leitor de jornais, nem cultivador de querelas tipo “Lacerda versus num sei quem”, essas coisas estavam fora da minha visão e da minha preocupação. Mas, como mencionei anteriormente, fui trabalhar na ERICSSON para resolver um problema deles e ganhar algum dinheiro. Isso já, possivelmente, no penúltimo período, no começo do quinto ano. E vi a agonia, a quantidade de operários sendo mandados embora porque a produção tinha que ser reduzida, porque simplesmente o País estava caindo aos pedaços. E o gerente sueco, espumando de raiva dizendo: “Existe mercado e não consigo produzir porque o País está se decompondo.” Foi uma anarquia que pouca gente teve percepção tão próxima como a que tive. Lembro da pressão sindicalista arregimentada e organizada, sobretudo, no Rio de Janeiro, para criar, através do Jango, uma República Sindicalista. Foi a época dos grandes comícios, do comício da Central do Brasil, da insubordinação militar. Imaginem a repercussão da insubordinação de sargentos e praças dentro de uma estrutura como o CTA. Nós não estávamos no Largo de São Francisco em São Paulo, estávamos dentro do CTA. Então a percepção dessa balbúrdia crescente vinha não só de dentro do CTA, como também, no meu caso particular, de uma relação direta com uma indústria que não conseguia produzir. A indústria Cobertores Parahyba também se decompondo e assim por diante. Foi um processo de anarquia muito galopante. Desse período, algumas coisas vieram em benefício do processo da etapa seguinte, a do Castelo Branco. É bom lembrar que a primeira legislação séria sobre reforma agrária foi assinada pelo Castelo Branco. Ele também criou o Fundo de Garantia, resolvendo um problema brutal instalado no Brasil pelo ‘getulismo’, qual seja: uma pessoa com dez anos de empresa não podia mais ser demitida, virava um funcionário estável; isso foi resolvido. Houve, também, a criação de fundos para começar um grande esforço de edificações populares, com o Banco Nacional de Habitação - BNH. Ademais, o novo sistema de tributos criado no fim do governo Jango, o ICM, o IPI e também o SERPRO, tudo foi sancionado pelo Castelo. Quer dizer, houve aí um bom senso de analisar coisas criadas nesse período difícil. É bom lembrar que toda essa crise começou com um senhor chamado Jânio Quadros. Esse homem produziu o maior dano dos tempos modernos desse país. Uma democracia infante, cheia de sequelas, traumas e ditaduras. Aliás, hoje se esquece também que o Getúlio foi um ditador com uma polícia política que prendia muita gente, que era completamente à margem da lei; não existia Judiciário, não existiam eleições, foi um regime que pode ser considerado até mesmo pró-nazista. Esse homem deixou uma herança, que ele mesmo tentou conduzir de novo e acabou por se suicidar. Mais traumas. Depois veio um processo de busca de militares – existe sempre um conjunto de civis políticos que vão buscar os militares (o Lacerda e a UDN, em geral, eram mestres nisso) – até se chegar à eleição de Juscelino. Seu governo teve de enfrentar a Revolta de Aragarças e outros problemas militares ainda da ‘República do Galeão’. Ele teve o bom senso de pegar o general ‘espada de ouro’, o Gal. Lott, e entregar o Exército para ele, teve o bom senso de comprar um porta-aviões e deixar a Marinha e a Aeronáutica brigando em torno desse tema, e de partir para a construção de Brasília em seguida. Como um político de boa cepa, esse homem conseguiu reinstalar e confirmar que a democracia funciona. Porém, quando ele sai, passa o cargo para um louco. Esse homem traiu o país, esse homem fez um mal brutal. O quê que aconteceu no vácuo? Entram os militares de novo como uma espécie de poder moderador. Aí, cria-se um parlamentarismo de ‘araque’, pois ninguém acreditava naquilo. Tancredo foi indicado para Primeiro Ministro etc. No fim, o próprio Jango tentou reverter tudo e aí se aprofundou a crise, porque não havia credibilidade no estamento em torno do Jango. O Jango não era um homem de visão, não era um estadista, e certamente era levado por intelectuais que o influenciavam na sua linha do ‘trabalhismo’. Era um homem popular, herdeiro de Getúlio. Mas acabou por se desgastar e nós nos aprofundamos numa crise que gerou a “revolução”. De novo, os militares entram em cena. E de novo, o Lacerda exagerou nas cores, naquela coisa cáustica do seu comportamento, contribuindo para um radicalismo que por combater um homem razoável como era o Castelo Branco – que depois de sair do Catete ia ao teatro - acabou gerando o endurecimento do regime com o Costa e Silva. Desse modo foram afastados os chamados ‘castelistas’, a ‘Sorbonne’, o pessoal pensante, o Golbery, entre outros, que só voltaram depois no período Geisel, para reinstalar o projeto de devolver o poder para o sistema civil. Desse momento, aliás, sou testemunho próximo.

