T63-Jurandy-eng-eletr-UFPA

De wikITA

ENGENHARIA ELÉTRICA NA UFPA: ALVORADA E EVOLUÇÃO DO CURSO

Jurandyr Nascimento Garcez
Professor titular aposentado da UFPA
Professor emérito da UFPA
Pesquisador sênior do Núcleo de Energia, Sistemas e Comunicação (NESC)

(Texto escrito em 2006 por ocasião da comemoração do jubileu da Universidade Federal do Pará (UFPA); a criação do Curso de Engenharia Elétrica teve a colaboração pioneira dos colegas Jurandyr, Seihó, Dutra e Taube, da turma de 1963 do ITA.)


O rio Guamá
(acione para ver ampliada)

Ao chegar pelas manhãs ao meu gabinete de trabalho na Universidade Federal do Pará, costumo olhar para um quadro pendurado na parede onde aparece, ante o prédio do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), a turma de formandos de 1963, a qual integrei com muita honra. E vêm recordações daquele início dos anos 60, em uma Belém distante daquela em que vivemos, onde uma Universidade, recém criada, ensaiava seus primeiros passos em assumir suas responsabilidades como artífice da grande tarefa de gerar e aplicar conhecimentos em nossa região.

Sem nenhuma infra-estrutura de energia e comunicações, ausência de mão de obra especializada, víamos o tempo passar contemplando o Rio Guamá, em busca de um fio de esperança para nosso futuro. A Faculdade de Engenharia na Travessa Campo Sales, formava os Engenheiros Civis para atender a demanda da indústria da construção civil, e o curso de Química Industrial supria o mercado de trabalho das poucas indústrias existentes no estado. Contava-se nos dedos o número de engenheiros eletricistas existente no Estado. Engenheiros eletrônicos, ausência completa.

Seihó, Dutra e Taube em 1963

Em 1963, o então Reitor da Universidade Federal do Pará, José da Silveira Neto, encarregou o Engenheiro Alberto Gatasse Kalume, da Turma de 1958 do ITA, de fazer contatos com formandos de 1963 do ITA, procurando viabilizar a vinda de alguns deles para a Universidade Federal do Pará, afim de estruturar os cursos de Engenharia Mecânica e Elétrica. Lembro-me bem da imensa satisfação de que fui tomado, pois vislumbrei a oportunidade de retornar à minha terra natal e ser útil para a sociedade. Formamos no ITA um grupo de trabalho e passamos a discutir o futuro. À noite, conversávamos sobre o modelo a ser adotado na UFPA, currículos, prospecções futuras. Afinal, estudávamos em uma instituição que teve também a mesma forma de nascimento, e as palavras aconselhadoras de nossos professores, que participaram da fase do nascimento do ITA, serviam de modelo para nossos objetivos. O grupo compunha-se dos engenheirandos Francisco de Assis Coelho Dutra, Seihó Gushi e Miguel Taube Netto, além do articulista.

Após as cerimônias de formatura, preparei-me para retornar a Belém. Olhei para aquela querida escola, localizada no Vale do Paraíba, encravado entre a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar, sentindo recordações felizes dos colegas que deixaria, após cinco anos de camaradagem, de vida em comum, alicerçado por fortes princípios éticos e morais, que nortearam minhas convicções quanto ao futuro que me esperava. Atravessei o Brasil a bordo de um DC-3 do Correio Aéreo Nacional, chegando a Belém para cumprir a missão que me era destinada. Meus colegas viriam depois.

