Valdemar Waingort Setzer

De wikITA

Nasci em 12/9/40 em São Paulo. No ITA, onde entrei em 1959 e me formei em 1963, fiz o curso de Eletrônica; meus conselheiros foram os Profs. Paulus Aulus Pompéia e Richard Robert Wallauschek.

Quando cheguei ao ITA, alguns veteranos, perguntando meu sobrenome, e lembrando do antiácido Alka-Seltzer, logo deram-me o apelido de Sonrisal. Só que, alguns dias depois, chegou o colega João Ciampi Neto, que era muito mais "sonrisal" que eu, e perdi o apelido. Tive que participar de um "leilão de bichos", feito no teatro ao lado do restaurante do Natalino (o H-13 ainda não existia) quando o Jean Paul Jacob deu-me o apelido de Trabucodonosor. Acho que ele era grande demais para a tabuleta, de modo que fiquei com Trabuco mesmo. Até hoje, quando o Jean Paul me vê, saúda-me carinhosamente com "Trafilho, meu buco!".

Logo no primeiro ano participei do Show do ITA, cuja estrela e apresentador era o Jean Paul (será que foi daí que ele se tornou um show man?). Lembro-me de uma vez termos apresentado o show no Sedes Sapientiae, em São Paulo (em 1959 ou 60). O show era algo inimaginável nos dias de hoje: nenhuma piada pornográfica, tanto que as freiras do Sedes deixaram-nos apresentá-lo lá. Se não me falha a memória, alguns colegas deram uma de eletrônicos e mudaram o controle da cortina elétrica, para que só abrisse até um certo ponto; nessa operação, um colega caiu da escada em cima do piano... Lembro-me de uma cena no show de 1960, em que eu fazia um aviador que tinha acabado de sofrer um acidente no meio de uma floresta. Aí aparecem 2 índios, querendo matar e comer o aviador que, em desespero, saca de uma flauta doce soprano do bolso e começa a tocar (tasquei a Polonaise da Suíte No. 2 de Bach, que era para flauta transversal, nada mole na flauta doce; depois alguns professores vieram me cumprimentar pelo curto concerto inesperado). Os dois índios interessaram-se pela música e ficaram ouvindo, até que aparece um outro índio, baixinho, atarracadíssimo (era o Rotunda, Yochimitsu Shimabukuro, T64-65, faixa preta de judô), vem por trás e, com um enorme tacape (de papel, ainda bem!), dá a maior porretada no aviador, que cai morto. Os outros 2 protestam: "Matou a música!", e o baixinho põe a mão em concha no ouvido e diz "Uhhh?"

Em sua página nesta Wiki, Jean Paul contou um lance de um jogo de bridge. Pois eu lembro de outro. Uma vez eu estava jogando esse jogo em parceria com o Isu Fang, contra o Jean Paul e o Leon Posvolsky, no H8. Pois, durante o leilão de uma rodada, os dois últimos começaram a aumentar seus lances de maneira absurda. Quando eles pararam, eu ou o Isu dobramos, eles redobraram, e quebramos o jogo deles vergonhosamente. Aí o Leon falou para o Jean Paul: "Mas o que aconteceu?" Jean Paul: "Uai, você me deu um chute, pensei que era um sinal para subirmos o leilão!"

Também atuei, logo que entrei, na RUSD, que estava sendo inaugurada, criando e mantendo o programa diário A Música Eterna, de música clássica. Eu gravava nas casas dos professores as peças a serem tocadas; muitas vezes estive na casa do prof. Luiz Valente Boffi para gravar músicas. Eu fazia uma apresentação ao vivo das músicas a serem tocadas. Havia um colega gaúcho, o Helmut Antonio Rüdiger, que se dedicou profundamente à RUSD.

Em minha turma éramos dois músicos: eu, que tocava flauta, e o Nivaldo Laguna Ciocchi, violino. Quando alguns professores souberam disso, convidaram-nos para tocarmos com eles, o que levou à criação do Conjunto de Câmara do ITA. Era uma delícia ir uma vez por semana à casa do prof. Wallauschek, tirar a gravatinha de bicho, tocar e tomar chá com rum! O prof. Wallauschek faleceu em um desastre de carro na Dutra, numa viagem para o Rio. Curiosamente, algum tempo antes ele parou de tocar e, apesar da nossa insistência, nunca mais organizou nossos saraus em sua residência. Eu fui encarregado de falar em nome dos alunos em uma sessão de homenagens a ele, logo depois do falecimento, mas bestamente eu não escrevi o meu discurso. Com isso, fiquei emocionado e não consegui falar quase nada; provavelmente meu silêncio foi muito mais eloquente do que eu poderia ter falado...