Infelizmente, o ensino de história do Brasil termina na Proclamação da República e as crianças não estudam a história recente desse país. Mas, quem estuda história, quem conhece a história do Brasil recente sabe que esse processo vem desde 1922 com o Tenentismo e tudo mais. Oxalá esse ciclo tenha se esgotado.

Os estágios, o professor-conselheiro, férias e amizades mais constantes

Trabalhei, como estagiário do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento, no projeto de “espalhamento troposférico”, que era a única maneira de comunicar e fazer o controle do avião em vôo dentro da aerovia de Brasília para o Rio. Era uma antena gigantesca, quando se saía de Brasília para Luziânia, na altura do Catetinho, podia-se vê-la. Trabalhei também em outros projetos, como o sistema de rádio com 144 canais, que era uma coisa muito inovadora para colocar a bordo do avião e ter muito mais canais de comunicação com a torre. Participei também de um projeto de bisturi eletrônico que usava micro-onda na hora de fazer o corte, com ou sem coagulação.

No terceiro ano do meu curso, fui assistente de um professor francês que veio para o Brasil, por meio da Federal de Pernambuco, o professor Jean Etienne Cassignol. Ele era originário do sul da França e desenvolvia, com outro professor chinês, estudos de muito futuro, de ponta, em torno de transistores. Então, nós recebíamos transistores que vinham da Phillips, da Holanda. E eu era o laboratorista, virava madrugadas em cima do instrumental juntamente com o Parada, Nelson Jesus Parada, que depois foi presidente do INPE, quando eu era presidente do CNPq. Nós éramos uma dupla que trabalhava mais os modelos teóricos de banda de passagem, de ganho, em amplificadores de alto ganho que eram desenvolvidos pelo Parada; eu discutia aquilo com ele e ia para o laboratório a fim de confirmar, ou não, o modelo matemático. Com esses trabalhos, nós tínhamos remuneração, com bolsas de estudo, que era o que me mantinha, porque o que eu tinha para viver era a pequena bolsa de cerca de meio salário mínimo que o ITA me dava. A partir desse trabalho foram publicados muitos livros com grande repercussão internacional. No ITA tinha-se muita oportunidade de fazer isso.

É preciso ressaltar que para laboratório e medição, eu já tinha uma bagagem grande. Mas não tinha ainda a modelagem matemática teórica suficiente. Foi junto com o Parada que comecei a fazer esses estágios que enriqueceram minha formação. Ia, por exemplo, muito para a parte laboratorial no Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento porque estava trabalhando em nível de protótipo. Já tinha uma bagagem teórica suficiente para desenvolver coisas na área de som, na área de ultrassom, de geração de imagens espaciais tridimensionais, de batimentos de frequência e de holografia. Trabalhei também não só no laboratório da área de baixa frequência, quer dizer, de som e de infravermelho, na holografia, e também em antenas e em radiocomunicação. Acentuei muito a minha formação dirigida para a área de telecomunicações e não para computação.

Depois que o Tércio Pacitti veio para o ITA e chegou o primeiro computador, que era o IBM-1130, é que a área de computação deslanchou. Antes, havia muitos projetos de estudantes, como o ‘Zezinho’, que era um computador muito primitivo com uns circuitos só ‘flip-flops’ e funcionava com uma linguagem também muito primitiva sobre o qual o Valdemar Setzer desenvolveu seu trabalho de formatura. Desse modo, como já mencionei, a minha formação foi mais dirigida para telecomunicações e também para sistema de controle, robôs. Fiz um dos cursos - um dos créditos mais temidos - que era dado pelo professor Boffi que era considerado ‘terrível’. Ele era um dos professores mais exigentes do Instituto.

