Zezinho

De wikITA

O primeiro computador a gente nunca esquece

(Artigo publicado na edição 47 d'O Suplemento, de set/out de 2002 complementado com entrevista com o Prof. Alfred Volkmer na edição seguinte)

Que o digam alguns iteanos - entre alunos, professores e dirigentes - que tiveram a oportunidade de assistir, contribuir com o projeto e construir no ITA o primeiro computador do Brasil, em 1961, apelidado de Zezinho. Porém, tornou-se comum encontrar publicações de revistas especializadas e jornais que creditam esse feito ao computador Patinho Feio, que veio funcionar 11 anos depois, construído na Escola Politécnica da USP.

Sem tirar a importância do Patinho Feio, concebido num outro momento do país, o fato é que o ITA tem muita história para contar quando o assunto é o início da informática no Brasil. Essa história está até registrada em livro, no conteúdo da obra Do Fortran à Internet, do engenheiro iteano, ex-diretor e ex-reitor do ITA, Tércio Pacitti (T-52).

Pacitti, que liderou a introdução da informática no ITA, é quem melhor pode relatar qual era o contexto histórico que precedeu a criação do primeiro computador do Brasil. Em seu livro, êle conta como suou a camisa para trazer ao país o primeiro computador do instituto, um IBM-1620 - que possuía uma CPU de 16kb de memória (N. do Setzer: na verdade 20k posições de mémória de 6 bits, sendo 4 para representar um dígito decimal em código BCD, um para uma marca -- denominada de "flag", que servia para delimitar um número no dígito mais à esquerda e para indicar um número negativo no dígito mais à direita, e um bit de paridade, que devia ser sempre ímpar; caracteres alfanuméricos eram respresentados por duas posições consecutivas; não havia nele o conceito de "palavra" de tamanho fixo) "mas era de tamanho maior do que uma mesa de chefe de escritório" como o engenheiro descreve a máquina. Foi necessário vencer vários obstáculos e driblar muita parafernália burocrática até que se conseguisse pousar, "na raça", o computador em São José dos Campos. No final da história, a máquina acabou entrando no Brasil registrada com "material de segurança nacional". De acôrdo com Pacitti, esse primeiro computador foi quase inteiramente dedicado ao ensino de computação no ITA. O ex-reitor conta que, após a chegada do computador na escola, o prestígio do grupo de professores norte-americanos cresceu muito, até porque o computador foi uma doação da Fundação Ford. Em contrapartida, a corrente européia de professores do Instituto o cercou de todo lado para que fizesse o projeto de um computador de grande porte, "muito mais potente do que o norte-americano IBM-1620".

Para Pacitti, o pedido da época equivaleria hoje à exigência de que "uma nave espacial fosse projetada por um grupo de alunos do ITA e que chegasse a Marte para competir com os norte-americanos!". Mas a idéia aconteceu, mesmo não chegando a ser implementada como um todo. A iniciativa serviu de experiência inicial e valeu como projeto de fim de curso.

Quem também conta esse capítulo da história do primeiro computador do Brasil é o iteano Jorge Eugênio Renner (T-61), então presidente do Centro Acadêmico, na gestão 60/61:"No ITA, o Prof. Tien Wei Chu começou a ensinar a teoria da computação já em 60 ou 61", lembra.

Nesse período foi construído o Zezinho, resultado de Trabalho de Graduação de quatro formandos da Turma de 1961 - Alfred Volkmer, András György Vásárhelyi, Fernando Vieira de Souza e José Ellis Ripper Filho - orientados pelo próprio Prof. Chu e seguidos de perto pelo Prof. Darcy Domingues Novo, sob a supervisão do chefe da Divisão de Eletrônica, Prof. Dr. Richard Robert Wallauschek. Além deles, colaboraram com o grupo os funcionários do ITA Moisés Garcia, Vicente Miranda e a Dra. Cláudia Juigné.

De acordo com Renner, tratava-se de um computador para fins didáticos, construído já com a técnica de transistores, apesar de à época não haver disponibilidade nem mesmo de circuitos impressos. "O importante foi a contribuição que o ITA deu ao país, sem nenhuma modéstia, no campo do que era chamado de "cérebros eletrônicos", mantidos em CPDs, sinônimo de IBM. Esses CPDs eram salas fechadas, cujo acesso só era liberado aos magos do assunto, só lecionando no ITA", diz Renner. "Foi esse esfôrço que permitu à geração seguinte a explosão da produção de micros no Brasil", completa êle. Renner analisa esse fato hoje como um trabalho onde faltou divulgação. "Êles fizeram o computador. Na época era algo natural, ninguém achou que teria que ser divulgado", explica.