Talvez fosse interessante registrar aqui uma opinião que os alunos tinham na época sobre o Departamento de Física. Acontece que eles realmente exageravam -- antes de termos tido equações diferenciais, já tínhamos na física mecânica racional. Lembro-me bem que, no fim de meu primeiro semestre, fiz quatro horas de exame final no ITA, não agüentei, peguei tudo e fui para São Paulo, para a casa de minha família. Pois lá ainda fiquei mais 3 horas fazendo aquele maldito exame, durante um domingo... Havia uma historinha sobre aquele departamento; as notas das provas eram dadas com o seguinte critério: Jogavam-se as provas para o alto. As que caíam em cima da mesa, ficavam com nota 5; as que caíam no chão, com zero, e as que não caíam ficavam com 10... Outra historinha, esta verdadeira, pois aconteceu na minha classe: havia um professor do departamento que costumava dar aulas de laboratório, e ficava em sua mesa lendo um enorme livro sobre um assunto complicado (não vou dizer qual é para não identificá-lo). Pois uma vez ele saiu, talvez para fazer pipi. Aí um colega não teve dúvida: virou umas 100 páginas do livro, e todos ficamos esperando para ver o que ia acontecer. Pois não é que o professor voltou e continuou a ler o livro, com toda a concentração, da página onde tinha ficado...

Este lance eu preciso contar. Justamente quando tínhamos mecânica racional, no 2o. ano, houve uma prova com um cálculo do movimento da ponta de uma hélice de um avião que fazia umas certas curvas. Tratava-se de uma composição de movimentos sem fim, repetitiva, e eu comecei a perder a esportiva. De repente, no meio da calculeira, eu escrevi literalmente na prova: "Isto é uma m... mental!" Quase que fui desligado -- só não o fui devido à intervenção de meu orientador, o prof. Pompéia, que tinha sido colega de meu pai na Escola Politécnica da USP. Tirei zero na prova, mas mesmo assim passei na matéria... Pena mesmo que não fui desligado. Eu teria voltado para São Paulo, quem sabe feito matemática na Filosofia da USP, teria aproveitado toda a vida cultural de São Paulo, e não me enterrado matando-me de estudar -- eu costumava chegar sábado à tarde em casa, em São Paulo, deitar e dormir todo o fim de semana, praticamente acordando para tomar o ônibus no domingo à noite para voltar ao ITA. Para quê, se não me lembro de quase nada do que me matei de estudar? Se me perguntarem o que tive em Cálculo I, II, III, IV, V, VI, VII, etc., não lembro de nenhum detalhe do que aprendi! (Aliás, nos 2 primeiros anos tínhamos 2 disciplinas de matemática por semestre, e cada uma dava uma prova cada 2 semanas, alternadamente.) Quando conto isso para colegas do ITA, eles dizem: "Mas nós aprendemos a pensar!" E desde quando é preciso matar-se intelectualmente para aprender a pensar? Por causa disso, em meu departamento na USP, sempre tive muito dó dos alunos, e insistia com meus colegas para não os massacrarem (há alguns que massacram mesmo, até hoje!). Por exemplo, eu digo: "Peçam em uma prova somente aquilo que vocês gostariam que os alunos guardassem para o resto da vida, isto é, o que é essencial, e não detalhes sem importância."

Preciso registrar que a matéria que mais lembro (ou a única que lembro) de detalhes foi "Circuitos Digitais", dada magistralmente pelo prof. Tércio Pacitti (que naquela época ainda era capitão da Aeronáutica, e que, a partir de seu crachá chamávamos de "Capaciti"); foi ele quem me interessou pelos computadores, aos quais acabei me dedicando no TI e em toda a vida profissional.

No 3o. ano eu servi de monitor no laboratório de física do 2o. ano, iniciando uma carreira docente que perdura até hoje (51 anos!).