Mas, como eu queria mergulhar, também, nos sistemas industriais, motores controlados e uma série de mecanismos, fiz também essa matéria, pois havia optativas durante o curso. Tinha as disciplinas básicas e, depois, dependendo do rumo que se tomava, ia-se construindo os créditos. Durante esse processo, podia-se contar com a ajuda de um professor que era chamado de ‘conselheiro’.

O ‘conselheiro’ cuidava de cerca de dez, onze estudantes, e compensava um pouco a ausência da família. Você entrava em dúvidas existenciais ou de comportamento e o conselheiro lhe acompanhava. Acompanhava, também, o rendimento escolar e procurava interagir, oferecendo jantares em casa, apresentando outras pessoas para facilitar a socialização. O meu conselheiro, o melhor dos conselheiros que eu estive próximo, o Paulo Ernesto Tolle, um dos fundadores do ITA. Embora se pudesse mudar de conselheiro, eu comecei com o Tolle e acabei com o Tolle. Além de pioneiro e professor do Departamento de Direito, ele foi Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo - TCE, Secretário de Educação do município de São Paulo e Diretor do Departamento Regional do SENAI - onde o Lula se formou - e , como sempre, fez coisas revolucionárias e extremamente ambiciosas.

Sua família era pequena, pois só tinha uma única filha, a Vera, uma pessoa fantástica, extremamente católica. E talvez por faltar ao Tolle um jovem, um homem, nós tínhamos uma comunicação muito frequente e ele me orientava em tudo na vida. E eu, em compensação, consertava o automóvel dele, fazia o sistema de som dele funcionar, qualquer coisa enfim. “O fusível pifou? Chama o Dion aqui que ele resolve”. E minha mãe, com a qual ele se correspondia amiúde, tinha também muita admiração pelo Tolle. Nas férias, ele conseguia que eu viajasse para Teresina pelo Correio Aéreo Nacional, uma viagem que levava dois dias. Passava lá três semanas, algo assim. Nos dois primeiros anos, como já salientei anteriormente, havia as oficinas em janeiro e sobrava fevereiro porque na primeira segunda-feira de março começavam as aulas. Eu, por causa dos estágios e por ser muito caro - às vezes, não conseguia transporte aéreo - ficava sozinho lá no apartamento Passava a noite de Natal ou Ano Bom sozinho se o Tolle tivesse viajado. Isso me exigia muita disciplina.

Meu primo, aquele que morava em Belo Horizonte, radicou-se em São Paulo, mas nós, aos poucos, fomos perdendo contato pessoal. Ele foi morar próximo a São Paulo, constituiu família e eu, com meus encargos todos, não dava conta de ir vê-lo. Ainda não havia telefone disponível, tínhamos um ramal da mesa do CTA para 32 apartamentos e, além do preço, era um problema grande conseguir um interurbano. Mais tarde, fui padrinho do filho mais velho dele.

Meus finais de semana na casa de Dr. Fidelis Alves Netto e da “mamie”, forma carinhosa de chamar a mãe do Luiz Alves Netto, meu colega, não eram mais frequentes porque eu considerava um abuso de hospitalidade, embora eles me recebessem com todo o carinho. Ele me chamava de ‘meu filho moreno’, porque eram todos muito louros Eles tinham só um casal: o Luiz Alves, meu colega, e sua irmã. Posso, assim, dizer que fui muito bem acolhido na família - sou grato por isto até hoje - mas, procurava não ir com muita assiduidade, a não ser se houvesse reuniões nos Dominicanos ou uma festa. O Luiz, inclusive, não gostou de ficar longe da família e acabou voltando para São Paulo onde fez novo vestibular na Escola Politécnica.

Mais tarde, por ter muitos amigos da área, no Rio de Janeiro, e ter arranjado uma namorada no Rio, passei a ir, também, muito ao Rio e ficava com a família do Amir Khair. Ele ficou na JUC e lutou até o fim. Ele tinha convicções muito arraigadas. Felizmente o Amir não caiu dentro da teia de repressão. Possivelmente aquietou-se mais, constituiu família, trabalhou. Mais tarde, ele foi o Secretário de Finanças do município de São Paulo quando a Erundina foi prefeita.