"Eu pessoalmente não me acho vítima de nenhuma "injustiça da imprensa". Fico contente que o nosso esfôrço aparece, mesmo que em nota de rodapé, em alguns trabalhos que historiam o uso do computador no Brasil", diz de forma diplomática András György Vásárhelyi, ao ser perguntado sobre recentes publicações sobre o Patinho Feio como o primeiro computador do país. Para Vásárhelyi, as finalidades eram diferentes. "Nós contruímos um instrumento de ensino, sem maiores pretensões. Êles (a Poli), já no período da ditadura militar, no sonho de "Brasil grande detentor de tecnologia própria", tentaram realmente dar um chute inicial na indústria de computadores no país", argumenta. Segundo êle, o plano de fabricar computadores no Brasil com tecnologia própria, levou à lamentável idéa da reserva de mercado e à famigerada "Lei da Informática", e o consequente atraso dos computadores disponíveis para os usuários, com todos os males resultante com o correr dos anos. "Porém, o pessoal da USP não teve culpa por isto. Foram delírios de grandeza e políticas industriais erradas, das quais só no último decênio estamos nos libertando, diz Vásárhelyi. "Óbviamente, devido às épocas diferentes, aos objetivos diferentes e aos apoios diferentes, o projeto Patinho Feio teve muito mais divulgação que o projeto Zezinho, explica êle.

O Zezinho se assemelhava a uma geladeira sem as portas de fora. Havia umas dobradiças que uniam dois pedaços do rack, onde estavam montadas as fêmeas de contacto de válvulas e a fiação corria por trás. No painel havia umas lâmpadas que permitiam seguir o ciclo de operações e davam o resultado. A capacidade era de 100 bits (bits mesmo, não bytes) e tinha um clock interno variável com uma velocidade muito baixa, que permitia seguir as operações uma a uma. Como o Zezinho tinha uma finalidade didática, não houve nenhuma preocupação em reduzir seu pêso ou volume. Usava uma estrutura metálica em forma de U em cima de uma base de madeira, de sorte que todos os seus pontos internos ficassem fácilmente acessíveis. Devido à sua forma física e pêso, necessitava-se de duas pessoas para movê-lo de um lado para outro.

Do ponto de vista de desempenho, não se pode compará-lo com outras máquinas ou computadores, já que sua finalidade não era processar dados e sim mostrar como esse processamento se dava dentro da máquina. As técnicas de cálculo digital estavam começando e nós queríamos fornecer um instrumento de ensino que possibilitasse mostrar o bê-a-bá dessa tecnologia para os futuros estudantes do ITA. Não havia nenhuma idéia de que isso fôsse um "início da construção de computadores no Brasil" ou a pedra fundamental de uma nova indústria.

Assim que o Zezinho foi terminado, o Vásárhelyi foi para a França, o Ripper foi para os Estados Unidos e o Fernando e o Volkmer foram trabalhar em telefonia no Rio de Janeiro. De acordo com Tércio Pacitti, durante alguns anos a CPU serviu para que os alunos pudessem se familiarizar e manipular seus circuitos internos. O grupo não pensou em levar o projeto em frente, não tinham esse propósito. Era um Trabalho de Graduação, feito com muitas dificuldades práticas e com uma finalidade restrita. O Prof. Wallauschek pretendia que turmas futuras expandissem as capacidades do Zezinho.

O Prof. Volkmer lembra que o produto final do trabalho de 1961 tinha problemas de confiabilidade que o tornavam um tanto quanto temperamental. Em 1963 o Zezinho passou por uma revisão e evolução realizadas pelo formando Valdemar Waingort Setzer (T-63), adquirindo sua forma final e se tornando o Zezinho usado em aulas e para demonstrações e acha que por esse motivo, talvez seja melhor usar 1963 como data de sua apresentação à sociedade.


Alguns detalhes do Zezinho

O Zezinho tinha 8 posições de memória de 8 bits. Cada bit era implementado por um circuito biestável. Havia acesso a cada bit de cada posição por meio de um painel, uma placa de baquelite com 2 pontos de solda para cada bit. Cada par de pontos estava ligada a um biestável: um ponto à base de um dos transistores, o outro à base do outro transistor. Para alterar o estado de um bit, bastava encostar em um ponto de solda daquela placa uma "caneta" com ponta de metal, aterrada. Para cada bit havia no painel uma lampadinha, acionada por um dos transistores do biestável correspondente; quando ela estava acesa, por definição o bit estava com o valor "1", se apagada, "0". Havia pouquíssimas instruções, entre elas uma soma. Combinando-se várias somas podia-se fazer uma multiplicação.

Cada biestável foi montado em uma plaquinha de baquelite, mas ou menos com uns 10 cm x 10 cm, colada em um soquete-macho de válvula, no qual eram feitas duas fendas para encaixar a plaquinha. Cada soquete-macho, com sua placa, era colocado em soquetes-fêmea preso no painel; com isso, era fácil trocar os circuitos que não funcionavam.

Valdemar Setzer [ELE63], que completou o projeto como TI em 1963, tinha projetado uma fonte regulada para o Zezinho, que até aquele momento funcionava com baterias, constantemente carregadas por um enorme carregador de baterias, um cubo de uns 50 cm de lado.

Em 1964 ele foi apresentado pelo Setzer em São Paulo, no Ibirapuera, em um congresso e feira de Processamento de Dados (naquela época ainda não havia a denominação -- falha -- de informática; também não havia o centro de convenções Anhembi). Foi muito curioso, pois a fonte queimou e ele foi alimentado pelas velhas e enormes baterias mantidas com o carregador, o que admirou profundamente muitos visitantes.

Ligações externas

  1. Computador Zezinho
  2. Figura de transistores. Os transistores do Zezinho tinham o tamanho do segundo da esquerda para a direita nessa figura; a fonte foi feita com transistores de potência iguaizinhos ao mais à direita.

História do ITA 1961 a 1970

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