Trote do Foguete

De wikITA

O Trote Mais Famoso de Todos os Tempos

São José dos Campos, 1958.

Na época, o exemplo de alta tecnologia vinha da União Soviética, com o seu Sputnik e a cachorrinha Laika dando voltas no espaço em cima de nossas cabeças. O projeto espacial norte-americano, apesar da presença de Von Braun, era uma piada: os foguetes subindo uns poucos metros e explodindo na rampa de lançamento, um depois do outro.

Foto de Ângelo Rosa para a edição #337 da revista Manchete, de 4 de Outubro de 1958

A festa dos 100 dias da turma 57 já havia sido um grande sucesso e a turma 58 partiu para um projeto extremamente criativo, que integrou diversos departamentos do ITA, o ITA com o CTA e os militares com os civis, de uma forma de dar inveja nas gerações seguintes.

Com um design que lembrava o do Sputnik, uns dois meses antes do Centediário, um satélite do tamanho de uma bola de futebol com antenas parecendo de lagosta, com seus circuitos visíveis sob plexiglass transparente, ficou exposto na maior loja de São José da época, a Casa Diamante, situada na Rua 15 de Novembro. Ao lado da bola, junto com fotos de um foguete em construção, um cartaz anunciava o primeiro satélite artificial brasileiro a ser lançado de São José dos Campos. Na época, a palavra "satélite" sempre vinha seguida de "artificial" já que havia os naturais e dúvidas poderiam ser geradas do que se estava falando.

Na semana do Centediário, anunciou-se na Rádio Clube, no jornal Vale Paraibano e em faixas na cidade que às 20 horas na Praça da Matriz seria lançado o primeiro Satélite Artificial Brasileiro. A notícia que facilmente teria obtido repercussão nacional, foi monitorada para que ficasse restrita a São José e não vazasse para a Capital nem para o resto do Vale (Taubaté ainda era maior que São José). Mas em São José a divulgação foi num crescente e em todas as fábricas então já existentes, bem como nos dois cinemas da cidade, não houve expediente no período noturno no dia do lançamento.

Atrás da Matriz foi montado um grande palco, e todos os instrumentos disponíveis nos Laboratórios de Eletrônica do ITA transportados para lá e guardados por militares fardados da Aeronáutica. O foguete, o RX-1, construído com o maior sigilo possível no laboratório de Estruturas (Elefante Branco), com cerca de oito metros de comprimento e uma fuselagem de foguete de dois estágios com uma longa ponta, estava ausente.

Naqueles anos, para ajudar os alunos na arrecadação de dinheiro para a viagem de fim de ano, o ITA construía um aparelho de alta-fidelidade, com toca disco e amplificador, que era rifado na cidade. Êle ficava exposto também na Casa Diamante. Durante as brincadeiras do período da manhã, descobriu-se que a turma do quarto ano havia retirado o foguete do laboratório de estruturas. Imediatamente, os organizadores do “lançamento” foram à Casa Diamante e pegaram o alta-fidelidade. Começou um período de negociações. Em pouco tempo, a turma do quarto ano devolvia o foguete, que havia sido içado no Elefante Branco.

À noite, a Praça da Matriz mais lotada do que em qualquer comício na historia da cidade, dezenas de milhares de joseenses (São José na época tinha uns 60 mil habitantes) ocupavam todo o espaço disponível, e ficavam a par dos contatos dos "cientistas" de São José com o resto do mundo por uma rede de alto-falantes instalada em toda a área. Os outros centros meteorológicos e de lançamento de foguetes a nível mundial não cessavam de dar noticias sobre as condições meteorológicas em grandes altitudes, a fim de apoiar a iniciativa pioneira de São José. Algumas pessoas de bom senso perceberam a brincadeira: o primeiro foguete brasileiro seria lançado atrás da igreja da matriz. Entre essas pessoas estava o dono do Hotel San Remo, que levou duas lunetas para participar da brincadeira.

Depois de vários anúncios, finalmente o veículo transportador do foguete, precedido de motocicletas, veio lentamente do CTA para o centro de São José. O veículo transportador era um familiar caminhão para os iteanos, com um dispositivo hidráulico, que transportava a caçamba de lixo dentro do CTA, pintado de novo e sem a caçamba. No local desta, uma estrutura segurava o foguete, todo de alumínio que refletia as luzes, refletores e holofotes, inclinado num ângulo de 30 graus sobre o caminhão. Imponente, mesmo para os alunos que conscientemente assistiam ao trote sendo aplicado aos joseenses, no meio dos populares.

Precedendo o caminhão, "cientistas" trajados de roupas de amianto e capacetes a prova de fogo, previamente anunciados, preparavam o local para a colocação do foguete, no meio dos outros "cientistas", vestindo aventais brancos, e que operavam a parafernália eletrônica em comunicação com o resto do mundo. Finalmente o foguete chega e o caminhão aciona os dispositivos para ir erguendo o foguete e o posicionando para o lançamento. Mais militares da Aeronáutica (esses de verdade) chegaram e foram abrindo o espaço em torno do palco para o "lançamento".

Com o foguete já na posição vertical, inicia-se a contagem regressiva para o lançamento, da mesma forma que os melhores filmes de ficção cientifica então existentes. A contagem, bem longa é verdade, sofre interrupções devido aos comunicados científicos mundiais que não cessavam de chegar a São José e eram "retransmitidos" pelos alto-falantes em inglês, russo e até japonês!

Uma súbita inversão das camadas atmosféricas, anunciadas por Cabo Cañaveral, obriga a interrupção do lançamento do foguete. Fica no ar a possibilidade do evento ter que ser transferido para outra data. Um “Oohh” de desapontamentos na praça. Mas novas noticias animadoras chegam pelos alto-falantes e geram uma consulta entre os "cientistas" brasileiros com o os norte-americanos e finalmente, felizmente, há o reinício da contagem regressiva.

Uma hora depois da chegada do foguete, após cerca de três horas de acontecimentos emocionantes, a contagem regressiva nos alto-falantes chega ao três, dois, um e zero: silêncio sepulcral na praça e de repente uma explosão. O primeiro estágio do foguete começa a cuspir fogo e a população fica assustada ante tanto fogo e fumaça. Mais fogo, longos segundos de emoção, e o foguete impávido acaba soltando um terceiro estágio, justamente aquela longa ponta, em forma de um foguete de São João que sobe a trinta metros, solta três puns e bate o recorde de altura dos foguetes com satélites norte-americanos.

Pelos alto-falantes ouve-se "Mamãe eu quero mamar" enquanto todos os "cientistas" tiram a roupa: explode o carnaval dos cem dias que faltam para a formatura.

No maior trote que o ITA deu na cidade de São José dos Campos, o sujeito oculto era o Brigadeiro Montenegro, então Diretor Geral do CTA, e que segurou a brincadeira dentro de dimensões administráveis. Um dos pais do foguete com seus estágios era o João Verdi que fundaria, posteriormente, a Avibrás S/A.

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O texto acima foi criado a partir de emails que circularam na itanet cujos autores foram Pedro John Meinrath (T59) e Luciano Augusto Kruk (T00).

Após o evento, o RX-1 esteve exposto nos jardins do E-2 durante algum tempo
Jornal Valeparaibano anuncia o lançamento do RX-1

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