Professores mais marcantes

O sistema do ensino no ITA tem duas grandes etapas: o curso fundamental e o curso profissional. No curso fundamental todos passam, basicamente, pelos mesmos professores ou pelas mesmas equipes, tanto de aulas teóricas como laboratórios. Lembro do professor Vandaele, um belga que ensinava princípios de construção aeronáutica, que gostava muito de ir às nossas festas, principalmente quando tinha cerveja. A equipe de física nos atormentava com exercícios em cima de velocidade relativa, tudo o que era relativo, problemas de posicionamento, de referenciais etc. Essa parte de, basicamente, matemática, química, física, mecânica, exercícios e práticas de oficinas, marca muito mais pelo esforço e o companheirismo de alguns professores do que nos atrai a um determinado professor. Lembro também de um professor de desenho, um alemão chamado Köhler, que avançava nas nossas pranchetas com um lápis de grafite duríssimo e depois que ele fazia as correções dele, tínhamos que retirar o papel vegetal e começar tudo de novo. Mas, apesar de ser extremamente rigoroso, era uma boa pessoa como professor e como conselheiro.

Tinha também o professor Paulus Aulus Pompéia, que dirigia toda a equipe de física do curso fundamental. Ele tinha vindo da Universidade de São Paulo e havia recrutado um grupo que formou a equipe de física. Era uma pessoa extremamente dedicada. Tinha uns folclores sobre essa equipe, sobre a forma de ensino. Nós tínhamos uma carga muito grande de preocupação em relação à precisão e exatidão, precisão de medidas, propagação de erros. Porque o problema do erro na medida, no laboratório é um negócio seríssimo. Pode-se estar medindo coisas que quando se põe à ponta de prova não se está medindo mais o mesmo fenômeno. E isso é muito importante em nível laboratorial e de mecânica de alta precisão. Mexe-se com tolerâncias mínimas, porque se não for intolerante com aquela medida, o avião cai. De forma que essa preocupação era uma coisa quase neurótica.

Uma vez o professor Pompeia estava vindo de São Paulo para São José, e um guarda de trânsito rodoviário o parou, dizendo que ele estava com excesso de velocidade. Aí o primeiro disse:

- Meu filho, como é que você mediu a minha velocidade?

- Ah, o senhor está vendo aquele ponto lá em cima da ladeira? Eu marquei lá, andei, e até aqui são tantos quilômetros (2 km, ou 1 km, sei lá) e aí, com o meu relógio eu vi que o senhor estava acima da velocidade. Porque de lá para chegar aqui dá tanto tempo e o senhor levou menos tempo.

- Mas como é que o senhor mediu essa quilometragem?

- Com o odômetro do meu carro.

- Qual é a precisão desse odômetro?

Começou a discutir, o guarda começou a ficar perturbado e ele disse:

- Venha cá, meu filho, deixe aqui o seu carro e vamos lá no laboratório.

Aí levou o guarda até o laboratório, abriu-o e deu uma aula sobre imprecisão de medidas e propagação de erros. Aliás, fazendo um parêntesis, esse é o mesmo problema dos novos ‘pardais’ do trânsito que deveriam ser regulados para ter uma tolerância de pelo menos 10%. Depois da aula, o professor levou de volta o guarda para o ponto onde ele estava na estrada, tendo sido liberado da multa. Daí a uns tempos passa um ‘iteano’, esse sim com excesso de velocidade, e o guarda apita e para o cara. O carro para e o guarda pede a identidade. Quando o cara dá a identidade do ITA, do CTA, o guarda diz:

- Você é da escola daquele homem dos números?

- Que homem dos números?

- É um professor aí.

- Sim, sim, eu sou do ITA.

- Então, pode ir embora porque eu não aguento mais outra aula.

