T63-Nobrega-Morte por abacate

De wikITA

MORTE POR ABACATE

(Memórias da Zona da Mata)

Arthur Luiz de Amorim Nóbrega

O mineiro neto de italianos Jair (Didi) Longo e eu nos cruzamos em três épocas: em meados e depois em fins do século XX, além do início do século XXI. Lá pelos idos de 1954/55 eu comecei a frequentar a Fazenda Santa Maria, então de propriedade do João Antonio de Modesto Leal, tio do meu colega de ginásio Luiz Fernando Guaraná. Naquela primeira fase, o Didi era balconista de uma daquelas lojas que vendiam de tudo, em Bicas, Zona da Mata de Minas Gerais. Eu ia sempre lá, comprar munição .22 para minha carabina Winchester, presente do meu avô Arthur pelos meus 18 anos.

Mais de 20 anos depois comprei um sítio em Santa Helena, povoado que fica entre Bicas e Mar de Espanha. O Didi havia prosperado e era o dono de uma loja de material de construção chamada o Globo das Louças. Ele me reconheceu e lembrou-se das balas de carabina que me vendia. Ficamos amigos. Já no fim dos anos 90 o Didi me convidou para uma pescaria em Mato Grosso, às margens da Ilha do Bananal. Tempos depois ele me confessou que ficou com receio de que o ‘doutor da cidade’ (eu) não aguentasse acampar no mato. No acampamento, ficou claro que eu tinha mais intimidade com o mato do que a maioria deles, que não se afastavam das barracas ‘com medo de cobra’.

Ao longo de vários anos fui a pescarias com o grupo do Didi, principalmente no rio Carinhanha, divisa entre Minas Gerais e Bahia. Em verdade, eu não pescava, ia mais pela farra e a companhia.

A crise econômica que teve início no segundo mandato de Lula levou o Didi a fechar sua loja e alugar o prédio. As pescarias audazes se acabaram, mas em 2012 fomos pescar no rio São Francisco, perto da represa de Três Marias. Foi a nossa última pescaria. Em julho de 2017, quando eu estava no Rio de Janeiro, o Didi sofreu uma queda e faleceu, dias depois.

O mito: ao voltar a Bicas, ouvi vários relatos sobre o que teria acontecido ao Didi. O mais frequente era que ele subira numa escada para ‘roubar’ abacates do vizinho, coisa que fazia com frequência. Daí o título desta reportagem-memória.

A verdade: curioso quanto ao que realmente ocorrera, levantei dados sobre as lesões que o Didi havia sofrido e consultei um médico amigo meu. O que poderia ter causado a queda, a fratura de um omoplata e a morte por hemorragia interna de um velho de 84 anos que estava uns 40 quilos acima do peso ideal? A resposta foi: ruptura espontânea do colo do fêmur(*). Traduzindo: com o peso, a bacia se rompeu e o fêmur penetrou na barriga, tendo a queda ocasionado a fratura do omoplata.

E lá se foi meu amigo Didi Longo.


Bicas, julho de 2017

(*) A fratura do colo do fêmur é comum em idosos, dado o desgaste e a calcificação da bacia.


Álbum literário da Turma de 1963

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