Na presença do reitor José Silveira Neto e da diretora da Divisão de Pessoal, Rosa Lima Freitas, assinei o contrato como professor da Escola de Engenharia da Universidade do Pará, com as obrigações de Professor Catedrático, sendo designado para exercer a função de coordenador da equipe de implantação do Curso de Graduação em Engenharia Elétrica. Meus colegas dedicaram-se à estruturação do Curso de Engenharia Mecânica, mantendo uma perfeita interação entre as equipes. Foram dias difíceis, face à ausência de pessoal qualificado em Belém para exercer o magistério, em atendimento à demanda do Curso de Engenharia Elétrica, cuja primeira turma ingressou na Universidade em 1964. A Universidade investiu na contratação de novos professores para o curso, e, no início de 1965, novos recém-formados do ITA chegaram a Belém, a fim de colaborar para o desenvolvimento de seu corpo docente. Contratamos o Engenheiro Luiz Carlos N. Freitas, da CELPA, em regime de tempo parcial. Exemplo de entusiasmo e dedicação, o prof. Freitas contribuiu com sua sabedoria até recentemente, quando obteve sua merecida aposentadoria. Não querendo cometer injustiça, ressalto a participação do professor José Maria Bassalo, que muito ajudou na formação básica dos novos alunos, dentro dos padrões de qualidade que desde o início procuramos implantar no curso. O curso crescia, outras turnas ingressaram e o corpo docente necessitava de mais professores. Para diversificar o pensamento do corpo docente, trouxemos para Belém recém-formados da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Instituto Mauá de Tecnologia.

Estava assim constituído o Núcleo Inicial responsável pela 1” fase do Curso de Engenharia Elétrica, que foi até 1975, fase esta em que predominou a participação dos docentes oriundos de outras instituições de fora do estado. Nessa fase do curso, a principal e única preocupação era com o ensino de graduação, orientada para a formação de engenheiros eletricistas qualificados, com os professores dedicados a atividades em classe, com sua carga horária alocadas às aulas teóricas e, algumas vezes, práticas laboratoriais. . Em 1968 formamos a primeira turma de Engenheiros Eletrônicos e Eletrotécnicos. Como diria Vinícius de Moraes, “erguemos casas onde antes só havia chão e como pássaros sem asas, subíamos com as casas, que nos brotavam das mãos”.

E foi assim que passamos a absorver os primeiros recém-formados, auxiliando-nos nas atividades de ensino. Outros foram contratados por empresas locais, atendendo as necessidades de mercado nas áreas de energia e comunicações, onde começavam a despontar empresas como a CELPA, ELETRONORTE, EMBRATEL e COTEMBEL. Enquanto isto, procurávamos fórmulas e mecanismos para pavimentar estradas do futuro que pudessem, com segurança e riqueza, ser partilhadas por aqueles que viessem nos suceder.

A necessidade de capacitação de nossos docentes fez com que, no fim da década de 60 e início de 70, iniciássemos um processo de envio de professores para fazerem pós-graduação, estimulando, ao mesmo tempo, nossos alunos recém-formados a buscarem o mestrado em outras instituições. Essa fase coincidiu com o retorno de muitos professores para seus estados de origem. Foi um período bastante difíficil para o curso, que se viudesfalcado de muitos docentes. Tínhamos um preço a pagar e resolvemos enfrentar a situação. Em início de 1973, fui com minha família para São José dos Campos para seguir um programa de pós-graduação a nível de mestrado. Meus contatos com o curso passaram a ser limitados e minha preocupação concentrava-se no meu aperfeiçoamento profissional, pois já decorriam 10 anos de minha formatura. Em junho de 1975 defendi minha dissertação de mestrado, tendo conseguido da Reitoria da Universidade licença para continuar minha pós-graduação a nível de doutorado. Foi então que correu uma profunda reviravolta em minha vida. Alertado pelo chefe do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPA, da situação gravíssima em que se encontrava o curso, com ameaça de fechamento, resolvi retornar a Belém, para ajudar o departamento a resolver seus problemas. Na época, o corpo docente resumia-se a poucos professores instalados em algumas salas na Escola de Engenharia e no prédio da Química Industrial na Praça da República.

Juntamente com os protessores Tadeu M. Branco e Uervasio Cavalcante, traçamos um plano de ação para recuperar a credibilidade do curso. Começou então a segunda fase do Curso de Engenharia Elétrica. Assumi a chefia do departamento.

Em 06/01/1977 foi inaugurado o prédio do Laboratório de Eletricidade e Eletrônica. Confesso que, ao olhar aquelas salas vazias, fiquei na dúvida de como dar vida àquela edificação, enchendo suas salas de professores e equipamentos.