O grupo de química também era muito bom. Era liderado pelo professor Marco Antônio Guglielmo Cecchini que depois tornou-se o primeiro reitor brasileiro do ITA. Eles nos faziam refletir, introduzindo grandes preocupações com relação a combustíveis. Em aulas práticas, fazíamos miniaturas de destilarias e a partir de petróleo bruto, produzíamos todas frações, inclusive querosene. Também nos introduziram a um problema seríssimo em aviação que é a corrosão. Tínhamos a teoria, as observações e a forma de combater a corrosão, como também o problema biológico, que é o desenvolvimento de colônias de bactérias, dentro do tanque do avião, que se alimentam de querosene. O professor Cecchini era outra pessoa extremamente gentil, de voz suave, mas um homem muito, muito exigente.

Lembro também de um professor de matemática chamado Francisco Antônio Lacaz Netto. Lacaz, muito míope, com óculos de míope, e um bigode avantajado, era queridíssimo por todos os estudantes, inclusive por mim obviamente. Ele era notável porque era o treinador do time de futebol, corria sem fôlego, atrás de todo mundo, brigando. Ele era treinador e juiz ao mesmo tempo, era uma criatura amabilíssima. Ainda do grupo do curso básico, destacaria o professor Sérgio Porto, um físico que depois se tornou muito conhecido porque foi para o ‘Bell Labs’, nos Estados Unidos. Voltou depois para a UNICAMP com o José Ripper e outros pesquisadores para trabalhar em fibra ótica. Jogava futebol com os estudantes, não respeitava canela, não respeitava nenhuma regra, para desespero do Lacaz e veio a falecer jogando uma pelada de futebol em Moscou. Ele adorava jogar futebol.

Já do curso profissional, destacaria, em primeiro lugar, o professor Wallauschek que era professor de engenharia eletrônica. Ele me orientou muito sobre transistores e chegou a me sugerir ir para o Nordeste para montar uma fábrica de rádios transistores, que eram nascentes na época. Isso seria uma forma de levar informação a pessoas pobres em regiões remotas porque em qualquer interior existe pelo menos uma emissora de AM, que pode, então, trazer um pouco mais de informação. O professor Wallauschek era tcheco, foi recrutado pelo ITA na Índia. Era um homem brilhante. Além de professor, na Tchecoslováquia, ele era do Quinteto de Praga, pois era um excelente violinista. Quando o quinteto vinha ao Brasil, ia ao CTA e ao ITA, ele reingressava no conjunto para deleite nosso. Era uma pessoa excepcional, morreu estupidamente num desastre de automóvel na Dutra.

Ele era um idealista também. Tinha um amor muito grande pelo Brasil e buscava nos induzir ao uso da tecnologia de uma maneira pragmática para gerar benefícios à sociedade, sobretudo àquela parte da sociedade que ficava à margem da informação, da inclusão dentro do sistema social. E o rádio transistor era um instrumento para se trabalhar nesse sentido. Eu vou abrir um parêntesis aqui sobre isso.

Quando eu estava no ITA, nós criamos uma emissora de rádio chamada RUSD, ‘Rádio Universitária Santos Dumont’. Quem conseguiu entusiasmar um grupo de alunos pelo projeto, foi Helmut Antonio Rüdiger, um gaúcho, um colega mais antigo que eu. Devia estar no terceiro ano, ou quinto período, por aí. Conseguimos, então, autorização para operar um transmissor de rádio; montamos o transmissor e eu montei todo o estúdio, toda a parte de áudio, pois era o diretor técnico da RUSD. Mas, a frequência que nos foi concedida era muito elevada com comprimento de onda de dezessete metros, portanto ondas curtas. Chegava muito bem na Suécia, mas não chegava onde queríamos que chegasse; era para os parentes, as namoradas ouvirem, entre outros. Resolvemos, assim, mudar a antena para propagação próxima e montamos um sistema de ensino porque descobrimos, no centro acadêmico, que, por causa das colheitas, existiam famílias errantes ao longo do Vale do Paraíba, que estavam com suas crianças. Buscamos, então, uma metodologia de educação pela rádio, de um padre, do sul de Minas - não lembro nem o nome do padre, nem a localidade - e o centro acadêmico passou a comprar ‘kits’ de rádio, receptores da Philips que nós montávamos. Eu montei uma série deles que funcionavam à bateria, à pilha de lanterna. Depois geramos o material didático e treinamos as monitoras. Elas, como as crianças, faziam parte das comunidades e eram também migrantes. As crianças ouviam as aulas com essas monitoras, debaixo de uma choupana, onde quer que tivesse um teto, num esforço de alfabetização. Esse é um bom exemplo para uma ideia do espírito do uso da tecnologia e o espírito do centro acadêmico. Eu era da JUC e acreditava muito nesse tipo de atitude e atividade. Fecho, assim, o parêntesis.