Setzer trabalhando no Zezinho
No último ano, 1963, lembro-me de um lance interessante: a pós-graduação estava começando, e foi permitido aos melhores alunos (com média acima de 8,5) fazerem 1 disciplina da pós por semestre, valendo como créditos de pós. (A USP levou muitos e muitos anos para adotar essa medida.) Se me lembro bem, nossa turma (ELE-63) teve 10 alunos nessa situação (1/4 da turma!), para grande surpresa dos professores. Tivemos 2 disciplinas dessas: Mecânica Quântica com o Prof. Newton Bernardes, e Eletrônica Não-linear, com o prof. Etienne Jean Cassignol. Para se ter uma idéia de como eram as coisas naquela época, apesar de o prof. Cassignol falar bem o português, os alunos pediram para ele dar as aulas em francês (todos nós tínhamos tido 6 anos de francês na escola). Meu TI foi terminar o Zezinho, o computador que tinha sido projetado e construído como TI por Volkmer, András, Fernando e Ripper (T61). Eu apresentei-o em 1964 em uma feira de Processamento de Dados no Ibirapuera. Naquela época ainda não havia a denominação -- errada -- de "informática" (pois os computadores não processam informações, processam dados, que são elementos puramente sintáticos, e informações envolvem semântica -- ver meu artigo a respeito em meu site).

Quando eu estava no último ano, veio da Universidade de Michigan para o ITA o matemático prof. Gustave Rabson e sua esposa Carolyn, com os quais passei a fazer música com bastante intensidade -- acho que demos um concerto no teatro. Ela tocava flauta doce maravilhosamente (tinha sido aluna do LaNoue Davenport), e em 1965 fizemos em Teresópolis o primeiro festival de música antiga do país, dentro do festival da antiga Pró Arte. Gus tinha construído um cravo a partir de um kit, e ainda tocava guitarra e alaúde; levamos o cravo em uma Kombi emprestada, que fundiu o motor na serra... Eles moram agora em Haverhill, Massachussets, e continuamos sendo muito amigos. Visitei-os em janeiro de 2007, e tinha havido uma ice storm. As árvores e arbustos estavam cobertos de gelo, uma maravilha de espetáculo, parecendo critais Swarovski; uma birch tree tinha inclinado completamente com o peso, mas sobreviveu. O ponto alto de minha carreira como músico e da Carolyn foi tocarmos em 1965 o Concerto para flauta transversal e flauta doce de Telemann no Theatro Municipal de São Paulo, com a orquestra de Câmara de São Paulo regida pelo Olivier Toni (eu era o solista da orquestra).

Talvez fosse interessante relatar que o Gus Rabson veio para o Brasil por várias razões. Uma delas foi que, no supermercado perto de onde moravam, nos EUA, começaram a vender kits de abrigos anti-atômicos. Além disso, sua filha Mimi estava no jardim de infância e começaram a treinar o que fazer em caso de ataque atômico (se não me falha a memória, as crianças deviam meter-se em baixo das mesas). Isso revoltou-o profundamente. Interessante ainda seria notar que ele participou de alguma forma do Projeto Manhattan.

Acho que posso contar um lance que se passou com o casal Rabson. Havia uma empregada de uma família que morava no CTA, que a explorava terrivelmente, e ela não conseguia ir embora (acho que era menor). Pois Gus, Carolyn e um outro professor que era piloto "raptaram" essa moça e a levaram de avião de volta à sua família. Nunca ninguém soube do mistério do desaparecimento da moça. Quando, muitos anos depois, Carolyn contou-me essa história, disse algo parecido com: "Como é que fomos fazer uma besteira dessas, poderíamos ter sido descobertos e acusados de rapto!" Ainda mais durante a ditadura!

Logo depois de formado fui para a USP, inicialmente no Departamento de Matemática da Escola Politécnica; em 1970 eu estava fazendo um pós-doutorado nos EUA quando houve a reforma da USP, e me botaram no Instituto de Matemática e Estatística (obviamente, sem me perguntarem), onde fiquei, até atingir o grau máximo da carreira, Prof. Titular. Aposentei-me em 1995 mas, como os outros 3 professores aposentados de meu departamento (Ciência da Computação), continuo a dar -- graciosamente -- aulas nele, orientar teses e projetos.

Seria interessante aqui contar uma enorme dificuldade que tive no começo de minha carreira docente na USP, dando aula na Poli: enfrentar a cola. Devido à "disciplina consciente" do ITA, eu simplesmente não conseguia suportar que os alunos colassem. Eu bolava provas com partes gráficas, de modo que os alunos que não entendiam a matéria tinham que fazer uma "chupíteris" do gráfico. Aí eu empilhava as centenas de provas (como eu era novinho, no começo deram-me metade das turmas da Poli para dar aula de Cálculo Numérico), e quando percebia que havia dois gráficos idênticos, claramente com uma cola, dizia para minha esposa: "Procure nesta pilha uma figura assim." E ela descobria um monte de coladores, para os quais eu furiosamente tascava um zero.