Em julho de 1977, submeti-me ao concurso de Livre Docente em Sistemas de Controle sendo aprovado, obtendo o grau de Doutor em Engenharia Elétrica. Iniciamos nossas primeiras ações direcionadas para a pós-graduação e a pesquisa. Ex-alunos que se encontravam cursando pós-graduação em Santa Catarina, Rio de Janeiro e Campina Grande começaram a voltar, sendo contratados pela UFPA. Ao mesmo tempo, implantamos, com a ajuda da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPESP), um Curso de Especialização, marco inicial de nossas atividades na pós-graduação, através de intercâmbios com a PUC-RJ, UFRJ, UNICAMP, UFPA, ITA, UFSC entre outros. Elaboramos nossos primeiros projetos de pesquisa, obtendo financiamentos do Banco da Amazônia, Banco do Brasil eFINEP, além de outros projetos individuais de professores, com financiamentos do CNPq. Por meio de convênios firmados com a ELETROBRÁS, ELETRONORTE, CENTRAIS ELÉTRICAS DO PARÁ e Ministério das Comunicações, equipamos nossos laboratórios e biblioteca, apoiando também a formação de nossos professores em cursos de pós-graduação na EFEI, USP e em estágios em empresas de energia elétrica. Dentro e fora do estado víamos crescer nossa competência tecnológica, com o aumento do número de doutores. Em 1986, o Departamento enriqueceu seu corpo docente, com os primeiros 4 professores titulares concursados do Centro Tecnológico: Tadeu Medeiros Branco, Gervásio Cavalcante, João B. Mota Alves e o articulista. O número de doutores continuava aumentando e as pesquisas se consolidavam.

Elaboramos o projeto do Curso de Mestrado em Engenharia Elétrica, que evoluiu para o Programa de Pós-graduacão a nível de mestrado e doutorado.

A cooperação com as Empresas do setor elétrico deu origem ao Núcleo de Engenharia de Supervisão e Controle (NESC), projeto aprovado dentro do Programa RHAE-CNPq e da UFPA. Este projeto evoluiu para o atual NESC - Núcleo de Energia, Sistemas e Comunicação, criado em 2002, que atua em um número expressivo de projetos de pesquisa e desenvolvimento com Empresas do setor elétrico, de telecomunicações e indústrias que atuam na região Norte do país.

Hoje o curso encontra-se em fase de expansão e desdobramento. Foram criados os Cursos de Engenharia da Computação em Belém e Engenharia Elétrica em Tucuruí.

O curso completou 42 anos de vida. O balanço do passado encoraja-nos a projetar novos horizontes, sem, contudo, nos afastar das idéias que foram vencedoras e garantidoras do sucesso conseguido. Acidentes e percalços da vida levaram grandes amigos, dos quais guardo grandes recordações, Seiho Gushi, Lobão, Manoel Guacelis, Reinaldo, Borgonío e Nazareno. Tristezas causadas por suas ausências hoje são compensadas pela alegria gerada pelas novas gerações de alunos e professores, incansáveis na busca pelo desenvolvimento científico e tecnológico para nossa terra.

Ao anoitecer contemplo o horizonte, onde as primeiras luzes começam a brilhar. Longe, vejo o bairro do Guamá, onde nasci e passei minha adolescência, até partir para o ITA. Ao fundo, destaco o Campus Universitário, preparando-se para mais um turno de trabalho. Nesses momentos, reflito sobre o pensamento de um ex-iteano, Ozires Silva (turma de 1962), um dos fundadores da Embraer:

“A natureza, em sua suprema sabedoria, procura se adaptar em cada momento no qual vivemos. Como criança. a cabeça aberta para aprender como se fora uma esponja, num processo intenso de absorver conhecimentos, hábitos e culturas, que nos afetarão para sempre. Como jovens, esfuziantes de energia, sempre em busca de novas experiências e aventuras, plantamos os alicerces de nossa vida na sociedade. Na idade adulta vivemos a consolidação e o retorno do investimento que a educação e a experiência nos proporcionaram. Nós não paramos porque ficamos velhos, ao contrário, nós nos tornamos velhos porque paramos. Parecem existir poucos segredos para continuarmos jovens, felizes e conseguindo sucessos. Entre eles, pense que você precisa rir, encontrando humor em cada momento, em cada dia. Precisa sonhar e comemorar seus êxitos. Desfrutar o momento presente, o único que está a sua inteira disposição, embora deva permanentemente planejar a construir o futuro.”

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