Devo dizer, no entanto, que não pude levar mais adiante o projeto, proposto pelo professor Wallauscheck, de colocar mais a tecnologia à serviço da sociedade porque simplesmente não tinha meios, não tinha capital, não tinha por onde me virar, e acabamos por ficar no plano das ideias. Ao mesmo tempo, é importante ressaltar que, naquela época, era muito mais remoto você ter uma ponte com o sistema bancário, com algum financiador; isso hoje melhorou, mas ainda é um problema. No Brasil existe um grande fosso entre as ideias, os talentos e o mercado. Ninguém, a rigor, financia, no Brasil, risco de inovação tecnológica. Por que? Porque não existe banco no Brasil. Os bancos, no Brasil - estou falando pelo menos dos comerciais e, de certo modo também, daqueles de investimento, inclusive o BNDES - não bancam o risco. Eles exigem garantias reais que nenhum empreendedor nascente tem. Por que no Brasil não se valoriza o “good will”, o valor intangível da inteligência? Aliás, essa reflexão está no meu livro. De todo modo, como já sinalizei, além da ausência de participação dos bancos nas tentativas de novos empreendimentos, o TCU pode tornar-se mais um complicador, pois, na nossa cultura, se alguém bancar ou assumir o risco de um empreendimento inovador, pode ser confundido como sócio oculto do financiado. Desse modo, o princípio da má-fé atropela a boa-fé.

Para mostrar o contraste dessa questão nos Estados Unidos, lembro do caso do professor Aldo Weber Vieira da Rosa, ex-presidente do CNPq e fundador do instituto de Pesquisas Espaciais. Ele foi para a Universidade de Stanford e era pesquisador do Stanford Research Institute, o instituto associado à Universidade. Reparem bem que se tratava de um brasileiro, oficial da FAB, nessa época, já reformado. Nesse momento, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos encomendou à Universidade, ao Instituto, o desenvolvimento de um sistema de antenas para uso militar. Quando ele acabou de desenvolver os protótipos, ele foi chamado para montar uma empresa e produzir as séries necessárias para a demanda que existia. Ele, então, disse:

- Mas, eu sou apenas um pesquisador.

- Não senhor, o senhor hoje é o repositório mais completo desse conhecimento.

Nós vamos lhe dar um apoio e o senhor vai montar uma empresa aqui próxima do campus.

E ele virou industrial. Bem, isso no Brasil é impossível, pois vejam o seguinte: se eu desenvolver, por exemplo, o projeto de um gravador com dinheiro de origem pública, com financiamento do governo, todos os direitos, ‘blue prints’, e outros detalhes (os programas fonte do computador etc.) serão propriedade do governo, que os esteriliza para uso econômico. E se for feita uma concorrência para fornecimento desse gravador ao Estado, eu só posso entrar do lado do governo, como vigia, como fiscal. Eu não posso entrar como empreendedor, nem junto com o empreendedor, pois assim está na Lei 8.666. Isso, ao meu ver, é um crime contra o país, uma falta de visão, uma miopia indesculpável.

