Visão Pessoal da Condição Humana de um não japonês vivendo no Japão

De wikITA

(originalmente um texto da ITA-Net de 28 de abril de 2009)


Olah a todos,


Sobre o assunto da politica do governo japones, saiu um artigo de um "japones" (um americano que se naturalizou) que fica sempre comentando coisas relacionadas a racismo no Japao. O artigo eh interessante pq dah um background na historia dessas politicas e faz um paralelo com o que estah acontecendo com os brasileiros agora. Pra quem quiser ler o link eh http://search.japantimes.co.jp/cgi-bin/fl20090407ad.html

Me senti compelido a dar um pitaco no assunto no que diz respeito a viver no Japao. Comecei a escrever e ficou um email muito grande, entao jah aviso que eh necessario paciencia pra ler ateh o final, mas pra quem quiser se aventurar, lah vai.

Tenho uma opiniao muito particular sobre essa questao do emigrante. Nao se trata de uma opiniao generalista, sobre todos os tipos de emigrante, falo apenas sobre ser estrangeiro no Japao. Da minha experiencia aqui, digo que partir do suposto de estudar pra ser um "igual" eh comecar errado e estar condenado a ser eternamente frustrado, pelo menos aqui no Japao. Jah explico porque e cito dois casos.

Pode ateh ser que realmente seja impossivel atingir a perfeicao na cultura/idioma/gestos e etc, mas nao eh essa a razao da "eterna frustracao". No caso do Japao, nao acho que seja esse o ponto.

Cito primeiro o caso de uma brasileira (nikkei), criada em familia japonesa (primeira lingua japones, comecou a falar portugues quando entrou na escola), finalizando o doutorado em literatura japonesa na universidade de Toquio (le kanji que japones normal nao le) e fala sem sotaque (jah vi varias vezes japoneses conversar algum tempo com ela e achar que ela eh japonesa. Na verdade, somente uma vez, descobriram que ela nao era japonesa porque ela nao sabia que aquele dia era feriado ou pelas roupas talvez, nao sei. A lingua nao foi o motivo...).

Com essa brasileira, uma vez, durante a primeira meia-hora de uma conversa com uma japonesa, a japonesa conversava em japones de igual pra igual com a brasileira, sem nem perceber que conversava com uma estrangeira. Foi soh a brasileira avisar que nao era japonesa (nao lembro exatamente pq), para a mesma japonesa comecar a interromper a conversa de tempos em tempos falando "pode falar em japones neh?", "essa palavra tu entendes neh?", o resto todo da conversa. E obviamente a brasileira entendia tudo...

Outro caso tem relacao com as familias de coreanos que estao no Japao ha geracoes(umas 3 mais ou menos). Claro que tem o fator historico da "guerra" e todos os sentimentos que isso envolve, mas enfim... Resumindo a opera, essas familias sao consideradas estrangeiras porque o Japao impoe a eles que neguem a nacionalidade/familia coreana e eles nao negam. Eles tem documentos para estrangeiros (o chamado "Alien card") igualzinho ao meu (mas o visto deles eh especial).

Eu conheco uma mulher de uma familia assim. Essa "coreana" nasceu, vive e foi educada inteiramente no Japao, mal sabe coreano (na verdade ela sabe mais espanhol que coreano) e tem que ficar aturando, volta e meia, japoneses perguntando: "falar soh em japones, tudo bem?" ou "essa palavra tu entendes?". E a verdade eh que a primeira lingua dela (e unica em que eh fluente, diga-se de passagem) eh japones, e ateh ela mencionar que era "daquele tipo de familia" ou falar o sobrenome, os japoneses a tratavam em peh de igualdade, ou seja, como uma japonesa.

Agora, imaginem eu? Ou qualquer outro que nao seja "indistinguivel fisicamente" de um japones? Mesmo que por hipotese, eu domine tudo da cultura, dos gestos e leia/escreva kanji igual a um velhinho, bastaria uma olhada na minha cara para ser tratado diferente eventualmente, nao preciso nem abrir a boca. (E quero deixar claro, nao acho que isso seja necessariamente ruim)

Portanto, na minha humilde opiniao, o objetivo nao pode ser "tornar-se um igual". Se a pessoa tenta isso e realmente acredita, estah fadada a nunca atingir objetivo, exatamente pq isso nao eh tudo que conta. E sempre terah algum japones pra falar "e aih? pode falar em japones,ne?", ou algum outro comentario desnecessario(que tem bastante).

O que eu sugiro (e eh o que eu tento fazer), eh se esforcar para entender o que for possivel e se comunicar da melhor forma possivel, seguir as regras sociais da maneira que se sinta mais confortavel e deixar bem claro que tem regras sociais que nao vais seguir, simplesmente, porque nao ehs um japones.

Eh preciso manter em mente que nao "ehs um igual" e ponto final. E isso nao eh tao facil quanto possa parecer. Acredito que nikkeis, por exemplo, tem tendencia (nao todos, claro) a se frustrar por isso, porque se iludem achando que sao "um igual" ou que isso seja possivel, afinal alguns foram criados achando que sao japoneses. (Por favor, os nikkeis da lista podem me corrigir se eu estiver enganado...)

Concluindo entao, mesmo que hipoteticamente, tu se tornes fluente em tudo e ainda por cima tenhas aparencia de um japones, no momento que tu se apresenta como estrangeiro, ou o teu primeiro nome denuncia isso, eventualmente o tratamento irah mudar. E isso nao significa, necessariamente, algo ruim(mas pra quem nao espera, acredito que seja...). Nesses casos que citei, pessoalmente, eu acho que eh ruim sim. Principalmente o caso da "coreana".

No meu caso, nao tive nenhum tipo de problema com relacao a isso, ateh agora pelo menos, mas nas ruas eh possivel sentir um certo "receio" contra estrangeiros. O porque disso eh uma pergunta muito mais dificil de ser respondida e tem varias causas eu acho...

Ufa... terminou.

Mario Larangeira

Ao contrario do Sakaya, diretamente de um belo dia de sol em Toquio.


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