Viagem a Buenos Aires em 1959

De wikITA

O relato a seguir foi escrito por Paulo Kodaira (ELE-59) em 2010 e complementado posteriormente pelo Paulin:

RECORDANDO...

Janeiro de 1959.

A Turma de 1958 do ITA tinha viajado para a Europa no ano anterior e a Turma de 1957 tinha viajado para os Estados Unidos.

A nossa turma não havia conseguido nada em relação à viagem ao exterior.

Na última hora o Prof Wallauschek conseguiu um convite da Siemens para uma visita à Argentina, somente para a turma de Eletrônica. Se não me engano, o Delvaux conseguiu um DC-3 do Ministério da Aeronáutica para nos levar até a Argentina e o Fernandão arrumou o passaporte coletivo para a turma.

A turma de 19 ou 20 alunos foi acompanhada pelos professores Wallauschek (chefe), Chen-To Tai, Wanderley Diehl e Carlos Burd. A turma era constituída de C. Soares, Edson B.R. Féris, Fernando Coelho, Francelino, Hertz C. Murta, Jean Paul Jacob, J.B.P. Paulin, L.F.Portela, L.Guimarães, L.Peregrino, Neriglissor, Paulo Delvaux, Paulo Kodaira, Reinaldo Ramos, Rogério Jacques, Ruy Lopes Brandão, Said Fuad Mulky, Sílvio Soares e Tomás Ratzersdorf.

Saímos de São José pela manhã, paramos em Congonhas, São Paulo, depois uma parada em Curitiba,PR, Porto Alegre,RS , depois Montevidéu e finalmente, após mais de dez horas, num pequeno aeroporto no centro de Buenos Aires. Um ônibus da Aeronáutica Argentina nos esperava e nem passamos pela alfândega.

Após passar por uma pequena subida na Av. Corrientes, o ônibus nos deixou no centro da cidade, na região da Calle Florida, onde a turma foi dividida para se hospedar em diversos hotéis pois não havia vaga para toda a turma num só hotel.

A cidade de Buenos Aires nos impressionou pela limpeza e pelo respeito que os motoristas tinham pelos pedestres. Um jovem engenheiro da Siemens serviu de cicerone e fomos de ônibus até Chascomus onde cabos de telefonia estavam sendo instalados. Na volta passamos por La Plata onde visitamos a Ciudad del Niño, construída por Evita Perón.

Um avião da Força Aérea Argentina nos levou até Córdoba, onde visitamos uma fábrica de aviões e a fábrica de automóveis da Kaiser. Ambas as fábricas eram um tanto artesanais.

Na cidade chegamos a visitar um parque onde se podia passear de barcos a remo.

Retornando a Buenos Aires, visitamos a fábrica de telefones da Standard Electric onde nos explicaram que cada funcionário(a) montava o conjunto inteiro para que pudesse sentir a importância do seu serviço e assim ficar mais motivado.

Visitamos também o aeroporto internacional de Ezeiza.

Na época Buenos Aires já tinha uma grande malha de metrô, inaugurada na década de 1920. Tinha também cinerama, ou cinema em 3D e muitas casas de chá.

Devido ao regime de austeridade para recuperar o rebanho bovino, não era permitido comer carne às quartas-feiras. Os almoços oferecidos pela Siemens eram regados a vinho com gasosa. Como eu não tomava bebida alcoólica na época, passava o almoço tomando gasosa.

À noite, que escurecia lá pelas nove horas, íamos jantar no Palacio de la Papa Frita, que na época era um restaurante popular. Lá comíamos costillo de cerdo com papas fritas e ensalada mista. A novidade eram as fritas cheias de ar, parecendo pasteis vazios. Muitos anos depois o Restaurante Rubayat, de São Paulo, passou a oferecer fritas estufadas.

Num domingo fomos, o Soares, o Paulin, o Reinaldo, o Sílvio e eu, passear no Parque Palermo. Encontramos um rapaz de seus quinze anos que nos serviu de cicerone. A certa altura encontramos um grupo de ciganas que queria ler a mão dos colegas. Quando fui tirar fotografia, elas deixaram de querer ler as mãos e formaram um grupo para aparecer na foto.

À noite fomos assistir ao filme E Deus criou a Mulher, com Brigitte Bardot.

Num outro domingo fomos a El Tigre, onde almoçamos num restaurante à beira do canal. Para se chegar lá passamos por Olivos, bairro onde ficava a residência presidencial.

Um pouco antes de retornar ao Brasil, fomos de metrô a um local chamado Tejipunto fazer compras de blusas de cashmere. O Reinaldo e o Paulin pechincharam tanto que o judeu dono da loja ficou desesperado e chegou a perguntar se eles não queriam ser sócios dele.

Finalmente chegou o dia para retornar ao Brasil.

Descemos em Porto Alegre para visitar a fábrica de capacitores Icotron, da Siemens.

Voltando de Buenos Aires que era muito limpa, achamos um Porto Alegre sujo, com papeis nas ruas e muita sujeira. Outro problema foi encontrar hotel para um grupo de mais de vinte pessoas. O Hotel São Luis era um dos melhores mas não havia vaga para tantas pessoas. Fomos parar numa espelunca chamada Hotel Porto Alegre.

Após a visita à Icotron, fomos visitar a ponte móvel sobre o rio Guaíba, com equipamento de elevação da parte central instalado pela Siemens.

O almoço oferecido pela Siemens foi galeto al primo canto. Foi uma delícia. À noite fomos a uma churrascaria em frente a um parque. O churrasco era acompanhado com farinha de mandioca dentro de um litro.


Complemento do Paulin:

O pequeno aeroporto no centro de Buenos Aires é o Aeroparque.

A nossa chegada em Buenos Aires quase provocou um incidente diplomático, com o adido aeronáutico do Brasil em Buenos Aires meio zangado com o Prof Wallauschek pois êle não havia sido informado com antecedência sobre nossa chegada e um avião militar brasileiro não poderia simplesmente sair de Porto Alegre e se dirigir para Buenos Aires sem uma comunicação, justificativa e autorização antecipada, o que não foi feito por absoluta falta de conhecimento diplomático do Prof Wallauschek. Afinal de contas "los hermanos" poderiam simplesmente considerar que era um ataque à "metrópole européia" e derrubar o avião militar brasileiro. Eu presenciei a bronca do adido aeronáutico e as desculpas sem jeito do Wallauschek.

Muitas vezes fomos almoçar em um restaurante popular/operário na beira do porto, do qual não lembro o nome, porém, era na parte mais baixa da cidade. A grande vantagem era o pequeno preço que pagávamos , pois todo mundo andava quase sem dinheiro.

Durante aquele encontro com as ciganas, que queriam ler nosso futuro pelas nossas mãos, alguma coisa foi roubada, não me lembro se uma pequena quantia do Sílvio ou de outro colega, de uma forma que não conseguimos detectar como fora feito. Alguém se lembra deste fato?

Pelo que me lembro, nossa alimentação foi meio precária durante as visitas oferecidas pelas fábricas e realmente tiramos a barriga da miséria durante o almoço oferecido pela Siemens em Porto Alegre, na volta. Aquele galeto al primo canto foi inesquecível.

Valeu a recordação, depois de tanto tempo.


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