Mas, naquela época, era ainda mais improvável que eu chegasse a um financiamento, porque para eu chegar na SUDENE, no Banco do Nordeste era um longo caminho para um pobre rapaz, sem muitos recursos, recém formado Tive também um professor francês, Etienne Jean Cassignol. Ele era do sul da França, de Carcassone, e veio para o ITA via Pernambuco. Tinha vindo para o Brasil, por meio de um programa de alternativa ao serviço militar com a França, e de Pernambuco foi recrutado pelo ITA; era especializado em componentes de estado sólido, quer dizer, transistores. Então, junto com um chinês, desenvolveu uma linha de pesquisa muito avançada para a época no uso de diferentes tipos de transistores para diferentes aplicações em áudio, em alta frequência. Eu era monitor e seu assistente, junto com Nelson de Jesus Parada, que era meu colega de turma. Nós trabalhávamos na modelagem matemática, para entender o comportamento daquele componente novo num circuito, no qual, até então, se utilizava válvulas. E eu varava madrugadas, sobretudo nas férias, confirmando os modelos no mundo real. Pequenos circuitos montados, especificamente, para checar se as hipóteses matemáticas, hipóteses de trabalho estavam corretas. Isso rendeu algumas publicações internacionais, nas quais possivelmente eu e o Parada tivemos crédito. Eu não tenho nenhuma cópia desses livros, mas certamente os créditos estão lá. Nós tínhamos bolsa de assistente de laboratório e a pesquisa era bancada pela captação de recursos junto a empresas como a Philips. Até essa época, o Instituto procurava outras fontes de recursos, talvez pela relação muito próxima com a indústria. Devo lembrar que o ITA é gerador de gente e pesquisa básica. Próximo dele opera o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento que leva esses conhecimentos a serem aplicados até a nível de protótipos. E depois existe o Instituto de Fomento Industrial que transfere esse resultado para a indústria. O esforço é para se ter resultado econômico. Foi, dessa maneira, que nós fizemos uma indústria aeronáutica, não foi com o BNDES não, o banco veio depois, se veio. Eu fiquei muito ligado ao professor Cassignol e, mais tarde, quando fui trabalhar na França, recuperei essa amizade com muito prazer. Ele morava em Paris, onde foi o presidente de uma das empresas de um grande grupo francês. Tinha se distanciado completamente da eletrônica e ido para a logística de distribuição de bens, sobretudo de livros. Ele era muito amigo do presidente do grupo Matra que era casado com uma brasileira. Adiante, quando eu falar sobre minha passagem pela França, voltarei a falar sobre esse reencontro.

Estudei, ainda, com o professor Luiz Valente Boffi, nascido na Itália, que era um professor muito temido pelos estudantes porque ele era extremamente rigoroso, extremamente exigente. Fiz, com ele, as cadeiras, os créditos referentes a máquinas e motores elétricos, disciplinas que tinham poucos optantes.

Professores do curso de eletrônica (1959): Alfredo Fernandes de Almeida, Augusto Benchimol, Roberto Manfredo Hering, Leon Rubin, Pedro Ênio Magyar, Chen-To Tai, Richard Robert Wallauschek, Etienne Jean Cassignol, Lauro Xavier Nepomuceno, Lineu da Costa Barbosa, Luiz Gonzaga Rios e o cap. Tércio Paciti

Recordo também de um professor, que foi meu orientador de trabalho de graduação. Ele chamava-se Augusto Benchimol, era do Pará e me deu muito apoio no desenvolvimento de um trabalho que fiz associado à área de medicina. Foi um dispositivo para medir o batimento cardíaco da mãe e do filho no processo de parto. Ele poderia decidir o momento de fazer ou não uma cesariana em função do nível de problemas em torno da criança. Na verdade, eram dois dispositivos: um para medir o batimento cardíaco, separando a frequência do batimento cardíaco da criança, que é cerca do dobro da frequência da mãe. Tive que fazer filtros para separar os dois batimentos cardíacos, que eram bastante primitivos em relação às tecnologias que se dispõem hoje. Eram filtros construídos com cerâmica e muito sensíveis, muito difíceis de calibrar; o outro era o medidor de pressão arterial. Por conta desse trabalho tive que frequentar a Santa Casa da Misericórdia para assistir, sobretudo, intervenções ortopédicas e partos. Via os médicos operando e essa cena mexia com meu estômago. Eles, no entanto, com todo aquele sangue, conduziam tudo com muita naturalidade.

Finalmente, embora já tenha me referido a ele como meu conselheiro, não posso deixar de destacar o professor Paulo Ernesto Tolle, um homem que dedicou sua vida à juventude e à formação qualificada de jovens, tendo sido certamente o professor que me marcou para o resto da vida. Devo ter tido outros professores fantásticos, com os quais posso estar cometendo uma injustiça por não estar lembrando de seus nomes, mas esses que citei, foram os que mais me marcaram.

Dion com seus colegas de turma, na formatura

Turma de 1963

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