No Jubileu, 11/2013

E por falar em começo de carreira, houve um caso interessante comigo em 1964. Logo depois da 'gloriosa', eu estava trabalhando na USP quando um pessoal do DOPS veio dar uma batida em minha casa, atrás de mim. Acontece que meu nome foi encontrado na caderneta de um dos colegas da T64 que foram presos e até levados ao navio em Santos. Ele era o chefe do departamento cultural do CASD e eu enviava a ele espetáculos que arranjava em São Paulo. Naquela época, quem era procurado sumia no primeiro ralo que encontrava. Mas o que faz um iteano cônscio de seus deveres cumpridos? Eu fui direto ao DOPS (ao lado da atual Sala São Paulo) saber o que tinham contra mim! Felizmente não fui sozinho: o colega Isu Fang acompanhou-me, e lá tivemos a alegria de passar todo o dia, pois o tal delegado não estava. Quando ele finalmente chegou, começou a nos interrogar -- e o Isu sabia muito mais das fofocas das meninas de São José do que eu!

No Jubileu, 11/2013

Na USP eu, ainda cheirando leite, dirigi com os colegas Isu Fang (que foi depois para a Faculdade de Economia e Administração) e José Dion de Melo Teles (que saiu logo, se não me engano para dirigir o CPD do Banco do Brasil), o Centro de Computação, que era da Poli (com o nome de Centro de Cálculo Numérico), e que posteriormente, quando o coloquei no então existente Instituto de Pesquisas Matemáticas, batizei de Centro de Computação Eletrônica (CCE), nome que perdura até hoje (mas não há registro de que eu o dirigia e que o batizei...). Outro centro que construí e organizei na USP foi o CEC, Centro de Ensino de Computação, na minha unidade, o Instituto de Matemática e Estatística (para onde fui transferido em 1970 sem me perguntarem, pois estava no exterior). Fui durante 7 anos chefe de departamento, 4 anos presidente da Comissão de Graduação do IME e durante 6 anos membro do Conselho Universitário da USP.

Pelo colega Nivaldo, em 2016

Dei muita consultoria, em engenharia de software, modelagem de dados, etc. Publiquei 12 livros, aqui e no exterior. Tornei-me (e continuo sendo) um palestrante inveterado -- quem sabe inspiração do Jean Paul, mas sem seu charme como show man.

Em meu site

http://www.ime.usp.br/~vwsetzer

encontram-se artigos sobre assuntos diversos, incluindo vários filosóficos e os de minha campanha contra o uso de meios eletrônicos na educação (a primeira vez que publiquei contra o uso de computadores na educação foi em 1976, quando nem se pensava em micros, tablets e smartphones...); há também lista de palestras dadas e programadas, bem como vínculos para vídeos com entrevistas:

Alguns exemplos do que está lá:

Artigo "Por que os engenheiros do ITA têm tanto sucesso profissional?" publicado no O Suplemento - Informativo da Associação dos Engenheiros do ITA, jul-set 2010.

Artigo A Miséria da Computação. Publicado no O Suplemento nov/dez 1998.

Entrevista dada em 12/11/08 ao vivo na Jovem Pan Online sobre meios eletrônicos e educação

Artigo "Os efeitos negativos dos meios eletrônicos em crianças, adolescentes e adultos"

Artigo "A TV antieducativa".

Minha entrevista de 1/12/08 no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo: vídeo com 10 min; vídeo do programa completo.

Artigo "IA – Inteligência Artificial ou Imbecilidade Automática? As máquinas podem pensar e sentir?".

Artigo "O que a Internet está fazendo com nossas mentes?".

Artigo "Ciência, religião e espiritualidade" onde coloco um bocado de minha visão de mundo e sugiro como poderia haver uma confluência entre ciência e religião (as duas deveriam mudar seus paradigmas).

Artigo "Tolerância, convivência e conflitos religiosos".

Artigo "Futebol: sim ou não?".

Artigo "Algoritmos e sua análise - uma introdução didática".

"An extensive review of Richard Dawkins' The God Delusion"(tipicamente, traduzido erradamente por Deus, um Delírio).


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